{"id":5369,"date":"2013-05-13T02:00:23","date_gmt":"2013-05-13T02:00:23","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/05\/13\/novos-documentos-do-regime-militar\/"},"modified":"2013-05-13T02:00:23","modified_gmt":"2013-05-13T02:00:23","slug":"novos-documentos-do-regime-militar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/05\/13\/novos-documentos-do-regime-militar\/","title":{"rendered":"Novos documentos do regime militar"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Descoberta revela outra face do acervo da ditadura: a dos arquivos mantidos em segredo por particulares<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\" \/>Documentos obtidos pela reportagem do Diario de Pernambuco mostram como era a forma\u00e7\u00e3o de agentes no servi\u00e7o secreto da Aeron\u00e1utica, durante o regime militar. O material consiste em oito apostilas, que fazem uma descri\u00e7\u00e3o do que considera \u201cforma subrept\u00edcia de atuar dos comunistas\u201d, d\u00e1 orienta\u00e7\u00f5es de como identific\u00e1-los, dita normas para vigil\u00e2ncia, ataca d. Helder Camara e recomenda que os oficiais estejam \u201csempre alertas\u201d &#8211; inclusive em rela\u00e7\u00e3o aos pr\u00f3prios familiares.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-5364\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/20130510162056260006o.jpg\" border=\"0\" width=\"600\" height=\"232\" style=\"vertical-align: middle;\" srcset=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/20130510162056260006o.jpg 600w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/20130510162056260006o-300x116.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Destaca ainda o fato de intelectuais, artistas, economistas, soci\u00f3logos e religiosos estarem na oposi\u00e7\u00e3o, afirmando que eles \u201clamentavelmente, por forma\u00e7\u00e3o, convic\u00e7\u00f5es ou desajustes com o meio ambiente [grifo no original], foram atra\u00eddos ou, em sua grande maioria, incentivados a uma linha de a\u00e7\u00e3o tipicamente de esquerda\u201d. Em pelo menos uma apostila o dramaturgo Nelson Rodrigues (que apoiava a ditadura) \u00e9 usado como exemplo de combate \u00e0s ideias e a\u00e7\u00f5es da esquerda.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Diferentemente de documentos que t\u00eam sido revelados em outros estados (pertencentes a arquivos de institui\u00e7\u00f5es), estes revelados pelo Diario s\u00e3o de um acervo particular. Outra singularidade \u00e9 que eles t\u00eam uma caracter\u00edstica mais te\u00f3rica, est\u00e3o mais preocupados em \u201cfazer a cabe\u00e7a\u201d dos orientandos &#8211; e ajudam a compreender como foram formados os homens encarregados do aparato de repress\u00e3o do regime. As apostilas n\u00e3o est\u00e3o datadas, mas as informa\u00e7\u00f5es nelas contidas indicam que s\u00e3o do per\u00edodo 1968-1969.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">Cada uma delas t\u00eam um t\u00edtulo diferente: \u201cGuerra revolucion\u00e1ria\u201d, \u201cInforma\u00e7\u00f5es\u201d, \u201cContra-Informa\u00e7\u00f5es\u201d, \u201cO ciclo de informa\u00e7\u00f5es\u201d, \u201cMovimento Comunista Internacional\u201d, \u201cDemocracia\u201d, \u201cEu sou um ex-covarde\u201d e \u201cSeguran\u00e7a Interna\u201d.\u00a0 Ainda existem outros documentos no mesmo acervo, segundo apurou a\u00a0 reportagem, produzida durante seis semanas. <\/span><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-5366\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/20130510163906827595u.jpg\" border=\"0\" width=\"600\" height=\"600\" style=\"vertical-align: middle;\" srcset=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/20130510163906827595u.jpg 600w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/20130510163906827595u-150x150.jpg 150w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/20130510163906827595u-300x300.