{"id":422,"date":"2012-05-17T19:54:11","date_gmt":"2012-05-17T19:54:11","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/17\/doutor-paulo-ex-delegado-do-dops-faz-revelacoes-intragaveis-e-dispensa-remorso\/"},"modified":"2012-05-17T19:54:11","modified_gmt":"2012-05-17T19:54:11","slug":"doutor-paulo-ex-delegado-do-dops-faz-revelacoes-intragaveis-e-dispensa-remorso","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/17\/doutor-paulo-ex-delegado-do-dops-faz-revelacoes-intragaveis-e-dispensa-remorso\/","title":{"rendered":"Doutor Paulo: ex-delegado do DOPS faz revela\u00e7\u00f5es intrag\u00e1veis e dispensa remorso"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Rep\u00f3rter da Ag\u00eancia Publica passou mais de 15 horas entrevistando um dos poucos delegados do DOPS ainda vivos, entre os que atuaram nos anos mais duros da ditadura. Entre dezenas de revela\u00e7\u00f5es que n\u00e3o denotam arrependimento, Paulo Bonchristiano fala das rela\u00e7\u00f5es muito pr\u00f3ximas da Globo, Folha e CIA com o DOPS<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\"><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.pragmatismopolitico.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/02\/doutor-paulo-dops.jpg\" border=\"0\" width=\"213,5\" height=\"190\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" \/>\n<address \/>Bonchristiano gosta de dar entrevistas, mas n\u00e3o de responder as perguntas  <!--more-->  <\/address>\n<p class=\"p1\">\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Aos 80 anos, Jos\u00e9 Paulo Bonchristiano conserva o porte imponente dos tempos em que era o \u201cdoutor Paulo\u201d, delegado do Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social de S\u00e3o Paulo, \u201co melhor departamento de pol\u00edcia da Am\u00e9rica Latina\u201d, n\u00e3o se cansa de repetir.\u201cO DOPS era um \u00f3rg\u00e3o de intelig\u00eancia policial, faz\u00edamos o levantamento de todo e qualquer cidad\u00e3o que tivesse alguma coisa contra o governo, chegamos a ter fichas de 200 mil pessoas durante a revolu\u00e7\u00e3o\u201d, diz, referindo-se ao golpe militar de 1964, que deu origem aos 20 anos de ditadura no Brasil.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Embora esteja aposentado h\u00e1 27 anos, n\u00e3o h\u00e1 nada de senil em sua atitude ou apar\u00eancia. Os olhos astutos de policial ainda dispensam os \u00f3culos para perscrutar o rosto do interlocutor, endurecendo quando o delegado acha que \u00e9 hora de encerrar o assunto.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Bonchristiano gosta de dar entrevistas, mas n\u00e3o de responder a perguntas que lancem luz sobre os crimes cometidos pelo aparelho policial-militar da ditadura do qual participou entre 1964 e 1983: pris\u00f5es ilegais, sequestros, torturas, les\u00f5es corporais, estupros e homic\u00eddios que, segundo estimativas da Procuradoria da Rep\u00fablica, vitimaram cerca de 30 mil cidad\u00e3os. Destes, 376 foram mortos, incluindo mais de 200 que continuam at\u00e9 hoje desaparecidos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"p1\">Os arquivos do DOPS se tornaram p\u00fablicos em 1992, mas muitos documentos foram retirados pelos policiais quando estavam sob a guarda do ent\u00e3o diretor da Pol\u00edcia Federal e ex-diretor geral do DOPS, Romeu Tuma. Entre os remanescentes est\u00e3o os laudos periciais falsos, produzidos no pr\u00f3prio DOPS, que transformavam homic\u00eddios cometidos pelos agentes do Estado em suic\u00eddios, atropelamentos, fugas. No caso dos desaparecidos, os corpos eram enterrados sob nomes falsos em valas de indigentes em cemit\u00e9rios de periferia.<\/p>\n<p class=\"p1\">\n<p class=\"p1\">Bonchristiano \u00e9 um dos poucos delegados ainda vivos que participaram desse per\u00edodo, mas ele evita falar sobre os crimes. Prefere soltar o vozeir\u00e3o para contar casos do tempo em que os generais e empres\u00e1rios o tratavam pelo nome. Roberto Marinho, da Globo, diz, \u201cpassava no DOPS para conversar com a gente quando estava em S\u00e3o Paulo\u201d, e ele podia telefonar a Ot\u00e1vio Frias, da Folha de S. Paulo \u201cpara pedir o que o DOPS precisasse\u201d. Quando participou da montagem da Pol\u00edcia Federal em S\u00e3o Paulo, conta, o fundador do Bradesco mobiliou a sede, em Higien\u00f3polis: \u201cN\u00f3s do DOPS falamos com o Amador Aguiar ele mandou por tudo dentro da rua Piau\u00ed, at\u00e9 m\u00e1quina de escrever\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">O \u201cdoutor Paulo\u201d sorri enlevado ao lembrar dos momentos passados com o marechal Costa e Silva (o presidente que assinou o AI-5 em dezembro de 1968, suspendendo as garantias constitucionais da popula\u00e7\u00e3o). \u201cO Costa e Silva, quando vinha a S\u00e3o Paulo, dizia: \u2018Eu quero o doutor Paulo Bonchristiano\u2019\u201d, e imita a voz do marechal \u2013 ele adora representar os casos que conta.<\/p>\n<p class=\"p1\">\u201cEu fazia a escolta dele e ele me chamava para tomar um suco de laranja ou comer um sandu\u00edche misto na padaria Miami, na rua Tut\u00f3ia, vizinha ao quartel do II Ex\u00e9rcito. Todo mundo querendo saber onde estava o presidente da Rep\u00fablica, e eu ali\u201d, delicia-se.