{"id":4732,"date":"2013-04-11T02:05:20","date_gmt":"2013-04-11T02:05:20","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/04\/11\/eua-wikileaks-relata-operacoes-durante-ditadura-brasileira\/"},"modified":"2013-04-11T02:05:20","modified_gmt":"2013-04-11T02:05:20","slug":"eua-wikileaks-relata-operacoes-durante-ditadura-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/04\/11\/eua-wikileaks-relata-operacoes-durante-ditadura-brasileira\/","title":{"rendered":"EUA: Wikileaks relata opera\u00e7\u00f5es durante ditadura brasileira"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Documentos mostram que o ex-diretor da Pol\u00edcia Federal brasileira, general Nilo Caneppa Silva efetuou pris\u00f5es e extradi\u00e7\u00f5es ilegais a pedido do departamento anti-drogas americano (DEA).\u00a0No dia 17 de outubro de 1973, o embaixador americano no Brasil, John Crimmins, escreveu um telegrama confidencial urgente ao Departamento de Estado chefiado por Henry Kissinger.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-4730\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/sem_titulo40686.png\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"300\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\" \/><span style=\"line-height: 1.3em;\" \/>Ex-diretor da PF, general Caneppa, efetuou pris\u00f5es e extradi\u00e7\u00f5es ilegais a pedido do departamento anti-drogas americano\u00a0  <!--more-->  <\/span><\/address>\n<address style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\"><br \/><\/span><\/address>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A afli\u00e7\u00e3o do embaixador \u00e9 evidente ao se referir \u00e0 inesperada chegada ao pa\u00eds de uma equipe de inspe\u00e7\u00e3o do GAO (US Government Accountability Office) \u2013 ag\u00eancia ligada ao Congresso americano, criada em 1921 e ainda em atividade \u2013 com a miss\u00e3o de investigar a adequa\u00e7\u00e3o e legalidade das atividades das ag\u00eancias federais financiadas pelo contribuinte americano. Inicialmente marcada para o dia 3 de novembro, a antecipa\u00e7\u00e3o da visita \u2013 que desembarcaria na noite do mesmo dia 17 no Brasil \u2013 deixou o embaixador em polvorosa. O objetivo da miss\u00e3o era auditar o programa anti-drogas desenvolvido pela DEA \u2013 Drug Enforcement Administration \u2013 no pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Criada pelo presidente Richard Nixon em julho de 1973, com 1.470 agentes e or\u00e7amento de 75 milh\u00f5es de d\u00f3lares, para unificar o combate internacional anti-drogas, hoje a DEA tem 5 mil agentes e um or\u00e7amento anual de 2 bilh\u00f5es de d\u00f3lares. Embora mantivesse escrit\u00f3rios em nove pa\u00edses e representantes nas miss\u00f5es diplom\u00e1ticas americanas ao redor do mundo (ainda hoje a DEA tem escrit\u00f3rios na embaixada em Bras\u00edlia e no consulado de S\u00e3o Paulo), desde 1969, quando ainda atendia pelo nome de BNDD (Bureau of Narcotics and Dangerous Drugs), a miss\u00e3o da DEA sempre foi \u201clidar com o problema das drogas, em ascens\u00e3o, nos Estados Unidos\u201d. Sua rela\u00e7\u00e3o com os outros pa\u00edses, ao menos oficialmente, n\u00e3o previa o combate \u00e0s drogas em cada um deles; o objetivo era impedi-las de chegar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o americana.