{"id":5096,"date":"2013-04-29T01:28:07","date_gmt":"2013-04-29T01:28:07","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/04\/29\/agentes-duplos-entram-na-mira-da-comissao-da-verdade-em-sao-paulo\/"},"modified":"2013-04-29T01:28:07","modified_gmt":"2013-04-29T01:28:07","slug":"agentes-duplos-entram-na-mira-da-comissao-da-verdade-em-sao-paulo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/04\/29\/agentes-duplos-entram-na-mira-da-comissao-da-verdade-em-sao-paulo\/","title":{"rendered":"Agentes duplos entram na mira da Comiss\u00e3o da Verdade em S\u00e3o Paulo"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Comiss\u00e3o da Verdade de S\u00e3o Paulo abriu uma frente de investiga\u00e7\u00e3o para tentar cicatrizar uma das feridas mais doloridas dos anos de chumbo: os casos de dela\u00e7\u00e3o e os estragos \u2013 pris\u00f5es, mortes e desaparecimentos \u2013 que as trai\u00e7\u00f5es provocaram nas organiza\u00e7\u00f5es da esquerda armada.<span class=\"s1\" \/> <\/p>\n<p class=\"p2\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/odia.ig.com.br\/polopoly_fs\/1.576554!\/image\/image.jpg_gen\/derivatives\/landscape_575\/image.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"200\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<address \/>O papel do ex-guerrilheiro Zorro como traidor teria sido definido em meados de 1970 | Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o  <!--more-->  <\/address>\n<p> <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em audi\u00eancia p\u00fablica, nesta sexta-feira, a entidade colocou em debate os casos de dois guerrilheiros que, segundo os ind\u00edcios levantados por familiares de militantes sobreviventes e desaparecidos, foram \u201cvirados\u201d e passaram a colaborar com os \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o como agentes duplos.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Um deles \u00e9 Gilberto Faria Lima, o Zorro , cuja colabora\u00e7\u00e3o teria ajudado a ditadura militar a eliminar inteiramente uma das organiza\u00e7\u00f5es da luta armada, o Movimento Revolucion\u00e1rio Tiradentes (MRT). O outro \u00e9 V\u00edtor Luiz Papandreu, conhecido por Russo e Greguinho.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Papandreu \u00e9 responsabilizado pelas dela\u00e7\u00f5es que terminaram nas pris\u00f5es e execu\u00e7\u00f5es no centro de tortura de Petr\u00f3polis, na regi\u00e3o serrana do Rio, conhecida como a Casa da Morte. Ele teria participado da armadilha em que foi pego e assassinado Carlos Alberto Soares de Freitas, o Beto, conhecido na luta armada por Breno, amigo da presidente Dilma Rousseff e um dos principais dirigentes das organiza\u00e7\u00f5es em que ambos militaram, a \u00faltima delas a VAR-Palmares.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Zorro \u00e9 o caso mais emblem\u00e1tico. A esquerda tem evid\u00eancias de que esteja vivo e morando clandestinamente no Rio de Janeiro. \u00c9 suspeito de ter delatado v\u00e1rios militantes em S\u00e3o Paulo entre 1970 e 1971 e, mais tarde, se infiltrado entre os grupos de brasileiros banidos pelo regime militar e asilados no Chile e Argentina.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Ao lado do espi\u00e3o uruguaio Alberto Conrado Avegno , Zorro teria ajudado a formar o embri\u00e3o da chamada Opera\u00e7\u00e3o Condor, o esquema de espionagem que uniu as ditaduras da Am\u00e9rica do Sul.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Num emocionado relato, a ativista Ieda Seixas, presa, torturada e encarcerada um ano e meio sem senten\u00e7a por ser filha de um dos homens mais procurados \u00e0 \u00e9poca, o mec\u00e2nico Joaquim Alencar Seixas, dirigente do MRT, disse que Zorro teria colaborado com a arma\u00e7\u00e3o do cerco em que foi fuzilado, no dia 17 de abril de 1971, Dimas Ant\u00f4nio Casemiro, o \u201cRei\u201d, morto num dos \u201caparelhos\u201d da organiza\u00e7\u00e3o, uma casa no Bairro do Ipiranga. Zorro estava com \u201cRei\u201d e desapareceu em meio ao tiroteio.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Instantes depois da execu\u00e7\u00e3o de Casemiro, Ieda ouviu um policial dizer calmamente que Zorro havia escapado, correndo pela rua dos fundos da casa. Ela apontou dois detalhes que contrariavam a l\u00f3gica de uma fuga naquelas circunst\u00e2ncias: o quarteir\u00e3o estava inteiramente cercado e ela se encontrava na mesma rua citada pelo policial, mas n\u00e3o viu ningu\u00e9m passar.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/odia.ig.com.br\/polopoly_fs\/1.576555!\/image\/image.jpg_gen\/derivatives\/landscape_575\/image.jpg\" border=\"0\" width=\"575\" height=\"360\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<address>Gilberto Faria Lima, o Zorro, estava entre os procurados por agentes do regime militar | Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/address>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O militante reagiu ao cerco, trocando tiros com os policiais. \u201cRei levou v\u00e1rios tiros de fuzil, caiu de bru\u00e7os, com a boca no cascalho da rua\u201d, lembra Ieda. S\u00f3 anos depois, juntando as pe\u00e7as do quebra cabe\u00e7as, \u00e9 que ela e os demais militantes conclu\u00edram que Zorro, preso pelo Centro de Informa\u00e7\u00f5es da Marinha (Cenimar) no Rio um ano antes, havia se tornado agente duplo.