<\/p>\n<p class=\"p1\">Gaba-se de ter sido enviado para \u201ccursos de treinamento em Langley\u201d nos Estados Unidos, pelo c\u00f4nsul geral em S\u00e3o Paulo, Niles Bond, que admirava a \u201cefici\u00eancia\u201d da pol\u00edcia pol\u00edtica paulista. E o chamava de \u201cMr. Dops\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">Orgulha-se tamb\u00e9m de outro apelido \u2013 \u201cPaul\u00e3o, Cacete e Bala\u201d \u2013 que diz ter sa\u00eddo da boca dos \u201ctiras\u201d quando \u201cca\u00e7ava bandidos\u201d na RUDI (Rotas Unificadas da Delegacia de Investiga\u00e7\u00e3o), no in\u00edcio da carreira, com um \u201ctira valente\u201d chamado S\u00e9rgio Fleury. Anos depois, os dois se reencontrariam na R\u00e1dio Patrulha, de onde saiu a turma do Esquadr\u00e3o da Morte, levada para o DOPS em 1969, quando Fleury entrou no \u00f3rg\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\">\u201cPol\u00edcia \u00e9 pol\u00edcia, bandido \u00e9 bandido\u201d, diz Bonchristiano. \u201cPara voc\u00eas de fora \u00e9 diferente, mas para n\u00f3s, acabar com marginal \u00e9 uma coisa positiva. O meu colega Fleury merecia um busto em pra\u00e7a p\u00fablica\u201d, afirma, sem corar.<\/p>\n<p class=\"p1\">O delegado S\u00e9rgio Fleury e sua turma de investigadores se celebrizaram por ca\u00e7ar, torturar e matar presos pol\u00edticos no DOPS, enquanto continuavam a exterminar suspeitos de crimes comuns no Esquadr\u00e3o da Morte.<\/p>\n<p class=\"p2\"><strong>Conversas gravadas<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">No decorrer de nove tardes passadas, entre junho de 2010 e janeiro deste ano, em seu apartamento no Brooklin, no 13\u00ba andar de um pr\u00e9dio de classe m\u00e9dia alta, aprendi a escutar com paci\u00eancia os \u201ccausos\u201d que \u201cdoutor Paulo\u201d narra com humor feroz, at\u00e9 extrair informa\u00e7\u00f5es relevantes. Repetidas vezes eu as confrontava com livros e documentos e voltava a inquiri-lo; a proposta era que ele se responsabilizasse pelo que dizia.<\/p>\n<p class=\"p1\">De certo modo, meu embate com o \u201cdoutor Paulo\u201d antecipava as dificuldades que ser\u00e3o enfrentadas pela Comiss\u00e3o da Verdade, a ser instalada em abril para apurar fatos e respons\u00e1veis \u2013 sem puni\u00e7\u00e3o penal prevista \u2013 pelas viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos cometidas pelo Estado entre 1946 e 1988, abrangendo o per\u00edodo da ditadura militar. O objetivo da comiss\u00e3o \u00e9 devolver aos cidad\u00e3os brasileiros um passado que ainda n\u00e3o se encerrou, como provam os desaparecidos, e impedir que funcion\u00e1rios p\u00fablicos sigam mantendo segredo sobre atos praticados a mando do Estado.<\/p>\n<p class=\"p1\">A fragilidade da lei em pontos cruciais, por\u00e9m, provoca ceticismo nas organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos, em especial ao permitir o sigilo de depoimentos \u2013 ferindo o direito \u00e0 transpar\u00eancia p\u00fablica \u2013, e ao n\u00e3o prever puni\u00e7\u00f5es aos respons\u00e1veis pelos crimes, nem mesmo medidas coercitivas para os que se recusarem a depor.<\/p>\n<p class=\"p1\">\u201cN\u00e3o vou depor. Acho bobagem\u201d, diz Bonchristiano. \u201cNunca pratiquei irregularidades, mas n\u00e3o sou dedo duro e n\u00e3o vejo utilidade nessa comiss\u00e3o\u201d, justifica o funcion\u00e1rio p\u00fablico, aposentado aos 53 anos, e que recebe hoje 11 mil reais por m\u00eas de pens\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\">Minhas conversas com Mr. DOPS renderam 15 horas de grava\u00e7\u00e3o que revelam a mentalidade e as conex\u00f5es pol\u00edticas dos policiais que atuaram na repress\u00e3o do governo militar. E provam que os detentores das informa\u00e7\u00f5es est\u00e3o por a\u00ed \u2013 embora continuem ocultando as circunst\u00e2ncias exatas em que os crimes foram cometidos e os mandantes de cada um deles.<\/p>\n<p class=\"p2\"><strong>Torturadores e repressores<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">O nome de Bonchristiano \u2013 que significa \u201cbom crist\u00e3o\u201d e veio de Salerno, It\u00e1lia \u2013 n\u00e3o consta das principais listas de torturadores compiladas por organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos.<\/p>\n<p class=\"p1\">O Projeto Brasil Nunca Mais, um extenso levantamento realizado clandestinamente entre 1979 e 1985 com base nos IPMs (inqu\u00e9ritos policiais militares), \u00e9 at\u00e9 hoje a principal refer\u00eancia, embora muitas vezes liste apenas os \u201cnomes de guerra\u201d dos torturadores, j\u00e1 que os reais eram desconhecidos das v\u00edtimas.<\/p>\n<p class=\"p1\">No tomo II, volume 3, \u201cOs funcion\u00e1rios\u201d, Paulo Bonchristiano \u00e9 citado oito vezes em opera\u00e7\u00f5es de repress\u00e3o. Mas seu nome tamb\u00e9m n\u00e3o consta da chamada Lista de Prestes, de 1978, liberada recentemente pela vi\u00fava do l\u00edder comunista, que traz v\u00e1rios nomes completos e os cargos de 233 torturadores denunciados por presos pol\u00edticos \u2013 entre eles 58 policiais do DOPS de S\u00e3o Paulo, 21 deles delegados.<\/p>\n<p class=\"p1\">As lacunas dessa hist\u00f3ria, por\u00e9m, n\u00e3o permitem descartar a revela\u00e7\u00e3o de novos nomes. Entre 1968 e 1976 \u2013 o per\u00edodo mais duro da ditadura \u2013, as torturas faziam parte do cotidiano de todos os policiais e militares envolvidos na repress\u00e3o. O DOPS era \u201cmanejado pelos militares como um \u00f3rg\u00e3o federal\u201d, como observa o jornalista Percival de Souza no livro \u201cAut\u00f3psia do Medo\u201d, do qual o Paulo Bonchristiano participa como fonte e personagem, qualificado como \u201cum dos delegados mais conhecidos do DOPS\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">Nas entrevistas \u00e0 P\u00fablica, o ex-delegado resistiu duas tardes inteiras antes de admitir que se torturava e matava no \u201cmelhor departamento de pol\u00edcia da Am\u00e9rica Latina\u201d \u2013 o que hoje qualquer cidad\u00e3o pode constatar atrav\u00e9s dos depoimentos reunidos no \u201cMemorial da Resist\u00eancia\u201d, museu que desde 2002 ocupa as antigas instala\u00e7\u00f5es