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por que ent\u00e3o Crimmins estava t\u00e3o preocupado com a chegada inesperada da equipe de auditoria ao Brasil? Ele explica no mesmo telegrama a Henry Kissinger: \u201cOs oficiais da embaixada pedem instru\u00e7\u00f5es sobre quais os documentos dos arquivos da DEA e do Departamento do Estado, relativos a drogas, devem ser liberados para a equipe do GAO\u201d, escreveu. \u201cEspecificamente pedimos orienta\u00e7\u00e3o sobre os seguintes assuntos: a) os planos de a\u00e7\u00e3o anti-drogas, levando em conta que nem toda a estrat\u00e9gia sugerida nesses documentos foi aprovada pelo Comit\u00ea Interag\u00eancias (Interagency Commitee) em Washington; b) tortura e abuso durante o interrogat\u00f3rio de prisioneiros; c) o centro de intelig\u00eancia da Pol\u00edcia Federal; d) os arquivos de informantes, incluindo os registros de pagamentos; e) opera\u00e7\u00f5es confidenciais e telegramas de intelig\u00eancia; f) opera\u00e7\u00f5es clandestinas, incluindo a transfer\u00eancia de Toscanino do Uruguai ao Brasil; g) documentos de planejamento das alf\u00e2ndegas brasileiras e do departamento de pol\u00edcia federal\u201d, detalha.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A resposta de Kissinger n\u00e3o consta da base de dados do National Archives (NARA) reunidos na Biblioteca de Documentos Diplom\u00e1ticos do WikiLeaks, mas a julgar por outros documentos, havia sim motivos para se preocupar. Pelo menos em rela\u00e7\u00e3o ao \u00fanico caso espec\u00edfico ali referido: a transfer\u00eancia de Toscanino do Uruguai para o Brasil.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quatro meses antes da chegada dos auditores do GAO ao Brasil, Francisco Toscanino, cidad\u00e3o italiano, foi condenado junto com mais cinco r\u00e9us pelo tribunal de j\u00fari de Nova York, em junho de 1973, por \u201cconspira\u00e7\u00e3o para tr\u00e1fico de drogas\u201d. De acordo com uma testemunha presa, que estava colaborando com a pol\u00edcia em sistema de dela\u00e7\u00e3o premiada, Toscanino, que morava no Uruguai, estava indicando compradores, em solo americano, para uma carga de hero\u00edna enviada de navio e parcialmente flagrada por agentes infiltrados da DEA nos Estados Unidos.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Sequestrado, torturado e extraditado<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em maio de 1974, por\u00e9m, Toscanino entrou com recurso na Segunda Inst\u00e2ncia da Corte de Apela\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos, alegando que sua pris\u00e3o havia sido ilegal, de acordo com a legisla\u00e7\u00e3o americana, por ter se baseado em monitoramento eletr\u00f4nico irregular no Uruguai. Mais do que isso: ele foi sequestrado no Uruguai e torturado no Brasil antes de ser extraditado aos EUA sem comunica\u00e7\u00e3o pr\u00e9via a autoridades italianas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os detalhes estarrecedores dessa hist\u00f3ria, reproduzidos no documento da corte parecer\u00e3o estranhamente familiares aos que conhecem as a\u00e7\u00f5es da Opera\u00e7\u00e3o Condor \u2013 a articula\u00e7\u00e3o da repress\u00e3o pol\u00edtica nesse mesmo per\u00edodo entre ditaduras militares na Am\u00e9rica Latina. Com exce\u00e7\u00e3o, talvez, da preocupa\u00e7\u00e3o em n\u00e3o deixar marcas de tortura.