{"id":3765,"date":"2013-02-27T18:44:41","date_gmt":"2013-02-27T18:44:41","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/02\/27\/carta-para-carlos-alexandre-azevedo\/"},"modified":"2013-02-27T18:44:41","modified_gmt":"2013-02-27T18:44:41","slug":"carta-para-carlos-alexandre-azevedo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/02\/27\/carta-para-carlos-alexandre-azevedo\/","title":{"rendered":"Carta para Carlos Alexandre Azevedo"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">Por Paulo Fonteles Filho<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/><span style=\"line-height: 1.3em;\" \/>Por v\u00e1rios dias tenho pensado em ti, Carlos Alexandre. Teu desaparecimento atingiu-me numa tranq\u00fcila e chuvosa tarde de domingo, daquelas pregui\u00e7osas, silentes, onde tudo, o tempo e as pessoas parecem imperturb\u00e1veis.  <!--more-->  <\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Atrav\u00e9s das redes sociais \u00e9 que soube, enfim, que havias como dizem alguns jornalistas, enfrentado tua segunda morte. A primeira, em 1974, onde te submeteram mesmo com um ano e oito meses a infames torturas. Infante levastes choques el\u00e9tricos, tivestes o maxilar quebrado, passastes fome por dias, al\u00e9m de outras sev\u00edcias pr\u00f3prias daqueles terr\u00edveis dias onde os verdugos comandavam n\u00e3o apenas os destinos de nossa humanidade, mas decretavam como professores de deus, a morte e a \u00faltima morada de toda uma gera\u00e7\u00e3o de brasileiros.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A fina navalha do tempo cortou-me a carne e desde ent\u00e3o, estiolado, convivo com a madrugada em que partistes, solit\u00e1rio, com as digitais do carrasco em teu corpo adulto. Fora a forma de libertar-te daqueles por\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Dias depois fui visitar teu pai, Dermi Azevedo. Conheci um homem que, mesmo devastado pela tua aus\u00eancia, respirava a impune convic\u00e7\u00e3o de que, mais do que nunca, \u00e9 preciso travar a contenda em defesa da mem\u00f3ria dos que lutaram para emancipar o pa\u00eds brasileiro, em definitivo, dos tempos da cadeira-do-drag\u00e3o, dos estreludos generais que t\u00eam as m\u00e3os sujas de sangue, do covarde sil\u00eancio como regra e dos calam sobre teu corpo, em tua morte, como ensina a can\u00e7\u00e3o de Milton Nascimento.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Sento-me nesta madrugada porque, tamb\u00e9m, fui contigo por estes caminhos onde, dentro da gente, h\u00e1 uma indigna\u00e7\u00e3o atroz na qual convivemos por todos os dias, desde a mais tenra idade at\u00e9 a maturidade. S\u00e3o os sucessivos dias, milhares deles, em que o peito tinge-se em luta, a luta pelas estradas a seguir, se nos quedamos e ficamos de joelhos ou se nos levantamos como nossos pais, e tomamos a espada em nossas m\u00e3os. Na brutalidade da somat\u00f3ria de todas as guerras estamos como rudes e ensang\u00fcentados soldados, combatendo os lobos febrentos, os mordaceiros da luz e os violadores de crian\u00e7as.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Teu grito, \u00faltimo, denuncia.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Meus pais, como os teus, tamb\u00e9m foram presos e barbaramente torturados. Minha m\u00e3e, gr\u00e1vida, levou chutes na barriga crescida e por meses fora brutalizada no Pelot\u00e3o de Investiga\u00e7\u00f5es Criminais do Minist\u00e9rio do Ex\u00e9rcito em Bras\u00edlia. Nasci no antigo Hospital da Guarni\u00e7\u00e3o, hoje Hospital das For\u00e7as Armadas (HFA), em fevereiro de 1972.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Tenho em mim, Carlos, a mem\u00f3ria do ventre.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Sinto as reminisc\u00eancias da carne violada e o hero\u00edsmo de Hecilda que, mesmo em cativeiro teve a ousadia de peitar o bandidesco general Ant\u00f4nio Bandeira. No dia em que vim ao mundo, derrotados por n\u00e3o terem nos matado e jogado num cemit\u00e9rio como indigentes, como fizeram em Perus e no Araguaia, cunharam a c\u00e9lebre \u201cFilho desta ra\u00e7a n\u00e3o deve nascer\u201d. Depois atrasaram a entrega \u00e0 fam\u00edlia porque, segundo a mem\u00f3ria de minha av\u00f3, n\u00e3o haviam encontrado algemas que davam em meus pulsos de rec\u00e9m-nascido.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Uma das primeiras coisas que soube sobre mim mesmo \u00e9 que havia nascido na pris\u00e3o e de que meus pais eram comunistas.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Nesta hora reflito sobre eles, poderiam ter se acomodado. Mas n\u00e3o, voltaram a estudar e ao combate, depois de enquadrados pelo artigo 477 (cuja autoria deve-se ao fascista Jarbas Passarinho) que preconizava que estudantes condenados por \u201cterrorismo\u201d n\u00e3o poderiam retornar aos estudos por tr\u00eas anos. Refeitos, minha m\u00e3e segue a carreira acad\u00eamica como professora de Ci\u00eancia Pol\u00edtica na Universidade Federal do Par\u00e1 e meu pai, advogado de posseiros no Araguaia, foi covardemente assassinado pelo latif\u00fandio em 1987.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Mas o que fazer diante destes testemunhos, de tua segunda morte?<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Sinto amigo, que em tempos de Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV) devemos cobrar que estejam embutidos, no relat\u00f3rio que ser\u00e1 apresentado aos brasileiros em maio de 2014, os acontecimentos criminosos que foram perpetrados, por quest\u00f5es pol\u00edticas, contra a inf\u00e2ncia deste imenso pa\u00eds dos tr\u00f3picos.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Tua segunda morte carrega o legado de que, mais do que nunca, devemos cuidar da tenra idade contra os infanticidas, dos de ontem como, tamb\u00e9m, na atualidade.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Com ousadia, sem procura\u00e7\u00e3o alguma, a n\u00e3o ser pela mem\u00f3ria da carne violada, tomamos para n\u00f3s, por tais testemunhos, a exig\u00eancia de que quem nos torturou, no ventre ou fora dele, responda pelos crimes de inexor\u00e1vel covardia, contra aqueles que devem ser protegidos desde a fecunda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Assim cumprimos com a civilizat\u00f3ria miss\u00e3o de proteger os filhos do povo brasileiro.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Paulo Fonteles Filho Por v\u00e1rios dias tenho pensado em ti, Carlos Alexandre. Teu desaparecimento atingiu-me numa tranq\u00fcila e chuvosa tarde de domingo, daquelas pregui\u00e7osas, silentes, onde tudo, o tempo e as pessoas parecem imperturb\u00e1veis.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3765"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3765"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3765\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3765"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3765"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3765"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}