{"id":4405,"date":"2013-04-01T01:58:37","date_gmt":"2013-04-01T01:58:37","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/04\/01\/filhos-qroubadosq-da-ditadura-argentina-ainda-lutam-com-o-passado\/"},"modified":"2013-04-01T01:58:37","modified_gmt":"2013-04-01T01:58:37","slug":"filhos-qroubadosq-da-ditadura-argentina-ainda-lutam-com-o-passado","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/04\/01\/filhos-qroubadosq-da-ditadura-argentina-ainda-lutam-com-o-passado\/","title":{"rendered":"Filhos &#8220;roubados&#8221; da ditadura argentina ainda lutam com o passado"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>Mesmo 30 anos ap\u00f3s seu fim, regime militar deixa feridas na sociedade argentina. Entre as v\u00edtimas, filhos de presos pol\u00edticos que cresceram em fam\u00edlias de militares e, s\u00f3 agora, encontram a verdadeira identidade.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quando seus filhos nasceram \u2013 primeiro uma menina, depois um menino \u2013 Guillermo P\u00e9rez Roisinblit foi confrontado com seu pr\u00f3prio passado. Ver os rec\u00e9m-nascidos, lembra o argentino de 34 anos, fez com que ele percebesse como era indefeso quando foi levado pelos militares. &#8220;Chorei porque n\u00e3o sei se meu pai teve a sorte de me segurar em seus bra\u00e7os&#8221;, conta. At\u00e9 hoje, ele n\u00e3o sabe o paradeiro exato do pai e da m\u00e3e.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Guillermo \u00e9 um dos cerca de 500 argentinos que nasceram nas pris\u00f5es da ditadura militar (1976-83). Muitos dos pais dessas crian\u00e7as teriam morrido nos chamados &#8220;voos da morte&#8221;, em que presos pol\u00edticos eram jogados \u2013 muitas vezes ainda vivos \u2013 no mar ou no Rio da Prata.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os militares tentaram apagar qualquer vest\u00edgio do paradeiro e da ascend\u00eancia dos beb\u00eas. Mas, de alguma forma, subestimaram a incessante busca da fam\u00edlia das v\u00edtimas pelos filhos e netos desaparecidos. Essa \u00e9, at\u00e9 hoje, a batalha de Rosa Tarlovsky de Roisinblit, av\u00f3 de Guillermo e vice-presidente da associa\u00e7\u00e3o Av\u00f3s da Pra\u00e7a de Maio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Os militares provavelmente nunca imaginaram que durar\u00edamos tanto tempo. At\u00e9 agora, foram 35 anos&#8221;, diz Rosa, em tom firme e orgulhoso. &#8220;Eles diziam: deixe essas velhas tomarem as ruas. Em algumas semanas, elas desistem e v\u00e3o para casa chorar&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Durante a ditadura, o grupo desafiava a amea\u00e7a dos militares com reuni\u00f5es secretas. Em caf\u00e9s e pra\u00e7as, elas bebiam mate e trocavam folhas de papel, conversando em c\u00f3digo sobre os filhos, netos e seus perseguidores. E, ap\u00f3s a redemocratiza\u00e7\u00e3o, mantiveram uma oposi\u00e7\u00e3o veemente \u00e0s leis de anistia implementadas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em junho do ano passado, ap\u00f3s 14 anos de processo, foram condenados os ex-ditadores Jorge Videla e Reynaldo Bignone pelo roubo sistem\u00e1tico de crian\u00e7as. Nos \u00faltimos anos do julgamento, os &#8220;pais&#8221; das crian\u00e7as roubadas sentaram no banco dos r\u00e9us \u2013 frequentemente casais dos c\u00edrculos militares, que cuidaram dos beb\u00eas como seus pr\u00f3prios filhos sem chamar a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Irm\u00e3o perdido<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Foi a irm\u00e3 mais velha de Guillermo, Marina, que atendeu o telefone quando, em abril de 2000, uma liga\u00e7\u00e3o an\u00f4nima ao escrit\u00f3rio da av\u00f3 dela relatou o nome de uma crian\u00e7a possivelmente roubada. A crian\u00e7a, soube-se depois, j\u00e1 tinha ent\u00e3o 21 anos, chamava-se Guillermo e apresentava not\u00e1vel semelhan\u00e7a com as fotos dos pais desaparecidos de Marina. Um teste de DNA com material do banco de dados dos genes dos av\u00f3s confirmou a suspeita: os dois eram irm\u00e3os. Guillermo passou ent\u00e3o a tentar recuperar os &#8220;anos perdidos&#8221; junto \u00e0 fam\u00edlia biol\u00f3gica.