{"id":4891,"date":"2013-04-17T19:45:19","date_gmt":"2013-04-17T19:45:19","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/04\/17\/o-algoz-e-o-crematorio\/"},"modified":"2013-04-17T19:45:19","modified_gmt":"2013-04-17T19:45:19","slug":"o-algoz-e-o-crematorio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/04\/17\/o-algoz-e-o-crematorio\/","title":{"rendered":"O algoz e o cremat\u00f3rio"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Em companhia de CartaCapital, o ex-delegado Cl\u00e1udio Guerra volta \u00e0 usina Cambahyba, onde diz ter queimado os corpos de 12 militantes de esquerda mortos nos por\u00f5es do regime<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/><strong \/><img decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/captura de tela 2013-04-17 s 16.39.30.png\" border=\"0\" \/>  <!--more-->  <br \/><\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">Na madrugada de 2 de abril, uma ter\u00e7a-feira, o ex-delegado capixaba Cl\u00e1udio Guerra, atualmente em liberdade condicional, percorreu por quatro horas os cerca de 250 quil\u00f4metros entre Vit\u00f3ria, capital do Esp\u00edrito Santo, e Campos, no norte do Rio de Janeiro. Foi revisitar a Usina Cambahyba, freq\u00fcentada por ele nos anos 1970, per\u00edodo em que manteve ativa colabora\u00e7\u00e3o com o sistema de repress\u00e3o da ditadura.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a terceira visita de Guerra ao lugar desde o lan\u00e7amento de Mem\u00f3rias de Uma Guerra Suja, livro que re\u00fane depoimentos a Rog\u00e9rio Medeiros e Marcelo Netto. A primeira em companhia de um jornalista (\u00e0 exce\u00e7\u00e3o da equipe dos autores do livro). Na obra, publicada no ano passado, o ex-delegado revelou ter queimado nos fornos da Cambahyba 12 cad\u00e1veres de militantes de esquerda torturados at\u00e9 a morte nos por\u00f5es da ditadura. &#8220;Naquela \u00e9poca, vinha aqui e n\u00e3o sentia nada. Hoje me sinto mal pra caramba. Estou falando com voc\u00ea por miseric\u00f3rdia de Deus&#8221;, justificou-se.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Nos escombros da usina, em cujas terras instalou-se um assentamento do MST, Guerra indicou as portas dos fornos onde os corpos eram jogados. &#8220;O primeiro foi o Cerveira. N\u00e3o foi nos primeiros fornos n\u00e3o, foi mais no meio&#8221;, recorda-se, em refer\u00eancia ao major Joaquim Pires Cerveira, ex-militante da Frente de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional, &#8220;cremado&#8221; no in\u00edcio de 1974. Cerveira e o militante Jo\u00e3o Batista Rita foram presos pelo delegado S\u00e9rgio Paranhos Fleury na Argentina e reenviados ao Brasil. Os dois morreram nas depend\u00eancias do DOI-Codi do Rio de Janeiro.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Guerra afirma ter acompanhado o transporte dos cad\u00e1veres at\u00e9 a porta do forno, em companhia de dois empregados da usina, o capataz Z\u00e9 Crente, falecido, e o ex-motorista Erval Gomes da Silva, o Vav\u00e1, \u00fanica testemunha viva da queima dos de corpos. Em outros momentos, o ex-delegado n\u00e3o se deu ao trabalho de conferir se os corpos foram para o fogo. Preferia tomar u\u00edsque na casa de Jo\u00e3o Lysandro, o Jo\u00e3o Bala, filho de Heli Ribeiro Gomes, dono da usina, enquanto Z\u00e9 Crente e Vav\u00e1 faziam o servi\u00e7o.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Todos os corpos foram recolhidos no DOI-Codi carioca, instalado no quartel do 1\u00b0 Batalh\u00e3o da Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito, no bairro da Tijuca, e na conhecida Casa da Morte, centro de tortura comandado por militares do Ex\u00e9rcito em Petr\u00f3polis, na regi\u00e3o serrana fluminense. Segundo Guerra, um 13\u00b0 corpo tamb\u00e9m acabaria lan\u00e7ado aos fornos da usina. O tenente do Ex\u00e9rcito Odilon Carlos de Souza, agente da repress\u00e3o pol\u00edtica, foi morto pelo ex-delegado diante de Bala e Vav\u00e1. Motivo: queima de arquivo.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>A rotina era a mesma. Guerra estacionava o carro com os cad\u00e1veres na casa de Bala, a menos de 500 metros dos fornos. &#8220;Os corpos ficavam parados aqui&#8221;, mostrou, diante da resid\u00eancia, hoje com novo propriet\u00e1rio. &#8220;Quando dava 10-11 horas da noite, o Z\u00e9 Crente ia l\u00e1, deslocava o pessoal de perto da boca do forno para outros lugares. N\u00f3s j\u00e1 t\u00ednhamos repassado os corpos para o carro da usina. \u00cdamos e jog\u00e1vamos no fogo.