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cNo dia 6 de janeiro de 1973, Toscanino foi tirado de sua casa em Montevid\u00e9u por um telefonema, que partiu dos arredores ou do endere\u00e7o de Hugo Campos Hermedia [na verdade, Hugo Campos Hermida]. Hermedia era \u2013 e ainda \u00e9 \u2013 membro da pol\u00edcia em Montevid\u00e9u. Mas, segundo a alega\u00e7\u00e3o de Toscanino, Hermedia estava atuando ultra vires [encoberto] como agente pago do governo americano. A chamada telef\u00f4nica levou Toscanino e sua mulher, gr\u00e1vida de 7 meses, a uma \u00e1rea pr\u00f3xima de um boliche abandonado em Montevid\u00e9u. Quando chegaram l\u00e1, Hermedia e seis assistentes sequestraram Toscanino na frente da mulher aterrorizada, deixando-o inconsciente com uma coronhada e o jogando na traseira do carro. Depois, Toscanino \u2013 vendado e amarrado \u2013 foi levado \u00e0 fronteira do Brasil por uma rota tortuosa\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Segue o documento: \u201cEm um certo momento durante a longa viagem at\u00e9 a fronteira brasileira houve uma discuss\u00e3o entre os captores de Toscanino sobre a necessidade de trocar as placas do carro para evitar sua descoberta pelas autoridades uruguaias. Em outro ponto, o carro estancou subitamente e ordenaram que Toscanino sa\u00edsse. Ele foi levado para um lugar isolado, onde o mandaram deitar sem se mexer ou atirariam nele. Embora a venda o impedisse de ver, Toscanino conseguia sentir a press\u00e3o do rev\u00f3lver em sua cabe\u00e7a e ouvir os ru\u00eddos do que parecia ser um comboio militar uruguaio. Quando o barulho se afastou, Toscanino foi colocado em outro carro e levado \u00e0 fronteira. Houve combina\u00e7\u00f5es e, mais uma vez, com a coniv\u00eancia dos Estados Unidos, o carro foi tomado por um grupo de brasileiros que levaram Francisco Toscanino (\u2026).\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cSob cust\u00f3dia dos brasileiros, Toscanino foi conduzido a Porto Alegre onde permaneceu incomunic\u00e1vel por 11 horas. Seus pedidos de comunica\u00e7\u00e3o com o consulado italiano e com a fam\u00edlia foram negados. Tamb\u00e9m n\u00e3o lhe deram comida nem \u00e1gua. Mais tarde, no mesmo dia, Toscanino foi levado \u00e0 Bras\u00edlia, onde por 17 dias foi incessantemente torturado e interrogado. Durante todo esse tempo, o governo dos Estados Unidos e a promotoria de Nova York, respons\u00e1vel pelo processo, tinham ci\u00eancia \u2013 e inclusive recebiam relat\u00f3rios \u2013 do desenrolar da investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, durante o per\u00edodo de tortura e interrogat\u00f3rio um membro do Bureau of Narcotics and Dangerous Drugs, do Departamento de Justi\u00e7a dos Estados Unidos, estava presente em um ou mais intervalos e, na verdade, chegou a participar de partes do interrogat\u00f3rio. Os captores de Toscanino o privaram de sono e de qualquer forma de alimenta\u00e7\u00e3o durante dias. A nutri\u00e7\u00e3o se dava por via intervenosa apenas para mant\u00ea-lo vivo. Assim como relatam nossos soldados que voltaram da Cor\u00e9ia e da China, Toscanino era for\u00e7ado a andar para baixo e para cima por sete ou oito horas ininterruptas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quando ele n\u00e3o conseguia mais ficar em p\u00e9, era chutado e espancado de forma a n\u00e3o deixar marcas. Se n\u00e3o respondia \u00e0s perguntas, seus dedos eram esmagados com grampos de metal. Jogavam \u00e1lcool em seus olhos e nariz, e outros fluidos eram introduzidos em seu \u00e2nus. Inacreditavelmente, os agentes do governo americano prenderam eletrodos nos l\u00f3bulos de suas orelhas, dedos e genitais e deram choques el\u00e9tricos o deixando inconsciente por per\u00edodos que n\u00e3o consegue precisar mas, novamente, sem deixar marcas.