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<address><span style=\"line-height: 1.3em;\">Capas das apostilas da Aeron\u00e1utica distribu\u00eddas entre os agentes<\/span><\/address>\n<address><span style=\"line-height: 1.3em;\"><br \/><\/span><\/address>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Todas as apostilas t\u00eam um carimbo indicando \u201cMinist\u00e9rio da Aeron\u00e1utica\u201d e \u201cGabinete do ministro\u201d. No centro do carimbo vem a sigla SISA, que \u00e9 do Servi\u00e7o de Informa\u00e7\u00f5es e Seguran\u00e7a da Aeron\u00e1utica, criado em 24 de julho de 1968. Na opini\u00e3o do historiador e professor Carlos Fico (Universidade Federal do Rio de Janeiro), autor de obras referenciais sobre o regime militar, os documentos da ditadura que t\u00eam sido descobertos por jornalistas revelam que ao contr\u00e1rio do que muitos afirmam, nem todos os arquivos foram destru\u00eddos. \u201cA import\u00e2ncia desses achados n\u00e3o est\u00e1 apenas no conte\u00fado de tais documentos, mas na pr\u00f3pria exist\u00eancia deles\u201d, afirma.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O criador do Sisa foi o brigadeiro Jo\u00e3o Paulo Burnier, da chamada linha-dura do regime militar. Ele foi adido da Aeron\u00e1utica no Panam\u00e1 (1967) e l\u00e1 estudou na famosa Escola das Am\u00e9ricas, institui\u00e7\u00e3o que formou especialistas na repress\u00e3o ao comunismo, ditadores e golpistas da Am\u00e9rica Latina. Posteriormente o Servi\u00e7o teve a denomina\u00e7\u00e3o alterada para Cisa (Centro de Informa\u00e7\u00f5es e Seguran\u00e7a da Aeron\u00e1utica). Como Cisa, o servi\u00e7o secreto da Aeron\u00e1utica foi acusado de envolvimento no\u00a0 desaparecimento de Stuart Angel Jones e Rubens Paiva, em 1971, dois casos emblem\u00e1ticos da repress\u00e3o na ditadura.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Os servi\u00e7os secretos do Ex\u00e9rcito (CIE), Marinha (Cenimar) e Aeron\u00e1utica (Cisa) formavam o que um estudioso do tema, Lucas Figueiredo, chamou de \u201ctrindade letal dos servi\u00e7os secretos militares\u201d. Lucas \u00e9 autor de um livro pioneiro sobre a hist\u00f3ria do servi\u00e7o secreto no Brasil, Minist\u00e9rio do Sil\u00eancio (Editora Record, 2006). A \u201ctrindade letal\u201d fazia parte da comunidade de informa\u00e7\u00f5es, comandada pelo SNI (Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es). Todas atuavam autonomamente, mas compartilhavam informa\u00e7\u00f5es. Essa articula\u00e7\u00e3o \u201cfoi fundamental para esmagar a luta armada no pa\u00eds\u201d, diz Lucas. A comunidade montou um sistema de vigil\u00e2ncia que se estendeu para todo o Brasil.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Temor com a &#8220;intoxica\u00e7\u00e3o&#8221;<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A principal preocupa\u00e7\u00e3o dos textos das apostilas \u00e9 com o que denominam \u201cguerra revolucion\u00e1ria\u201d, aquela que ocorre dentro do pr\u00f3prio pa\u00eds. Os dois \u201cobjetivos constantes\u201d desse tipo de conflito s\u00e3o \u201ca conquista da popula\u00e7\u00e3o e a tomada do poder\u201d, define a apostila \u201cGuerra Revolucion\u00e1ria\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Para conseguir estes objetivos, duas atividades eram seguidas, diz o texto, e os alunos deveriam conhecer bem cada uma delas.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A primeira eram as \u201catividades construtivas\u201d, que tratavam da sele\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o de bases (\u201cConsiste em descobrir os elementos ativos da popula\u00e7\u00e3o e convenc\u00ea-los\u201d) e do aliciamento &#8211; esta praticada, entre outras formas, por meio da \u201csedu\u00e7\u00e3o dos frustrados e dos inescrupulosos, atrav\u00e9s de cargos, favores e recompensas diversas\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A segunda atividade era a \u201cdestrutiva\u201d. Consistiria em \u201ccorrup\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cdesmoraliza\u00e7\u00e3o de autoridades\u201d, agita\u00e7\u00e3o social, \u201cintimida\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cintoxica\u00e7\u00e3o\u201d. A descri\u00e7\u00e3o do que seria a intoxica\u00e7\u00e3o: \u201c\u00c9 uma insidiosa t\u00e9cnica, que consiste nas meias-verdades, visa aos esp\u00edritos neutros, distorce o valor dos voc\u00e1bulos, passando a dar-lhes um significado todo seu: paz, nacionalismo, imperialismo, democracia, autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos, proletariado e outros, mascarando as pr\u00f3prias ideias e intoxicando os incautos, tornando-os imunes \u00e0s advert\u00eancias dos que se apercebem da a\u00e7\u00e3o subversiva\u201d. No Brasil, \u201c essa t\u00e9cnica foi largamente explorada no \u00faltimo ano do governo Jo\u00e3o Goulart\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-5367\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/20130510164128596066e.jpg\" border=\"0\" width=\"600\" height=\"300\" style=\"vertical-align: middle;\" srcset=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/20130510164128596066e.jpg 600w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/20130510164128596066e-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<address><span style=\"line-height: 1.3em;\">Capas das apostilas da Aeron\u00e1utica distribu\u00eddas entre os agentes<\/span><\/address>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;O suic\u00eddio da pr\u00f3pria liberdade&#8221;<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O tom que permeia todos os\u00a0 textos \u00e9 de que os orientandos deveriam estar em constante estado de alerta &#8211; em rela\u00e7\u00e3o a tudo e a todos. \u201cE lembre-se: o Sr. tem uma fam\u00edlia: esposa, filhos, pais, irm\u00e3os &#8211; Preserve-os. Eduque-os. Alerte-os\u201d, diz trecho da apostila \u201cEu sou um ex-covarde\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">Para quem tivesse d\u00favida, vinha o alerta: \u201cVivemos instantes de Guerra Revolucion\u00e1ria\u201d. Por isso, \u201c\u00e9 necess\u00e1rio que esteja alertado para as amea\u00e7as, press\u00f5es, propaganda, contrapropaganda e a\u00e7\u00f5es que se verificam nos campos pol\u00edtico, econ\u00f4mico, psicosocial e MILITAR [grifo no original]\u201d.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Em julho de 1968, quando o Sisa foi criado, a ditadura estava em sua primeira fase, ainda tentando manter as apar\u00eancias de que era uma democracia. Cinco meses depois houve a decreta\u00e7\u00e3o do AI-5, marcando o endurecimento do regime, que chegaria ao seu est\u00e1gio mais brutal no governo de Garrastazu M\u00e9dici (1969-1974). As apostilas n\u00e3o fazem men\u00e7\u00e3o ao AI-5. mas ao que tudo indica elas foram produzidas antes do ato e depois dele.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 est\u00e1 l\u00e1\u00a0 a desconfian\u00e7a com os procedimentos democr\u00e1ticos. \u201cO culto da liberdade n\u00e3o pode chegar ao suic\u00eddio da pr\u00f3pria liberdade\u201d, l\u00ea-se na apostila sugestivamente intitulada \u201cDemocracia\u201d. Mais adiante diz que \u201cum dos problemas que se apresentam consiste em colocar os melhores homens nas posi\u00e7\u00f5es representativas do poder pol\u00edtico\u201d, uma vez que muitos deles seriam \u201cmal preparados para a fun\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Nelson Rodrigues, estrela do curso<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O curso da Aeron\u00e1utica usa Nelson Rodrigues como material de propaganda e doutrinamento, e aproveita as opini\u00f5es dele para atacar a Igreja cat\u00f3lica e o ent\u00e3o arcebispo de Olinda e Recife, d. Helder Camara. Do material obtido pelo Diario, a apostila que enfoca o dramaturgo \u00e9 a que tem o t\u00edtulo mais impactante: \u201cEu sou um ex-covarde\u201d. A frase \u00e9 do pr\u00f3prio Nelson, usada por ele em cr\u00f4nicas para definir-se a si pr\u00f3prio e criticar aqueles que, \u201cpor medo de parecerem reacion\u00e1rios\u201d, agiam como se progressistas fossem. \u201cHoje o sujeito prefere que lhe xinguem a m\u00e3e e n\u00e3o o chamem de reacion\u00e1rio\u201d, dizia ele.