do DOPS, no centro de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p class=\"p1\">Nem mesmo o fato de S\u00e9rgio Fleury ter se celebrizado como torturador impediu Bonchristiano de tentar isentar o \u00f3rg\u00e3o: \u201cO Fleury era do DOPS e n\u00e3o era do DOPS, era o homem de liga\u00e7\u00e3o do DOPS com os militares, era delegado das For\u00e7as Armadas, do Alto Comando. N\u00e3o obedecia a ningu\u00e9m, interrogava presos no DOPS, no DOI-CODI, em delegacias, s\u00edtios, no pa\u00eds inteiro. Todo o segundo andar do DOPS era dele, tinha que telefonar antes: \u2018Fleury eu vou descer pra falar com voc\u00ea\u2019. Se n\u00e3o, a gente n\u00e3o entrava. Ele tinha uma porta l\u00e1, todo misterioso\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\"><strong>Bonchristiano ainda se lembra, e muito bem, das antigas desaven\u00e7as com o ex-colega.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">\u201cO Fleury estava em todas, se metia em tudo, perdi muitos \u2018tiras\u2019 para ele porque l\u00e1 eles ganhavam mais, tinha um \u2018por fora\u2019\u201d, contou na segunda entrevista. \u201cUma vez prendi um cara em um aparelho no Trememb\u00e9, e quando estava chegando no DOPS, o Fleury pediu o preso emprestado, n\u00e3o lembro o nome dele. Depois de dois dias sem not\u00edcias do preso, fui perguntar para o Fleury, e ele me pediu desculpas, tinha matado o cara que eu nem ouvi\u201d, relata, como se fosse um contratempo na reparti\u00e7\u00e3o. \u201cChegou uma hora que s\u00f3 ele que dominava. S\u00f3 se falava dele\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">\u201cGra\u00e7as a Deus s\u00f3 se fala no Fleury\u201d, reagiu dona Vera, a elegante senhora com quem o ex-delegado \u00e9 casado h\u00e1 53 anos, que entrava na sala trazendo refrigerantes. E emendou: \u201cZ\u00e9 Paulo, essa entrevista j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 durando demais?\u201d, frase que ela repetiria muitas vezes depois.<\/p>\n<p class=\"p1\">Foi na terceira entrevista \u2013 quando j\u00e1 acumul\u00e1vamos seis horas de grava\u00e7\u00e3o \u2013 que o \u201cdoutor Paulo\u201d, sem dona Vera na sala, finalmente confirmou que \u201csabia de tudo\u201d o que acontecia no DOPS. E se \u201cjustificou\u201d: \u201cEu n\u00e3o podia fazer nada, isso era com o pessoal de l\u00e1 de cima. Eu era delegado de segunda classe, respondia apenas ao diretor do DOPS, o resto era com eles\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">Bonchristiano tornou-se delegado de 2\u00aa classe em 1969 e foi promovido \u201cpor merecimento\u201d a delegado de 1\u00aa classe em 1971.<\/p>\n<p class=\"p1\">Naquele mesmo dia, admitiu que frequentava os outros centros de tortura montados em S\u00e3o Paulo a partir de 1969, como a OBAN (Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante) e o DOI-CODI, comandados pelo Ex\u00e9rcito e compostos de policiais civis e militares instru\u00eddos a torturar. S\u00f3 no per\u00edodo de 1970 a 1974, a Arquidiocese de S\u00e3o Paulo reuniu 502 den\u00fancias de tortura no DOI-CODI paulista, apelidado jocosamente pelos policiais de \u201cCasa da Vov\u00f3\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">Bonchristiano disse ent\u00e3o que \u201calguns da diretoria do DOPS\u201d participaram da montagem da OBAN \u2013 \u201cos militares n\u00e3o entendiam nada de pol\u00edcia, depois aprenderam\u201d \u2013 e que cederam tr\u00eas delegados no in\u00edcio das opera\u00e7\u00f5es, todos inclu\u00eddos entre os torturadores na Lista de Prestes: Ot\u00e1vio Medeiros, ligado ao CCC (Comando de Ca\u00e7a aos Comunistas) e \u00e0 TFP (Tradi\u00e7\u00e3o, Fam\u00edlia e Propriedade), assassinado em 1973 por militantes da resist\u00eancia armada; Renato d\u2019Andrea, colega de Bonchristiano na Faculdade de Direito da PUC; e Raul Nogueira de Lima, o Raul Careca, ex-investigador subordinado a Bonchristiano e ligado ao CCC, que se tornaria delegado depois.<\/p>\n<p class=\"p1\">Levaram tamb\u00e9m os m\u00e9todos da pol\u00edcia, incluindo o pau-de-arara \u2013 na origem um cabo de vassoura apoiado em duas mesas, onde os policiais deixavam o preso pendurado por pulsos e tornozelos at\u00e9 que a dor insuport\u00e1vel os fizesse \u201cconfessar\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">\u201cO pau-de-arara n\u00e3o \u00e9, assim, uma tortura, vai tensionando os m\u00fasculos, se o cara falar logo n\u00e3o fica nem marca, mas se o cara for macho e segurar\u2026\u201d, explicou-me ele certa vez. Diante de minha express\u00e3o escandalizada, concedeu: \u201cchoques, sim, dependendo\u201d. E completou: \u201cNaquela \u00e9poca foi diferente, o governo estava tentando melhorar o pa\u00eds. A\u00ed n\u00f3s tivemos que fazer essa luta. Nunca considerei os comunistas bandidos, considerava ideologicamente inimigos. Tanto que eu sempre falei, n\u00e3o poderia haver mortes\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">Bonchristiano disse que frequentava a OBAN e o DOI-CODI para \u201cbuscar presos, n\u00e3o para levar\u201d, buscando distanciar-se das mal afamadas equipes de captura da OBAN, que realizavam pris\u00f5es ilegais. Alguns eram soltos sem que sua passagem nos \u00f3rg\u00e3os policiais fosse sequer registrada; outros eram enviados para os c\u00e1rceres do DOPS, onde assinavam as \u201cconfiss\u00f5es\u201d e tinham a \u201cpris\u00e3o preventiva\u201d decretada.<\/p>\n<p class=\"p2\"><strong>\u201cMa\u00e7\u00e3 Dourada\u201d, os paramilitares e o DOPS<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">Em seus primeiros anos no DOPS, Bonchristiano se especializou em infiltra\u00e7\u00f5es em movimentos sindicais, mas a partir de 1968 os estudantes se tornaram prioridade. \u201cQuem faz revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 estudante, oper\u00e1rio faz revolu\u00e7\u00e3o na R\u00fassia\u201d, costumava dizer.