{"id":3741,"date":"2013-02-26T18:49:23","date_gmt":"2013-02-26T18:49:23","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/02\/26\/o-livro-dos-visitantes\/"},"modified":"2013-02-26T18:49:23","modified_gmt":"2013-02-26T18:49:23","slug":"o-livro-dos-visitantes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/02\/26\/o-livro-dos-visitantes\/","title":{"rendered":"O Livro dos Visitantes"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O di\u00e1logo pode, certo dia, ter sido mais ou menos assim:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>&#8211; Que saco! Anotar nome, patente (ou cargo) e arma (ou empresa) de cada sujeito que entra aqui, cacilda, bem no centro de S\u00e3o Paulo, uma das maiores cidades do mundo! \u00c9 um entra e sai de gente, dia e noite, e n\u00f3s tendo que anotar as informa\u00e7\u00f5es de cada um! Esses caras l\u00e1 de cima n\u00e3o t\u00eam coisa melhor a fazer do que nos obrigar a isso, ao inv\u00e9s de nos deixar vigiando cuidadosamente quem chega, tarefa bem mais condizente com a nossa forma\u00e7\u00e3o militar? &#8211; reclamava indignado o cabo que mais tarde acabou detido por questionar demais, posto que cada cabo do Ex\u00e9rcito tinha direito a fazer um \u00fanico questionamento por semana e esse a\u00ed j\u00e1 disparava na lideran\u00e7a das inconveni\u00eancias funcionais.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8211; Com todo o respeito, Cabo, mas prefiro preparar-me cumprindo essa ordem, que deve ser importante no contexto geral das atribui\u00e7\u00f5es da nossa unidade, do que sentar atr\u00e1s de uma pilha monstruosa de papeis. Cumprindo bem esta miss\u00e3o, poderei ser notado e ent\u00e3o chamado a combater terroristas, atua\u00e7\u00e3o que far\u00e1 o orgulho m\u00e1ximo do meu pai, que me disse que eu entraria no Ex\u00e9rcito mas s\u00f3 poria de novo os p\u00e9s em casa depois de ter fuzilado ao menos um desses malignos guerrilheiros urbanos que vivem desafiando o Sistema e conturbando a vida das pessoas &#8211; respondeu-lhe educadamente o soldado, queimando assim sua cota mensal de uma \u00fanica contesta\u00e7\u00e3o a ordens, coment\u00e1rios ou desabafos de superiores.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Apesar de viver encafifado pela curiosa evid\u00eancia de que entravam no pr\u00e9dio mais pessoas do que sa\u00edam, pelo menos por aquela porta que lhes cabia guardar com zelo e pompa, o que possivelmente indicaria que alguns ali entravam mas que dali n\u00e3o sa\u00edam, o que talvez explicasse as pancadas surdas e os gritos abafados que escutava todas as noites do seu posto de vigia, fen\u00f4menos que lhe era ordenado olvidar para o bem de todos e a felicidade geral da na\u00e7\u00e3o, e que tivesse todos os olhos voltados para fora do pr\u00e9dio e ouvido nenhum para dentro, o fato \u00e9 que o soldado venceu, n\u00e3o por si, mas pela incontest\u00e1vel determina\u00e7\u00e3o emanada de algum ponto alto, muito alto na hierarquia, mas que ningu\u00e9m jamais lembrou de avaliar se era vantajosa ou n\u00e3o para dito Sistema.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Devido a esse soldado ambicioso e a essa ordem est\u00fapida, bem como ao esquecimento geral de um que outro detalhe das opera\u00e7\u00f5es aqui e ali, coisas que acontecem e que se resolveriam num instante com um simples tapa se aplicado na hora certa, ou seja, antes da promulga\u00e7\u00e3o da Lei da Anistia imposta, para se safar, pelo pr\u00f3prio Sistema antes de sair oficialmente de cena, mas n\u00e3o sem antes deixar a postos, atilados e vigilantes (&#8220;o pre\u00e7o da liberdade \u00e9 a eterna vigil\u00e2ncia&#8221;), os seus asseclas, ops!, os seus fieis agentes de antanho; gra\u00e7as a esse soldado desconhecido e benem\u00e9rito, que j\u00e1 est\u00e1 por merecer uma est\u00e1tua em tamanho natural na pra\u00e7a central de cada uma das cidades do Pa\u00eds (podem ser est\u00e1tuas copiadas industrialmente em s\u00e9rie, n\u00e3o faz mal), chegaram at\u00e9 n\u00f3s, como relata o jornalista Rold\u00e3o Arruda, de O Estado de S\u00e3o Paulo, &#8220;seis livros grossos, com folhas pautadas e numeradas, com o registro de quem entrava e sa\u00eda da ala reservada \u00e0 diretoria no antigo edif\u00edcio do Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social de S\u00e3o Paulo (DOPS)&#8221; no per\u00edodo de mar\u00e7o de 1971 a janeiro de 1979.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As gentes ali arroladas s\u00e3o oficiais do Ex\u00e9rcito, delegados de pol\u00edcia, c\u00f4nsules dos EUA, empres\u00e1rios e representantes de universidades paulistas e da FIESP.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por Am\u00edlcar Neves &#8211; escritor. Cr\u00f4nica publicada na edi\u00e7\u00e3o desta quarta-feira (20.2) do jornal Di\u00e1rio Catarinense (Florian\u00f3polis-SC)<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O di\u00e1logo pode, certo dia, ter sido mais ou menos assim: &#8211; Que saco! 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