{"id":3550,"date":"2013-02-17T20:10:32","date_gmt":"2013-02-17T20:10:32","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/02\/17\/qa-ditadura-nao-acabouq\/"},"modified":"2013-02-17T20:10:32","modified_gmt":"2013-02-17T20:10:32","slug":"qa-ditadura-nao-acabouq","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/02\/17\/qa-ditadura-nao-acabouq\/","title":{"rendered":"&#8220;A ditadura n\u00e3o acabou&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Filho de militantes de esquerda, Carlos Alexandre foi preso e torturado quando era beb\u00ea. Cresceu agressivo e isolado. Aos 37 anos, ele ainda sente os efeitos dos anos de chumbo: vive recluso, sem trabalho nem amigos &#8211; sofre de fobia social<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-3539\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/mi_2785599458395808.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"450\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<address \/>Carlos Alexandre Azevedo, 37 anos, torturado quando era beb\u00ea.  <!--more-->  <\/address>\n<address><\/address>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Ele tem olhos de afli\u00e7\u00e3o e fei\u00e7\u00f5es de dor. Suas palavras saem cadenciadas, s\u00e3o quase sussurros. \u201cMinha fam\u00edlia nunca conseguiu se recuperar totalmente dos abusos sofridos durante a ditadura\u201d, diz. \u201cOs meus pais foram presos e eu fui usado para pression\u00e1-los.\u201d Carlos Alexandre Azevedo tinha 1 ano e 8 meses quando policiais invadiram a casa da fam\u00edlia, na zona sul de S\u00e3o Paulo, e o levaram para a sede do Departamento Estadual de Ordem Pol\u00edtica e Social (Deops). Era 15 de janeiro de 1974. Bem armados e truculentos, os agentes da repress\u00e3o o encontraram na companhia da bab\u00e1 \u2013 uma mo\u00e7a de origem nordestina conhecida como Joana. Chegaram dando ordens. Exigiram que os dois permanecessem im\u00f3veis no sof\u00e1. Apenas Joana obedeceu. Como castigo pelo choro persistente, Carlos Alexandre levou uma bofetada t\u00e3o forte que acabou com os l\u00e1bios cortados. Foram mais de 15 horas de agonia. O drama de Carlos Alexandre \u2013 um dos mais surpreendentes dos anos de chumbo \u2013 veio \u00e0 tona no momento em que o governo brasileiro discute a cria\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade para apurar casos de tortura, sequestros, desaparecimentos e viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos durante a ditadura militar (1964-1985). Carlos Alexandre decidiu revelar sua hist\u00f3ria, com exclusividade, \u00e0 ISTO\u00c9 depois que o seu processo de anistia foi julgado pelo Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a. No dia 13 de janeiro, ele foi declarado \u201canistiado pol\u00edtico\u201d. Deve receber uma indeniza\u00e7\u00e3o de R$ 100 mil por ter sido v\u00edtima dos militares. \u201cMuita gente ainda acha que n\u00e3o houve ditadura nem tortura no Brasil. No julgamento, em Bras\u00edlia, me senti compreendido.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-3542\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/mi_2785735171442095.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"459\" style=\"vertical-align: middle;\" srcset=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/mi_2785735171442095.jpg 300w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/mi_2785735171442095-196x300.jpg 196w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<address>Carlos\u00a0aos 3 anos, com os pais<\/address>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">As pessoas sabiam que o que eu vivi foi verdade\u201d, alega. \u201cA indeniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o vai apagar nada do que aconteceu na minha vida. Mas a anistia \u00e9 o reconhecimento oficial de que o Estado falhou comigo. Para mim, a ditadura n\u00e3o acabou. At\u00e9 hoje sofro os seus efeitos. Tomo antidepressivo e antipsic\u00f3tico. Tenho fobia social.\u201d Fragmentos da vida de Carlos Alexandre, hoje com 37 anos, est\u00e3o guardados\u00a0 na mem\u00f3ria do pai, o jornalistae cientista pol\u00edtico Dermi Azevedo. Outros ficaram entre as lembran\u00e7as da m\u00e3e, a pedagoga Darcy Andozia. \u201cMinha fam\u00edlia sempre foi muito retra\u00edda, sem di\u00e1logo. N\u00e3o costum\u00e1vamos falar sobre tortura. Esse assunto sempre foi tabu entre n\u00f3s\u201d, conta Carlos Alexandre. Ele descobriu o pr\u00f3prio passado ao remexer em gavetas, aos 10 ou 11 anos de idade. Misturado a fotografias antigas e a uma por\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is, encontrou o desenho de uma vaquinha, conhecida na \u00e9poca por simbolizar a \u201cesperan\u00e7a\u201d, com o seguinte recado: \u201cDeops 1974: Quando voc\u00ea ficar mais velho, seus pais v\u00e3o te contar a sua hist\u00f3ria.