{"id":552,"date":"2012-05-22T00:18:50","date_gmt":"2012-05-22T00:18:50","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/22\/memorias-que-viram-historias\/"},"modified":"2012-05-22T00:18:50","modified_gmt":"2012-05-22T00:18:50","slug":"memorias-que-viram-historias","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/22\/memorias-que-viram-historias\/","title":{"rendered":"MEM\u00d3RIAS QUE VIRAM HIST\u00d3RIAS"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As casas do terror<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Budapeste, novembro de 2011<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">HELOISA SEIXAS<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\" \/>\u00c9 UMA FRIA manh\u00e3 de novembro e estou diante da TerrorH\u00e1za, a Casa do Terror, em Budapeste. \u00c9 um museu -no pr\u00e9dio funcionou a sede das pol\u00edcias pol\u00edticas da Hungria, tanto no regime nazista quanto no comunista. Rua Andr\u00e1ssy, 60. Ao olhar a fachada, um nome surge em meu pensamento: In\u00eas.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">In\u00eas, que n\u00e3o \u00e9 morta, mas que foi ao inferno e voltou para contar a hist\u00f3ria. In\u00eas Etienne Romeu, ex-guerrilheira da Var-Palmares, ex-companheira de luta armada de Dilma Rousseff. In\u00eas, que ficou presa durante quase nove anos e passou tr\u00eas meses na casa de tortura, em Petr\u00f3polis, levada pelo delegado S\u00e9rgio Fleury. A \u00fanica, entre os prisioneiros, que saiu viva de l\u00e1.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nela que penso. No p\u00e1tio interno, o ch\u00e3o \u00e9 um espelho d&#8217;\u00e1gua e, sobre ele, h\u00e1 um tanque de guerra. A \u00fanica parede cega \u00e9 forrada por rostos, em alto contraste. Homens e mulheres. As v\u00edtimas do terror.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Conheci In\u00eas Etienne Romeu em 1977, presa no Instituto Penal Talavera Bruce, em Bangu, condenada \u00e0 pris\u00e3o perp\u00e9tua. Na \u00e9poca, a situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 tinha melhorado para os presos pol\u00edticos, mas, sempre que eu a via, nas visitas mensais ou quinzenais que lhe faz\u00edamos (eu era casada com o irm\u00e3o dela, Paulo), n\u00e3o conseguia deixar de pensar no que In\u00eas tinha passado.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">In\u00eas foi presa em 1971, em S\u00e3o Paulo, e por tr\u00eas meses esteve desaparecida. Foi dada como morta, e a fam\u00edlia j\u00e1 procurava seu corpo quando ela voltou, destro\u00e7ada, pesando pouco mais de 30 quilos.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Seu reaparecimento talvez tenha sido uma tentativa, por parte dos paramilitares, de forjar uma fuga e assassin\u00e1-la, mas algo deu errado no plano: In\u00eas foi presa, agora oficialmente, e isso a salvou.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 assim p\u00f4de revelar onde estivera naqueles tr\u00eas meses, entre 5 de maio e 11 de agosto de 1971. A casa de tortura de Petr\u00f3polis.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Petr\u00f3polis, Budapeste. Milhares de quil\u00f4metros, dois hemisf\u00e9rios, \u00e9pocas diversas. O pr\u00e9dio da rua Andr\u00e1ssy j\u00e1 era usado pelo Partido Nazista H\u00fangaro desde 1937, mas s\u00f3 em 1944, quando Hitler ocupou o pa\u00eds, come\u00e7aram as torturas em seus por\u00f5es. Os comunistas tiveram mais tempo. Assim que os tanques sovi\u00e9ticos entraram em Budapeste, em 1945, a pol\u00edcia secreta do novo regime se instalou ali.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Percorro o museu de cima a baixo. Quando volto ao n\u00edvel da rua, percebo que ainda falta um andar a ser visitado: o subsolo. L\u00e1 ficam as celas. Os por\u00f5es da tortura.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Quando a Casa do Terror foi inaugurada, em 2002, o pr\u00e9dio da rua Andr\u00e1ssy j\u00e1 tinha deixado de abrigar a pol\u00edcia pol\u00edtica fazia quase 40 anos. Mas a reconstru\u00e7\u00e3o foi perfeita. A umidade transpira das paredes, o cheiro \u00e9 peculiar.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Percorro os corredores com o cora\u00e7\u00e3o fechado. H\u00e1 sombras por toda parte. Nas celas encardidas, nos cub\u00edculos forrados com sacos de algod\u00e3o -para que o som seja abafado. Tudo \u00e9 real. Na TerrorH\u00e1za, h\u00e1 muita informa\u00e7\u00e3o, mas h\u00e1 tamb\u00e9m sentimento, e o visitante sai de l\u00e1 comprometido com o que viu. N\u00e3o h\u00e1 como ficar imune.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Cruzo um gradil. O pensamento em In\u00eas volta com for\u00e7a. Lembro do dia de sua liberta\u00e7\u00e3o, em agosto de 1979. A multid\u00e3o do outro lado do port\u00e3o de ferro, os rep\u00f3rteres. Toda a fam\u00edlia tinha entrado para sair com ela. Quando cruzamos o port\u00e3o, muitos de n\u00f3s chor\u00e1vamos. In\u00eas, n\u00e3o. L\u00e1 dentro, disse que n\u00e3o ia chorar, porque seria uma demonstra\u00e7\u00e3o de fraqueza.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Dois anos depois, reunidas as provas, ela foi a p\u00fablico revelar a localiza\u00e7\u00e3o da casa de Petr\u00f3polis, divulgar a tortura, denunciar o m\u00e9dico que a mantivera viva para que os interrogat\u00f3rios continuassem. As For\u00e7as Armadas soltaram nota dizendo que era revanchismo. Ex\u00e9rcito, Marinha e Aeron\u00e1utica de um lado e, do outro, uma mulher sozinha. Uma sobrevivente.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Volto \u00e0 superf\u00edcie, a visita acabou. Olho para o pr\u00e9dio cinza, para a marquise de imensas letras vazadas. Hoje, quando a discuss\u00e3o sobre a puni\u00e7\u00e3o aos torturadores do regime militar volta \u00e0 pauta no Brasil, eu me pergunto se n\u00e3o ser\u00edamos um pa\u00eds melhor se tiv\u00e9ssemos transformado a casa de tortura de Petr\u00f3polis em uma TerrorH\u00e1za.<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As casas do terror Budapeste, novembro de 2011 HELOISA SEIXAS \u00c9 UMA FRIA manh\u00e3 de novembro e estou diante da TerrorH\u00e1za, a Casa do Terror, em Budapeste. \u00c9 um museu -no pr\u00e9dio funcionou a sede das pol\u00edcias pol\u00edticas da Hungria, tanto no regime nazista quanto no comunista. 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