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cFinalmente, no dia 25 de janeiro de 1973, Toscanino foi levado ao Rio de Janeiro onde foi drogado por agentes brasileiros e americanos e colocado no v\u00f4o 202 da Pan American Airways (\u2026). Acordou nos Estados Unidos no dia 26 de janeiro, quando foi oficialmente preso dentro do avi\u00e3o e levado imediatamente a Thomas Puccio, assistente do procurador geral dos Estados Unidos. Em nenhum momento durante a captura de Toscanino o governo americano sequer tentou a via legal. Agiu do in\u00edcio ao fim de maneira ilegal, embarcando deliberadamente em um esquema criminoso de viola\u00e7\u00e3o de leis de tr\u00eas pa\u00edses diferentes\u201d.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>O &#8220;Fleury uruguaio&#8221;<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Hugo Campos Hermida era uma esp\u00e9cie de Fleury uruguaio. Embora a ditadura naquele pa\u00eds s\u00f3 tenha se instalado em junho de 1973, portanto quando Toscanino j\u00e1 havia sido condenado nos EUA, Hermida era o chefe da chamada Brigada Gamma, um esquadr\u00e3o da morte uruguaio que matava desde traficantes at\u00e9 tupamaros \u2013 os guerrilheiros de esquerda que atuavam antes do golpe final. Hermida tamb\u00e9m foi treinado nos Estados Unidos \u2013 inclusive pela DEA, como mostram outros documentos do projeto PlusD. Oficialmente, era chefe da Brigada de Narc\u00f3ticos da Direcci\u00f3n Nacional de Informaci\u00f3n e Inteligencia (DNII), organismo criado em colabora\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos no Uruguai.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O jornal La Rep\u00fablica, do Uruguai, levantou documentos no Arquivo do Terror, no Paraguai, que comprovaram a participa\u00e7\u00e3o de Hermida no \u201cninho da Condor\u201d, a Automotores Orletti, em Buenos Aires, um centro de tortura que tinha como fachada uma oficina mec\u00e2nica.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Do lado brasileiro, o diretor do Departamento de Pol\u00edcia Federal \u2013 tamb\u00e9m montada e armada pelos americanos desde os prim\u00f3rdios \u2013 era o general Nilo Caneppa Silva, mais conhecido por suas assinaturas na censura de jornais, pe\u00e7as de teatro e filmes \u2013 j\u00e1 que essa tamb\u00e9m era uma atribui\u00e7\u00e3o oficial do \u00f3rg\u00e3o na ditadura, assim como o combate ao tr\u00e1fico de drogas nas fronteiras.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O coronel Caneppa foi promovido a general assim que a ditadura militar se instalou, e a general-de-brigada em 1971, no governo M\u00e9dici, mesmo ano em que passou a chefiar o DPF em Bras\u00edlia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A opera\u00e7\u00e3o de sequestro no Uruguai e tortura no Brasil do traficante Toscanino n\u00e3o aparece nos telegramas diplom\u00e1ticos at\u00e9 maio de 1974, quando o italiano entrou com recurso na corte de apela\u00e7\u00f5es americana. A partir da\u00ed, h\u00e1 um troca fren\u00e9tica de telegramas entre as embaixadas do Brasil e de Buenos Aires com o Departamento do Estado porque a Justi\u00e7a americana havia requisitado toda a documenta\u00e7\u00e3o envolvendo o caso Toscanino em virtude da apela\u00e7\u00e3o \u2013 embora boa parte dela tenha continuado escondida, como comprovam os telegramas desse per\u00edodo constantes no PlusD. O general Nilo Caneppa, por\u00e9m, era considerado pe\u00e7a-chave pelos Estados Unidos, como mostra um telegrama de 25 de abril de 1973.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cO tempo do general Caneppa como diretor do Departamento de Pol\u00edcia Federal encerra-se no meio de maio. Para assegurar a conclus\u00e3o dos \u00f3timos resultados obtidos pela equipe americana de analistas designados para trabalhar com a pol\u00edcia federal brasileira no desenho do Centro de Intelig\u00eancia de Narc\u00f3ticos, pedimos que essa equipe venha ao Brasil antes de maio\u201d, diz o relato assinado pelo antecessor de Crimmins, William Rountree.