&#8221;<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Ao rever o local dos crimes, a preocupa\u00e7\u00e3o do ex-delegado era mostrar a profundidade dos fornos para derrubar os argumentos de outra herdeira da Cambahyba, Cec\u00edlia Lysandro Gomes Ribeiro, vereadora em Campos. Segundo ela, n\u00e3o caberiam cad\u00e1veres nos queimadores. Guerra est\u00e1 certo: cabem.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>O ex-delegado retornou a primeira vez \u00e0 usina em junho passado na companhia do delegado federal Kandy Takahashi, por determina\u00e7\u00e3o do ent\u00e3o coordenador da Comiss\u00e3o Nacional de Verdade, o ministro do STJ Gilson Dipp. Antes, havia prestado um detalhado depoimento \u00e0 comiss\u00e3o, quando reafirmou suas liga\u00e7\u00f5es nos anos 1970 com o falecido coronel do Ex\u00e9rcito Freddie Perdig\u00e3o, do Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es. Manteve ainda a confiss\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o de militantes de esquerda, do assassinato do tenente Souza e da oculta\u00e7\u00e3o de cad\u00e1veres.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Desde o lan\u00e7amento de suas mem\u00f3rias, paira uma desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o a Guerra. Policial que se tornou bandido sanguin\u00e1rio no Esp\u00edrito Santo, o ex-delegado se converteu na pris\u00e3o \u00e0 Assembleia de Deus. Justifica suas confiss\u00f5es recentes \u00e0 f\u00e9 adquirida na cadeia, mas poderia tamb\u00e9m estar em busca de holofotes no fim da vida. Ou disposto a confundir a apura\u00e7\u00e3o real de crimes da ditadura.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Fato ou fic\u00e7\u00e3o? Para o procurador Eduardo Santos de Oliveira, as hist\u00f3rias de Guerra s\u00e3o no m\u00ednimo veross\u00edmeis. Ao lado de quatro colegas do Minist\u00e9rio P\u00fablico e na presen\u00e7a dos deputados federais Luiza Erundina (PSB-SP) e Jean Wvllvs (PSOL-RJ), da Comiss\u00e3o Parlamentar Mem\u00f3ria, Verdade e Justi\u00e7a da C\u00e2mara, Oliveira ouviu o ex-delegado por nove horas. Convenceu-se da necessidade de novas investiga\u00e7\u00f5es e defende que seja feita uma per\u00edcia nos fornos em busca de vest\u00edgios (restos de ossadas ou dentes). Erundina tamb\u00e9m se impressionou com a consist\u00eancia do depoimento. E estranha a falta de &#8220;resultados pr\u00e1ticos a partir do que vem sendo identificado&#8221;.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>0 procurador parece remar contra a mar\u00e9. Em Campos, \u00e9 n\u00edtida a tentativa de desqualificar as den\u00fancias. Um exemplo partiu do promotor estadual Marcelo Lessa Bastos. Em agosto do ano passado, diante de um pedido de investiga\u00e7\u00e3o do caso feito por Jorge Augusto, irm\u00e3o de Cec\u00edlia, Bastos apressou-se em tentar enterrar o caso. Sem ao menos ouvir Guerra, segundo o promotor uma &#8220;pessoa vinculada \u00e0 Ditadura Militar (sic), do antigo Dops, portanto, sem nenhuma credibilidade&#8221;, recha\u00e7ou qualquer investiga\u00e7\u00e3o, pois considerou as den\u00fancias mera tentativa de autopromo\u00e7\u00e3o por meio da explora\u00e7\u00e3o do &#8220;mito que ainda gravita em torno dos atos praticados por ocasi\u00e3o da Ditadura Militar (sic) de 64, sendo que, como se sabe, os crimes da \u00e9poca foram todos anistiados&#8221;. Tamb\u00e9m achou desnecess\u00e1rio ouvir Vav\u00e1, o motorista da fam\u00edlia que ajudaria na queima dos corpos.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Bastos concluiu: &#8220;A biografia do dono da usina, o j\u00e1 falecido Heli Ribeiro Gomes, pessoa respeitada na sociedade local, torna absolutamente inveross\u00edmil a malsinada narrativa, que pode, inclusive, constituir crime de cal\u00fania&#8221;.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>E o que Vav\u00e1, o motorista, tem a dizer? Em maio do ano passado, o delegado federal Takahashi o localizou. De pronto, Vav\u00e1 negou inclusive conhecer o ex&#8211;delegado capixaba. Traiu-se, por\u00e9m, ao v\u00ea-lo via Skype, um sistema que transmite som e imagem pela internet. &#8220;Oi Dr. Guerra&#8221;, deixou escapulir. &#8220;A\u00ed caiu a casa&#8221;, diz o ex-delegado.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Takahashi quis lev\u00e1-lo a Vit\u00f3ria para uma acarea\u00e7\u00e3o ao vivo. Quem o impediu de ir foi o advogado Carlos Alberto Tavares Senra, acionado ap\u00f3s a mulher de Vav\u00e1 procurar a vereadora Cec\u00edlia.