<\/p>\n<p class=\"p1\">Uma das opera\u00e7\u00f5es das quais mais se orgulha, que o levou \u00e0s p\u00e1ginas de revistas e jornais, foi o desmantelamento do Congresso da Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes em Ibi\u00fana, em 12 de outubro de 1968, comandado por ele. \u201cPrendi 1263 estudantes sem disparar um tiro\u201d, diz \u2013 embora os policiais do DOPS e da For\u00e7a P\u00fablica de Sorocaba tenham comprovadamente anunciado sua chegada com rajadas de metralhadora para o ar. \u201cColoquei a garotada em 100 \u00f4nibus cedidos pela (via\u00e7\u00e3o) Cometa e levei todo mundo para o DOPS. Separei os l\u00edderes e liberei o resto para ir para casa. N\u00e3o t\u00ednhamos vontade de mat\u00e1-los, eram estudantes\u201d, ironiza.<\/p>\n<p class=\"p1\">Entre os 11 l\u00edderes que Bonchristiano mandou para o Forte de Itaipu, em Santos, est\u00e3o os ex-ministros Franklin Martins e Jos\u00e9 Dirceu, e o l\u00edder estudantil Luiz Travassos, j\u00e1 falecido.<\/p>\n<p class=\"p1\">\u201cEu sabia tudo o que o Dirceu fazia porque ele era metido a gal\u00e3 e eu coloquei uma agente nossa para seduzi-lo\u201d, gaba-se o delegado. \u201cEla era muito bonita, a Ma\u00e7\u00e3 Dourada, e me contava todos os passos dele\u201d, diz o delegado. A \u201cestudante\u201d Helo\u00edsa Helena Magalh\u00e3es, uma das 40 mo\u00e7as contratadas pelo DOPS para esse tipo de servi\u00e7o, segundo ele, chegou a ser secret\u00e1ria de Dirceu na UNE.<\/p>\n<p class=\"p1\">Dias antes, havia acontecido o famoso embate entre estudantes de direita reunidos no Mackenzie e estudantes da Faculdade de Filosofia da USP, na rua Maria Antonia, base de resist\u00eancia contra a ditadura. Pelo lado da direita, os conflitos foram publicamente liderados por Jo\u00e3o Marcos Flaquer, fundador do CCC, organiza\u00e7\u00e3o paramilitar idealizada por Lu\u00eds Antonio Gama e Silva, o jurista que redigiu o AI-5 ap\u00f3s se afastar da reitoria da USP para assumir o Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a de Costa e Silva.<\/p>\n<p class=\"p1\">Flaquer n\u00e3o era do Mackenzie \u2013 estava no \u00faltimo ano de Direito na USP \u2013 e dividia o comando dos combates com Raul Nogueira de Lima, o Raul Careca, \u201ctira\u201d do DOPS, subordinado a Bonchristiano. Oficialmente, a pol\u00edcia s\u00f3 entrou no campus no segundo dia de conflitos, depois que um tiro, atribu\u00eddo a um membro do CCC, Ricardo Osni, atingiu um estudante secundarista. Mas, segundo Bonchristiano, havia outras for\u00e7as por tr\u00e1s dos conflitos:<\/p>\n<p class=\"p1\">\u201cFoi o Jo\u00e3o Marcos que fundou o CCC e salvou os estudantes de passarem todos para o comunismo, por isso os americanos tamb\u00e9m gostavam dele\u201d, diz o ex-delegado. \u201cEle tinha uma capacidade fabulosa, era forte demais, um cara fora de s\u00e9rie, muito meu amigo. Eu o conhecia desde o segundo ano da faculdade, ele queria ser delegado mas a fam\u00edlia dele era muito rica e n\u00e3o o queria metido com pol\u00edcia, ent\u00e3o ele vinha para o DOPS comigo. Ele dirigia toda essa parte de estudantes, infiltrava gente entre os esquerdistas. Se tinha alguma coisa que interessava ao DOPS, ele fazia. Mas s\u00f3 com minha anu\u00eancia\u201d, gaba-se o ex-delegado, que diz participado do planejamento do conflito.<\/p>\n<p class=\"p1\">O CCC come\u00e7ou com cerca de 400 membros e chegou a reunir 5 mil homens \u2013 boa parte deles militares e policiais. Andavam armados, espancavam estudantes e artistas que se opunham \u00e0 ditadura e seus atentados mataram pelo menos duas pessoas.<\/p>\n<p class=\"p1\">Jo\u00e3o Marcos Flaquer, Ricardo Osni, Jo\u00e3o Parisi Filho e Jos\u00e9 Parisi, \u201cestudantes\u201d do CCC, eram colaboradores do DOI-CODI e constam da lista de torturadores do Brasil Nunca Mais.<\/p>\n<p class=\"p1\">Os dois primeiros, bem como o mentor Gama e Silva, tamb\u00e9m participavam de encontros que reuniam policiais da CIA e do DOPS. \u201cA especialidade da CIA era fomentar organiza\u00e7\u00f5es paramilitares como o CCC. Acho bem poss\u00edvel que eles recebessem, al\u00e9m de apoio, dinheiro\u201d, diz a soci\u00f3loga Martha Huggins, da Tulane University, New Orleans, pesquisadora de programas de treinamento de policiais estrangeiros pela CIA.<\/p>\n<p class=\"p2\"><strong>Afinidades eletivas: o DOPS e a CIA<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">Bacharel de Direito pela PUC-SP, filho de uma farmac\u00eautica e um banc\u00e1rio, Jos\u00e9 Paulo Bonchristiano n\u00e3o entrou na pol\u00edcia pol\u00edtica por acaso. Ele e a turma de amigos da faculdade \u2013 seis deles futuros delegados do DOPS \u2013 eram anticomunistas viscerais e cat\u00f3licos conservadores, e representavam a direita no centro acad\u00eamico 22 de agosto.<\/p>\n<p class=\"p1\">Esse perfil agradava ao experiente delegado Benedito de Carvalho Veras, que os recrutou em 1957 quando cursavam o \u00faltimo ano de Direito e faziam est\u00e1gio na pol\u00edcia. Veras, que se tornaria secret\u00e1rio de seguran\u00e7a do governador J\u00e2nio Quadros no ano seguinte, estava \u00e0 procura de quadros para modernizar a pol\u00edcia, sob orienta\u00e7\u00e3o do Programa do Ponto IV \u2013 idealizado pelo presidente americano, Harry Truman, com o objetivo de prevenir a \u201cinfiltra\u00e7\u00e3o comunista\u201d. Isso se traduzia na combina\u00e7\u00e3o de ajuda econ\u00f4mica e treinamento das for\u00e7as policiais dos pa\u00edses da regi\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\">A inten\u00e7\u00e3o era \u201cprofissionalizar\u201d a pol\u00edcia brasileira \u2013 sobretudo os que lidavam com crimes pol\u00edticos e sociais \u2013 para que barrassem o comunismo sob qualquer governo.