{"id":4023,"date":"2013-03-10T12:57:33","date_gmt":"2013-03-10T12:57:33","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/03\/10\/sobre-golpe-militar-e-ditadura-militar-fascista\/"},"modified":"2013-03-10T12:57:33","modified_gmt":"2013-03-10T12:57:33","slug":"sobre-golpe-militar-e-ditadura-militar-fascista","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/03\/10\/sobre-golpe-militar-e-ditadura-militar-fascista\/","title":{"rendered":"Sobre golpe militar e ditadura militar-fascista"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Militares fascistas publicaram esta foto no facebook e disseram que nela se viam herois da FEB sendo agredidos por esquerdistas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-4020\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/clube_militar-300x200.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"200\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>\n<address \/>Tarde de quinta-feira, 29 de mar\u00e7o de 2012. Em frente ao Clube Militar, na Cinel\u00e2ndia, centro do Rio, manifestantes promovem escracho de militares fascistas \u2013 muitos deles assassinos, torturadores e estupradores \u2013 l\u00e1 reunidos para \u201ccomemorar\u201d o vergonhoso golpe militar de 1964, quando fascistas fardados rasgaram a Constitui\u00e7\u00e3o e instauraram uma ditadura sanguin\u00e1ria que infelicitou a na\u00e7\u00e3o por mais de duas d\u00e9cadas. Os manifestantes foram reprimidos pela pol\u00edcia.  <!--more-->  <\/address>\n<address><\/address>\n<address><\/address>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Esclareci que a foto n\u00e3o mostrava herois, mas a indigna\u00e7\u00e3o e a repulsa de manifestantes contra a comemora\u00e7\u00e3o do golpe militar de 1964 por militares fascistas no Clube Militar.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Repudiavam-se assassinos e torturadores de presos pol\u00edticos, e tamb\u00e9m estupradores de presas politicas (ignomia, ali\u00e1s, pouco divulgada por raz\u00f5es de constrangimento das v\u00edtimas).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Expliquei, ainda, que s\u00e3o quatro os her\u00f3is da FEB, todos eles detentores da medalha de ouro Cruz de Combate de Primeira Classe, a maior condecora\u00e7\u00e3o brasileira em tempo de guerra, que constitui, por isso mesmo, um justo reconhecimento como heroi da p\u00e1tria aos que se destacaram por ato de bravura individual em combate.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Citei dois dos quatro herois: o capit\u00e3o da reserva Salom\u00e3o Malina, ex-secret\u00e1rio-geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB), e meu pai, o coronel do Ex\u00e9rcito, da arma de Infantaria, pioneiro do paraquedismo, Al\u00edrio Granja, encarcerado em 1964 no Forte Copacabana por se opor ao golpe militar-fascista, perfilando-se, no cumprimento de seu dever de militar patriota, na defesa da legalidade democr\u00e1tica.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Esse meu esclarecimento sobre a hist\u00f3ria militar do Brasil ensejou uma discuss\u00e3o sobre as circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas do golpe militar e sobre a responsabilidade <span class=\"s1\">?<\/span> pelos crimes hediondos cometidos na repress\u00e3o aos opositores pelos sucessivos governos militares <span class=\"s1\">?<\/span> dos militares que se locupletaram durante a ditadura com altos cargos e sal\u00e1rios nababescos em estatais (isso sem falar das \u201ctenebrosas transa\u00e7\u00f5es\u201d encobertas pelo regime de excess\u00e3o), mas tamb\u00e9m um debate: primeiro, sobre o car\u00e1ter militar do golpe de 64; em seguida, sobre o car\u00e1ter militar-fascista do regime ditatorial por ele instaurado.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Antes, por\u00e9m, vale\u00a0 recordar o 13 de mar\u00e7o de 1964, quando o presidente Jo\u00e3o Goulart pronunciou o famoso discurso do com\u00edcio da Central do Brasil, no Rio de Janeiro.