{"id":324,"date":"2012-05-15T18:47:09","date_gmt":"2012-05-15T18:47:09","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/15\/vladimir-safatle-lanca-qa-esquerda-que-nao-teme-dizer-seu-nomeq\/"},"modified":"2012-05-15T18:47:09","modified_gmt":"2012-05-15T18:47:09","slug":"vladimir-safatle-lanca-qa-esquerda-que-nao-teme-dizer-seu-nomeq","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/15\/vladimir-safatle-lanca-qa-esquerda-que-nao-teme-dizer-seu-nomeq\/","title":{"rendered":"Vladimir Safatle lan\u00e7a &#8220;A esquerda que n\u00e3o teme dizer seu nome&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Somos obrigados a ouvir compulsivamente que \u201ca divis\u00e3o esquerda\/direita n\u00e3o faz mais sentido\u201d. Mesmo que ainda encontremos posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e leituras dos impasses da vida social contempor\u00e2nea radicalmente antag\u00f4nicas, h\u00e1 uma clara estrat\u00e9gia de evitar dar a tais antagonismos seu verdadeiro nome. Ela \u00e9 utilizada para fornecer a impress\u00e3o de que nenhuma ruptura radical est\u00e1 na pauta do campo pol\u00edtico ou, para ser mais claro, de que n\u00e3o h\u00e1 mais nada a esperar da pol\u00edtica, a n\u00e3o ser discuss\u00f5es sobre a melhor maneira de administrar o modelo socioecon\u00f4mico hegem\u00f4nico. Leia a introdu\u00e7\u00e3o de &#8220;A esquerda que n\u00e3o teme dizer seu nome&#8221;, novo livro de Vladimir Safatle.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-323\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/foto_mat_35113.jpg\" border=\"0\" width=\"150\" height=\"202\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Vladimir Safatle<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">(*) Introdu\u00e7\u00e3o de &#8220;A esquerda que n\u00e3o teme dizer seu nome&#8221;, de Vladimir Safatle, publica\u00e7\u00e3o de Tr\u00eas Estrelas, novo selo editorial do Grupo Folha. O livro, que ser\u00e1 lan\u00e7ado no dia 15 de maio, lan\u00e7a o desafio pol\u00edtico de reafirmar os princ\u00edpios que orientam historicamente o pensamento da esquerda e renov\u00e1-los, a partir das demandas da \u00e9poca. Contra a acomoda\u00e7\u00e3o e o esquecimento, o autor prop\u00f5e que a esquerda recoloque no debate pol\u00edtico a defesa radical do igualitarismo, da soberania popular e do direito \u00e0 resist\u00eancia, conforme material enviado \u00e0 Carta Maior por Cec\u00edlia do Val, assessora de imprensa da Tr\u00eas Estrelas.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>Introdu\u00e7\u00e3o de &#8220;A esquerda que n\u00e3o teme dizer seu nome&#8221;<\/strong><span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Um dos mantras preferidos dos \u00faltimos anos diz respeito ao pretenso esgotamento do pensamento de esquerda. Seus sacerdotes s\u00e3o de dois tipos. Os primeiros gostariam de ser vistos como os vitoriosos de uma \u00e9poca terminada de conflito ideol\u00f3gico. Eles n\u00e3o cansam de afirmar que a esquerda nunca passou de um arremedo de autoritarismo mal-disfar\u00e7ado, demandas infantis de prote\u00e7\u00e3o, ingenuidade a respeito das viol\u00eancias animadas pelo mal radical e incompet\u00eancia gerencial.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Durante d\u00e9cadas, esses intelectuais n\u00e3o tinham coragem de dizer claramente o que pensavam. Mas, animados pelo fim do socialismo real, com o consequente colapso dos partidos comunistas no Ocidente, pelo embaralhamento sistem\u00e1tico das pol\u00edticas de sociais-democratas e conservadores, pela paranoia securit\u00e1ria da primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo e por doses refor\u00e7adas de fundamentalismo crist\u00e3o, eles podem agora afirmar todo seu conservadorismo e sua cren\u00e7a nas virtudes curativas do porrete da pol\u00edcia.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>O segundo tipo \u00e9 composto de um s\u00e9quito heter\u00f3clito de vi\u00favas da esquerda. Com um olhar entristecido, elas afirmam que a esquerda est\u00e1 sem rumo desde a queda do Muro de Berlim e que chegou a hora de doses amargas de realismo. N\u00e3o d\u00e1 mais para sonhar com Estado de Bem-Estar Social e coisas do tipo, nem ter explica\u00e7\u00f5es angelicais a respeito da viol\u00eancia. Falar em novas configura\u00e7\u00f5es do pol\u00edtico \u00e9 conversa de gente que n\u00e3o entendeu que a democracia parlamentar \u00e9, como costumava dizer um l\u00edder conservador, o pior governo, mas o \u00fanico poss\u00edvel. As velhas agendas de cr\u00edtica do poder, de identifica\u00e7\u00e3o dos conflitos de classe e das pr\u00e1ticas disciplinares presentes em nossas institui\u00e7\u00f5es poderiam muito bem ser trocadas por uma boa a\u00e7\u00e3o social em ongs ecol\u00f3gicas, de prefer\u00eancia aquelas financiadas por bancos e grande corpora\u00e7\u00f5es.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>V\u00e1rias dessas vi\u00favas, principalmente em pa\u00edses europeus, n\u00e3o temeram flertar com o pior do nacionalismo e do culto da identidade, travestindo tudo isso de luta do Ocidente liberal contra o Oriente isl\u00e2mico amedrontado pelo inelut\u00e1vel processo de moderniza\u00e7\u00e3o.