{"id":3899,"date":"2013-03-05T10:48:35","date_gmt":"2013-03-05T10:48:35","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/03\/05\/ha-30-anos-dops-encerrava-atividades\/"},"modified":"2013-03-05T10:48:35","modified_gmt":"2013-03-05T10:48:35","slug":"ha-30-anos-dops-encerrava-atividades","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/03\/05\/ha-30-anos-dops-encerrava-atividades\/","title":{"rendered":"H\u00e1 30 anos, Dops encerrava atividades"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>Largo General Os\u00f3rio, 66. O endere\u00e7o no cora\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo acolhia um dos principais \u00f3rg\u00e3os de intelig\u00eancia do regime militar brasileiro, o Dops (Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social). O pr\u00e9dio imponente, pr\u00f3ximo \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o da Luz abrigava ativistas pol\u00edticos na \u00e9poca da ditadura. Pessoas de todos os lugares do Estado passaram pelas celas e salas de torturas da institui\u00e7\u00e3o, que encerrou as atividades h\u00e1 exatos 30 anos, no dia 4 de mar\u00e7o de 1983.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O fechamento do departamento anunciava a queda do regime militar &#8211; fato que ocorreu dois anos e 11 dias depois da extin\u00e7\u00e3o da delegacia, que tinha \u2018olhos&#8217; no Grande ABC. Professor do curso de Ci\u00eancias Sociais da Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo, Oswaldo Santos destacou que a regi\u00e3o foi um dos principais campos de atua\u00e7\u00e3o do departamento. &#8220;O fechamento ocorre no contexto das lutas sociais que vinham acontecendo, sendo que um dos palcos principais foi a nossa regi\u00e3o. O fim do Dops foi um s\u00edmbolo que marcou o fim do regime&#8221;, avaliou. O Dops possu\u00eda uma seccional no Centro de S\u00e3o Bernardo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O docente explicou que a delegacia tinha muita for\u00e7a como institui\u00e7\u00e3o estadual por conta do alto poder de investiga\u00e7\u00e3o que os militares possu\u00edam. &#8220;O Doi-Codi (Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es de Informa\u00e7\u00f5es &#8211; Centro de Opera\u00e7\u00f5es de Defesa Interna) era subordinado ao Ex\u00e9rcito, enquanto o Dops era do Estado&#8221;, afirmou Oliveira.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">F\u00e1bio Pires Gavi\u00e3o, coordenador do curso de Hist\u00f3ria da Universidade Anhanguera\/UniABC, reiterou que os militares do Dops foram respons\u00e1veis por arrancar informa\u00e7\u00f5es valiosas sobre movimentos contra o regime. &#8220;Os por\u00f5es da ditadura eram os por\u00f5es do Dops, que era utilizado para interrogat\u00f3rios e sess\u00f5es de torturas.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Gavi\u00e3o explicou que o departamento era dividido entre tr\u00eas \u00e1reas principais: expediente, protocolo e arquivo geral (onde ficam armazenadas todas as informa\u00e7\u00f5es).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As torturas eram pr\u00e1ticas comuns e ocorriam sempre no per\u00edodo da noite. Segundo Oliveira, o fim do Dops n\u00e3o significou o fim das sess\u00f5es com choques e pau de arara. &#8220;Mas n\u00e3o foi somente um \u00f3rg\u00e3o que cometeu abusos&#8221;, ponderou.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O aposentado de Ribeir\u00e3o Pires Odair Malerba, o Daia, sentiu na pele tortura cometida nos fundos do departamento. &#8220;Bateram muito. Judiaram muito. Era levado de madrugada e voltava todo arrebentado pela manh\u00e3. Tenho um joelho que eles quebraram&#8221;, contou. A pris\u00e3o dele ocorreu ap\u00f3s uma discuss\u00e3o com um militar no Centro da cidade, em 1970.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A passagem de duas semanas pelo Dops atrapalhou o resto da vida de Daia. &#8220;Em 1974, eu era de uma empreiteira, mas n\u00e3o fui incorporado (para trabalhar na Refinaria de Capuava) porque eu tinha ficha (no Dops)&#8221;, recordou. Hoje, o aposentado tenta amenizar os danos com uma a\u00e7\u00e3o na Justi\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Museu exalta resist\u00eancia dos presos e torturados<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os gritos deram lugar ao sil\u00eancio. As paredes comprovam que por ali passaram diversos jovens persistentes na ideia de libertar o Brasil de um regime militar. As celas que antes abrigavam os \u2018subversivos&#8217; hoje recebem aqueles que t\u00eam curiosidade em saber da luta que teve fim no dia 15 de mar\u00e7o de 1985, com a queda da ditadura.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O Memorial da Resist\u00eancia est\u00e1 no pr\u00e9dio que funcionava o Dops &#8211; o mesmo local tamb\u00e9m abriga a Pinacoteca. Foi inaugurado em 2002 em mem\u00f3ria das centenas de vidas perdidas pela peleja contra a repress\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O museu mant\u00e9m quatro celas utilizadas para acolher os capturados pelos militares. Um espa\u00e7o n\u00e3o foi modificado para preservar as marcas dos presos. Marcadas com canivete, as inscri\u00e7\u00f5es v\u00e3o desde nomes at\u00e9 palavras de ordem como &#8220;abaixo a ditadura&#8221;, passando pelo s\u00edmbolo da ALN (Alian\u00e7a Libertadora Nacional).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As celas possuem cerca de 30 m\u00b2. Acolhiam de dez a 15 presos. O chuveiro era um cano de \u00e1gua fria &#8211; a \u00fanica carceragem com \u00e1gua quente era exclusiva para as mulheres. A pia modesta tinha que ser dividida entre todos os encarcerados.