{"id":519,"date":"2012-05-21T17:41:51","date_gmt":"2012-05-21T17:41:51","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/21\/cabo-anselmo-cachorro-faz-jus-a-anistia\/"},"modified":"2012-05-21T17:41:51","modified_gmt":"2012-05-21T17:41:51","slug":"cabo-anselmo-cachorro-faz-jus-a-anistia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/21\/cabo-anselmo-cachorro-faz-jus-a-anistia\/","title":{"rendered":"CABO ANSELMO: \u201cCACHORRO\u201d FAZ JUS \u00c0 ANISTIA?"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>A Comiss\u00e3o de Anistia do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a est\u00e1 \u00e0s voltas com o processo mais rumoroso em seus sete anos de exist\u00eancia: o de Jos\u00e9 Anselmo dos Santos, conhecido como cabo Anselmo, embora tenha sido apenas marinheiro de primeira classe. Trata-se do mais c\u00e9lebre dos militantes da resist\u00eancia \u00e0 ditadura militar que, no jarg\u00e3o dos pr\u00f3prios \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a, atuaram como cachorros da repress\u00e3o, armando ciladas para os companheiros.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O cabo Anselmo foi o principal agitador da Associa\u00e7\u00e3o dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil no per\u00edodo que antecedeu a quartelada de 1964. Depois do golpe, passou v\u00e1rios anos foragido, esteve em Cuba treinando guerrilha e, de regresso ao Brasil, militou na luta armada contra o regime militar, ao mesmo tempo em que colaborava sub-repticiamente com a repress\u00e3o da ditadura, atraindo seus companheiros para emboscadas.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Eis como \u00c9lio Gaspari relatou, em A Ditadura Escancarada, uma de suas miss\u00f5es:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2013 A \u00faltima opera\u00e7\u00e3o de Anselmo, na primeira semana de janeiro de 1973, (&#8230;) resultou numa das maiores e mais cru\u00e9is chacinas da ditadura. Um combinado de oficiais do GTE e do DOPS paulista matou, no Recife, seis quadros da VPR. Capturados em pelo menos quatro lugares diferentes, apareceram numa pobre ch\u00e1cara da periferia. L\u00e1, segundo a vers\u00e3o oficial, deu-se um tiroteio (&#8230;). Os mortos da VPR teriam disparado dezoito tiros, sem acertar um s\u00f3. Receberam 26, catorze na cabe\u00e7a. (&#8230;) A advogada M\u00e9rcia de Albuquerque Ferreira viu os cad\u00e1veres no necrot\u00e9rio. Estavam brutalmente desfigurados.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quando seu verdadeiro papel ficou evidenciado, ele passou a viver sob a prote\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a, que lhe proveram remunera\u00e7\u00e3o e fachada legal sob identidade falsa. De vez em quando, para aumentar os ganhos, concedia entrevistas que foram publicadas com destaque na grande imprensa e at\u00e9 viraram livros.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O processo do cabo Anselmo, que tramita desde 2004 na Comiss\u00e3o de Anistia, ser\u00e1 julgado dentro de aproximadamente dois meses, segundo informa\u00e7\u00e3o que a colunista M\u00f4nica Bergamo, da Folha de S. Paulo, colheu do presidente do colegiado Paulo Abr\u00e3o Pires Jr.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Estigma da inf\u00e2mia \u2013 O programa foi criado para oferecer repara\u00e7\u00f5es \u00e0queles que sofreram danos f\u00edsicos, psicol\u00f3gicos, morais e profissionais em decorr\u00eancia do estado de exce\u00e7\u00e3o vigente no Brasil entre 1964 e 1985.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Conseq\u00fcentemente, caso o cabo Anselmo tenha sido um militante revolucion\u00e1rio at\u00e9 meados de 1971, s\u00f3 ent\u00e3o mudando de lado, sua vida foi mesmo afetada pelo arb\u00edtrio instaurado no Pa\u00eds, a despeito do ju\u00edzo moral que fa\u00e7amos de quem chegou a se vangloriar de haver causado a morte de &#8220;cem, duzentos&#8221; idealistas que combatiam a ditadura e o tinham como companheiro.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ou seja, se o poder n\u00e3o tivesse sido usurpado por um grupo de conspiradores em 1964, o cabo Anselmo continuaria presumivelmente servindo a Marinha, ao inv\u00e9s de se tornar um homem que h\u00e1 d\u00e9cadas carrega o estigma da inf\u00e2mia e precisa viver escondido no pr\u00f3prio pa\u00eds. Da\u00ed o seu direito formal \u00e0 repara\u00e7\u00e3o que est\u00e1 pleiteando.