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Assim, come\u00e7ou o julgamento das duas pessoas que ele, durante sua vida inteira, chamou de pais. O homem que o criou como filho era da For\u00e7a A\u00e9rea \u2013 uma pessoa violenta que abandonou a mulher, como conta Guillermo. Por\u00e9m, seu sentimento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e3e de cria\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ela foi a pessoa que cuidou de mim quando eu estava doente, que cozinhava para mim, que me criou. Sinto compaix\u00e3o por essa mulher e ela foi acusada pela minha pr\u00f3pria av\u00f3 em um tribunal \u2013 por isso me afastei por um tempo da minha fam\u00edlia biol\u00f3gica&#8221;, explica.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O casal foi condenado a sete anos de pris\u00e3o, uma senten\u00e7a branda em compara\u00e7\u00e3o a recentes condena\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>O papel da Igreja<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mais de cem crian\u00e7as desaparecidas foram localizadas depois que as Av\u00f3s da Pra\u00e7a de Maio come\u00e7aram a busca: atrav\u00e9s de den\u00fancias an\u00f4nimas, como no caso de Guillermo, ou porque as pessoas questionavam sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria e procuravam a associa\u00e7\u00e3o. O movimento das v\u00edtimas e suas demandas em esclarecer os crimes no per\u00edodo da ditadura s\u00e3o particularmente fortes e assertivos no pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Outro ponto importante no caso \u00e9 que a Argentina \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o negativa: &#8220;Em muitos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, a Igreja Cat\u00f3lica defendeu ativamente a prote\u00e7\u00e3o dos direitos humanos, protegendo pol\u00edticos de oposi\u00e7\u00e3o. Na Argentina, alguns setores da Igreja cooperaram abertamente com os militares&#8221;, diz Detlef Nolte, do Instituto GIGA de Hamburgo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os rastros das crian\u00e7as desaparecidas levam a ambientes relacionados \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica. O tribunal criminal de Buenos Aires investigou de perto o Movimento Familiar Crist\u00e3o (MFC), uma organiza\u00e7\u00e3o relacionada \u00e0 Igreja suspeita de fazer a conex\u00e3o entre os beb\u00eas nascidos nos pres\u00eddios e as fam\u00edlias de militares.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Guillermo n\u00e3o sabe ao certo o que aconteceu logo ap\u00f3s seu nascimento: &#8220;Eu s\u00f3 sei que fui aceito pelo meu suposto pai e levado por sua mulher&#8221;, conta. Ele ainda tem quest\u00f5es a serem resolvidas, como, por exemplo, as raz\u00f5es que o levaram a se distanciar de sua m\u00e3e de cria\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o julgamento, que ele descreve como uma &#8220;grande mentira&#8221;. Agora, Guillermo tamb\u00e9m tem seus pr\u00f3prios filhos \u2013 os primeiros membros de sua fam\u00edlia que entraram em sua vida de forma convencional.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Deutsche Welle<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mesmo 30 anos ap\u00f3s seu fim, regime militar deixa feridas na sociedade argentina. Entre as v\u00edtimas, filhos de presos pol\u00edticos que cresceram em fam\u00edlias de militares e, s\u00f3 agora, encontram a verdadeira identidade.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4405"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4405"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4405\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4405"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4405"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4405"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}