{"id":3563,"date":"2013-02-18T11:54:07","date_gmt":"2013-02-18T11:54:07","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/02\/18\/civis-e-militares-agiam-em-sintonia-fina-no-dops\/"},"modified":"2013-02-18T11:54:07","modified_gmt":"2013-02-18T11:54:07","slug":"civis-e-militares-agiam-em-sintonia-fina-no-dops","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/02\/18\/civis-e-militares-agiam-em-sintonia-fina-no-dops\/","title":{"rendered":"Civis e militares agiam em sintonia fina no Dops"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">QG da repress\u00e3o registrou visitas de oficiais, &#8216;representante da Fiesp&#8217; e c\u00f4nsul dos EUA<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span> <\/span><span> <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/blu.stb.s-msn.com\/i\/37\/4640D9E89CE5804AAC23F5E79B38F0.jpg\" border=\"0\" width=\"288\" height=\"212\" style=\"vertical-align: top;\" \/><\/p>\n<address \/><span style=\"line-height: 1.3em;\" \/>&#8220;Sede do Dops no bairro da Luz, onde a repress\u00e3o torturou advers\u00e1rios da ditadura at\u00e9 1983&#8221;  <!--more-->  <\/span><\/address>\n<address><span style=\"line-height: 1.3em;\"><br \/><\/span><\/address>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">Um rec\u00e9m-descoberto conjunto de seis livros com o registro de quem entrava e sa\u00eda da ala reservada \u00e0 diretoria no antigo edif\u00edcio do Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social de S\u00e3o Paulo (Dops), no centro de S\u00e3o Paulo, comprova a estreita rela\u00e7\u00e3o que existia entre for\u00e7as militares e civis nas a\u00e7\u00f5es de repress\u00e3o pol\u00edtica, no per\u00edodo mais duro da ditadura, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1970. Os documentos tamb\u00e9m exp\u00f5em o intenso fluxo de representantes da sociedade civil pelo pr\u00e9dio que foi um dos principais centros de persegui\u00e7\u00e3o de dissidentes; e a forma como a rede de espionagem do regime autorit\u00e1rio se estendia por empresas estatais, sindicatos e universidades.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">O acesso \u00e0 diretoria do Dops ocorria por um port\u00e3o na lateral esquerda do edif\u00edcio, no Largo General Os\u00f3rio, bairro da Luz. A passagem de funcion\u00e1rios e visitantes era sempre registrada pelo funcion\u00e1rio de plant\u00e3o num livro grosso, com folhas pautadas e numeradas &#8211; o livro de portaria. Anotava-se o nome, a organiza\u00e7\u00e3o \u00e0 qual pertencia, hor\u00e1rio de entrada de sa\u00edda e, \u00e0s vezes, com quem ia falar.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">Por meio desses livros, que estavam esquecidos no acervo do antigo Dops, hoje recolhido ao Arquivo P\u00fablico do Estado, \u00e9 poss\u00edvel saber que o capit\u00e3o \u00canio Pimentel da Silveira, do Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es de Informa\u00e7\u00f5es (DOI), do 2.\u00ba Ex\u00e9rcito, esteve 41 vezes no Dops entre mar\u00e7o e outubro de 1971. Frequentemente chegava por volta das 19 horas.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">Acusado por ex-presos pol\u00edticos de se apresentar em sess\u00f5es de tortura sob o codinome de Doutor Ney, o capit\u00e3o \u00canio era o homem da linha de frente do DOI. Cabia a ele a execu\u00e7\u00e3o das diretrizes estabelecidas pelo comandante do destacamento, major Carlos Alberto Brilhante Ustra &#8211; que tamb\u00e9m deixou registro de suas passagens pelo Dops, mas com menor frequ\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">O capit\u00e3o costumava se encontrar no Dops com o seu equivalente naquela institui\u00e7\u00e3o, delegado S\u00e9rgio Paranhos Fleury &#8211; o agente que levou para a repress\u00e3o pol\u00edtica os m\u00e9todos usados contra criminosos comuns. &#8220;Prender antes de investigar, torturar, pendurar no pau de arara, dar choques, pr\u00e1ticas comuns nas delegacias, foram levadas por Fleury e outros policiais para o enfrentamento da subvers\u00e3o&#8221;, disse o jornalista Percival de Souza, autor de Aut\u00f3psia do Medo, alentada biografia do delegado.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">Os militares, de sargento a general, iam muitas vezes ao Dops para cumprir formalidades, uma vez que cabia aos policiais dar forma aos inqu\u00e9ritos que iam parar na Justi\u00e7a Militar. Eles se apresentavam com o nome real, arma e patente.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">Com esses dados \u00e9 poss\u00edvel saber que o capit\u00e3o \u00canio j\u00e1 havia sido promovido a major em 1976. Nem todas as pessoas, por\u00e9m, se identificavam adequadamente. O Capit\u00e3o Ubirajara que aparece nos livros, por exemplo, n\u00e3o existe. Sabe-se agora que esse era o codinome usado pelo delegado Aparecido Laertes Calandra em sess\u00f5es de tortura no DOI.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">O c\u00f4nsul. Entre os civis se destaca o nome de Claris Halliwell, identificado como c\u00f4nsul americano. \u00c0 primeira vista, sua presen\u00e7a \u00e9 compreens\u00edvel &#8211; o Dops tinha uma delegacia especializada em estrangeiros. Chamam aten\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, o envolvimento de um c\u00f4nsul com servi\u00e7os que poderiam ser executados por funcion\u00e1rios menos graduados e a frequ\u00eancia das visitas. Em 1971 ele foi pelo menos duas vezes por m\u00eas ao Dops.