<\/p>\n<p class=\"p1\">No mesmo ano em que Veras assumia a secretaria de seguran\u00e7a e nomeava Bonchristiano como delegado substituto de pol\u00edcia, uma deputada (Concei\u00e7\u00e3o da Costa Neves, do PTB, que fazia oposi\u00e7\u00e3o ao ent\u00e3o governador J\u00e2nio Quadros) denunciava publicamente ter sido v\u00edtima de um grampo telef\u00f4nico. \u201cFoi o primeiro grampo que se tem not\u00edcia em S\u00e3o Paulo\u201d, conta o ex-delegado, que conheceu de perto o autor da \u201cinova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica\u201d, o escriv\u00e3o Armando Gomide, futuro agente do o Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es (SNI). Gomide havia aprendido o \u201cgrampo\u201d com os instrutores do Ponto IV, que tamb\u00e9m forneceram equipamentos para melhorar a qualidade das grava\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"p1\">Em 1962, o programa passou a ser dirigido pelo OPS \u2013 Office of Public Safety \u2013 uma \u201cc\u00e9lula da CIA incrustrada dentro da AID (Agency for International Development, no Brasil, mais conhecida como USAID)\u201d, nas palavras da professora Martha Huggins.<\/p>\n<p class=\"p1\">Al\u00e9m de treinar 100 mil policiais no Brasil, a OPS-CIA selecionava policiais e oficiais militares para estudar em suas escolas no Panam\u00e1 (1962-1964); e nos Estados Unidos, depois que a Academia Internacional de Pol\u00edcia (IPA) foi inaugurada em 1963 em Washington, funcionando at\u00e9 1975. No Brasil, o OPS ficou at\u00e9 1972, quando o Congresso americano come\u00e7ou a investigar as den\u00fancias de que o programa patrocinava aulas de tortura.<\/p>\n<p class=\"p1\">A IPA foi um das \u201cescolas\u201d nos Estados Unidos que recebeu Bonchristiano antes mesmo do golpe militar. Dois anos antes \u2013 logo depois de ser aprovado no concurso para delegado de 5\u00aa classe, o in\u00edcio da carreira, ele j\u00e1 frequentava a casa do diretor DOPS Ribeiro de Andrade, no Jardim Lusit\u00e2nia, em S\u00e3o Paulo. \u201cEle estava sempre de portas abertas para n\u00f3s, fic\u00e1vamos l\u00e1 conspirando\u201d, ironiza.<\/p>\n<p class=\"p1\">Foi ali que Bonchristiano conheceu o policial americano Peter Costello, que veio para o Brasil em 1962 como instrutor da OPS depois de treinar 2.500 homens em t\u00e9cnicas de controle de dist\u00farbios na Cor\u00e9ia. \u201cEra um sujeito austero, falava portugu\u00eas e entendia de pol\u00edcia, deu curso de algemas, tiro r\u00e1pido e outros para os policiais do DOPS, conta, completando: \u201cAlguns meninos do CCC tamb\u00e9m participaram\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">Antes de 1964 os delegados do DOPS j\u00e1 contavam com a ajuda dos americanos para identificar os \u201ccomunistas\u201d, muitos deles presos logo depois do golpe. \u201cA ordem que a gente tinha desde o come\u00e7o era identificar e prender todos os comunistas. Quer\u00edamos acabar com o Partido Comunista\u201d, diz Bonchristiano.<\/p>\n<p class=\"p1\">Para contribuir com essa miss\u00e3o, \u201co Ponto IV nos contemplou com fotografias dos frequentadores (brasileiros) dos cursos de guerrilha na China\u201d, relatou Renato d\u2019Andrea, um dos delegados que foram da turma de Bonchristiano na PUC, ao jornalista Percival de Souza.<\/p>\n<p class=\"p1\">Na primeira opera\u00e7\u00e3o importante que Bonchristiano realizou no DOPS, em abril de 1964, foi a vez de retribuir, entregando aos americanos as 19 cadernetas apreendidas na casa do l\u00edder comunista Luiz Carlos Prestes. As cadernetas foram xerocadas nos Estados Unidos (aqui ainda n\u00e3o existia o xerox) e retornaram 15 dias depois para o Brasil, servindo de base para a pris\u00e3o de diversos militantes comunistas.<\/p>\n<p class=\"p1\">S\u00f3 sobraram as c\u00f3pias das cadernetas de Prestes, hoje nos arquivos do DOPS \u2013 os originais, segundo o \u201cdoutor\u201d Paulo, desapareceram. Por aqui as cadernetas serviram de base a um dos maiores IPMs da primeira fase da ditadura, e foram usadas como justificativa para a pris\u00e3o de diversos militantes comunistas como Carlos Marighella, que o pr\u00f3prio Bonchristiano foi encarregado de conduzir a S\u00e3o Paulo, depois que ele havia sido preso e baleado em um cinema no Rio, em 1964. Solto em 1965, Marighella foi assassinado em uma emboscada de policiais do DOPS em 1969.<\/p>\n<p class=\"p1\">\u201c\u00c9 uma bobagem danada dizer que a CIA mandava no DOPS, que n\u00f3s \u00e9ramos agentes da CIA, n\u00e3o era nada disso, n\u00f3s \u00e9ramos delegados do DOPS\u201d, resmunga o doutor Paulo. \u201cA Am\u00e9rica do Sul sempre foi o quintal dos Estados Unidos, e eles olhavam muito para n\u00f3s, tinham medo do Brasil se tornar comunista. E notaram que tinha um departamento de pol\u00edcia em S\u00e3o Paulo que trabalhava firme nisso. Porque o DOPS de S\u00e3o Paulo fazia todos os levantamentos que conduzissem a algum elemento do Partido Comunista em todo o Brasil, na Am\u00e9rica Latina inteira\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\"><strong>Mr. Dops e Mr. Bond<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">\u201cDepois que o presidente Truman criou a CIA, era a CIA que acompanhava o movimento dos subversivos\u201d, continua. \u201cEnt\u00e3o trabalh\u00e1vamos juntos, viaj\u00e1vamos juntos em muitos casos, mas nossas reuni\u00f5es eram fora do DOPS, na happy hour de bares de hot\u00e9is como o Jandaia e o Jaragu\u00e1, no centro de S\u00e3o Paulo. O Fleury tamb\u00e9m ia, o Flaquer, o Gama e Silva e at\u00e9 o Carlos Lacerda (ex-governador do Rio, que conspirou pelo golpe e acabou sendo cassado em 1968). O Niles Bond era chefe l\u00e1 deles, sujeito bacana, conhecia bem o Brasil, e gostava muito de mim. Me chamava de Mr. Dops, porque eu sempre o atendia em tudo que precisava e era ele que me mandava para Langley\u201d, frisa mais uma vez, mostrando uma foto sua com trajes de George Washington ao lado de um colega fantasiado de soldado federalista, tirada durante uma de suas estadas em Washington (FOTO).