{"id":5160,"date":"2013-05-03T02:12:00","date_gmt":"2013-05-03T02:12:00","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/05\/03\/psicanalista-trauma-de-tortura-na-ditadura-e-passado-entre-geracoes\/"},"modified":"2013-05-03T02:12:00","modified_gmt":"2013-05-03T02:12:00","slug":"psicanalista-trauma-de-tortura-na-ditadura-e-passado-entre-geracoes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/05\/03\/psicanalista-trauma-de-tortura-na-ditadura-e-passado-entre-geracoes\/","title":{"rendered":"Psicanalista: trauma de tortura na ditadura \u00e9 passado entre gera\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>A viol\u00eancia sofrida por v\u00edtimas da ditadura militar no Brasil e por suas fam\u00edlias n\u00e3o foi compartilhada e elaborada pela sociedade como um todo e \u00e9 como uma &#8220;chaga aberta&#8221; que est\u00e1 sendo transmitida de gera\u00e7\u00e3o para gera\u00e7\u00e3o, segundo um psicanalista ouvido pela BBC Brasil. Mois\u00e9s Rodrigues da Silva J\u00fanior, presidente da institui\u00e7\u00e3o de sa\u00fade mental paulistana Projetos Terap\u00eauticos, disse, no entanto, que o Estado brasileiro acaba de dar um passo decisivo e hist\u00f3rico para tentar remediar isso.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um projeto piloto que oferece atendimento a algumas das v\u00edtimas acaba de ser inaugurado pela Comiss\u00e3o de Anistia do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a. As chamadas Cl\u00ednicas do Testemunho s\u00e3o parte de uma pol\u00edtica que visa reparar erros cometidos por agentes do Estado brasileiro durante a ditadura. Entre estes, persegui\u00e7\u00f5es, tortura, desaparecimentos e assassinatos de supostos oponentes pol\u00edticos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O governo j\u00e1 oferece repara\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica \u00e0s v\u00edtimas e seus familiares, mas segundo o presidente da Comiss\u00e3o de Anistia, Paulo Abr\u00e3o, n\u00e3o basta reparar economicamente. &#8220;\u00c9 obriga\u00e7\u00e3o do Estado reparar tamb\u00e9m psicologicamente.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Cinco institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade mental &#8211; em S\u00e3o Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Recife &#8211; est\u00e3o participando da fase inicial do programa, que vai durar dois anos e deve atender cerca de 700 pessoas. Entre as institui\u00e7\u00f5es, est\u00e1 a cl\u00ednica onde Mois\u00e9s atende.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Dor inexplic\u00e1vel<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Como n\u00e3o houve o compartilhamento ou elabora\u00e7\u00e3o (do trauma sofrido), a viol\u00eancia se torna um material t\u00f3xico que habita as pessoas na forma de medos, amea\u00e7as e sofrimento&#8221;, disse Mois\u00e9s. O\u00a0psicanalista\u00a0citou como exemplo o caso de uma fam\u00edlia que ele atendeu, um casal e seus filhos. Mois\u00e9s n\u00e3o sabia que um dos av\u00f3s das crian\u00e7as havia desaparecido durante a ditadura.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A fam\u00edlia parecia bem ajustada, mas os netos adolescentes do desaparecido faziam uso abusivo de drogas, explicou Mois\u00e9s. &#8220;Tinham uma dor que n\u00e3o sabiam referir exatamente. Fomos conversando, at\u00e9 que come\u00e7ou a aparecer, por parte do pai &#8211; o filho do desaparecido &#8211; a ideia de que ele sentia a vida como uma tortura.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Mas de onde vinha essa palavra, tortura? Eu n\u00e3o sabia que o pai dele tinha sido torturado, mas essa palavra me chamou a aten\u00e7\u00e3o e eu quis saber de onde vinha. Encontramos isso na hist\u00f3ria do av\u00f4. N\u00e3o \u00e9 que, a partir da\u00ed, tudo se fez luz, mas isso foi importante no tratamento dessa fam\u00edlia.