{"id":540,"date":"2012-05-22T00:08:35","date_gmt":"2012-05-22T00:08:35","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/22\/a-comissao-da-verdade-e-os-ofendidos\/"},"modified":"2012-05-22T00:08:35","modified_gmt":"2012-05-22T00:08:35","slug":"a-comissao-da-verdade-e-os-ofendidos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/22\/a-comissao-da-verdade-e-os-ofendidos\/","title":{"rendered":"A Comiss\u00e3o da Verdade e os ofendidos"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A vontade que se tem \u00e9 a de escrever: por baixo de ondas de inf\u00e2mia e sangue, a presidenta Dilma instalou a Comiss\u00e3o da Verdade. E temos essa vontade porque a vemos em um mar que se abre, pronto a trag\u00e1-la e a envolver tamb\u00e9m os\u00a0 brasileiros mutilados, perseguidos e assassinados sob a ditadura de 1964. Mas esse mar, essa conjura\u00e7\u00e3o de elementos, que outra coisa n\u00e3o \u00e9 a n\u00e3o ser a secular opress\u00e3o sobre o povo, nos acode tamb\u00e9m pela mem\u00f3ria da trag\u00e9dia humana ocorrida a partir do golpe.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/app.todarede.com\/sendbox\/imagex2.0\/?width=500&#038;image=GWZzJctefuFzHl0Uj3m9w0bQr1rP0eyrR7jMw2cm&#038;idc=S3D443K362K5J5K1Z90ED3I8U764T89OX9008238C\" border=\"0\" width=\"250\" height=\"167\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o nesta coluna, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o em mil colunas para falar de Ivanovitch, de Eremias Delizoicov, de Soledad Barrett, de Jarbas Marques, de jovens mortos, de jovens enlouquecidos, de jovens her\u00f3icos, de dramas de consci\u00eancia que sobrevivem \u00a0em peles que s\u00e3o uma fantasia de macabro carnaval. N\u00e3o h\u00e1 nem mesmo espa\u00e7o para cantar, como um poeta magn\u00edfico faria, a coragem de dona Elzita, m\u00e3e de Fernando Santa Cruz, nesta carta de 1975 para Armando Falc\u00e3o, mais conhecido pelo codinome de Ministro da Justi\u00e7a:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cQue clandestinidade seria esta que, repentinamente, transformaria um filho respeitoso, carinhoso e digno em um ser cruel e desumano, que desprezaria a dor de sua velha m\u00e3e, a afli\u00e7\u00e3o de sua jovem esposa e o carinho de seu filho muito amado?&#8230;Espero que n\u00e3o se d\u00ea por esgotado este epis\u00f3dio, mas que seja esclarecido o que realmente aconteceu ao meu filho para que possamos sair deste imenso sofrimento que nos encontramos. Nada pe\u00e7o ao Sr. para meu filho a n\u00e3o ser os esclarecimentos, que tenho direito, sobre o seu paradeiro, e justi\u00e7a!\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O leitor desculpe o tom solene desta coluna. \u00c9 que a solenidade vem do entre aspas desses destinos. Mas num esfor\u00e7o, se descemos o n\u00edvel do assalto da altura dessa hist\u00f3ria oculta, se descermos aos dados objetivos e t\u00e9cnicos da informa\u00e7\u00e3o, devemos dizer que as estat\u00edsticas oficiais muito se enganam, quando contabilizam entre 400 e 500 militantes mortos pelos militares, ou, num esfor\u00e7o c\u00ednico, desaparecidos. As estat\u00edsticas nada falam dos homens e mulheres sem cidadania, mas que a buscavam at\u00e9 para comer, como os camponeses do Nordeste. Em Pernambuco, por exemplo, houve um quase genoc\u00eddio de homens do campo, e deles quase nada se diz. Assim como eles, todos os trabalhadores, que n\u00e3o estavam filiados a partidos clandestinos, est\u00e3o sem registro de suas execu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As estat\u00edsticas nada falam tampouco, e dessa omiss\u00e3o se valem os militares, quando ironizam a quantidade de anistiados em compara\u00e7\u00e3o com os livros sobre v\u00edtimas da ditadura, as estat\u00edsticas silenciam sobre o clima de terror e persegui\u00e7\u00e3o que fez brasileiros interromperem seus cursos, empregos e pesquisa. Se os registros dessa ca\u00e7a aos democratas contarem, aparecer\u00e3o mais que centenas, milhares. E se se contabiliza o dano a toda uma gera\u00e7\u00e3o, pela queda vertical da qualidade do ensino, do avan\u00e7o do pensamento social, que em 64 virou coisa de comunista, como se os comunistas n\u00e3o fossem uma inst\u00e2ncia leg\u00edtima de ser, ent\u00e3o os atingidos s\u00e3o milh\u00f5es na ditadura.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na presidenta que ontem instalou a Comiss\u00e3o da Verdade reside o conflito do sonho socialista da juventude e o presente poss\u00edvel, de acordos pol\u00edticos no limite do suport\u00e1vel, de uma democracia conservadora. Dilma bem sabe o que \u00e9 mais insuport\u00e1vel, como nesta entrevista a Luiz Maklouf em 2003:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cTinha um menino da ALN que chamava \u2018Mister X\u2019. Eu o vi completamente destru\u00eddo. N\u00e3o sei o que foi feito dele. Nunca vou esquecer o quadro em que ele estava. Primeiro, eu n\u00e3o queria que meus companheiros estivessem numa situa\u00e7\u00e3o daquelas. Segundo, eu tinha medo que algum deles morresse. Terceiro, porque teve um dia que eu tive uma hemorragia muito grande, foi o dia em que eu estive pior. Hemorragia, mesmo, que nem menstrua\u00e7\u00e3o. Eles tiveram que me levar para o Hospital Central do Ex\u00e9rcito. Encontrei uma menina da ALN. Ela disse: \u2018Pula um pouco no quarto para a hemorragia n\u00e3o parar e voc\u00ea n\u00e3o ter que voltar\u2019&#8230; Os militares nos cercaram, desmantelaram, e uma parte mataram. Foi isso que eles fizeram conosco. Eles isolaram a gente e mataram.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os jornais hoje dizem que a presidenta ontem chorou. E informam essa emo\u00e7\u00e3o em nova forma de dizer sem nada dizer, porque nada falam do terror, do poder absoluto sobre vidas e pensamento de pessoas em um tempo que n\u00e3o est\u00e1 morto.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">L\u00e1 em cima, escrevi que a presidenta Dilma estava sob as ondas de um mar aberto. Mas na verdade, devemos dizer: ela est\u00e1 no furac\u00e3o. Ainda que em fen\u00f4meno diverso, ela est\u00e1 na tempestade. E desta vez, com um apoio mais amplo que naquele tempo, maldito tempo, do sofrimento em sil\u00eancio. Aquele que a fazia escolher entre voltar \u00e0 tortura ou pular para ser mais volumosa a sua hemorragia.<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A vontade que se tem \u00e9 a de escrever: por baixo de ondas de inf\u00e2mia e sangue, a presidenta Dilma instalou a Comiss\u00e3o da Verdade. 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