<\/p>\n<p class=\"p1\">\u201cN\u00e3o lembro quando foi tirada porque estive oito vezes em cursos de treinamento nos Estados Unidos (entre 1963 e 1970)\u201d, diz ele. \u201cFiz cursos t\u00e9cnicos, de pol\u00edgrafo, t\u00e9cnicas de intelig\u00eancia, infiltra\u00e7\u00e3o. E sobre o comunismo tamb\u00e9m, eles tinham verdadeira obsess\u00e3o. Sa\u00ed de l\u00e1 convencido de que eles, sim, s\u00e3o duros, fazem o que for preciso para garantir seus princ\u00edpios\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">Entre 1959 e 1969, Niles W. Bond foi adido da embaixada no Rio e c\u00f4nsul geral em S\u00e3o Paulo, segundo seu curr\u00edculo na Association for Diplomatic Studies and Training, que tamb\u00e9m aponta a liga\u00e7\u00e3o com a CIA desde 1956, quando era assessor pol\u00edtico da embaixada italiana.<\/p>\n<p class=\"p1\">Langley, frequentemente usado como sin\u00f4nimo de CIA nos Estados Unidos, \u00e9 o nome dos arredores da pequena cidade de McLean, na Virginia, onde desde o in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960 ficam os \u201cheadquarters\u201d da ag\u00eancia de intelig\u00eancia americana, a alguns quil\u00f4metros de Washington.<\/p>\n<p class=\"p1\">Com o tempo, descobri que quando o doutor Paulo se referia a Langley, significava que estava em treinamento em instala\u00e7\u00f5es na CIA, n\u00e3o apenas na sede, mas \u201cem muitos outros lugares, at\u00e9 na Fl\u00f3rida\u201d, como confirmou depois.<\/p>\n<p class=\"p1\">As informa\u00e7\u00f5es sobre a CIA foram reveladas por doutor Paulo quando o inquiri sobre sua transfer\u00eancia, em 1\u00aa de setembro de 1964, para o Minist\u00e9rio da Guerra, lotado no II Ex\u00e9rcito \u2013 informa\u00e7\u00e3o que obtive checando todas as suas nomea\u00e7\u00f5es, transfer\u00eancias e promo\u00e7\u00f5es no Di\u00e1rio Oficial (seu curr\u00edculo oficial omite essa significativa passagem).<\/p>\n<p class=\"p1\">Ele diz que foi transferido porque havia sido encarregado (com mais tr\u00eas delegados) de montar um plano de estrutura\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal pelo general Riograndino Kruel, irm\u00e3o do comandante do II Ex\u00e9rcito, Amaury Kruel (ambos tamb\u00e9m treinados nos Estados Unidos): \u201cO Edgar Hoover (fundador do FBI) \u00e9 um cara que admiro muito, e os americanos achavam muito importante montar uma pol\u00edcia como essa no Brasil \u2013 o DOPS paulista j\u00e1 atuava como pol\u00edcia federal, mas era subordinado \u00e0 secretaria de seguran\u00e7a estadual, o que atrapalhava nossos movimentos\u201d, explicou.<\/p>\n<p class=\"p1\">At\u00e9 hoje a Pol\u00edcia Federal registra seus agradecimentos \u00e0 \u201crevolu\u00e7\u00e3o de 1964\u201d no site oficial da entidade: \u201cSomente em 1964, com a mudan\u00e7a operada no pensamento pol\u00edtico da Na\u00e7\u00e3o, a id\u00e9ia da cria\u00e7\u00e3o de um Departamento Federal de Seguran\u00e7a P\u00fablica, com capacidade de atua\u00e7\u00e3o em todo o territ\u00f3rio, prosperou e veio a tornar-se realidade\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\"><strong>O capit\u00e3o americano e a guerrilheira<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">\u201cFelizmente aqui no Brasil n\u00e3o fizemos como em outros pa\u00edses, matan\u00e7as. N\u00e3o houve isso. Houve s\u00f3 morte de quem quis enfrentar a pol\u00edcia. Isso em qualquer lugar do mundo. Quando uma guerrilha deles l\u00e1, um aparelho, matou o nosso colega l\u00e1 em Copacabana, o Moreira, o que n\u00f3s tinhamos que fazer? Descobrir os caras e matar tamb\u00e9m\u201d, ri. \u201cPol\u00edcia \u00e9 assim\u201d, avalia o \u201cdoutor\u201d Paulo.<\/p>\n<p class=\"p1\">Dulce de Souza Maia, militante da VPR (Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria) sentiu na carne o peso dessa vingan\u00e7a, quando foi presa na madrugada do dia 25 de janeiro de 1969, enquanto dormia na casa da m\u00e3e.<\/p>\n<p class=\"p1\">Dois dias antes, v\u00e1rios l\u00edderes da VPR tinham sido presos e os repressores j\u00e1 sabiam que ela havia participado de um atentado a bomba no II Ex\u00e9rcito, que matou o sentinela Mario Kozel Filho. Tamb\u00e9m havia sido erroneamente apontada como uma das autoras do atentado que em 1968 matou o capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito americano, Charles Chandler, acusado pelos guerrilheiros de dar aulas de tortura no Brasil a servi\u00e7o da CIA.<\/p>\n<p class=\"p1\">Dulce n\u00e3o sabe dizer se todos que a torturaram no quartel da Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito eram militares, mas sua lembran\u00e7a mais forte \u00e9 a cara redonda do homem que a estuprou, depois de dar choques em sua vagina. \u201cEu aguentei 48 horas\u201d, me disse, por telefone. \u201cDepois acabei dando um endere\u00e7o de um apartamento que eu conhecia porque tinho ido a uma feijoada, n\u00e3o era um aparelho\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">Foi ent\u00e3o levada para o DOPS, metida em uma viatura com uma equipe de policiais dos quais n\u00e3o sabe o nome: \u201cNem lembro das caras, estava quase morta, sei que eles me levaram para a rua Fortunato e apontei o pr\u00e9dio que s\u00f3 reconheci porque tinha parado o meu carro na frente \u2013 eu n\u00e3o sabia que o Jo\u00e3o Leonardo, que inclusive era de outra organiza\u00e7\u00e3o (ALN), morava ali. Lembro s\u00f3 que o vi quando a porta abriu\u201d, lamenta.