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O psicanalista\u00a0disse que as viv\u00eancias traum\u00e1ticas, quando n\u00e3o s\u00e3o expressas, ficam num limbo atemporal onde n\u00e3o podem ser reconhecidas como causa do sofrimento e t\u00e3o pouco esquecidas. &#8220;S\u00e3o uma presen\u00e7a ausente, ou uma aus\u00eancia presente, que pode invadir (o presente) a qualquer momento, reativando os sentimentos de terror. Formam uma grande rede, que passa de uma gera\u00e7\u00e3o para outra, como uma chaga aberta&#8221;, explicou. &#8220;Ent\u00e3o, temos de falar disso.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Fazer circular aquilo que ficou estagnado provoca terror e, ao mesmo tempo, come\u00e7a a arejar o terror. O t\u00f3xico \u00e9 compartilhado e dividido por todos&#8221;, disse ele. O psicanalista admitiu que o processo n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil e disse n\u00e3o saber quantas pessoas v\u00e3o querer participar das Cl\u00ednicas do Testemunho.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Tortura &#8220;leg\u00edtima&#8221;<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Uma pesquisa divulgada no ano passado pelo N\u00facleo de Estudos da Viol\u00eancia (NEV) da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) constatou que 47,5% dos entrevistados eram favor\u00e1veis ao uso, em tribunais, de provas obtidas a partir de tortura policial. O estudo foi feito em 11 capitais brasileiras.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Nesse contexto, a decis\u00e3o do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a de oferecer atendimento \u00e0s v\u00edtimas da ditadura representa um marco hist\u00f3rico, disse o psicanalista. &#8220;A tortura \u00e9 feita no Brasil com o apoio forte da popula\u00e7\u00e3o&#8221;, reconhece. &#8220;Mas n\u00e3o podemos esquecer o lugar do Estado na organiza\u00e7\u00e3o social e simb\u00f3lica.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Para Mois\u00e9s, a decis\u00e3o do Estado de oferecer atendimento \u00e0s v\u00edtimas da ditadura estabelece um precedente fundamental. &#8220;O que \u00e9 importante aqui \u00e9 o reconhecimento, pelo Estado, de que n\u00e3o cumpriu seu dever (de proteger o cidad\u00e3o), de que impingiu sofrimento e est\u00e1 pronto a reparar o mal realizado.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Isto muda tudo. A partir de agora, a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 mais eu atendendo aos netos do desaparecido, que se drogam&#8221;, afirmou. &#8220;Agora, sou contratado pelo Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a para exercer a\u00e7\u00f5es reparat\u00f3rias&#8221;, disse o\u00a0psicanalista.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O projeto Clinicas do Testemunho foi inaugurado em abril, em um evento na Assembleia Legislativa do Estado de S\u00e3o Paulo. Mois\u00e9s estava presente. &#8220;Tinha uma popula\u00e7\u00e3o muito comocionada, de afetados, familiares, simpatizantes, profissionais da sa\u00fade. Foi muita satisfa\u00e7\u00e3o poder viver essa vit\u00f3ria, porque at\u00e9 outro dia dizia-se que isso tudo (os relatos de tortura e desaparecimentos) era uma fantasia, que no Brasil n\u00e3o tinha havido uma ditadura e, sim, uma &#8216;ditabranda'&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Um testemunho<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A militante pol\u00edtica carioca Eliete Ferrer, 66 anos, tamb\u00e9m saudou o lan\u00e7amento das Cl\u00ednicas do Testemunho. Ela \u00e9 organizadora do livro 68, A Gera\u00e7\u00e3o que Queria Mudar o Mundo, publicado em 2010.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No final da d\u00e9cada de 1960, professora de hist\u00f3ria do n\u00edvel prim\u00e1rio, Eliete passou a integrar a Alian\u00e7a Libertadora Nacional (ALN) em protesto contra o golpe militar. Inicialmente, o grupo apenas realizava manifesta\u00e7\u00f5es, mas, com o endurecimento na pol\u00edtica do governo, o movimento tamb\u00e9m se radicalizou e passou \u00e0 luta armada.