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O mesmo embaixador j\u00e1 havia demonstrado seu apre\u00e7o por Caneppa que dele \u201cse aproximou pessoalmente para requisitar material audio-visual em portugu\u00eas para os cursos de treinamento permanentes do BNDD (antecessor da DEA) em S\u00e3o Paulo\u201d, segundo outro telegrama do PlusD, esse de 8 de maio de 1973, que recomendou: \u201cTendo em vista a coopera\u00e7\u00e3o do DPF em expulsar traficantes internacionais para os Estados Unidos em casos passados, e o mandato constitucional da DPF para dirigir os esfor\u00e7os para suprimir os traficantes de drogas, e as necessidades de treinamento dos brasileiros, a embaixada recomenda que o BNDD envie os filmes e slides para uso do escrit\u00f3rio do BNDD em Bras\u00edlia, que vai distribuir para as ag\u00eancias brasileiras. Esse gesto, al\u00e9m de ser um investimento \u00fatil de dinheiro e material, vai ajudar a estreitar ainda mais os la\u00e7os entre o DPF e o BNDD\u201d.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>O general t\u00e1tico<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No relat\u00f3rio confidencial sobre a temida visita dos auditores do GAO, por\u00e9m, enviado pelo embaixador Crimmins ao Departamento de Estado americano em 13 de dezembro de 1973, o entusiasmo dos americanos havia arrefecido com a substitui\u00e7\u00e3o de Caneppa por um general considerado mais \u201ct\u00e1tico\u201d ( \u201coperations-minded\u201d) \u2013 o general Antonio Bandeira, tristemente famoso pelas primeiras opera\u00e7\u00f5es de repress\u00e3o na guerrilha do Araguaia tanto pelo lado dos guerrilheiros \u2013 que passaram a ser torturados tamb\u00e9m em Bras\u00edlia depois que ele assumiu a Pol\u00edcia Federal \u2013 como dos militares, pelo fracasso em vencer os 70 jovens do PC do B nas matas do Par\u00e1.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ainda assim, os americanos ressaltam sua gratid\u00e3o por opera\u00e7\u00f5es realizadas pela DPF chefiada por Caneppa nesse mesmo telegrama, que tamb\u00e9m relembra a temida visita do GAO dois meses antes. Segundo o telegrama, os auditores haviam feito apenas uma \u201cinvestiga\u00e7\u00e3o difusa\u201d sobre as atividades da DEA no pa\u00eds: \u201cEmbora GAO n\u00e3o tenha problemas com a premissa do programa anti-drogas de desenvolver a compet\u00eancia brasileira no combate aos narc\u00f3ticos, a curto prazo eles est\u00e3o mais interessados em impedir o fluxo de drogas para os Estados Unidos. O coordenador do programa de narc\u00f3ticos ressaltou, ent\u00e3o, o sucesso da coopera\u00e7\u00e3o EUA-Brasil na Opera\u00e7\u00e3o Springboard [nos portos, em conjunto com a Marinha Americana] e na apreens\u00e3o no Mormac-Altair\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Como relatam os jornais da \u00e9poca, o Mormac-Altair era um navio americano onde, em opera\u00e7\u00e3o conjunta dos americanos e brasileiros, foi capturada uma carga de 60 quilos de hero\u00edna em outubro de 1972. Traficantes franceses que moravam no Paraguai e no Brasil foram ent\u00e3o extraditados para os Estados Unidos pela Pol\u00edcia Federal brasileira, sem avisar as autoridades francesas, como aconteceu no caso Toscanino, sempre com o general Caneppa \u00e0 frente das opera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Segue o telegrama de Crimmins a Kissinger: \u201cGAO estava interessado na possibilidade do Brasil assumir a lideran\u00e7a entre as na\u00e7\u00f5es latino-americanas no hemisf\u00e9rio Sul. O coordenador