\u00a0 Conhecido tamb\u00e9m como o Com\u00edcio das Reformas de Base, nele Jango comprometeu o governo com a luta por mudan\u00e7as estruturais no pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O Presidente da Rep\u00fablica anunciou ao povo reunido em pra\u00e7a p\u00fablica que decretara a estatiza\u00e7\u00e3o das refin\u00e1rias de petr\u00f3leo e que encaminharia ao Congresso Nacional um conjunto de reformas, cujos t\u00f3picos mais significativos eram: in\u00edcio da reforma agr\u00e1ria, com a desapropria\u00e7\u00e3o das terras com mais de 600 hectares \u00e0s margens das rodovias federais, das ferrovias e dos a\u00e7udes, bem como das grandes propriedades valorizadas por obras p\u00fablicas; reforma educacional, com a destina\u00e7\u00e3o de pelo menos 15% da renda nacional para a educa\u00e7\u00e3o, e a erradica\u00e7\u00e3o do analfabetismo, com base no m\u00e9todo Paulo Freire; controle sobre as remessas de lucro para o exterior;\u00a0 reforma tribut\u00e1ria para instituir a progressividade das al\u00edquotas do imposto de renda de acordo com a capacidade contributiva do cidad\u00e3o; reforma eleitoral com amplia\u00e7\u00e3o dos direitos de votar e ser votado aos analfabetos e aos pra\u00e7as das For\u00e7as Armadas, al\u00e9m da coer\u00e7\u00e3o \u00e0 interfer\u00eancia do poder econ\u00f4mico nas campanhas eleitorais.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Contra esse reformismo (que, ainda hoje, n\u00e3o perdeu de todo sua atualidade) foi dado o golpe militar de 1964.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que por tr\u00e1s dos militares golpistas estavam os interesses contrariados de diversas fac\u00e7\u00f5es das classes dominantes e do imperialismo. Sabe-se, inclusive, que a S\u00e9tima Frota dos Estados Unidos fora enviada ao litoral brasileiro para refor\u00e7ar militarmente os golpista caso se fizesse necess\u00e1rio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 duvida tampouco sobre a exist\u00eancia de uma campanha de imprensa orquestrada para desestabilizar o governo e do ass\u00e9dio dos setores conservadores sobre os quarteis para que as For\u00e7as Armadas aderissem \u00e0 solu\u00e7\u00e3o golpista.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O alinhamento da imprensa grande com o movimento golpista foi manifestado nos editoriais dos principais jornais do pa\u00eds, comemorando a queda de Jo\u00e3o Goulart:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O editorial do JB, que rigorosamente n\u00e3o diz nada al\u00e9m de baboseiras, deixa tudo bem claro:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cDesde ontem se instalou no Pa\u00eds a verdadeira legalidade \u2026 Legalidade que o caudilho n\u00e3o quis preservar, violando-a no que de mais fundamental ela tem. (\u2026) A legalidade est\u00e1 conosco e n\u00e3o com o caudilho aliado dos comunistas.(\u2026)\u00a0 Golpe \u2013 crime s\u00f3 pun\u00edvel pela deposi\u00e7\u00e3o pura e simples do Presidente. Atentar contra a Federa\u00e7\u00e3o \u00e9 crime de lesa-p\u00e1tria. Aqui acusamos o Sr. Jo\u00e3o Goulart de crime de lesa-p\u00e1tria. Jogou-nos na luta fratricida, desordem social e corrup\u00e7\u00e3o generalizada. \u201c[JB, 01\/04\/1964]<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O editorial de O Globo n\u00e3o fica atr\u00e1s em seu regozijo pela derrocada da ordem democr\u00e1tica:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cVive a Na\u00e7\u00e3o dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas (\u2026) para salvar o que \u00e9 essencial: a democracia, a lei e a ordem. Gra\u00e7as \u00e0 decis\u00e3o e ao hero\u00edsmo das For\u00e7as Armadas (\u2026) o Brasil livrou-se do Governo irrespons\u00e1vel, que insistia em arrast\u00e1-lo para rumos contr\u00e1rios \u00e0 sua voca\u00e7\u00e3o e tradi\u00e7\u00f5es. (\u2026) Poderemos, desde hoje, encarar o futuro confiantemente (\u2026) Salvos da comuniza\u00e7\u00e3o que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os protegeram de seus inimigos. (\u2026) Aliaram-se os mais ilustres l\u00edderes pol\u00edticos, os mais respeitados Governadores, com o mesmo intuito redentor que animou as For\u00e7as Armadas. Era a sorte da democracia no Brasil que estava em jogo.