{"id":4463,"date":"2013-04-01T17:59:37","date_gmt":"2013-04-01T17:59:37","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/04\/01\/quase-50-anos-do-golpe-de-1964-nada-a-comemorar\/"},"modified":"2013-04-01T17:59:37","modified_gmt":"2013-04-01T17:59:37","slug":"quase-50-anos-do-golpe-de-1964-nada-a-comemorar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/04\/01\/quase-50-anos-do-golpe-de-1964-nada-a-comemorar\/","title":{"rendered":"Quase 50 anos do Golpe de 1964: nada a comemorar!"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"text-align: justify; line-height: 1.3em;\">Aos que partiram sem poder dizer adeus.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" \/>Na data em que o imagin\u00e1rio popular consagra como o \u201cdia da mentira\u201d, 49 anos atr\u00e1s era rompida a legalidade democr\u00e1tica institu\u00edda no Brasil com a Constitui\u00e7\u00e3o de 1946. Hoje, a quase totalidade das entidades da sociedade civil (de empres\u00e1rios industriais e rurais, de banqueiros, de grupos religiosos e culturais, da grande imprensa etc.) que conspirou, endossou e promoveu a derrubada do governo democr\u00e1tico de Jo\u00e3o Goulart (1961-1964) n\u00e3o festejar\u00e1 o golpe civil-militar de 1964. Nestes dias, na grande imprensa brasileira que apoiou o golpe de 1964 (e, por alguns anos, atuou como aparelho ideol\u00f3gico da ditadura militar) \u2013 entre eles, os jornais O Globo, O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, Jornal do Brasil \u2013, nenhum editorial ser\u00e1 publicado para render homenagem \u00e0 a\u00e7\u00e3o dos militares golpistas. (Nem mesmo, a Folha de S. Paulo se atrever\u00e1 a afirmar, como fez em seu editorial de 17\/02\/2009, que o regime de 1964 \u2013 comparado com as ditaduras da Argentina e do Chile \u2013 teria sido uma \u201cditabranda\u201d&#8230;)  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">Provavelmente, apenas alguns reduzidos setores das For\u00e7as Armadas \u2013 em especial, os oficiais da reserva \u2013, promover\u00e3o, em recintos fechados, encontros para lembrar a \u201cRevolu\u00e7\u00e3o redentora\u201d de 31 de mar\u00e7o de 1964. O fato \u00e9 que nem mesmo blogueiros porta-vozes da direita civil brasileira \u2013 entre eles, alguns jornalistas de Veja, O Globo, Estad\u00e3o etc. \u2013, evocar\u00e3o essa data como o dia em que a democracia brasileira teria sido salva da \u201ccorrup\u00e7\u00e3o\u201d, da \u201csubvers\u00e3o pol\u00edtica\u201d e da \u201camea\u00e7a comunista\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode ser afirmado que na \u201cguerra de narrativas\u201d sobre o significado e a natureza deste crucial evento da hist\u00f3ria pol\u00edtica brasileira, os \u201cvitoriosos de abril\u201d, gradativamente, tornaram-se os \u201cperdedores\u201d da luta ideol\u00f3gica. Hoje, as representa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e simb\u00f3licas dominantes nos meios editoriais, pol\u00edticos e culturais consagram que 1964 n\u00e3o foi uma Revolu\u00e7\u00e3o, mas um movimento golpista; ou seja, 1964 foi (a) um golpe que impediu a amplia\u00e7\u00e3o da democracia pol\u00edtica brasileira nos anos 1960; (b) um golpe contra as reformas sociais e pol\u00edticas e (c) um golpe contra a politiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e o promissor debate de ideias que, de norte a sul, intensamente ocorria do pa\u00eds no pr\u00e9-1964.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em s\u00edntese, hoje, prevalece a compreens\u00e3o de que nos \u201ctempos de Goulart as classes dominantes (nacionais e internacionais) e seus aparelhos ideol\u00f3gicos e repressivos\u201d \u2013 diante das iniciativas e reivindica\u00e7\u00f5es dos trabalhadores (das zonas rurais e urbanas) e de setores das camadas m\u00e9dias \u2013, alardeavam a \u201csubvers\u00e3o da lei e da ordem\u201d, a \u201cquebra da disciplina e hierarquia\u201d dentro das For\u00e7as Armadas, a \u201ccrise de autoridade\u201d do governo Goulart e, de forma ainda mais dram\u00e1tica, a \u201ccomuniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds\u201d. Convenhamos que, por vezes expressas atrav\u00e9s duma ret\u00f3rica \u201cradical\u201d (\u201creformas na lei ou na marra\u201d, \u201cforca aos gorilas!\u201d etc.), as reivindica\u00e7\u00f5es por mudan\u00e7as socioecon\u00f4micas e as demandas pol\u00edticas da \u00e9poca visavam, fundamentalmente, o alargamento da democracia pol\u00edtica e a realiza\u00e7\u00e3o de reformas no capitalismo brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contra algumas formula\u00e7\u00f5es \u201crevisionistas\u201d que, hoje, insinuam \u201ctend\u00eancias golpistas\u201d por parte do governo Jo\u00e3o Goulart ou das \u201cesquerdas radicais\u201d, devemos enfatizar que quem planejou, articulou e desencadeou o golpe contra a democracia pol\u00edtica foi a alta hierarquia das For\u00e7as Armadas \u2013 incentivada e respaldada pelo empresariado (industrial, rural, financeiro, grande imprensa e empresas multinacionais) \u2013 bem como alguns setores das classes m\u00e9dias brasileiras (entidades e associa\u00e7\u00f5es femininas cat\u00f3licas, de pequenos comerciantes etc.) Est\u00e1 amplamente documentado que, desde 1961 \u2013 antes, pois, da chamada \u201cagita\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201csubvers\u00e3o\u201d das esquerdas \u2013, alguns desses setores come\u00e7aram a se organizar pol\u00edtica e ideologicamente para inviabilizar o governo Jo\u00e3o Goulart. A ampla mobiliza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica pelas reformas sociais e pol\u00edticas, apoiada pelo executivo, teve como efeito a amplia\u00e7\u00e3o da conspira\u00e7\u00e3o civil-militar e o amadurecimento da decis\u00e3o dos golpistas de decretar o fim do regime pol\u00edtico de 1946.