explicou que o Brasil se esfor\u00e7ava para melhorar a coopera\u00e7\u00e3o e a coordena\u00e7\u00e3o entre os \u00f3rg\u00e3os policiais em outras na\u00e7\u00f5es latino-americanas. No entanto, as diferen\u00e7as entre os sistemas hisp\u00e2nicos e lusitano, e a intensa rivalidade com a Argentina tornava dif\u00edcil essa lideran\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cA GAO tamb\u00e9m levantou a quest\u00e3o \u2013 baseada na investiga\u00e7\u00e3o dos arquivos sobre as trocas de informa\u00e7\u00e3o entre as ag\u00eancias de Washington durante a Opera\u00e7\u00e3o Springboard, quando a embaixada relatava preocupa\u00e7\u00f5es e queixas sobre o antigo chefe da Pol\u00edcia Federal, General Caneppa [n\u00e3o se sabe a que se referem essas queixas, que teriam sido feitas por Rountree, uma vez que a atua\u00e7\u00e3o da PF sob Caneppa foi elogiada no par\u00e1grafo anterior e no telegrama enviado por Rountree transcrito acima, mas os militares brasileiros consideravam Caneppa \u201cmole\u201d, enquanto Bandeira era da \u201clinha dura\u201d].<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O coordenador explicou que n\u00e3o h\u00e1 mais problemas similares com o atual chefe, o general Bandeira. Bandeira \u00e9 mais operations-minded e parece satisfeito com o n\u00edvel de troca de informa\u00e7\u00f5es embora, sem d\u00favida, um aprimoramento possa ser feito nesse campo. A equipe do GAO fez diversas perguntas sobre extradi\u00e7\u00e3o e expuls\u00e3o de traficantes e pareceu satisfeita com nossas explica\u00e7\u00f5es de que n\u00e3o h\u00e1 problemas do g\u00eanero no Brasil. O coordenador teve a impress\u00e3o de que essa era a mais alta prioridade da equipe do GAO.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cA ideia do Centro de Intelig\u00eancia de Drogas veio \u00e0 tona tamb\u00e9m nessa visita, baseada no material que eles j\u00e1 tinham recebido. O conte\u00fado politicamente sens\u00edvel desse assunto foi ent\u00e3o explicado \u00e0 equipe do GAO (\u2026).\u201d Quando o telegrama foi enviado, Juan Per\u00f3n havia reassumido o poder na Argentina depois de um per\u00edodo de 18 anos de ex\u00edlio, interrompendo a colabora\u00e7\u00e3o entre as pol\u00edcias do Cone Sul. Os americanos \u2013 assim como a ditadura brasileira \u2013 nunca confiaram em Per\u00f3n; depois que ele morreu, em 1974, e foi substitu\u00eddo pela mulher, Isabelita, os militares institu\u00edram a \u201cguerra suja\u201d que matou mais de 30 mil pessoas, incluindo peronistas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ao final do telegrama, Crimmins revela que, embora n\u00e3o conste da documenta\u00e7\u00e3o do NARA, havia recebido \u2013 e cumprido \u2013 as instru\u00e7\u00f5es de Kissinger depois do telegrama enviado na chegada inesperada da miss\u00e3o da GAO: \u201cNenhuma c\u00f3pia de outros documentos al\u00e9m dos definidos por Washington foram disponibilizados para a equipe do GAO\u201d.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Condor<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Tanto Bandeira como Caneppa aparecem nas listas de torturadores da ditadura, feitas a partir de documentos e den\u00fancias de presos pol\u00edticos, como \u201cconiventes\u201d, pelo fato de terem comandado opera\u00e7\u00f5es que resultaram em tortura e desaparecimento de presos sem, no entanto, ter sido flagrados com \u201ca m\u00e3o na massa\u201d, para usar uma express\u00e3o suave.