(\u2026) A esses l\u00edderes civis devemos, igualmente, externar a gratid\u00e3o de nosso povo.(\u2026) Se os banidos, para intrigarem os brasileiros com seus l\u00edderes e com os chefes militares, afirmarem o contr\u00e1rio, estar\u00e3o mentindo, estar\u00e3o, como sempre, procurando engodar as massas trabalhadoras, que n\u00e3o lhes devem dar ouvidos (\u2026).\u201d [O Globo, 02\/04\/1964]<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Textos golpistas, que proclamam em alto e bom som o compromisso antidemocr\u00e1tica da grande imprensa brasileira.\u00a0 Corroboram a coer\u00eancia da imprensa grande no esp\u00edrito do golpismo que sempre foi a seiva da qual se nutriu o jornalismo empresarial neste pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fica, no entanto, uma perplexidade: mas, ent\u00e3o, n\u00e3o havia censura \u00e0 imprensa durante a ditadura militar?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quem responde \u00e9 o jornalista Mino Carta: \u201cEm cima da destrui\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria, alguns jornais inventam que sofreram censura. O Jornal do Brasil nunca foi censurado. A Folha de S\u00e3o Paulo nunca foi censurada\u201d. E Mino Carta diz mais:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cA Folha de S\u00e3o Paulo n\u00e3o s\u00f3 nunca foi censurada, como emprestava a sua C-14 [carro tipo perua, usado para transportar o jornal] para recolher torturados ou pessoas que iriam ser torturadas na Oban [Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante]. Isso est\u00e1 mais do que provado. \u00c9 uma das obras-primas da Folha, porque o senhor Caldeira [Carlos Caldeira Filho], que era s\u00f3cio do senhor Frias [Octavio Frias de Oliveira], tinha rela\u00e7\u00f5es muito \u00edntimas com os militares. E hoje voc\u00ea v\u00ea esses an\u00fancios da Folha \u2013 o jornal desse menino idiota chamado Otavinho [Otavio Frias Filho] \u2013 esses an\u00fancios contam de um jeito que parece que a Folha, nos anos de chumbo, sofreu muito, mas n\u00e3o sofreu nada. Quando houve uma m\u00ednima press\u00e3o, o sr. Frias afastou o Cl\u00e1udio Abramo da dire\u00e7\u00e3o do jornal. Digo que foi a \u201cm\u00ednima press\u00e3o\u201d porque o sr. Frias estava envolvido na pior das candidaturas poss\u00edveis, na sucess\u00e3o do general Geisel. A Folha estava envolvida com o pior, apoiava o Frota [general S\u00edlvio Frota, ministro do Ex\u00e9rcito no governo Geisel]. O Claudio Abramo foi afastado por isso . O jornal O Globo tamb\u00e9m n\u00e3o foi censurado. Isso \u00e9 uma piada.\u201d [Entrevista com Mino Carta. por Adriana Souza Silva, da Reda\u00e7\u00e3o AOL, abril de 2004]<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O golpe de Estado de 1\u00ba de abril de 1964 se insere nitidamente nas lutas de classes do per\u00edodo em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Para quem quiser se aprofundar nos meandros da a\u00e7\u00e3o sediciosa das elites, h\u00e1 uma vasta literatura, mas recomendo especialmente o livro de Ren\u00e9 Dreifuss, \u201c1964: A conquista do Estado\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Parece-me, no entanto, incorreto caracterizar o golpe de 64 como civil-militar, e isso porque o seu comando pol\u00edtico-militar esteve sempre firmemente sob o controle de oficiais generais das For\u00e7as Armadas, mas tamb\u00e9m porque, al\u00e9m da sua condu\u00e7\u00e3o, todo o processo golpista se operou nos quart\u00e9is e atrav\u00e9s da mobiliza\u00e7\u00e3o de tropas regulares. Do mesmo modo como foi militar (e n\u00e3o civil-militar) o regime ditatorial instaurado, porque esteve o tempo todo sob o completo ordenamento do alto comando das For\u00e7as Armadas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Basta comparar com o havido em 1961: de um lado, uma tentativa, finalmente derrotada, de golpe militar; de outro, um contragolpe civil-militar, parcialmente vitorioso no compromisso que prevaleceu. O golpe em marcha era militar porque fruto da mobiliza\u00e7\u00e3o de tropas regulares sob o comando dos tr\u00eas ministros militares. O contragolpe foi civil-militar porque na sua articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-militar foi decisivo o protagonismo de Leonel Brizola, ent\u00e3o governador do Rio Grande do Sul, e das massas populares mobilizadas para o combate.