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os corredores do pr\u00e9dio s\u00e3o gelados e ainda soam intimidadores. O caminho ao banho de sol &#8211; um corredor estreito &#8211; n\u00e3o \u00e9 diferente. Grades por todos os lados. Um guarda munido de fuzil ficava no fim do espa\u00e7o para coibir qualquer tipo de rebeli\u00e3o. O dia mais agitado nos corredores era s\u00e1bado, quando todos se mobilizavam para a faxina.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O chamado fund\u00e3o do Dops, onde, segundo relatos, eram realizadas as torturas, foi destru\u00eddo. As celas individuais que ficavam ao lado dos espa\u00e7os preservados tamb\u00e9m n\u00e3o ficaram de p\u00e9. O Memorial funciona de ter\u00e7a-feira a domingo, das 10h \u00e0s 17h30. Entrada gr\u00e1tis.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>\u2018A minha boca ficou em carne viva&#8217;<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Foram 89 dias sem ver a luz do Sol. Olivier Negri Filho passou praticamente tr\u00eas meses na sede do Dops incomunic\u00e1vel com o mundo externo. Entre as sess\u00f5es de torturas f\u00edsica e psicol\u00f3gica, o ent\u00e3o estudante de Mau\u00e1 enfrentou, aos 18 anos, o que chama de maior trauma da sua vida.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O morador do Jardim Za\u00edra e atual diretor de escola iniciou sua luta pol\u00edtica ainda nos bancos da Igreja Cat\u00f3lica, para depois se tornar militante da AP (A\u00e7\u00e3o Popular). A luta era intensa, at\u00e9 que o movimento foi delatado ao servi\u00e7o de intelig\u00eancia da Marinha. &#8220;Fui o primeiro a ser preso. Me levaram para uma ch\u00e1cara em Mau\u00e1, iniciaram o processo de tortura (&#8230;) N\u00e3o confirmava informa\u00e7\u00e3o nenhuma. N\u00e3o era hero\u00edsmo, era medo. Se eles desconfiassem que eu sabia de alguma coisa, eles iam me matar&#8221;, recordou.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As sess\u00f5es de torturas continuaram na seccional do Dops em S\u00e3o Bernardo, epis\u00f3dio que antecedeu a ida para o Dops. &#8220;Fui colocado no pau de arara por mais de uma hora. Distendeu meu nervo ci\u00e1tico. Estava sangrando porque eles me deram um pontap\u00e9 e abriu meu superc\u00edlio. A minha boca ficou em carne viva. As quatro obtura\u00e7\u00f5es que eu tinha ca\u00edram por causa dos choques.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s passar quatro dias na carceragem em S\u00e3o Bernardo, Olivier foi levado pelos militares para casa, onde tomou banho e seguiu para o Dops. Apesar de l\u00e1 n\u00e3o ter sofrido agress\u00f5es f\u00edsicas, o militante foi impedido de receber visitas e tomar banho de sol.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s diversas tentativas e o sil\u00eancio, Olivier foi solto. &#8220;No fim das contas, me ofereceram emprego para ser espi\u00e3o deles. Agradeci, mas n\u00e3o aceitei.&#8221; CT<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>\u2018Eu e o Lula n\u00e3o t\u00ednhamos contato com outros presos&#8217;<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Nelson Campanholo era um jovem de 24 anos quando foi preso junto com outros 12 dirigentes do Sindicato dos Metal\u00fargicos do ABC. Entre os companheiros estava Luiz In\u00e1cio da Silva, que ainda n\u00e3o era Lula. Os dois ficaram tr\u00eas dias detidos na sede do Dops por liderarem diversas greves trabalhistas no come\u00e7o da d\u00e9cada de 1980. &#8220;A gente era meio topetudo. \u00cdamos para a porta das f\u00e1bricas com microfones e alto-falantes&#8221;, declarou.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Campanholo afirmou que, na pris\u00e3o, Lula e os outros integrantes do grupo n\u00e3o foram maltratados e n\u00e3o foram encaminhados para as celas. &#8220;Ficamos na sala do falecido (Romeu) Tuma, que era delegado da Pol\u00edcia. N\u00e3o t\u00ednhamos contato com outro presos.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Apesar de n\u00e3o ter tido problema com os agentes, o ex-sindicalista admitiu que ouviu muitos gritos provenientes das sess\u00f5es de tortura. &#8220;Ouvi diversos berros. A gente ficava tenso, o cora\u00e7\u00e3o do\u00eda. Dava uma m\u00e1goa muito grande. Muita gente sofreu muito ali&#8221;, relembrou.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O ex-metal\u00fargico aparece no processo em que o ex-presidente Lula est\u00e1 arrolado. Os documentos disponibilizados pelo Arquivo P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo mostram que os dois responderam \u00e0 a\u00e7\u00e3o judicial por incitar greves trabalhistas no Grande ABC.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>\u2018\u00c9 chocante saber que vasculharam a minha vida inteira&#8217;<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O secret\u00e1rio de Gabinete em Santo Andr\u00e9, Tiago Nogueira (PT), conhecia bem o caminho do Dops. Por diversas vezes, o petista foi fichado por participar dos comandos de greve no Grande ABC. Mas Tiago nunca foi ficou preso. &#8220;Acredito que peguei o fim da ditadura.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Di\u00e1rio do Grande ABC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Largo General Os\u00f3rio, 66. O endere\u00e7o no cora\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo acolhia um dos principais \u00f3rg\u00e3os de intelig\u00eancia do regime militar brasileiro, o Dops (Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social). O pr\u00e9dio imponente, pr\u00f3ximo \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o da Luz abrigava ativistas pol\u00edticos na \u00e9poca da ditadura. 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