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Dramaturgo genial, colunista pol\u00eamico e uma metralhadora girat\u00f3ria de opini\u00f5es conservadoras, Nelson Rodrigues (1912-1980) foi um apaixonado defensor da ditadura e em particular do presidente Garrastazu M\u00e9dici. Mesmo assim surpreende encontr\u00e1-lo numa apostila de um curso para agentes da repress\u00e3o. O material transcreve entrevista dele, apresentando-o como \u201cum civil que, com excepcional coragem, deixou de ser covarde\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Na mat\u00e9ria Nelson fala, entre outras coisas, sobre a R\u00fassia (\u201conde n\u00e3o existe o direito de greve\u201d, diz); anticomunismo (\u201cEu sou anticomunista que se declara anticomunista. Geralmente, o anticomunista diz que n\u00e3o \u00e9. Mas eu sou e o confesso\u201d); esquerda (\u201cO esquerdista \u00e9 o maior moedeiro falso de todos os tempos\u201d) e Igreja Cat\u00f3lica, que na vis\u00e3o dele estaria amea\u00e7ada \u201cpelos padres de passeata, pelas freiras de minissaia\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Ao tratar de religi\u00e3o, Nelson n\u00e3o perdia a oportunidade de fustigar um dos seus alvos preferidos, d. Helder Camara (1909-1999), a quem chama de \u201cfals\u00e1rio\u201d e acusa de ter esquecido \u201ctanto a letra do Hino Nacional como a do Padre Nosso e da Ave Maria\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u201cQue ele pegasse uma carabina e fosse pro mato ou terreno baldio, dar tiros em todas as dire\u00e7\u00f5es, como Tom Mix, isso \u00e9 um direito que ele tinha, um risco que ele assumia. Ent\u00e3o ele arriscaria a pr\u00f3pria pele, assumiria uma responsabilidade tr\u00e1gica e eu n\u00e3o diria nada\u201d, afirma Nelson na entrevista distribu\u00edda aos agentes do Sisa. \u201cMas, se ele n\u00e3o faz isso, porque a coragem f\u00edsica n\u00e3o \u00e9 pra todo mundo, ele n\u00e3o tem o direito de pregar o que prega\u201d. Para Nelson, \u201cdom Helder prega a luta armada, prega a alian\u00e7a do marxismo e do cristianismo. Dom Helder diz que n\u00e3o hesita em colher no marxismo os elementos que lhe parecem justos. Portanto, dom Helder \u00e9 um crist\u00e3o para quem n\u00e3o basta o cristianismo. \u00c9 o crist\u00e3o sem vida eterna. \u00c9 o crist\u00e3o marxista\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Ao fim da transcri\u00e7\u00e3o da entrevista dele,\u00a0 a apostila elenca uma s\u00e9rie de frases que teriam sido ditas por d. Helder no exterior, mostrando toler\u00e2ncia\u00a0 com a viol\u00eancia revolucion\u00e1ria, o comunismo e Cuba. Nesse ponto o texto estabelece rela\u00e7\u00e3o com o l\u00edder comunista Marighela, partid\u00e1rio da luta armada: \u201cA prop\u00f3sito das \u2018experi\u00eancias geopol\u00edticas cubanas\u2019, \u00e9 interessante lembrar que CARLOS MARIGHELA, ex-dirigente do PC, recebeu treinamento em Cuba. \u00c9 ele o dirigente dos atos terroristas contra esta\u00e7\u00f5es de TV e assaltos a bancos\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Em seguida o texto menciona a \u201ca\u00e7\u00e3o terrorista comunista\u201d e diz que ela \u201cconta com apoio de Helder Camara\u201d.\u00a0\u00a0 A Igreja Cat\u00f3lica estaria j\u00e1 \u201cinfiltrada\u201d por \u201cmaus elementos, agentes da guerra revolucion\u00e1ria\u201d. Haveria \u201cdois baluartes inexpugn\u00e1veis\u201d que barravam estes agentes: a Igreja e as For\u00e7as Armadas. Mas, conclui a apostila, \u201catacados solertemente por infiltra\u00e7\u00f5es em seus pr\u00f3prios organismos, um dos baluartes cedeu: a Igreja se esboroa\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Censura e infiltra\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O raio de a\u00e7\u00e3o da comunidade de informa\u00e7\u00f5es ia da coleta de dados \u00e0 repress\u00e3o direta, com direito tamb\u00e9m \u00e0 censura, incluindo a postal, com o confisco de correspond\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Na apostila \u201cContra-Informa\u00e7\u00f5es\u201d a censura \u00e9 defendida assim: \u201c\u00c9 importante porque atrav\u00e9s de not\u00edcias inocentes s\u00e3o enviadas, codificadas, mensagens importantes. O pessoal de censura tem que ser altamente especializado para poder exercer a contento a miss\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Resumo dos documentos <\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>A descri\u00e7\u00e3o sucinta de cada um deles:<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">O ciclo de informa\u00e7\u00f5es: 15 p\u00e1ginas. Trata da coleta, organiza\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es. que seria a \u00faltima fase do ciclo.