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Suas liga\u00e7\u00f5es com as opera\u00e7\u00f5es do DEA no Cone Sul, como demonstra o telegrama acima, por\u00e9m, podem implic\u00e1-los \u2013 e aos Estados Unidos \u2013 em crimes internacionais em investiga\u00e7\u00f5es posteriores, como j\u00e1 aconteceu no caso do general Caneppa, e n\u00e3o apenas nos casos Mormac-Altair e Toscanino.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No final do ano passado, o rep\u00f3rter Wagner William publicou na revista Brasileiros a reportagem\u201cO primeiro v\u00f4o do Condor\u201d, relatando aquela que seria a primeira a\u00e7\u00e3o da opera\u00e7\u00e3o clandestina que uniu as ditaduras militares do Cone Sul: o sequestro do coronel Jefferson Cardim de Alencar Os\u00f3rio, opositor da ditadura, em Buenos Aires e sua extradi\u00e7\u00e3o para um centro de torturas no Rio de Janeiro, descrita no Informe 338, de 19 de dezembro de 1970, pelo adido militar na Embaixada do Brasil: o ent\u00e3o coronel Nilo Caneppa.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">O documento, obtido pelo jornal P\u00e1gina 12, \u00e9 considerado pelo presidente do Movimento de Justi\u00e7a e Direitos Humanos, o ga\u00facho Jair Krischke, um dos maiores investigadores da Opera\u00e7\u00e3o Condor, como o primeiro documento da articula\u00e7\u00e3o clandestina e a prova de que foi o Brasil que liderou ao menos a sua forma\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O rep\u00f3rter Wagner William teve acesso aos di\u00e1rios do coronel Jefferson e contou em detalhes como o coronel, seu filho e sobrinho foram interceptados em dezembro de 1970 quando viajavam do Uruguai, onde se exilaram depois do golpe, ao Chile, onde o coronel assumiria o cargo de assessor militar para a Associa\u00e7\u00e3o Latino-Americana de Livre Com\u00e9rcio a convite do ent\u00e3o presidente do Chile, Salvador Allende. Allende se suicidaria depois do golpe liderado pelo general Pinochet e articulado pelos Estados Unidos em 1973.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Para evitar a persegui\u00e7\u00e3o policial \u2013 os homens de Hermida o seguiam todo o tempo no ex\u00edlio, como faziam com todos os brasileiros inimigos da ditadura, como relatou em 2003, depois de ser preso no Rio Grande do Sul por assalto a banco e tr\u00e1fico de armas, o ex-policial Mario Neira Barreto, codinome Tenente Tamuz, que tamb\u00e9m pertencia \u00e0 Brigada Gamma \u2013, Jefferson planejara ir de Montevid\u00e9u a Col\u00f4nia do Sacramento de carro, atravessar o rio da Prata pela balsa at\u00e9 Buenos Aires, de onde seguiria para Mendoza e cruzaria os Andes para o Chile.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Avisado pelos uruguaios, por\u00e9m, o adido militar brasileiro na Argentina \u2013 Caneppa \u2013 pediu a coopera\u00e7\u00e3o da Dire\u00e7\u00e3o da Coordena\u00e7\u00e3o Federal, o \u00f3rg\u00e3o de intelig\u00eancia da Pol\u00edcia Federal Argentina, para prender os tr\u00eas brasileiros, descrevendo sua apar\u00eancia em detalhes. Escondido no porto, Caneppa assistiu quando o carro de Jefferson foi interceptado por dois agentes armados que saltaram de um carro preto com chapa do governo argentino anunciando: \u201c\u00c9 uma opera\u00e7\u00e3o de rotina. Houve uma den\u00fancia de transporte de drogas\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Embora n\u00e3o houvesse nada no carro al\u00e9m de uma arma do coronel Jefferson, que apresentou seus documentos de identifica\u00e7\u00e3o militar, os tr\u00eas foram levados para a coordena\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal argentina, encapuzados, algemados e presos no por\u00e3o enquanto o subcomiss\u00e1rio anunciava ao adido militar brasileiro o sucesso da