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Destruindo as organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e reprimindo os movimentos sociais de esquerda e progressistas, o golpe foi saudado pelas associa\u00e7\u00f5es representativas do conjunto das classes dominantes, pela alta c\u00fapula da Igreja cat\u00f3lica, pelos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o etc. como uma aut\u00eantica \u201cRevolu\u00e7\u00e3o redentora\u201d. Por sua vez, a administra\u00e7\u00e3o norte-americana de Lyndon Johnson (1963-1969) \u2013 que ficou poupada de fornecer o apoio b\u00e9lico e log\u00edstico aos golpistas \u2013, congratulou-se com os militares e civis brasileiros pela rapidez e efic\u00e1cia da \u201ca\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria\u201d. Para satisfa\u00e7\u00e3o do Pent\u00e1gono, da CIA, da Embaixada norte-americana, das empresas multinacionais e do Vaticano, uma \u201cgrandiosa Cuba\u201d ao sul do Equador tinha sido evitada!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora fosse visto positivamente pelos trabalhadores, pelas baixas classes m\u00e9dias e suas entidades pol\u00edticas, o governo Jo\u00e3o Goulart ruiu como um \u201ccastelo de areia\u201d. Dois de seus principais pilares de apoio, como apregoavam os setores nacionalistas, mostraram ser aut\u00eanticas \u201cpe\u00e7as de fic\u00e7\u00e3o\u201d. De um lado, o propalado \u201cdispositivo militar\u201d que seria comandado pelos chamados \u201cgenerais do povo\u201d; de outro, o chamado \u201cquarto poder\u201d que estaria representado pelo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). A rigor, ambos assistiram, passivamente, a queda ingl\u00f3ria de um governo a quem juravam, at\u00e9 24 horas antes, fidelidade at\u00e9 a morte!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desorganizadas e fragmentadas, as entidades progressistas e de esquerda \u2013 muitas delas subordinadas ou tuteladas pelo governo Goulart \u2013 n\u00e3o ofereceram qualquer resist\u00eancia \u00e0 quartelada militar. Sabe-se que, \u00e0s v\u00e9speras de abril, algumas lideran\u00e7as de esquerda afirmavam que os golpistas, caso atrevessem quebrar a ordem constitucional, teriam as \u201ccabe\u00e7as cortadas\u201d. Mas, como mostraram os \u201cduros fatos da vida\u201d, tudo n\u00e3o passava de uma tr\u00e1gica e cortante met\u00e1fora. Com a a\u00e7\u00e3o dos \u201cvitoriosos de abril\u201d, a ret\u00f3rica, no entanto, tornou-se, ap\u00f3s 1\u00ba. de abril, uma cruel realidade para muitos homens e mulheres durante os longos e sombrios 21 anos da ditadura militar. <span style=\"white-space: pre;\"> <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">49 anos depois, nada h\u00e1, pois, a comemorar. O golpe de 1964 foi um infausto acontecimento, pois implicou efeitos perversos e nefastos ao processo de desenvolvimento econ\u00f4mico, pol\u00edtico e cultural do Brasil (que, sabemos, ainda se refletem nos tempos presentes). Decorridos 49 anos do golpe, o conjunto da sociedade brasileira repudia a data; no entanto, os democratas progressistas n\u00e3o podem se contentar com a derrota que os golpistas sofreram no plano ideol\u00f3gico e cultural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste sentido, os progressistas n\u00e3o podem se calar diante da realidade de que o regime democr\u00e1tico vigente no Brasil ainda n\u00e3o fez plena justi\u00e7a \u00e0s v\u00edtimas da ditadura militar; devem, pois, se empenhar com todas suas for\u00e7as e intelig\u00eancia para que a verdade sobre os fatos ocorridos entre 1964 e 1985 seja plenamente conhecida. Tendo em vista que o \u201cdireito \u00e0 justi\u00e7a\u201d e o \u201cdireito \u00e0 verdade\u201d s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es e pressupostos de um regime democr\u00e1tico, n\u00e3o se pode sen\u00e3o concluir que a democracia pol\u00edtica no Brasil contempor\u00e2neo n\u00e3o \u00e9 ainda uma realidade s\u00f3lida e consistente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caio N. de Toledo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Professor aposentado da Unicamp e \u00a0do comit\u00ea editorial do blog marxismo21<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos que partiram sem poder dizer adeus. Na data em que o imagin\u00e1rio popular consagra como o \u201cdia da mentira\u201d, 49 anos atr\u00e1s era rompida a legalidade democr\u00e1tica institu\u00edda no Brasil com a Constitui\u00e7\u00e3o de 1946. 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