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>De fato, esse mantra do esgotamento do pensamento de esquerda encontrou no Brasil um terreno prof\u00edcuo. Desde o governo Fernando Henrique Cardoso 1995-2002), t\u00ednhamos de conviver com o cinismo de intelectuais que utilizavam Marx para justificar o car\u00e1ter inevit\u00e1vel da globaliza\u00e7\u00e3o e de nossa inser\u00e7\u00e3o \u201cdependente\u201d e subalterna. O \u00fanico resultado concreto desse cinismo foi impor um dito \u201cchoque de realidade\u201d, visando a acabar de vez com o pretenso fantasma do \u201cEstado getulista\u201d, com seus tent\u00e1culos ineficientes. Por muito pouco, n\u00e3o se destr\u00f3i o que restava da capacidade estatal de constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de interven\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, capacidade cuja import\u00e2ncia ficou evidente depois da crise mundial de 2008.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Como se isso n\u00e3o bastasse, a desconsidera\u00e7\u00e3o soberana por movimentos sociais e por setores organizados da sociedade civil \u2013 \u00e0 parte a Federa\u00e7\u00e3o Brasileira de Bancos (Febraban) \u2013 foi regra nesse per\u00edodo. S\u00f3 a t\u00edtulo de exemplo, o l\u00edder do governo de Fernando Henrique Cardoso no Congresso n\u00e3o temia chamar a\u00e7\u00f5es do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)de \u201cterrorismo\u201d. Da mesma forma, a quest\u00e3o social era t\u00e3o ausente que seu presidente do Banco Central n\u00e3o via problemas em ir \u00e0 televis\u00e3o e sugerir pura e simplesmente a supress\u00e3o do par\u00e1grafo da Constitui\u00e7\u00e3o Federal que obrigava o Estado a garantir a universaliza\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o p\u00fablico de sa\u00fade.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Com o governo Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (2003-2010), no entanto, continuamos obrigados a conviver com o bloqueio reiterado da reconstru\u00e7\u00e3o dos fundamentos gerais do campo do pol\u00edtico, como se a imers\u00e3o na \u201cpior pol\u00edtica\u201d fosse uma fatalidade intranspon\u00edvel. A despeito de sua capacidade de colocar a quest\u00e3o social enfim no centro do embate pol\u00edtico e de compreender o necess\u00e1rio car\u00e1ter indutor do Estado brasileiro no nosso desenvolvimento socioecon\u00f4mico, o governo Lula ser\u00e1 lembrado, no plano pol\u00edtico, por sua incapacidade de sair dos impasses de nosso presidencialismo de coaliz\u00e3o. Como se a governabilidade justificasse a acomoda\u00e7\u00e3o final da esquerda nacional a uma semidemocracia imobilista, de baixa participa\u00e7\u00e3o popular direta e com elei\u00e7\u00f5es em que s\u00f3 se ganha mobilizando, de maneira esp\u00faria, a for\u00e7a financeira com seus corruptores de sempre.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Nos dois casos, esmerou-se em utilizar um palavreado de esquerda para justificar business as usual. O que acaba por refor\u00e7ar nossa impress\u00e3o de que o pol\u00edtico na contemporaneidade seria apenas a dimens\u00e3o da aus\u00eancia de criatividade e das limita\u00e7\u00f5es de nossas aspira\u00e7\u00f5es de mudan\u00e7a. Por isso, somos obrigados a ouvir compulsivamente que \u201ca divis\u00e3o esquerda\/direita n\u00e3o faz mais sentido\u201d. <span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Mesmo que ainda encontremos posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e leituras dos impasses da vida social contempor\u00e2nea radicalmente antag\u00f4nicas, h\u00e1 uma clara estrat\u00e9gia de evitar dar a tais antagonismos seu verdadeiro nome. Ela \u00e9 utilizada para fornecer a impress\u00e3o de que nenhuma ruptura radical est\u00e1 na pauta do campo pol\u00edtico ou, para ser mais claro, de que n\u00e3o h\u00e1 mais nada a esperar da pol\u00edtica, a n\u00e3o ser discuss\u00f5es sobre a melhor maneira de administrar o modelo socioecon\u00f4mico hegem\u00f4nico nas sociedades ocidentais. N\u00e3o se trata mais de pensar a modifica\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es de partilha de poder, de distribui\u00e7\u00e3o de riquezas e de reconhecimento social. Trata-se de uma quest\u00e3o de gest\u00e3o de modelos que se reconhecem como defeituosos, mas que ao mesmo tempo se afirmam como os \u00fanicos poss\u00edveis.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>A fun\u00e7\u00e3o atual da esquerda \u00e9, por isso, mostrar que tal esvaziamento deliberado do campo pol\u00edtico \u00e9 feito para nos resignarmos ao pior, ou seja, para nos resignarmos a um modelo de vida social que h\u00e1 muito deveria ter sido ultrapassado e que evidencia sinais de profundo esgotamento. Cabe \u00e0 esquerda insistir na exist\u00eancia de quest\u00f5es eminentemente pol\u00edticas que devem voltar a frequentar o debate social.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Carta Maior<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Somos obrigados a ouvir compulsivamente que \u201ca divis\u00e3o esquerda\/direita n\u00e3o faz mais sentido\u201d. Mesmo que ainda encontremos posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e leituras dos impasses da vida social contempor\u00e2nea radicalmente antag\u00f4nicas, h\u00e1 uma clara estrat\u00e9gia de evitar dar a tais antagonismos seu verdadeiro nome. 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