opera\u00e7\u00e3o. Caneppa vai pessoalmente ao pr\u00e9dio, acompanhado de outro militar brasileiro, adido da Aeron\u00e1utica na embaixada, onde Jefferson, seu filho e o sobrinho foram interrogados sobre o sequestro do c\u00f4nsul brasileiro, Aloysio Gomide, pelos tupamaros uruguaios e sobre sua liga\u00e7\u00e3o com l\u00edderes peronistas argentinos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os tr\u00eas foram torturados \u2013 o coronel Jefferson com choques el\u00e9tricos nos p\u00e9s, nas pernas e nos genitais e cera de vela quente no \u00e2nus. Caneppa e o outro militar brasileiro, na sala ao lado, examinavam o material apreendido no carro de Jefferson \u2013 livros, cartas e documentos de identidade \u2013 quando um tenente-coronel do Ex\u00e9rcito argentino se apresentou e pediu desculpas pela aus\u00eancia do coronel C\u00e1ceres, diretor da PF argentina, perguntando em seguida o que deveria fazer com os detidos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Caneppa queria que fossem enviados ao Brasil, e em 26 horas o presidente argentino, fantoche dos militares, assinou um decreto de extradi\u00e7\u00e3o. De l\u00e1 foram transportados discretamente por uma aeronave militar para o Centro de Informa\u00e7\u00e3o e Seguran\u00e7a (CISA) no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O coronel Jefferson foi torturado dias a fio e ficou preso por seis anos. Ao sair da cadeia, em 1977, continuou a ser perseguido at\u00e9 1979 quando foi beneficiado pela lei da anistia. Os militares, por\u00e9m, em um ato excepcional, anularam sua anistia e ele teve que partir para o ex\u00edlio, primeiro na Venezuela, depois na Fran\u00e7a, de onde s\u00f3 retornou em 1985, com o fim da ditadura militar.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">V\u00edtima da primeira a\u00e7\u00e3o da famigerada Opera\u00e7\u00e3o Condor, o coronel Jefferson foi preso sob a acusa\u00e7\u00e3o de tr\u00e1fico de drogas pela Pol\u00edcia Federal argentina sob as ordens do general Caneppa. O mesmo que dirigia a Pol\u00edcia Federal brasileira quando o traficante Toscanino foi sequestrado por Hermida no Uruguai e entregue para ser torturado em Bras\u00edlia de onde foi extraditado, em uma opera\u00e7\u00e3o inteiramente coordenada pela DEA.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O coronel Caneppa foi promovido a general e assumiu a dire\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal meses depois. Em 1972, recebeu a Medalha do Pacificador \u2013 a maior honraria do Ex\u00e9rcito, destinada aos \u201crevolucion\u00e1rios\u201d de 1964. O general Bandeira mereceu a mesma honraria. At\u00e9 hoje a DEA mant\u00e9m escrit\u00f3rios no Brasil, dentro da embaixada brasileira e dos consulados. Procurada pela P\u00fablica para saber sobre suas atividades atuais no pa\u00eds, a DEA encaminhou a reportagem \u00e0 assessoria de imprensa da embaixada americana, que n\u00e3o respondeu aos pedidos de informa\u00e7\u00e3o at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o dessa reportagem.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Ag\u00eancia P\u00fablica<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Documentos mostram que o ex-diretor da Pol\u00edcia Federal brasileira, general Nilo Caneppa Silva efetuou pris\u00f5es e extradi\u00e7\u00f5es ilegais a pedido do departamento anti-drogas americano (DEA).\u00a0No dia 17 de outubro de 1973, o embaixador americano no Brasil, John Crimmins, escreveu um telegrama confidencial urgente ao Departamento de Estado chefiado por Henry Kissinger. 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