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Essa distin\u00e7\u00e3o \u00e9 importante para compreender o car\u00e1ter militar-fascista da ditadura que se instaurou pela a\u00e7\u00e3o dos militares golpistas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O que discuto aqui \u00e9 a forma da articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-militar que operou o golpe de Estado e o regime que da\u00ed surgiu, considerando que est\u00e1 claro o seu car\u00e1ter de classe. Pretendo esclarecer as media\u00e7\u00f5es pol\u00edtico-ideol\u00f3gicas (\u201csuperestruturais\u201d) imediatamente decisivas, n\u00e3o as determina\u00e7\u00f5es em \u00faltima inst\u00e2ncia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O car\u00e1ter militar do regime fica bem marcado pelo fato de os presidentes da Rep\u00fablica serem invariavelmente generais-de-ex\u00e9rcito de quatro estrelas.\u00a0 Isso expressa tamb\u00e9m a hegemonia do Ex\u00e9rcito sobre as outras for\u00e7as.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Tanto era militar o regime ditatorial, que, quando houve um vice-presidente civil, Pedro Aleixo, este foi impugnado e n\u00e3o pode assumir a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica no impedimento do general-presidente. Neste como em todos os casos de crise institucional, o alto comando das For\u00e7as Armadas agiu em conjunto, envolvendo as tr\u00eas for\u00e7as na preserva\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter militar do regime.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-4022\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/Herzog.jpg\" border=\"0\" width=\"240\" height=\"180\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\n<address>\u00c0 noite, no mesmo local, o escracho volta \u00e0 carga, desta feita com a proje\u00e7\u00e3o do espectro do mart\u00edrio de Vladimir Herzog sobre a fachada do Clube Militar.<\/address>\n<address><\/address>\n<address><\/address>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">E , se \u00e9 verdade que, desde M\u00e9dici, o n\u00famero de civis no minist\u00e9rio e no primeiro escal\u00e3o do governo foi aumentando, assim como \u00e9 verdade que sempre foram civis os ministros da Fazenda e do Planejamento, isso nunca implicou um deslocamento do centro de decis\u00e3o estrat\u00e9gica do poder.\u00a0 Neste sentido, os militares jamais compartilharam o poder com a elite civil.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Est\u00e1 claro que se tratava de um regime militar, ideologicamente fascista.\u00a0 E digo ditadura militar-fascista para diferenciar dos regimes fascistas t\u00edpicos, porque estes se caracterizaram pelo protagonismo de um partido org\u00e2nico, fortemente centralizado num l\u00edder carism\u00e1tico e de base de massas, al\u00e9m de mil\u00edcias paramilitares, integradas pelas massas mobilizadas pela ideologia fascista, por fora da cadeia hier\u00e1rquica das For\u00e7as Armadas (como foram os casos can\u00f4nicos da It\u00e1lia e da Alemanha). De modo distinto, o militar-fascismo opera diretamente atrav\u00e9s dos quart\u00e9is e sob o comando pol\u00edtico-militar da cadeia hier\u00e1rquica das For\u00e7as Armadas, regulares. Trata-se, portanto, de um fascismo militar-defectivo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Esse car\u00e1ter defectivo tem ra\u00edzes na nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Como se sabe, Roberto Schwarz apontou \u201cas id\u00e9ias fora de lugar\u201d como uma caracter\u00edstica da forma\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica em nosso pa\u00eds.