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Ieda tamb\u00e9m listou v\u00e1rios outros epis\u00f3dios em que o guerrilheiro, com uma calma anormal para quem vivia a adrenalina da \u00e9poca, desaparecia e depois retornava tranquilamente, enquanto outros militantes acabam caindo nas m\u00e3os da pol\u00edcia.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>\u201cEscapava como o cara da capa e espada (o super-her\u00f3i mascarado de quem herdou o apelido) e, ao contr\u00e1rio dos outros, nunca estava tenso\u201d, contou Ieda. Reconstruindo os epis\u00f3dios da \u00e9poca, acha que o ex-companheiro tornara-se um psicopata frio. \u201c\u00c9 um dem\u00f4nio\u201d, diz.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>A Zorro s\u00e3o atribu\u00eddas tamb\u00e9m a pris\u00e3o e morte do ex-major Joaquim Pires Cerveira e Jo\u00e3o Batista Rita, apanhados quando tentavam retornar ao pa\u00eds, em 1973. O ex-guerrilheiro teria se infiltrado entre os banidos que se encontravam no Chile e na Argentina.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>Queima de arquivo<\/strong><span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>No grupo das v\u00edtimas da trai\u00e7\u00e3o est\u00e1 tamb\u00e9m outro integrante do MRT, Aderval Alves Coqueiro, delatado, segunda filha do ex-militante, C\u00e9lia Coqueiro, por Greguinho. Coqueiro foi fuzilado num cerco no Cosme Velho, no Rio de Janeiro, no dia 6 de fevereiro de 1971. Era o primeiro de mais de duas dezenas de militantes banidos que foram executados ao retornar clandestinamente ao pa\u00eds.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>O destino de Greguinho tamb\u00e9m \u00e9 marcado pela trag\u00e9dia. Foi eliminado pelos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o no interior da Casa da Morte, em Petr\u00f3polis como queima de arquivo em 1971. C\u00e9lia diz que o delator de seu pai teria adotado comportamento \u201cinadequado\u201d e, com transtornos psicol\u00f3gicos, acabou executado por n\u00e3o ter mais utilidade aos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o. Em 2001 a Justi\u00e7a Federal reconheceu a responsabilidade do estado e mandou o governo indenizar a fam\u00edlia de Papandreu.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>Organiza\u00e7\u00e3o destro\u00e7ada<\/strong><span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Entre fevereiro e abril de 1971, as dela\u00e7\u00f5es destru\u00edram o MRT, organiza\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria formada pelo mesmo grupo que fundou, em 1963, o Sindicato dos Metal\u00fargicos de S\u00e3o Bernardo do Campo, de onde emergiria no final dos anos 1970 o l\u00edder metal\u00fargico Luiz In\u00e1cio Lula da Silva. Seus militantes, todos trabalhadores comunistas, com longa milit\u00e2ncia pol\u00edtica, eram origin\u00e1rios do PCB, PC do B e, por \u00faltimo, da Ala Vermelha, um ramo dissidente do PC do B que optou pelas a\u00e7\u00f5es mais radicais contra a ditadura. O \u201cgrupo de fogo\u201d da organiza\u00e7\u00e3o era formado por, no m\u00e1ximo, 10 integrantes.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Quando destro\u00e7ado, o MRT tinha apenas oito homens na linha de frente, quase todos \u2013 a exce\u00e7\u00e3o \u00e9 o jornalista Ivan Seixas, coordenador da Comiss\u00e3o da Verdade paulista \u2013 mortos em cercos de rua ou sob tortura, como o l\u00edder do grupo, Devanir Jos\u00e9 de Carvalho, o \u201cHenrique\u201d, e Joaquim Seixas, o \u201cRoque\u201d, pai de Ivan e de Ieda. Era retalia\u00e7\u00e3o aos assassinatos (ou justi\u00e7amentos, como a esquerda chama) de apoiadores da ditadura.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>O MRT tinha tamb\u00e9m uma caracter\u00edstica curiosa: o envolvimento de fam\u00edlias inteiras na luta armada. \u00c9 o caso dos irm\u00e3os Carvalho (Devanir, Derli, Joel, Jairo e Daniel) e, o exemplo mais cl\u00e1ssico, da fam\u00edlia Seixas, onde s\u00f3 um menino de dez anos n\u00e3o se tornou militante. Ivan, com 16 anos, militante de peso na luta arma, foi apanhado junto com o pai, Joaquim Seixas, torturados juntos na mesma cela.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>No mesmo dia a pol\u00edcia prendeu tamb\u00e9m a m\u00e3e, Fanny, e duas irm\u00e3s, Ieda e Iara, todas recolhidas nas mesmas depend\u00eancias onde Joaquim seria morto sob tortura. \u201cA fam\u00edlia era uma organiza\u00e7\u00e3o\u201d, brincou o deputado Adriano Diogo, presidente da comiss\u00e3o paulista. Todos cumpriram pena por causa da milit\u00e2ncia de Joaquim e Ivan, que provavelmente n\u00e3o tenha sido morto porque era menor de idade, tornando-se o \u00fanico sobrevivente do \u201cgrupo de fogo\u201d do MRT daquele per\u00edodo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; iG<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Comiss\u00e3o da Verdade de S\u00e3o Paulo abriu uma frente de investiga\u00e7\u00e3o para tentar cicatrizar uma das feridas mais doloridas dos anos de chumbo: os casos de dela\u00e7\u00e3o e os estragos \u2013 pris\u00f5es, mortes e desaparecimentos \u2013 que as trai\u00e7\u00f5es provocaram nas organiza\u00e7\u00f5es da esquerda armada. 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