<\/p>\n<p class=\"p1\">A vers\u00e3o do delegado Bonchristiano sobre o mesmo epis\u00f3dio omite detalhes significativos. \u201cN\u00f3s est\u00e1vamos atr\u00e1s dos caras que mataram o Chandler, coitado, executado na porta da casa dele, no Sumar\u00e9. Em 36 horas, o Cara Feia, um tira excepcional que j\u00e1 morreu, sabia quem tinha feito. A\u00ed, uma menina que n\u00f3s prendemos, nos conta de uma reuni\u00e3o na Rua Fortunato, perto da Santa Casa da Miseric\u00f3rdia. Eu fui com a menina. Mandamos ela tocar a campainha. Peguei o professor que era o dono do apartamento, prendemos. \u201cVoltamos para o DOPS, eu, Tiroteio, Cara Feia e a menina e deixei dois tiras, o Raul Careca e o Nicolino Caveira, para ver se acontecia mais alguma coisa. Telefone. \u2018Doutor, o senhor tem que vir aqui, teve um problema\u2019. \u2018Muito problema?\u2019 \u2018Demais\u2019, quando \u00e9 demais \u00e9 que houve morte. Quando cheguei l\u00e1, tinha sangue para todo lado. O Raul Careca, que era um \u00f3timo atirador, tinha dado 18 tiros no Marquito (Marco Antonio Br\u00e1s de Carvalho). A\u00ed que eles me contaram o que tinha acontecido: esse que matou o Chandler tinha chegado e quando abriu a porta, falou assim: \u201cQuem s\u00e3o voc\u00eas?\u201d E os tiras: \u201cN\u00f3s somos da fam\u00edlia\u201d. \u201cAh \u00e9?\u201d E puxou a arma. Os tiras revidaram e ele morreu\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">Bonchristiano jamais mencionou que a \u201cmenina\u201d estava quebrada pela tortura. Mas corrigiu a vers\u00e3o que consta do depoimento de Raul Careca em um processo movido pela fam\u00edlia de Marquito. Ali ele dizia que foram dois os tiros disparados.<\/p>\n<p class=\"p2\"><strong>Mano nera<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">\u201cO caso Chandler gerou consterna\u00e7\u00e3o, mas, sobretudo preocupa\u00e7\u00e3o entre o grupo de assessores policiais, pois estes poderiam tornar-se alvo tamb\u00e9m. Participaram das investiga\u00e7\u00f5es e ajudaram a identificar as armas utilizadas, enviando o material para estudo em laborat\u00f3rios de criminal\u00edstica do FBI\u201d, relata o professor Rodrigo Patto, da UFMG, que estuda a rela\u00e7\u00e3o entre a USAID e a CIA.<\/p>\n<p class=\"p1\">Patto, por\u00e9m, n\u00e3o sabe dizer se Chandler era de fato da CIA como acreditavam os militantes da ALN e da VPR que decidiram mat\u00e1-lo. \u201cEle havia estado no Vietn\u00e3, e estava oficialmente em viagem de estudos no Brasil, diz.<\/p>\n<p class=\"p1\">Em seguida ao assassinato de Chandler, um ex-instrutor americano de Bonchristiano, Peter Ellena, veio para o Brasil para acompanhar as investiga\u00e7\u00f5es, o que melindrou o pessoal do DOPS. \u201cDemos para ele a mano nera (s\u00edmbolo da m\u00e1fia), a m\u00e3o negra ensaguentada\u201d, diverte-se, contando que os policiais simularam um bilhete de amea\u00e7as dos guerrilheiros para assustar o \u201cgringo\u201d. \u201cEle ficou morrendo de medo\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">O jornalista Percival de Souza relata que o DOPS produzia relat\u00f3rios confidenciais di\u00e1rios sobre o caso para o consulado americano, e que descobriram o fio da meada que os levaria a Marquito, \u201cmenos de um m\u00eas depois do fuzilamento\u201d, registrando em seguida a vers\u00e3o que Bonchristiano continua a defender: um acidente ocorrido na BR-116 no dia 8 de novembro de 1968, na altura de Vassouras (RJ), teria matado Catarina e Jo\u00e3o Antonio Abi-E\u00e7ab que estava em um fusca.<\/p>\n<p class=\"p1\">Ao socorrer o casal, a pol\u00edcia teria encontrado uma metralhadora INA calibre 35, como a que matou Chandler. O DOPS foi avisado, e Bonchristiano viajou imediatamente a Vassouras. L\u00e1 o delegado teria descoberto que o casal, militante da ALN, teria ido ao Rio de Janeiro para encontrar Marighella, e que a metralhadora era a mesma que matou Chandler. Tinha encontrado a arma do crime.<\/p>\n<p class=\"p1\">O \u201cteatrinho\u201d, como os policiais chamavam as vers\u00f5es criadas para encobrir seus crimes,<\/p>\n<p class=\"p1\">foi desmontado a partir do relato de um ex-soldado do Ex\u00e9rcito ao jornalista Caco Barcellos, em 2001, em que reconheceu Catarina \u201ccomo presa, torturada e morta em um s\u00edtio em S\u00e3o Jo\u00e3o do Meriti (munic\u00edpio vizinho a Vassouras)\u201d e afirmou que os \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o, ap\u00f3s a execu\u00e7\u00e3o, teriam forjado o acidente.<\/p>\n<p class=\"p1\">Mais uma vez a \u201cefic\u00eancia\u201d do DOPS veio da tortura. Bonchristiano, que insistiu at\u00e9 o fim na desmentida vers\u00e3o, diz que foi cumprimentado por Niles Bond pelo feito. \u201cO Chandler era um dos nossos, frequentava nossas reuni\u00f5es, o Bond sabia que eu ia resolver o caso\u201d, gaba-se.<\/p>\n<p class=\"p2\">Esticadinha no ch\u00e3o<\/p>\n<p class=\"p1\">Em 1983, os ventos democratas extinguiram o DOPS e trouxeram um novo delegado geral, Maur\u00edcio Henrique Pereira Guimar\u00e3es, que despachou Bonchristiano para uma obscura se\u00e7\u00e3o da Secretaria de Justi\u00e7a, encarregada das vi\u00favas dos soldados mortos na II Guerra. \u201cPreferi me aposentar, hoje n\u00e3o acredito mais em nada. Fiz o que o presidente queria, os militares queriam, e n\u00e3o ganhei nem aquelas medalhinhas que eles davam para todo mundo\u201d, desdenha, referindo-se \u00e0 Medalha do Pacificador, entregue pelos militares a torturadores famosos.