\u00a0 Mostrou como o nosso liberalismo era uma ideologia de segundo grau, ret\u00f3rica, enquanto o mecanismo do favor operava as rela\u00e7\u00f5es entre a classe dominante e a classe m\u00e9dia na zona de hegemonia da forma\u00e7\u00e3o social brasileira, ao passo que a domina\u00e7\u00e3o com base no assujeitamento pela for\u00e7a, t\u00edpico da escravid\u00e3o, prescindia da media\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica nas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Essa quest\u00e3o da ideologia de segundo grau demanda uma explica\u00e7\u00e3o.\u00a0\u00a0 Como observa Carlos Nelson Coutinho, no Brasil, mesmo na \u00e9poca da subordina\u00e7\u00e3o formal, (quando o modo de produ\u00e7\u00e3o interno ainda n\u00e3o era capitalista), as classes dominantes de nossa forma\u00e7\u00e3o social encontravam suas express\u00f5es ideol\u00f3gicas e culturais na Europa burguesa.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesse sentido que se pode dizer que as id\u00e9ias estavam fora de lugar e constitu\u00edam uma ideologia de segundo grau.\u00a0 \u00c9 porque n\u00e3o encontravam correspond\u00eancia nas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o escravistas ent\u00e3o dominantes na forma\u00e7\u00e3o social brasileira.\u00a0 Adverte-se a\u00ed uma incongru\u00eancia constitutiva da forma\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica.\u00a0 Essa incongru\u00eancia entre base material (escravista) e superestrutura (liberal) deixa suas marcas na forma\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica mesmo depois de efetuada a transi\u00e7\u00e3o da subsun\u00e7\u00e3o formal para a subsun\u00e7\u00e3o real do modo de produ\u00e7\u00e3o interno.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na origem da nossa Rep\u00fablica, o florianismo pode ser caracterizado como um jacobinismo militar-defectivo: defectivo porque tinha um temperamento jacobino, mas faltava-lhe um adequado conte\u00fado jacobino (basicamente sem um programa de reforma agr\u00e1ria).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ser defectivo tem consequ\u00eancias pol\u00edticas graves.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No caso do florianismo, ele n\u00e3o se sustentou no poder, embora tenha seus herdeiros hist\u00f3ricos no tenentismo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No caso do regime militar-fascista, ele, por um lado, se assenta numa zona de hegemonia s\u00f3cio-pol\u00edtica que n\u00e3o se constitui com base num consentimento ativo dos governados, mas principalmente na passividade das amplas massas (obtida, em grande medida, atrav\u00e9s da repress\u00e3o mais brutal); por outro, e por isso mesmo, ele depende do \u00eaxito na esfera econ\u00f4mica (\u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d) para se legitimar e garantir a governabilidade.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Est\u00e1 a\u00ed porque o fim do \u201cmilagre econ\u00f4mico\u201d foi o come\u00e7o do fim da ditadura militar-fascista.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por Sergio Granja &#8211; pesquisador da Funda\u00e7\u00e3o Lauro Campos<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Militares fascistas publicaram esta foto no facebook e disseram que nela se viam herois da FEB sendo agredidos por esquerdistas. Tarde de quinta-feira, 29 de mar\u00e7o de 2012. Em frente ao Clube Militar, na Cinel\u00e2ndia, centro do Rio, manifestantes promovem escracho de militares fascistas \u2013 muitos deles assassinos, torturadores e estupradores \u2013 l\u00e1 reunidos para [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4023"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4023"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4023\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4023"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4023"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4023"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}