{"id":4950,"date":"2013-04-22T12:19:36","date_gmt":"2013-04-22T12:19:36","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/04\/22\/a-ditadura-lida-por-dentro\/"},"modified":"2013-04-22T12:19:36","modified_gmt":"2013-04-22T12:19:36","slug":"a-ditadura-lida-por-dentro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/04\/22\/a-ditadura-lida-por-dentro\/","title":{"rendered":"A ditadura lida por dentro"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Romance de Bernardo Kucinski escava com atualidade e vigor liter\u00e1rio o terror da ditadura brasileira<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.outraspalavras.net\/files\/2013\/04\/ditaduraliteratura.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"170\" style=\"vertical-align: middle;\" \/>  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">L\u00ea-se o romance K. (Express\u00e3o Popular, 2011) de Bernardo Kucinski de um f\u00f4lego. Envolvente, o conjunto de fragmentos de que a narrativa se comp\u00f5e abra\u00e7a o leitor e pede dele aten\u00e7\u00e3o grave, sentimento operante e uma resposta comprometida. Tudo isso porque reconta, sob uma forma literariamente tensa, a busca de um pai pela filha desaparecida nos anos 70 durante a criminosa ditadura militar brasileira. Dado o tema, haver\u00e1 quem reconhe\u00e7a no livro, de imediato, um m\u00e9rito hist\u00f3rico, ligado ao resgate de um conjunto de quest\u00f5es que nunca ser\u00e1 demais repisar: a tortura, os assassinatos, os crimes perpetrados por um sistema de opress\u00e3o bem montado e com tonalidades pr\u00f3prias de pervers\u00e3o, as quais configuram a nota espec\u00edfica do terror institucional \u00e0 brasileira. Outros dir\u00e3o talvez que h\u00e1 muito valor nos tra\u00e7os universalizantes da narrativa, que articula a trag\u00e9dia hist\u00f3rica do nazismo ao golpe brasileiro e seus atos de baixeza, escavando a natureza humana subjetiva em abstra\u00e7\u00f5es tais como a perda, o luto, a saudade, o amor entre pai e filha. Haver\u00e1 ainda aqueles que destacar\u00e3o a pot\u00eancia liter\u00e1ria do livro, sua forma inquieta, n\u00e3o tradicionalista de oscilar narradores e transitar entre perspectivas narrativas distintas de que derivam estilos tamb\u00e9m distintos, num modo muito pr\u00f3prio de lidar com a mem\u00f3ria. Mas \u00e9 claro que uma leitura K. que se pretenda suficientemente profunda e abrangente n\u00e3o poder\u00e1 considerar cada um desses aspectos isoladamente, sob pena de suprimir aquilo que podemos chamar de \u201ca sua for\u00e7a contempor\u00e2nea\u201d. Tal for\u00e7a est\u00e1 precisamente na maneira como a narrativa se organiza e n\u00e3o, de maneira isolada, pelos seus m\u00e9ritos de den\u00fancia e de reconstitui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de um tempo nefando. Esta for\u00e7a est\u00e1 em como fic\u00e7\u00e3o e hist\u00f3ria se articulam no romance em fun\u00e7\u00e3o de uma forma narrativa capaz de descortinar a vida que flui imperfeita, sob as apar\u00eancias \u00e0s vezes amb\u00edguas que o tempo vai adesivando nos fatos, o que comumente favorece o bloqueio de sua inteligibilidade.<\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">De cara, o romance prop\u00f5e uma discuss\u00e3o que envolve fato e fic\u00e7\u00e3o, hist\u00f3ria e narrativa liter\u00e1ria. A frase que inicia o aviso ao leitor que funciona como ep\u00edgrafe do livro n\u00e3o deixa d\u00favidas quanto \u00e0 inten\u00e7\u00e3o que a obra tem de instaurar uma inquieta\u00e7\u00e3o para o leitor. A interpela\u00e7\u00e3o \u00e9 dial\u00e9tica, como se reconhecer\u00e1: \u201cTudo neste livro \u00e9 inven\u00e7\u00e3o, mas quase tudo aconteceu.\u201d A armadilha ao leitor descuidado est\u00e1 no fato de que \u201cinven\u00e7\u00e3o\u201d em literatura n\u00e3o significa del\u00edrio ou evas\u00e3o. Inven\u00e7\u00e3o ou fabula\u00e7\u00e3o s\u00e3o a mat\u00e9ria fundamental da fic\u00e7\u00e3o, s\u00e3o a base contradit\u00f3ria da obra liter\u00e1ria que \u00e9 a um s\u00f3 tempo mimese e poiese, como j\u00e1 ensinou Arist\u00f3teles h\u00e1 tantos s\u00e9culos. Trocando em mi\u00fados, a obra liter\u00e1ria \u00e9 imita\u00e7\u00e3o do real que se d\u00e1 n\u00e3o apesar da fabula\u00e7\u00e3o, mas sim atrav\u00e9s da inven\u00e7\u00e3o. A esse respeito diz o autor: \u201cDeixei que lembran\u00e7as flu\u00edssem diretamente da mem\u00f3ria, na forma como l\u00e1 estavam, h\u00e1 d\u00e9cadas soterradas, sem confront\u00e1-las com pesquisas, sem tentar complet\u00e1-las ou lapid\u00e1-las com registros da \u00e9poca.