{"id":4657,"date":"2013-04-08T12:09:28","date_gmt":"2013-04-08T12:09:28","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/04\/08\/memorias-de-abril-por-mauro-santayana\/"},"modified":"2013-04-08T12:09:28","modified_gmt":"2013-04-08T12:09:28","slug":"memorias-de-abril-por-mauro-santayana","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/04\/08\/memorias-de-abril-por-mauro-santayana\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias de abril, por Mauro Santayana"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>Em longa conversa, em Salvador, h\u00e1 poucos meses, Waldir Pires e eu relembramos alguns companheiros de ex\u00edlio, como Darcy Ribeiro e Leonel Brizola \u2013 al\u00e9m, \u00e9 claro, da personalidade af\u00e1vel e sempre solid\u00e1ria de Jo\u00e3o Goulart. Retorno a esse encontro, agora, diante do comovido protesto de Marcelo Rubens Paiva contra a nomea\u00e7\u00e3o de um desembu\u00e7ado defensor do regime militar para o c\u00edrculo \u00edntimo de poder do governo de S\u00e3o Paulo.   <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Seu pai, Rubens Paiva, que conheci \u00e0 dist\u00e2ncia, deixou-nos a mem\u00f3ria de homem singular, em tempo muito mais rico de car\u00e1ter e de coragem do que o de hoje. Filho de fam\u00edlia pr\u00f3spera de Santos, o adolescente Rubens Paiva se destacou na esquerda do movimento estudantil, na Universidade Mackenzie de S\u00e3o Paulo, tradicionalmente conservadora. Foi ativo militante da campanha em defesa da Petrobr\u00e1s. Formou-se em engenharia em 1954, ano emblem\u00e1tico para o Brasil no acosso contra Vargas &#8211; que o levou ao suic\u00eddio como ato de combate.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Aos 33 anos, em 1962, elegeu-se deputado federal pelo PTB e foi dos mais ativos parlamentares na CPI do IBAD, que investigou a corrup\u00e7\u00e3o de parlamentares e militares brasileiros com dinheiro americano.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Waldir lembrou um dos momentos mais fortes daqueles dias iniciais de abril de 1964, o de sua fuga, em companhia de Darcy Ribeiro, em pequeno avi\u00e3o de lona, conseguido por Rubens Paiva. Rubens era piloto e soube preparar o embarque clandestino de ambos, na madrugada, no aeroporto de Bras\u00edlia. Eles pretendiam chegar ao Rio Grande do Sul, mas antes da decolagem souberam que deveriam dirigir-se ao Uruguai, para onde j\u00e1 seguira o Presidente, uma vez que em ato de felonia e mentira, o presidente do Congresso, Auro de Moura Andrade, declarara vaga a Presid\u00eancia. Jango poderia ter resistido, mas preferiu n\u00e3o faz\u00ea-lo, a fim de evitar o sacrif\u00edcio do povo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Depois de escalas for\u00e7adas no Mato Grosso e o uso de gasolina de autom\u00f3vel, por falta de combust\u00edvel apropriado, acabaram pousando em balne\u00e1rio no norte do Uruguai, onde Waldir pediu asilo a um sargento da Pol\u00edcia Uruguaia, que, depois de consultar seus superiores, acolheu os dois com cerimoniosa contin\u00eancia. Waldir se lembra de que conversavam de forma obl\u00edqua, durante o v\u00f4o, por que n\u00e3o sabiam quem era o piloto. Mas o piloto os reconheceu, o que n\u00e3o era dif\u00edcil. \u201cMas at\u00e9 hoje, diz o grande homem p\u00fablico, n\u00e3o sei quem ele era\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Cassado na primeira leva, Rubens Paiva se exilaria na Iugosl\u00e1via e na Fran\u00e7a, antes de voltar ao Brasil, em ato temer\u00e1rio, e no Brasil permanecer, cuidando de seus neg\u00f3cios, durante os anos que se seguiram. E foi cuidando de seus neg\u00f3cios que o cassado Rubens Paiva foi preso em casa, em janeiro de 1971, levado para os aparelhos da Ditadura, e morto sob tortura.<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">A anistia exime da puni\u00e7\u00e3o os crimes cometidos pelos agentes do Estado, da mesma forma que manda esquecer os atos de resist\u00eancia contra a viola\u00e7\u00e3o do pacto democr\u00e1tico pelos golpistas &#8211; mas n\u00e3o pode apagar a Hist\u00f3ria. \u00c9 natural, humano e justo que Marcelo Rubens Paiva, filho e herdeiro da dignidade de Rubens, pe\u00e7a explica\u00e7\u00e3o ao governador pelo fato de nomear como secret\u00e1rio particular um advogado conhecido pela sua milit\u00e2ncia na extrema-direita, e dirigente de institui\u00e7\u00e3o que se denomina Endireita Brasil.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Rubens Paiva morreu aos 41 anos. Se o golpe militar n\u00e3o houvesse interrompido o processo pol\u00edtico republicano, ele estaria servindo ao Brasil, at\u00e9 hoje, com sua intelig\u00eancia, seu patriotismo e sua coragem. Coragem que provavelmente tenha surpreendido e irritado seus algozes. Era-lhes imposs\u00edvel esquecer sua altivez.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211;\u00a0<span style=\"line-height: 1.3em;\"> Jornal do Brasil<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em longa conversa, em Salvador, h\u00e1 poucos meses, Waldir Pires e eu relembramos alguns companheiros de ex\u00edlio, como Darcy Ribeiro e Leonel Brizola \u2013 al\u00e9m, \u00e9 claro, da personalidade af\u00e1vel e sempre solid\u00e1ria de Jo\u00e3o Goulart. 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