<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">Informa\u00e7\u00f5es: 13 p\u00e1ginas.<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Contra-Informa\u00e7\u00f5es: Seis p\u00e1ginas: \u201cCompreende os seguintes campos: Contra-espionagem, Contra-sabotagem e Subvers\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Movimento Comunista Internacional: 20 p\u00e1ginas. Tra\u00e7a um painel da atua\u00e7\u00e3o internacional dos comunistas e cataloga tr\u00eas tipos de pessoas que, n\u00e3o sendo comunistas, s\u00e3o \u201ccolaboradores\u201d do movimento: os \u201ccompanheiros de viagem\u201d, os \u201csimpatizantes\u201d e os \u201coportunistas\u201d. Estes s\u00e3o os que \u201cdesejosos de subir ou aparecer, encostam-se aos comunistas e, por ambi\u00e7\u00e3o, passam a com eles colaborar\u201d. S\u00e3o um \u201ctipo perigoso\u201d tanto para os comunistas quanto para seus opositores, porque agiriam s\u00f3 por interesse pr\u00f3prio.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Eu sou um ex-covarde: 14 p\u00e1ginas. \u00c9 a que se vale de Nelson Rodrigues para atacar a esquerda e d. Helder Camara.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Democracia: 12 p\u00e1ginas: \u201cO culto da liberdade n\u00e3o pode chegar ao suic\u00eddio da pr\u00f3pria liberdade\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Guerra revolucion\u00e1ria: 21 p\u00e1ginas (veja mat\u00e9ria na p\u00e1gina anterior).<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Seguran\u00e7a interna: 30 p\u00e1ginas. \u201cEm um pa\u00eds como o nosso, ainda n\u00e3o desenvolvido, \u00e9 dif\u00edcil a pr\u00e1tica da Democracia, conciliando a seguran\u00e7a com a liberdade\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Na mesma apostila faz-se a defesa da infiltra\u00e7\u00e3o de agentes em organiza\u00e7\u00f5es inimigas, pr\u00e1tica que seria adotada depois na luta contra os movimentos de luta armada. De acordo com o texto, existiam dois tipos de contra-informa\u00e7\u00e3o: a defensiva (\u201cNegar ao inimigo informes ou acesso a nossas \u00e1reas vitais\u201d) e a ofensiva, da qual a infiltra\u00e7\u00e3o faria parte.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O impulso da luta armada s\u00f3 aconteceria depois do AI-5 (dezembro de 1968), mas antes disso j\u00e1 havia a\u00e7\u00f5es sendo praticadas pela esquerda, como o atentado no Aeroporto dos Guararapes, no Recife, em 1966.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A julgar pelo que mostram as apostilas, por\u00e9m, pelo menos o pessoal da Aeron\u00e1utica j\u00e1 se preparava para um conflito com a esquerda armada: \u201cN\u00e3o basta que as atividades dos nossos servi\u00e7os de informa\u00e7\u00f5es sejam suficientes. H\u00e1 tamb\u00e9m necessidade de procurarmos anular e restringir as atividades de informa\u00e7\u00f5es do inimigo, salvaguardar as nossas informa\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00e3o de espionagem, resguardar o pessoal de a\u00e7\u00f5es subversivas e proteger o material das a\u00e7\u00f5es de sabotagem\u201d.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Di\u00e1rio de Pernambuco<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Descoberta revela outra face do acervo da ditadura: a dos arquivos mantidos em segredo por particulares Documentos obtidos pela reportagem do Diario de Pernambuco mostram como era a forma\u00e7\u00e3o de agentes no servi\u00e7o secreto da Aeron\u00e1utica, durante o regime militar. 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