\u201d Parte do sofrimento da inf\u00e2ncia lhe foi revelada pela m\u00e3e. \u201cCac\u00e1 apanhou porque estava chorando de fome. Os policiais falavam que, naquela idade, ele j\u00e1 era doutrinado e perigoso\u201d, lamenta Darcy. Presas pol\u00edticas disseram ao pai que o menino fora torturado no Deops. \u201cMeses depois de sair da pris\u00e3o, soube que o meu filho tinha sido v\u00edtima de choques el\u00e9tricos e outras sev\u00edcias. Ele foi jogado no ch\u00e3o e bateu a cabe\u00e7a\u201d, afirma Dermi. \u201cMaltratar um beb\u00ea \u00e9 o suprassumo da crueldade.\u201d Quando os agentes levaram Carlos Alexandre e a bab\u00e1, Darcy n\u00e3o estava em casa \u2013 seria trancafiada no Deops horas depois.<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">\u201cAt\u00e9 hoje sofro os efeitos da ditadura. Tomo antidepressivo e antipsic\u00f3tico. Tenho fobia social\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Ela havia sa\u00eddo cedo em busca de ajuda para o marido preso. Aquela era a segunda invas\u00e3o \u00e0 resid\u00eancia dos Azevedo. Na noite anterior, policiais vasculharam todos os c\u00f4modos em busca de \u201cmaterial subversivo\u201d. Encontraram um livro intitulado \u201cEduca\u00e7\u00e3o Moral e C\u00edvica &#038; Escalada Fascista no Brasil\u201d e o consideraram uma inj\u00faria \u00e0s autoridades. Dermi, Darcy e a educadora Maria Nilde Mascellani foram processados \u2013 e absolvidos \u2013 sob a acusa\u00e7\u00e3o de tentar difamar o Estado brasileiro. Dermi e Darcy eram ligados aos padres dominicanos e a uma das principais vozes que lutavam contra a ditadura, o ent\u00e3o cardeal de S\u00e3o Paulo, dom Paulo Evaristo Arns. Faziam parte da retaguarda do movimento de resist\u00eancia \u2013 abrigavam militantes que se preparavam para embarcar para o Exterior. O per\u00edodo de c\u00e1rcere foi tenso e doloroso. Darcy permaneceu mais de 40 dias na cadeia. Foi pressionada psicologicamente, mas n\u00e3o sofreu viol\u00eancia f\u00edsica. Dermi ficou cerca de quatro meses no xadrez. Apanhou muito. Quando j\u00e1 n\u00e3o suportava mais a dor, invocava o nome d\u2019Ele: \u201cAi, meu Deus. Meu Deus.\u201d Enquanto Darcy esteve atr\u00e1s das grades, Carlos Alexandre foi cuidado pelos av\u00f3s \u2013 e continuou a sofrer as consequ\u00eancias de escolhas que n\u00e3o foram suas. \u201cEm certos momentos, tive raiva porque meus pais expuseram os filhos. Mas depois senti orgulho porque eles lutaram contra os abusos dos militares e fazem parte da hist\u00f3ria do Brasil\u201d, diz. Carlos Alexandre padece de um transtorno chamado pela ci\u00eancia de fobia social: um medo excessivo e persistente de se expor \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o alheia. Quem tem esse dist\u00farbio se esquiva sistematicamente de contatos interpessoais \u2013 principalmente com pessoas do sexo oposto, desconhecidas ou autoridades \u2013 porque teme ser humilhado ou rejeitado.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-3545\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/mi_2785590111949901.jpg\" border=\"0\" width=\"450\" height=\"300\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<address>Dermi Azevedo, jornalista, pai de Carlos Alexandre, em frente ao pr\u00e9dio onde funcionava o Deops<\/address>\n<address><\/address>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">O diagn\u00f3stico foi mencionado pela psic\u00f3loga Ana Maria Falvino, que tratou de Carlos Alexandre, num documento encaminhado \u00e0 Comiss\u00e3o de Anistia. No texto, a psic\u00f3loga detalha a evolu\u00e7\u00e3o do transtorno no paciente e situa\u00e7\u00f5es relatadas pela fam\u00edlia Azevedo. Mas n\u00e3o afirma categoricamente que o problema dele \u00e9 consequ\u00eancia direta de tortura.