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 1973, o ent\u00e3o companheiro de Eliete, jornalista Luiz Carlos Guimar\u00e3es, foi preso e torturado. Quando foi solto, dois meses depois, o casal caiu na clandestinidade e saiu do Brasil. &#8220;Fomos para o Chile, fomos direto para o terror&#8221;, ela explicou. &#8220;N\u00f3s n\u00e3o sab\u00edamos.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Presos em 11 de setembro de 1973, dia do golpe militar no Chile, Eliete e o companheiro sofreram viol\u00eancia nas m\u00e3os da pol\u00edcia chilena. Houve espancamentos, simula\u00e7\u00f5es de fuzilamento e amea\u00e7as de estupro. Mas eles conseguiram escapar e, com ajuda da ONU e de entidades ligadas a direitos humanos, exilaram-se na Su\u00e9cia. Eliete s\u00f3 retornaria ao Brasil em 1979, quando entrou em vigor a Lei da Anistia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Traumatizada, ela recebeu atendimento psicol\u00f3gico por volunt\u00e1rios do Grupo Tortura Nunca Mais\/Rio de Janeiro (GTNM\/RJ). &#8220;Quando cheguei ao Brasil, tinha muitos problemas. N\u00e3o conseguia falar sobre o Chile ou sobre a pris\u00e3o do Luiz Carlos&#8221;, afirmou. &#8220;Eu tinha muitos pesadelos, sempre acordava gritando, duas, tr\u00eas vezes por noite&#8221;, disse. &#8220;Sonhava que as pessoas queriam me matar.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Fiz terapia durante muitos anos, mais de dez. O GTNM\/RJ foi pioneiro em oferecer esse atendimento&#8221;, afirmou\u00a0Eliete. Ela disse que a terapia a ajudou a viver melhor consigo mesma. &#8220;Quando a gente fala, o assunto duro, pontudo, que machuca como um ouri\u00e7o, vai se polindo e todo mundo consegue segur\u00e1-lo.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">Por tudo isso, Eliete aplaude a iniciativa do Estado brasileiro\u00a0de assumir a responsabilidade pelo atendimento \u00e0s v\u00edtimas. &#8220;As clinicas s\u00e3o uma forma de olharmos para a ferida, junto a um profissional, uma pessoa que estudou a alma humana, e vai te ajudar a curar aquela ferida.&#8221;<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Pr\u00f3ximo passo<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mas a militante acrescentou que, para ela, o processo de repara\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o est\u00e1 completo. &#8220;Se o torturador n\u00e3o \u00e9 punido, a tortura continua, nas delegacias&#8221;, disse. &#8220;\u00c9ramos militantes, mas quem \u00e9 torturado hoje \u00e9 o preto pobre nas periferias das cidades&#8221;, afirmou ela. E finalizou: &#8220;o\u00a0pr\u00f3ximo passo, em termos institucionais, seria o julgamento dessas pessoas. N\u00e3o queremos que sejam torturados como fomos, mas que sejam julgados pelas leis do Pa\u00eds.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Lei da Anistia, que permitiu que presos pol\u00edticos e exilados como Eliete voltassem a viver em liberdade no Brasil, tamb\u00e9m garantiu o perd\u00e3o pol\u00edtico aos torturadores que trabalharam a servi\u00e7o do regime.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m do atendimento \u00e0s v\u00edtimas e familiares de v\u00edtimas da ditadura militar, o projeto Cl\u00ednicas do Testemunho inclui atividades paralelas: o treinamento de profissionais para atender pessoas afetadas pela viol\u00eancia de Estado e pesquisas sobre as consequ\u00eancias ps\u00edquicas e sociais da viol\u00eancia de Estado. Interessados em participar das cl\u00ednicas devem procurar a Comiss\u00e3o de Anistia do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; BBC Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A viol\u00eancia sofrida por v\u00edtimas da ditadura militar no Brasil e por suas fam\u00edlias n\u00e3o foi compartilhada e elaborada pela sociedade como um todo e \u00e9 como uma &#8220;chaga aberta&#8221; que est\u00e1 sendo transmitida de gera\u00e7\u00e3o para gera\u00e7\u00e3o, segundo um psicanalista ouvido pela BBC Brasil. 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