{"id":4825,"date":"2013-04-15T16:49:47","date_gmt":"2013-04-15T16:49:47","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/04\/15\/infancia-clandestina-a-longa-sombra-da-ditadura-sobre-o-cinema-argentino\/"},"modified":"2013-04-15T16:49:47","modified_gmt":"2013-04-15T16:49:47","slug":"infancia-clandestina-a-longa-sombra-da-ditadura-sobre-o-cinema-argentino","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/04\/15\/infancia-clandestina-a-longa-sombra-da-ditadura-sobre-o-cinema-argentino\/","title":{"rendered":"&#8216;Inf\u00e2ncia clandestina&#8217;: a longa sombra da ditadura sobre o cinema argentino"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>A partir de quantos lugares \u00e9 poss\u00edvel olhar a trag\u00e9dia da ditadura militar argentina que arrasou o pa\u00eds entre 1976 e 1983? Quantos filmes j\u00e1 foram feitos para abordar e processar a dor e quantos ainda restam para serem feitos?   <!--more-->  <span class=\"s1\"><br \/> <span style=\"line-height: 1.3em;\"> <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">Quando parece que j\u00e1 se disse tudo o que se pode dizer, o cinema sobre a ditadura volta a remexer as velhas feridas e, contra progn\u00f3sticos voluntariamente agoureiros, demonstra uma vez mais que ainda h\u00e1 muito o qu\u00ea dizer. <\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A \u00faltima prova de que a ditadura segue estendendo sua longa sombra sobre o cinema argentina \u00e9 \u201cInf\u00e2ncia Clandestina\u201d, a obra-prima de Benjamim \u00c1vila, protagonizada por Natalia Oreiro e C\u00e9sar Troncoso.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Como ocorreu em seu momento com \u201cA hist\u00f3ria oficial\u201d (1985) e com \u201cO segredo de seus olhos\u201d (2009), ambos vencedores do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em Hollywood, e, at\u00e9 o momento, os melhores expoentes do \u201ccinema da ditadura\u201d, o que importa em \u201cInf\u00e2ncia Clandestina\u201d \u00e9 o ponto de vista desde o qual se conta a trag\u00e9dia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Enquanto que em \u201cA hist\u00f3ria oficial\u201d, o drama \u00e9 protagonizado pela esposa de um militar que havia se apropriado de uma das crian\u00e7as subtra\u00eddas dos detidos nos campos de concentra\u00e7\u00e3o, e em \u201cSegredo de seus olhos\u201d a ditadura aparece tangencialmente em uma violenta hist\u00f3ria de amor transcorrida nos corredores judiciais da Argentina, nos anos de chumbo, em \u201cInf\u00e2ncia Clandestina\u201d, o n\u00facleo do drama se centra nos olhos de Juan, um menino de onze anos, filho de uma fam\u00edlia de militantes da organiza\u00e7\u00e3o armada Montoneros, que regressaram clandestinamente ao pa\u00eds em 1979 com o objetivo de resistir ao regime.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O epis\u00f3dio que desencadeia a a\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 banal: a famosa \u201ccontraofensiva\u201d da organiza\u00e7\u00e3o Montoneros foi a \u00faltima pedra de toque de uma estrat\u00e9gia fracassada que colocou a luta armada acima da luta pol\u00edtica, com catastr\u00f3ficas consequ\u00eancias para o peronismo de esquerda que escolheu o caminho das armas no in\u00edcio dos anos setenta.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A medida foi tomada no exterior e implicou o retorno, atrav\u00e9s das porosas fronteiras argentinas, de centenas de militantes que regressaram ao pa\u00eds com o objetivo de continuar a luta contra a ditadura e que acabaram com seus ossos nos campos de exterm\u00ednio ou nas emboscadas preparadas pelo aparato de intelig\u00eancia do Estado. A tr\u00e1gica decis\u00e3o implicou o fim dos Montoneros como organiza\u00e7\u00e3o armada e permitiu ao governo do general Videla falar pela primeira vez de \u201cvit\u00f3ria\u201d em sua desapiedada luta contra o \u201cterrorismo\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Diante dos olhos de Juan se desenrola um drama que ele n\u00e3o pode compreender, mas que implica um jogo perigoso com a identidade, j\u00e1 que o menino se v\u00ea obrigado a mudar seu nome na escola e a sustentar uma hist\u00f3ria familiar falsa, um jogo cujo limite \u00e9 a morte e cujas implica\u00e7\u00f5es ele n\u00e3o pode compreender plenamente.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A partir desta trama, que reflete tangencialmente a hist\u00f3ria do pr\u00f3prio diretor, o filme entra em um jogo onde as perguntas s\u00e3o mais importantes que as respostas e que abandona logo o politicamente correto para se perguntar sobre a validade das violentas lutas pol\u00edticas dos anos setenta, arrastando o espectador a uma inesperada reflex\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A primeira imagem que explode pelos ares \u00e9 a dos combatentes armados da guerrilha. Contra todo romantismo, o filme mergulha na intimidade e na loucura que implica ter tomado uma decis\u00e3o sobre esse estilo para a vida de uma fam\u00edlia, fazendo com que o p\u00fablico se pergunte: eu teria feito o mesmo no lugar deles? Valia a pena levar as coisas a este extremo?<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">As respostas provavelmente n\u00e3o ser\u00e3o as mesmas para todos os que entrarem a fundo no filme e, em muitos casos, talvez sequer mere\u00e7am ser chamadas de \u201crespostas\u201d, j\u00e1 que se parecem mais com uma interroga\u00e7\u00e3o gigante, aberta eternamente.<\/span><span style=\"line-height: 1.3em;\"> <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mas o que resulta evidente \u00e9 o enorme compromisso a partir do qual se construiu o relato, um compromisso com a hist\u00f3ria de todo o continente e com um passado que segue interrogando o presente e demonstrando que as feridas ainda est\u00e3o abertas e que \u00e0s vezes s\u00f3 \u00e9 preciso o bisturi de um bom diretor de cinema para que voltem a palpitar lacerantes ante os olhos de um p\u00fablico contempor\u00e2neo que, em muitos casos, n\u00e3o tinha sequer nascido quando todas essas hist\u00f3rias aconteceram.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por Oscar Guisoni &#8211; colunista da Carta Maior<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A partir de quantos lugares \u00e9 poss\u00edvel olhar a trag\u00e9dia da ditadura militar argentina que arrasou o pa\u00eds entre 1976 e 1983? 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