\u00a0 As situa\u00e7\u00f5es vividas por CarlosAlexandre, no entanto, o inserem no grupo de risco descrito pela medicina. De acordo com o m\u00e9dico M\u00e1rcio Bernik, coordenador do Ambulat\u00f3rio de\u00a0 Transtornos de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria da Universidade de S\u00e3o Paulo, cerca de 30% dos casos de fobia social t\u00eam origem gen\u00e9tica. Os outros\u00a0 70% se devem a viv\u00eancias complexas.Os pais s\u00e3o o primeiro modelo para a crian\u00e7a. Observar como eles lidam com\u00a0 as adversidades, se enxergam o ambiente social como fonte de prazer e alegria ou como algo desconfort\u00e1vel e amea\u00e7ador, se s\u00e3o t\u00edmidos ou t\u00eam muitos amigos, \u00e9 de extrema import\u00e2ncia para o bom desenvolvimento infantil. Bernik afirma que crian\u00e7as provocadas e maltratadas por colegas e que vivem experi\u00eancias marcantes de rejei\u00e7\u00e3o e de sofrimento s\u00e3o mais suscet\u00edveis \u00e0 fobia social na vida adulta. Logo que Dermi deixou a pris\u00e3o, em maio de 1974, a fam\u00edlia toda se mudou para a sua terra natal, o Rio Grande do Norte. Primeiro foi para\u00a0 Currais Novos, no interior do Estado. Em seguida para a capital, Natal. A viol\u00eancia psicol\u00f3gica e as agress\u00f5es f\u00edsicas \u2013 como as intermin\u00e1veis sess\u00f5es no pau de arara e os repetidos golpes na cabe\u00e7a, chamados nos por\u00f5es da ditadura de \u201ctelefone\u201d \u2013 derrubaram Dermi. Durante um bom per\u00edodo, ele n\u00e3o foi capaz sequer de sair da cama. Passava o tempo todo coberto. Teve crises de paranoia e medo de tudo. N\u00e3o podia trabalhar. O aperto financeiro desestabilizava ainda mais a fam\u00edlia. Ele foi recuperando devagar a coragem de se levantar, ir \u00e0 esquina, andar sozinho.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u201cMeses depois de sair da pris\u00e3o, soube que o meu filho tinha sido v\u00cdtima de choques el\u00e9tricos e outras sev\u00cdcias. ele foi jogado no ch\u00e3o e bateu\u00a0a cabe\u00e7a. maltratar um beb\u00ea \u00e9 o suprassumo da crueldade\u201d<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u201cDermi n\u00e3o se destruiu. Transformou o trauma numa batalha pela vida e continua lutando pela dignidade humana\u201d,\u00a0 avalia a psicanalista Miriam Schnaiderman, codiretora do document\u00e1rio \u201cSobreviventes\u201d, que narra experi\u00eancias de pessoas que passaram por situa\u00e7\u00f5es-limite. Enquanto Dermi tentava se recuperar, Darcy tinha de se desdobrar para dar conta da casa e dos filhos \u2013 do primog\u00eanito e de dois\u00a0meninos que vieram depois. Carlos Alexandre demonstrou os primeiros sinais de isolamento j\u00e1 em Currais Novos. N\u00e3o interagia comoutras crian\u00e7as, tornou-se agressivo e andava sempre triste. \u00c0s vezes, acordava agitado procurando pela m\u00e3e: \u201cMam\u00e3e, onde \u00e9 o barulho do trem?\u201d A sede do Deops, onde ele esteve detido durante algumas horas, era na regi\u00e3o da Esta\u00e7\u00e3o da Luz. De l\u00e1, dava para ouvir o som do vai e vem das composi\u00e7\u00f5es. Apesar de a fam\u00edlia estar longe de S\u00e3o Paulo, onde a persegui\u00e7\u00e3o seria mais severa, os Azevedo eram constantemente vigiados pelos militares locais e discriminados pela vizinhan\u00e7a. Viviam sendo apontados como \u201cbandidos\u201d, \u201cterroristas\u201d e tratados como se tivessem alguma doen\u00e7a contagiosa. Carlos Alexandre cresceu sob intensa press\u00e3o, testemunhando as crises do pai e a inquietude da m\u00e3e. Chorava para n\u00e3o ir \u00e0 escola. N\u00e3o suportava ficar distante dos pais. A instabilidade e a din\u00e2mica familiar contribu\u00edram para aumentar o afastamento de Carlos Alexandre. \u201cA persegui\u00e7\u00e3o afetou os outros filhos, mas n\u00e3o de maneira t\u00e3o intensa quanto ele\u201d, relata Dermi. As mudan\u00e7as de casa e de cidade eram constantes a ponto de os meninos n\u00e3o serem capazes de criar la\u00e7os de amizade ou se adaptar completamente \u00e0 escola.