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No entanto, a anistia federal foi uma tentativa de re-equilibrar os pratos da balan\u00e7a, depois que a Lei da Anistia de 1979 passou uma borracha no passado, equiparando carrascos e v\u00edtimas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Naquele momento, os vitoriosos impuseram aos vencidos as condi\u00e7\u00f5es para a pacifica\u00e7\u00e3o: libertariam presos pol\u00edticos e deixariam os exilados retornarem ao Pa\u00eds, desde que os assassinatos, torturas e atrocidades cometidos ou consentidos pela ditadura ficassem para sempre fora do alcance da Justi\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O Governo FHC, n\u00e3o podendo ou n\u00e3o ousando remediar essa situa\u00e7\u00e3o, resolveu, pelo menos, remend\u00e1-la, concedendo compensa\u00e7\u00f5es financeiras aos humilhados e ofendidos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Vil\u00e3os e v\u00edtimas \u2013 Da\u00ed o mal-estar causado pela impud\u00eancia com que o cabo Anselmo pleiteou benef\u00edcio de v\u00edtima, ap\u00f3s ter sido um dos maiores vil\u00e3os do per\u00edodo. Do ponto-de-vista moral, \u00e9 chocante vermos um ser t\u00e3o deca\u00eddo lado a lado com cidad\u00e3os dignos e sofridos; do ponto-de-vista legal, provavelmente n\u00e3o h\u00e1 como expulsar esse estranho do ninho.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A menos, claro, que se consiga comprovar a tese sustentada por v\u00e1rios de seus ex-colegas da Armada: a de que o cabo Anselmo desde o primeiro momento serviu \u00e0 comunidade de informa\u00e7\u00f5es, como agente infiltrado nos movimentos de esquerda.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Alegam, primeiramente, que ele tudo fez para radicalizar os movimentos dos subalternos das For\u00e7as Armadas \u2013 fator decisivo para que a oficialidade decidisse quebrar seu juramento de fidelidade \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o, passando a apoiar os conspiradores.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Logo ap\u00f3s o golpe, Anselmo pediu asilo na embaixada mexicana. Mas, embora fosse uma das pessoas mais procuradas do Pa\u00eds, resolveu sair andando de l\u00e1, sem ser detido.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Algum tempo depois foi preso, exibido como trof\u00e9u pela ditadura&#8230; e logo transferido para uma delegacia de bairro, na qual, diz Gaspari, \u201cAnselmo fazia servi\u00e7os de telefonista, escriv\u00e3o e assistente do \u00fanico detetive do lugar\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A situa\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria do ex-marujo, continua Gaspari, n\u00e3o cessou de melhorar: \u201cCom as regalias ampliadas, era-lhe permitido ir \u00e0 cidade. Numa ocasi\u00e3o surpreendeu o ministro-conselheiro da embaixada do Chile, visitando-o no escrit\u00f3rio e pedindo-lhe asilo. Quando o diplomata lhe perguntou o que fazia em liberdade, respondeu que tinha licen\u00e7a dos carcereiros. O chileno, estupefato, recusou-lhe o pedido\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Finalmente, sem nenhuma dificuldade, Anselmo deixou a cadeia em abril de 1966. Nada houve que caracterizasse uma fuga: apenas constataram que o h\u00f3spede sa\u00edra e n\u00e3o voltara.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Foi para Cuba e s\u00f3 retornou ao Brasil em setembro de 1970, iniciando no ano seguinte sua trajet\u00f3ria de anjo exterminador.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Se ficar estabelecido que o Anselmo sempre foi um agente duplo, Anselmo n\u00e3o far\u00e1 jus \u00e0 anistia federal; mas, claro, os antigos comandantes do Cenimar, Deops e \u00f3rg\u00e3os cong\u00eaneres dificilmente atestar\u00e3o que ele j\u00e1 estava na sua folha de pagamentos antes da quartelada de 1964.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Caso tenha realmente sido um perseguido pol\u00edtico at\u00e9 1971, seus direitos n\u00e3o s\u00e3o anulados pelas indignidades posteriores.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O certo \u00e9 que as chamadas provas circunstanciais n\u00e3o bastam para priv\u00e1-lo da repara\u00e7\u00e3o a que moralmente n\u00e3o faz jus.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, \u00e9 prov\u00e1vel que a Comiss\u00e3o de Anistia tenha de engolir esse sapo gigantesco: deferir o pedido de um indiv\u00edduo infame a ponto de causar a morte da companheira que engravidara (a paraguaia Soledad Barret Viedma), tendo considerado mais importante garantir o massacre de seis revolucion\u00e1rios do que salvar sua amante e a crian\u00e7a que ela concebia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por \u00a0Celso Lungaretti, 57 anos, jornalista e ex-preso pol\u00edtico, foi militante da VPR, organiza\u00e7\u00e3o tra\u00edda pelo cabo Anselmo.<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Comiss\u00e3o de Anistia do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a est\u00e1 \u00e0s voltas com o processo mais rumoroso em seus sete anos de exist\u00eancia: o de Jos\u00e9 Anselmo dos Santos, conhecido como cabo Anselmo, embora tenha sido apenas marinheiro de primeira classe. 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