\u201d Assim, o que o romance K. nos apresenta \u00e9, al\u00e9m de um dilacerado painel do tempo, uma grande problematiza\u00e7\u00e3o do fazer liter\u00e1rio. Usando os elementos do romance, dir\u00edamos que a ditadura n\u00e3o \u00e9 simplesmente relatada, documentada, exposta ou representada objetivamente por Kucinski. Em seu romance o que se v\u00ea \u00e9, de forma franca, a subjetividade, a dimens\u00e3o mais \u00edntima de um autor-narrador, filtrando os fatos da objetividade, nunca em detrimento da verdade hist\u00f3rica, mas sempre a favor de uma exposi\u00e7\u00e3o tensa e v\u00edvida dela.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O dado formal fundamental da obra \u00e9 a sua din\u00e2mica narrativa, que se estabelece num movimento tenso entre tend\u00eancias e formas dispersivas, por um lado, e, por outro, elementos unificadores. Tamb\u00e9m nesse ponto as palavras do autor s\u00e3o bastante esclarecedoras: \u201cA unidade se deu atrav\u00e9s de K. Por isso, o fragmento que o introduz inicia o conjunto, logo ap\u00f3s a abertura. E o que encerra suas atribula\u00e7\u00f5es est\u00e1 quase no final. A ordem dos demais fragmentos \u00e9 arbitr\u00e1ria, apenas uma entre as v\u00e1rias possibilidades de ordenamento dos textos.\u201d O que o leitor ver\u00e1, portanto, \u00e9 um conjunto de fragmentos, aparentemente postos em movimento de dispers\u00e3o, que, no entanto, t\u00eam a unidade entre si garantida, em primeira inst\u00e2ncia, pelo elo que \u00e9 a personagem K. Nesse dado formal encontramos uma adequa\u00e7\u00e3o do autor a certa tend\u00eancia \u00e0 dispersividade narrativa do romance contempor\u00e2neo. A\u00ed est\u00e1, pois, um bom sintoma de sua atualidade. Entretanto, seria bom alertar que K. n\u00e3o \u00e9 apenas um romance atual e sim um \u00f3timo romance contempor\u00e2neo. Pensar assim passa por reconhecer um outro n\u00edvel da din\u00e2mica dispers\u00e3o-unidade, que n\u00e3o est\u00e1 expresso pelo autor, mas que pode ter sido por ele intu\u00eddo, uma vez que est\u00e1 excelentemente formalizado na obra.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Uma breve contabilidade descritiva dos cap\u00edtulos dar\u00e1 a ver melhor este outro n\u00edvel da referida din\u00e2mica. K. \u00e9 composto por 29 fragmentos narrativos. Desses, 15 fragmentos, ou seja mais da metade, apresentam uma voz narrativa em terceira pessoa e apresentam como personagem central o pr\u00f3prio personagem K., o pai que busca a filha desaparecida. Nesses fragmentos, apresenta-se uma tensa rela\u00e7\u00e3o de distanciamento e aproxima\u00e7\u00e3o do personagem, o que d\u00e1 eles uma profunda humaniza\u00e7\u00e3o do relato. A intimidade entre narrador e personagem, embora sutil, \u00e9 profunda e verifica-se uma empatia de alta sensibilidade entre eles, o que \u00e9 determinante para a efic\u00e1cia est\u00e9tica n\u00e3o apenas desses fragmentos, mas tamb\u00e9m da obra como um todo. Outro grupo significativo de fragmentos \u00e9 aquele composto pelos 5 textos escritos tamb\u00e9m em terceira pessoa, mas que, diferentemente daquele grupo majorit\u00e1rio, n\u00e3o t\u00eam o personagem K. como protagonista. Os protagonistas s\u00e3o diferentes em cada um deles: um agente do terror, uma faxineira da casa de tortura, um general cassado, os professores em reuni\u00e3o de colegiado na universidade. Aqui a rela\u00e7\u00e3o entre narrador em terceira pessoa e personagem se d\u00e1 mais pela via da media\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e avaliativa, do que pela via da subjetividade sentimental, como no caso dos fragmentos dedicados predominantemente a K. H\u00e1 ainda um outro grupo de fragmentos em que a narrativa encontra-se em primeira pessoa, ou seja, os pr\u00f3prios personagens protagonistas falam, expondo a sua hist\u00f3ria. S\u00e3o eles: o pai do genro de K., que desfia saudade em um tom simples e tocante; um agente da pol\u00edcia est\u00fapido, que n\u00e3o sabe o que fazer com a cadela do casal assassinado; algu\u00e9m que reflete sobre a busca in\u00fatil pela filha, que pode ser o pr\u00f3prio K. (ou qui\u00e7\u00e1 o narrador daqueles primeiros fragmentos onde ele era o protagonista); o perverso delegado Fleury e, por fim, a amante do delegado torturador. Nesses fragmentos a nota\u00e7\u00e3o ficcional se acentua, como forma de evidenciar as for\u00e7as humanas em jogo numa sociedade massacrada pelo terror institucionalizado. Completam o quadro dos 29 fragmentos ainda