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-3547\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/mi_2785607881984328.jpg\" border=\"0\" width=\"400\" height=\"267\" \/><br \/> <\/span><\/p>\n<address>Darcy Andozia, pedagoga aposentada, m\u00e3e de Carlos Alexandre<\/address>\n<address><\/address>\n<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">O \u00fanico per\u00edodo de relativa calmaria e imobilidade durou cerca de quatro anos \u2013 entre 1981 e o in\u00edcio de 1985, quando os Azevedo moraram em Piracicaba, no interior paulista. A filha mais nova nasceu l\u00e1. Todos eram respeitados. Darcy e Dermi tinham v\u00ednculo com uma universidade do munic\u00edpio \u2013 j\u00e1 n\u00e3o eram encarados como \u201cbandidos\u201d ou \u201cterroristas\u201d, mas como intelectuais. E a ditadura militar caminhava para o fim. A sa\u00edda de Piracicaba foi traum\u00e1tica para Carlos Alexandre. \u201cEra o \u00fanico lugar em que eu tinha amigos. Foi a\u00ed que me isolei de vez. Parei de estudar e me tranquei em casa\u201d, lembra. Carlos Alexandre tinha acabado de entrar na adolesc\u00eancia. No interior paulista, costumava brincar na rua, jogar bola e frequentar festinhas vestindo short e camiseta. N\u00e3o se importava muito com o figurino. Os novos desafios da cidade grande o fizeram submergir no medo.\u00a0 Ele j\u00e1 n\u00e3o era mais convidado para festas, se sentia incapaz de dan\u00e7ar com as meninas e apanhava dos garotos cotidianamente. Quando tentava revidar, era pior. Apanhava mais. \u201cPor ser introvertido, n\u00e3o ser muito bonito nem me vestir como eles, eu era humilhado e vivia sendo alvo de chacotas\u201d, afirma. Carlos Alexandre sucumbiu \u00e0 crueldade adolescente e se enterrou nas pr\u00f3prias fragilidades. Afirma ter passado cerca de sete anos (dos 13 aos 20) praticamente sem sair de casa. Tentou frequentar a escola. N\u00e3o conseguiu. Nos momentos de nervosismo intenso, quebrava tudo o que encontrasse pela frente. Engordou 40 quilos em seis meses. Tentou o suic\u00eddio \u201calgumas vezes\u201d. Quando decidiu enfrentar o medo da rua, trabalhou como auxiliar de escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">\u201cO meu filho apanhou dos policiais do deops porque estava chorando de fome. levou um tapa t\u00e3o forte que cortou os l\u00e1bios&#8221;<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Ficou um ano no emprego \u2013 seu recorde com carteira assinada. Depois atuou como operador de microcomputador e diagramador. Interagir era t\u00e3o penoso que Carlos Alexandre pediu demiss\u00e3o e foi demitido diversas vezes porque n\u00e3o suportava conviver com os colegas de trabalho. \u201cAs pessoas come\u00e7avam a perguntar da minha vida: o que eu fazia, se tinha estudado, se tinha namorada, quem eu era, aonde eu ia. Acabava ficando um clima ruim\u201d, conta. \u201cEstar no meio de muitas pessoas \u00e9 muito cansativo para mim. Falar tamb\u00e9m. Sair de casa e sentar num bar \u00e9 um inc\u00f4modo muito grande. Mas hoje j\u00e1 n\u00e3o entro em p\u00e2nico porque estou em tratamento.\u201d Um ou dois amigos visitam Carlos Alexandre esporadicamente. V\u00e3o ao apartamento que ele divide com a m\u00e3e na regi\u00e3o central de S\u00e3o Paulo. Seus outros \u2013 raros \u2013 amigos s\u00e3o todos virtuais. Ao optar pela rede, ele se protege da sociedade. \u201cQuando rompo o ciclo vicioso, consigo at\u00e9 ter uma vida. Mas tenho muito medo de reca\u00eddas\u201d, diz. Atualmente, ele costuma sair tr\u00eas vezes por semana para ir \u00e0 academia. De vez em quando, vai \u00e0 banca comprar gibis japoneses. Sua rotina \u00e9 singela. Mas Carlos Alexandre quer mais. \u201cN\u00e3o sou feliz. Sinto vergonha de n\u00e3o trabalhar. Tamb\u00e9m gostaria de ter uma fam\u00edlia minha, com mulher e filhos. Mas tenho consci\u00eancia de que devo dar um passo de cada vez. Talvez, com um pouco de sorte, eu consiga recome\u00e7ar. Mesmo estando com 37 anos.\u201d<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-3548\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/mi_2808023260475275.jpg\" border=\"0\" width=\"600\" height=\"204\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Isto \u00c9<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Filho de militantes de esquerda, Carlos Alexandre foi preso e torturado quando era beb\u00ea. Cresceu agressivo e isolado. Aos 37 anos, ele ainda sente os efeitos dos anos de chumbo: vive recluso, sem trabalho nem amigos &#8211; sofre de fobia social Carlos Alexandre Azevedo, 37 anos, torturado quando era beb\u00ea.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3550"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3550"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3550\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3550"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3550"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3550"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}