<\/p>\n<p class=\"p1\">Mas o Mr. Dops n\u00e3o tem muito do que reclamar. Em seus primeiros oito anos de DOPS subiu da 5\u00aa para a 1\u00aa classe, como s\u00f3 acontecia aos que participavam da linha de frente da repress\u00e3o. Ficou um tempo na \u201cgeladeira\u201d quando um desafeto, o coronel Erasmo Dias, assumiu a secretaria de seguran\u00e7a (1974-1979). Mas conseguiu depois a promo\u00e7\u00e3o a delegado de classe especial e se aposentou no topo da carreira, em 1984.<\/p>\n<p class=\"p1\">A fam\u00edlia, por\u00e9m, ainda sofre com o passado do delegado. A filha, uma artista pl\u00e1stica, escolheu o pr\u00e9dio do antigo DOPS como cen\u00e1rio de uma performance acad\u00eamica. No Facebook, comenta que o pai ficou \u201cdo lado dos algozes da ditadura\u201d, enquanto uma de suas filhas \u2013 neta de Bonchristiano \u2013 faz campanha pela Comiss\u00e3o da Verdade em seu perfil.<\/p>\n<p class=\"p1\">Dona Vera sente a dist\u00e2ncia dos netos e lembra com amargura do tempo em que o marido trabalhava no DOPS. Via-se sozinha dias a fio com tr\u00eas filhos pequenos: \u201cEu n\u00e3o podia falar com ele nem por telefone, ligava l\u00e1 e me diziam \u2018a senhora fica tranquila que ele est\u00e1 bem\u2019\u201d, conta. \u201cE eu, apavorada com as amea\u00e7as que a gente recebia por telefone, meus filhos iam escoltados para a escola\u201d, diz.<\/p>\n<p class=\"p1\">Ela traz ainda outra lembran\u00e7a: \u201cUma vez, minha filha era pequenininha, e quando o Camp\u00e3o, que trabalhava para o Z\u00e9 Paulo, veio busc\u00e1-la para escola, ela desatou a chorar ao ver aquele hom\u00e3o, parecia um \u00edndio, vestido de amarelo da cabe\u00e7a aos p\u00e9s\u201d, diz.<\/p>\n<p class=\"p1\">\u201cEra o meu motorista no DOPS, depois veio me pedir licen\u00e7a para trabalhar com o Fleury, \u2018l\u00e1 a gente ganha mais, n\u00e9 doutor?\u2019 J\u00e1 morreu, coitado\u201d, interv\u00e9m Bonchristiano.<\/p>\n<p class=\"p1\">Jos\u00e9 Campos Correia Filho, o Camp\u00e3o, era um conhecido torturador \u2013 dos mais cru\u00e9is \u2013 segundo Percival de Souza, e membro do Esquadr\u00e3o da Morte. Al\u00e9m motorista do \u201cdoutor\u201d, ele conduzia cad\u00e1veres levados do DOPS na calada da noite para desov\u00e1-los nos cemit\u00e9rios de periferia, segundo o pr\u00f3prio Bonchristiano.<\/p>\n<p class=\"p1\">No final de novembro de 2011, o governador Geraldo Alckmin acatou o lobby da Associa\u00e7\u00e3o de Delegados de S\u00e3o Paulo (cujo patrono \u00e9 o falecido delegado Antonio Ribeiro de Andrade, o primeiro chefe de dr. Paulo no DOPS) e mandou para a Assembl\u00e9ia Legislativa um projeto de lei que equipara as carreiras de delegados de pol\u00edcia, procuradores e promotores, sob o argumento de que a pol\u00edcia civil \u00e9 judici\u00e1ria, e portanto deve ser ligada ao Poder Judici\u00e1rio e n\u00e3o \u00e0 Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica.<\/p>\n<p class=\"p1\">O projeto, que o \u201cdoutor\u201d Paulo muitas vezes defendeu em nossas entrevistas, faria sua aposentadoria pular dos atuais 11 mil reais para cerca de 20 mil reais, de acordo com os c\u00e1lculos que ele mesmo fez.<\/p>\n<p class=\"p1\">A partir do momento em que o acalentado projeto foi enviado para a Assembleia, o ex-delegado resolveu encerrar nossas conversas.<\/p>\n<p class=\"p1\">Retornei uma \u00faltima vez a seu apartamento, em janeiro deste ano, para checar alguns dados e ele deixou escapar o trecho de uma conversa que tive com um dos meus filhos, por celular. Estava disposto a me assustar.<\/p>\n<p class=\"p1\">Na despedida, preveniu-me mais uma vez sobre o \u201cperigo\u201d que \u201cn\u00f3s dois\u201d estar\u00edamos correndo se eu levasse adiante qualquer investiga\u00e7\u00e3o sobre a localiza\u00e7\u00e3o dos corpos desaparecidos, advert\u00eancia que fez desde a primeira entrevista. Perdi a paci\u00eancia: \u201cMas, doutor, quase todo mundo que o senhor conheceu naquela \u00e9poca j\u00e1 morreu! N\u00f3s vivemos em uma democracia, ningu\u00e9m vai matar assim um jornalista ou um delegado aposentado\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">\u201cIsso \u00e9 o que voc\u00ea pensa\u201d, retrucou. \u201cOs que hoje ocupam os cargos daqueles, antigos, tamb\u00e9m assumiram o compromisso de proteger o pacto\u201d, afirmou. \u201cN\u00e3o tem isso de democracia, minha cara jornalista, eles fazem o que precisa ser feito. Se algu\u00e9m \u00e9 atropelado ou baleado no tr\u00e2nsito, \u00e9 uma coisa que acontece, em S\u00e3o Paulo. N\u00e3o quero ver voc\u00ea esticadinha no ch\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">Quando entrei no taxi para ir embora, refletindo sobre quem afinal estaria amea\u00e7ando quem, lembrei de uma ocasi\u00e3o em que nossas rela\u00e7\u00f5es eram mais amistosas e pude lhe perguntar por que \u201celes\u201d tinham enterrado os corpos, em vez de atir\u00e1-los ao mar ou incendi\u00e1-los para apagar definitivamente as provas.<\/p>\n<p class=\"p1\">De p\u00e9, na sala decorada com os estofados confort\u00e1veis, rodeados por mesinhas enfeitadas com fotos de fam\u00edlia e bibel\u00f4s de inspira\u00e7\u00e3o religiosa, Bonchristiano reagiu: \u201cN\u00f3s somos cat\u00f3licos, p\u00f4!\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">Fonte &#8211;\u00a0Ag\u00eancia P\u00fablica<\/p>\n<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rep\u00f3rter da Ag\u00eancia Publica passou mais de 15 horas entrevistando um dos poucos delegados do DOPS ainda vivos, entre os que atuaram nos anos mais duros da ditadura. 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