duas cartas, uma do personagem Rodriguez e uma da personagem A., al\u00e9m de dois textos que poderiam ser creditados ao pr\u00f3prio autor, uma vez que evidenciam certos princ\u00edpios e sentimentos que catalisam a produ\u00e7\u00e3o do romance, falando da perman\u00eancia fantasm\u00e1tica da personagem desaparecida e de uma resist\u00eancia do sistema opressor mesmo em tempos de propalada democracia. No fim das contas, esses dois fragmentos, postos no in\u00edcio e no fim do livro, d\u00e3o-lhe a moldura hist\u00f3rica e motivacional, evidenciando claramente a consci\u00eancia do autor relativamente \u00e0 contemporaneidade de sua obra. S\u00e3o ainda esses fragmentos sintomas da presen\u00e7a unificadora de um autor-narrador (ou autor textual) absolutamente consciente dos mecanismos que atuam no caleidosc\u00f3pio narrativo que vai montando aos olhos do leitor, num processo que sempre revela as marcas da reflex\u00e3o profunda que empreende acerca do fazer liter\u00e1rio em tempos de ignom\u00ednia normalizada como institui\u00e7\u00e3o de governo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A respeito dessa pluralidade narrativa, em jarg\u00e3o de cr\u00edtica liter\u00e1ria, dir\u00edamos que este \u00e9 um modo de bem trabalhar com tens\u00f5es e oscila\u00e7\u00f5es de tend\u00eancias autodieg\u00e9ticas, heterodieg\u00e9ticas e homodieg\u00e9ticas. Ou seja, com narradores que contam seus pr\u00f3prios feitos na condi\u00e7\u00e3o de protagonistas; com narradores que contam feitos de outrem a uma relativa dist\u00e2ncia dos acontecimentos e com narradores que t\u00eam algum comprometimento com a hist\u00f3ria, embora dela tenham participado. Desse modo, em d\u00ednamo oscilante, dilata-se e ami\u00fada-se a dist\u00e2ncia de empatia entre narrador e personagem, provocando um movimento de sentimento e experi\u00eancia vital tamb\u00e9m no leitor. V\u00ea-se, pois, que K. \u00e9 constru\u00eddo a partir de uma eficient\u00edssima pluralidade de pontos de vista narrativos e de g\u00eaneros liter\u00e1rios, que movimentam-se nos meandros da recolha documental e a fabula\u00e7\u00e3o a servi\u00e7o sempre de um resultado capaz de dar a ver a for\u00e7a da Hist\u00f3ria. Assim, trata-se de uma multiplicidade que n\u00e3o serve ao del\u00edrio de invari\u00e2ncia que caracteriza o grosso da narrativa p\u00f3s-moderna. Tal variedade est\u00e1 amarrada ideologicamente fortemente pela presen\u00e7a grave e comprometida desta entidade que aqui chamamos de autor-narrador. Portanto um bom nome para essa peculiaridade est\u00e9tica do romance de Bernardo Kucinski \u00e9 multiplicidade convergente, pois todas as vers\u00f5es apresentadas nos 29 fragmentos da obra convergem para uma verdade: o massacre articulado, sist\u00eamico e institucional perpetrado pelo regime de terror da ditadura brasileira, o qual, de outra forma jamais seria com o mesmo teor de tens\u00e3o revelado. Das suas virtualidades est\u00e9ticas, pois, K. extrai a sua concretude pol\u00edtica, que n\u00e3o deixa de ser uma aposta na for\u00e7a da Hist\u00f3ria e na necessidade de que ela se construa como algo al\u00e9m do factual, exatamente para ser mais verdadeira. Estamos nas vizinhan\u00e7as dos 50 anos do Golpe Militar de 1964 e K. deve ser visto como uma li\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea acerca da vigil\u00e2ncia relativa \u00e0 compreens\u00e3o do passado, nem que seja por meio do filtro da fic\u00e7\u00e3o. Esta, ali\u00e1s, talvez a melhor forma de entender o massacre subjetivo dos regimes de exce\u00e7\u00e3o, uma vez que prop\u00f5e uma leitura interpretativa da Hist\u00f3ria n\u00e3o apenas a contrapelo, mas por dentro de seu obscuro bojo.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por Alexandre Pilati &#8211; professor de literatura brasileira da Universidade de Bras\u00edlia. Poeta e cr\u00edtico liter\u00e1rio \u00e9 autor, entre outros, de\u00a0A na\u00e7\u00e3o drummondiana\u00a0(7Letras, 2009).<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Romance de Bernardo Kucinski escava com atualidade e vigor liter\u00e1rio o terror da ditadura brasileira<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4950"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4950"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4950\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4950"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4950"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4950"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}