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>O afastamento de Dipp da Comiss\u00e3o da Verdade por motivos de sa\u00fade e a promo\u00e7\u00e3o de Takahashi para o comando da PF no Rio Grande do Norte levou a den\u00fancia a cair no esquecimento. Sem terminar as investiga\u00e7\u00f5es, o delegado federal n\u00e3o conseguiu confirmar ou afastar de vez a vers\u00e3o da crema\u00e7\u00e3o dos 12 corpos.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>O policial federal n\u00e3o duvida, por\u00e9m, dos eventuais servi\u00e7os prestados por Guerra \u00e0 repress\u00e3o. Colabora\u00e7\u00e3o igualmente admitida pelo coronel do Ex\u00e9rcito Paulo Malh\u00e3es, que dava expediente na Casa da Morte. Em junho \u00faltimo, em entrevista a O Globo, Malh\u00e3es admitiu que Guerra atuou sob o comando de Perdig\u00e3o, mas ressalvou: &#8220;\u00c9 um mentiroso.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>A participa\u00e7\u00e3o do ex-delegado no assassinato de Ronaldo Mouth Queiroz, militante da ALN, morto em abril de 1973 na Avenida Ang\u00e9lica, em Higien\u00f3polis, S\u00e3o Paulo, foi confirmada pelo advogado Belis\u00e1rio dos Santos Jr., amigo de Queiroz. Segundo Santos apurou, o capixaba narra detalhes conhecidos apenas por quem realmente participou da opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"><img decoding=\"async\" src=\"images\/stories\/captura de tela 2013-04-17 s 16.40.06.png\" border=\"0\" \/><\/p>\n<p> <\/span>Sobre as d\u00favidas a respeito de suas den\u00fancias, Guerra pede uma chance para prov\u00e1-las e insiste: est\u00e1 pronto para participar de uma acarea\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 com Vav\u00e1, mas tamb\u00e9m com Malh\u00e3es e com o mais not\u00f3rio repressor ainda vivo, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. O ex-delegado alega ter se reunido algumas vezes com Ustra. Este nega.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>CartaCapital localizou Vav\u00e1 em Campos. O motorista voltou a negar qualquer participa\u00e7\u00e3o nos crimes. E desmentiu os relatos do uso da usina para queimar corpos de militantes de esquerda. Seria imposs\u00edvel realizar a opera\u00e7\u00e3o ou mant\u00ea-la sob sigilo, afirma, pois os fornos eram vigiados 24 horas por 12 empregados em cada turno.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Vav\u00e1 igualmente nega ter conhecido o tenente Souza ou ter presenciado seu assassinato. Apesar das negativas, no di\u00e1logo com Guerra pelo Skype, comentou&#8211;se sobre a queima de um sof\u00e1 manchado com o sangue do tenente morto. O motorista pareceu saber do que se tratava.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Por causa desses detalhes, o Minist\u00e9rio P\u00fablico desconfia da vers\u00e3o de Vav\u00e1. &#8220;\u00c9 prematuro afirmar que Guerra imaginou tudo isso. Seu depoimento \u00e9 veross\u00edmil, consistente, coerente. J\u00e1 o depoimento do Vav\u00e1 \u00e9 repleto de inconsist\u00eancia. Posso afirmar, com minha experi\u00eancia, que existem coisas que ainda podem ser ditas pelo Vav\u00e1&#8221;, diz Oliveira.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>O procurador guarda um trunfo, o depoimento de um ex-empregado da usina que espontaneamente foi \u00e0 Procuradoria e relacionou Vav\u00e1 ao uso de armas e \u00e0 pr\u00e1tica de viol\u00eancia, al\u00e9m de noticiar mortes nas quais recaem suspeitas de envolvimento de integrantes da fam\u00edlia Ribeiro Gomes. Oliveira continua disposto a promover uma acarea\u00e7\u00e3o. &#8220;Se o depoimento de Vav\u00e1 se sustentar, as revela\u00e7\u00f5es de Guerra no livro se enfraquecem. At\u00e9 para decidir se continuamos a investiga\u00e7\u00e3o, precisamos confirmar ou n\u00e3o nossas suspeitas de que o depoimento do Vav\u00e1 \u00e9 inconsistente com os fatos da \u00e9poca.&#8221;<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em companhia de CartaCapital, o ex-delegado Cl\u00e1udio Guerra volta \u00e0 usina Cambahyba, onde diz ter queimado os corpos de 12 militantes de esquerda mortos nos por\u00f5es do regime<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4891"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4891"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4891\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4891"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4891"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4891"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}