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">A assessoria de comunica\u00e7\u00e3o do Consulado dos EUA diz n\u00e3o ter registros de antigos funcion\u00e1rios. Por isso, n\u00e3o pode confirmar a presen\u00e7a de Halliwell em S\u00e3o Paulo, o cargo que ocupava ou as idas ao Dops.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">As poucas informa\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis podem ser encontradas num livro sobre seu pai, Leo Halliwell, que atuou na Amaz\u00f4nia como mission\u00e1rio evang\u00e9lico na d\u00e9cada de 30. Claris teria passado a inf\u00e2ncia em Bel\u00e9m.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">Ainda segundo o livro, ele atuou como representante diplom\u00e1tico no Equador e no Brasil e foi c\u00f4nsul em S\u00e3o Paulo entre 1971 e 1974 &#8211; per\u00edodo em que aparece no Dops. Seus substitutos n\u00e3o eram t\u00e3o ass\u00edduos.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">Fiesp. Outro civil que se destaca \u00e9 Geraldo Resende de Mattos, cujo nome aparece sempre seguido pela sigla Fiesp, que identifica a Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Estado de S\u00e3o Paulo. Ele est\u00e1 presente em todos os volumes, que cobrem o per\u00edodo de mar\u00e7o de 1971 a janeiro de 1979.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">Na sua fase mais ativa, entre 1971 e 1976, Mattos realizou mais de 200 visitas. Chegava no fim da tarde, por volta das 18 horas, e sa\u00eda uma hora depois. \u00c0s vezes se estendia mais: certo dia, passou oito horas no local.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">Mattos morreu de enfarte em 2002, aos 65 anos. Segundo a Fiesp, ele nunca figurou no seu quadro de funcion\u00e1rios. Um parente pr\u00f3ximo, que pediu para n\u00e3o ser identificado, contou que ele trabalhava para o Servi\u00e7o Social da Ind\u00fastria (Sesi). Consultado na sexta-feira pela reportagem, o Sesi pediu mais tempo para verificar a informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">O parente tamb\u00e9m contou que Mattos era especialista em quest\u00f5es de ordem pol\u00edtica e sindical. O mais prov\u00e1vel \u00e9 que colaborasse com o Servi\u00e7o de Informa\u00e7\u00e3o, que funcionava no quinto andar do Dops, sob o comando do delegado Romeu Tuma. Cabia \u00e0quele servi\u00e7o produzir relat\u00f3rios para o governador sobre a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social no Estado &#8211; uma atua\u00e7\u00e3o diferente da que ocorria no segundo andar, onde ficava Fleury.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">Universidades. Embora sejam documentos prec\u00e1rios, com erros e muitas lacunas, os livros fornecem indica\u00e7\u00f5es sobre o alcance do servi\u00e7o de informa\u00e7\u00f5es. Alguns exemplos: entre 1974 e 1975, s\u00e3o frequentes as visitas de um senhor apontado como agente na Petrobr\u00e1s; h\u00e1 um coronel muito ass\u00edduo que se identifica com a Cesp, estatal do setor de energia el\u00e9trica; outro crava Unesp, de Universidade Estadual Paulista.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">Algumas pessoas apareciam porque eram chamadas. Foi essa a explica\u00e7\u00e3o que o ex-empres\u00e1rio de Jo\u00e3o Gilberto, o advogado Krikor Tcherkezian, deu para o fato de seu nome aparecer v\u00e1rias vezes na lista, seguido da sigla USP. Disse que trabalhava no gabinete do reitor e era chamado at\u00e9 seis vezes por m\u00eas para acompanhar estudantes envolvidos em investiga\u00e7\u00f5es da pol\u00edcia. &#8220;Era s\u00f3 aquela coisa de averigua\u00e7\u00e3o&#8221;, contou. &#8220;Nunca vi nada. A gente queria saber e n\u00e3o tinha acesso, porque n\u00e3o falavam nada.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">O delegado Calandra tamb\u00e9m foi procurado, mas n\u00e3o quis falar. \u00canio Rocha Silveira, filho do capit\u00e3o \u00canio, contou que, ainda crian\u00e7a, acompanhou o pai em algumas visitas ao Dops. &#8220;Mas eu nem sabia o que meu pai fazia. Ele foi falar com o delegado Fleury e com o Romeu Tuma&#8221;, disse. &#8220;Meu pai foi chefe da equipe de investigadores do DOI-Codi e tamb\u00e9m foi para o confronto.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s passar para a reserva com a patente de coronel, \u00canio morreu com quatro tiros no peito em 1986. Segundo o inqu\u00e9rito militar, cometeu suic\u00eddio. O filho contesta o laudo na Justi\u00e7a, afirmando que foi assassinato. &#8220;Queima de arquivo.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">Os livros da portaria do Dops agora fazem parte do acervo digitalizado do Arquivo do Estado e podem ser consultados pela internet.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Estado de S.Paulo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>QG da repress\u00e3o registrou visitas de oficiais, &#8216;representante da Fiesp&#8217; e c\u00f4nsul dos EUA &#8220;Sede do Dops no bairro da Luz, onde a repress\u00e3o torturou advers\u00e1rios da ditadura at\u00e9 1983&#8221;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3563"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3563"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3563\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3563"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3563"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3563"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}