{"id":528,"date":"2012-05-21T23:39:09","date_gmt":"2012-05-21T23:39:09","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/21\/filha-de-guerrilheiros-quer-resgatar-memoria-dos-pais\/"},"modified":"2012-05-21T23:39:09","modified_gmt":"2012-05-21T23:39:09","slug":"filha-de-guerrilheiros-quer-resgatar-memoria-dos-pais","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/21\/filha-de-guerrilheiros-quer-resgatar-memoria-dos-pais\/","title":{"rendered":"Filha de guerrilheiros quer resgatar mem\u00f3ria dos pais"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Pedagoga vivia em Cuba e era apenas um beb\u00ea quando eles foram mortos<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ela chegou ao Brasil com documento falso e s\u00f3 come\u00e7ou a usar o nome verdadeiro com 26 anos de idade<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>\u00d1asaindy Barrett de Ara\u00fajo, 44, sabe bem a diferen\u00e7a entre mem\u00f3ria e lembran\u00e7a. &#8220;Lembran\u00e7as s\u00e3o as imagens do que vivi. Mem\u00f3ria \u00e9 o que aprendo do passado.&#8221;  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Sem lembran\u00e7as de seus pr\u00f3prios pais, ela espera que a Comiss\u00e3o da Verdade a ajude a reconstruir ao menos a mem\u00f3ria de quem eles foram.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os pais de \u00d1asaindy (o nome quer dizer &#8216;Claridade do Luar&#8217;, em guarani), militantes de esquerda, apaixonaram-se em Cuba, ent\u00e3o a meca da revolu\u00e7\u00e3o mundial, e ela nasceu.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A menina era um beb\u00ea de poucos meses quando o pai e logo depois a m\u00e3e voltaram ao Brasil para fazer a revolu\u00e7\u00e3o. E deixaram-na na ilha.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O pai, Jos\u00e9 Maria Ferreira de Ara\u00fajo, era um jovem que havia participado do levante dos marinheiros e fuzileiros navais, em 1964, ainda antes do golpe militar. Expulso da Marinha, Ara\u00fajo viajou a Cuba para aprender t\u00e9cnicas de guerrilha.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O regresso ao Brasil em junho de 1970 era para aplicar os ensinamentos. N\u00e3o durou.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Embora seu corpo nunca tenha sido encontrado, camaradas dizem que, preso e torturado, ele morreu em setembro do mesmo ano.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A m\u00e3e de \u00d1asaindy, Soledad Barrett Viedma, foi personagem marcante na hist\u00f3ria da luta contra o regime dos generais. Herdeira de uma fam\u00edlia de militantes comunistas, estudou marxismo na Universidade Patrice Lumumba, de Moscou.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Culta, linda, poliglota, poeta e grande entendedora de explosivos, teve destino tr\u00e1gico. Apaixonou-se por Jos\u00e9 Anselmo dos Santos, o cabo Anselmo, um revolucion\u00e1rio como ela. Ao ser preso e torturado, ele bandeou-se para a repress\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Delatada pelo namorado ao maior ca\u00e7ador de comunistas da \u00e9poca, o delegado S\u00e9rgio Paranhos Fleury, do Dops de S\u00e3o Paulo, Soledad foi morta numa emboscada em Pernambuco em 1973.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Com ela morreram outros cinco militantes da Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria, a organiza\u00e7\u00e3o de esquerda que ela integrava.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00d1asaindy foi criada por uma exilada brasileira em Cuba, Damaris de Oliveira Lucena, que a adotou. Mas o clima da \u00e9poca n\u00e3o favorecia as lembran\u00e7as.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ai de quem fosse pego levando cartas de militantes procurados. A menina teve de se contentar em ver imagens da m\u00e3e e do pai apenas em fragmentos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu n\u00e3o tenho fotos onde apare\u00e7am os rostos deles [dos pais]. Todas as fotos eram tiradas apenas com os bra\u00e7os. Ou cortavam-se as que eventualmente tivessem rosto.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Percebeu que a m\u00e3e e o pai estavam mortos quando, enfim, penduraram um quadro com as fotos dos dois na casa em que vivia. Eles j\u00e1 n\u00e3o corriam riscos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Soledad era uma pessoa que eu tinha de amar porque era minha m\u00e3e. Por ela ser essa grande mulher que todos diziam que ela era. Mas ela n\u00e3o representava nada para mim, que nem a conheci&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Com 11 anos, depois de promulgada a Lei da Anistia, em 1979, \u00d1asaindy chegou ao Brasil. Como documento, apenas uma certid\u00e3o de nascimento falsa, em que figurava o nome \u00d1asaindy Sosa del Sol. Ela tamb\u00e9m usava o nome da fam\u00edlia adotiva: Oliveira Lucena.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Foi s\u00f3 em 1996, com 26 anos, que recebeu documentos com seu nome verdadeiro. At\u00e9 a\u00ed ela se recusou a ter documentos sem os sobrenomes de seus pais.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A jovem conta que procurou insistentemente os familiares para formar uma imagem da m\u00e3e. &#8220;Fiz muitas perguntas. Primeiro, s\u00f3 pensava: puxa, por que ela me abandonou? Precisei entender a Soledad para perdo\u00e1-la e dizer: Eu entendo voc\u00ea. Entendo que o mal que voc\u00ea me fez era pelo bem da humanidade, do Brasil, sei l\u00e1&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Hoje, \u00d1asaindy \u00e9 pedagoga e m\u00e3e de quatro filhos. Define-se como &#8220;de esquerda&#8221;, mas n\u00e3o se diz socialista. Sobre o delator da m\u00e3e, o cabo Anselmo, afirma que nunca conseguiu odi\u00e1-lo. &#8220;Procurei muito esse sentimento em mim, mas n\u00e3o consegui.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00d1asaindy tem poucas esperan\u00e7as de que Anselmo conte o que sabe.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Como ela n\u00e3o desconfiou que ele era o traidor? Ser\u00e1 que se ela tivesse agido mais com a raz\u00e3o, teria conseguido salvar os outros?&#8221; A expectativa \u00e9 que essas respostas venham na hist\u00f3ria que a Comiss\u00e3o da Verdade levantar\u00e1.<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedagoga vivia em Cuba e era apenas um beb\u00ea quando eles foram mortos Ela chegou ao Brasil com documento falso e s\u00f3 come\u00e7ou a usar o nome verdadeiro com 26 anos de idade \u00d1asaindy Barrett de Ara\u00fajo, 44, sabe bem a diferen\u00e7a entre mem\u00f3ria e lembran\u00e7a. &#8220;Lembran\u00e7as s\u00e3o as imagens do que vivi. 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