{"id":5524,"date":"2013-05-19T14:57:16","date_gmt":"2013-05-19T14:57:16","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/05\/19\/qa-ditadura-militar-destruiu-a-escola-publicaq-diz-pesquisadora\/"},"modified":"2013-05-19T14:57:16","modified_gmt":"2013-05-19T14:57:16","slug":"qa-ditadura-militar-destruiu-a-escola-publicaq-diz-pesquisadora","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/05\/19\/qa-ditadura-militar-destruiu-a-escola-publicaq-diz-pesquisadora\/","title":{"rendered":"&#8220;A ditadura militar destruiu a escola p\u00fablica&#8221;, diz pesquisadora"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Viol\u00eancia repressiva, privatiza\u00e7\u00e3o e a reforma universit\u00e1ria que fez uma educa\u00e7\u00e3o voltada \u00e0 fabrica\u00e7\u00e3o de m\u00e3o-de-obra, s\u00e3o, na opini\u00e3o da fil\u00f3sofa Marilena Chau\u00ed, professora aposentada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas da USP, as cicatrizes da ditadura no ensino universit\u00e1rio do pa\u00eds.<\/p>\n<pre>Foto: Gerardo Lazzari\/ Sindicato dos Banc\u00e1rios<\/pre>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-5522\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/image_preview_%281%2942683.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"200\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<address \/>&#8220;Voc\u00ea sa\u00eda de casa para dar aula e n\u00e3o sabia se ia voltar, se ia ser preso, se ia ser morto. N\u00e3o sabia.&#8221; \u00a0  <!--more-->  <\/address>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Chau\u00ed relembrou as duras passagens do per\u00edodo e afirma n\u00e3o mais acreditar na escola como espa\u00e7o de forma\u00e7\u00e3o de pensamento cr\u00edtico dos cidad\u00e3os, mas sim em outras formas de agrupamento, como nos movimentos sociais, movimentos populares, ONGs e em grupos que se formam com a rede de internet e nos partidos pol\u00edticos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Chau\u00ed, que &#8220;fechou as portas para a m\u00eddia&#8221; e diz n\u00e3o conceder entrevistas desde 2003, falou \u00e0 Rede Brasil Atual ap\u00f3s palestra feita no lan\u00e7amento da escola 28 de de Agosto, iniciativa do Sindicato dos Banc\u00e1rios de S\u00e3o Paulo que elogiou por projetar cursos de administra\u00e7\u00e3o que resgatem conte\u00fados cr\u00edticos e humanistas dos quais o meio universit\u00e1rio contempor\u00e2neo hoje se ressente.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Rede Brasil Atual: Quais foram os efeitos do regime autorit\u00e1rio e seus interesses ideol\u00f3gicos e econ\u00f4micos sobre o processo educacional do Brasil?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Marilena Chau\u00ed:<\/strong> Vou dividir minha resposta sobre o peso da ditadura na educa\u00e7\u00e3o em tr\u00eas aspectos. Primeiro: a viol\u00eancia repressiva que se abateu sobre os educadores nos tr\u00eas n\u00edveis, fundamental, m\u00e9dio e superior. As persegui\u00e7\u00f5es, cassa\u00e7\u00f5es, as expuls\u00f5es, as pris\u00f5es, as torturas, mortes, desaparecimentos e ex\u00edlios. Enfim, a devasta\u00e7\u00e3o feita no campo dos educadores. Todos os que tinham ideias de esquerda ou progressistas foram sacrificados de uma maneira extremamente violenta.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em segundo lugar, a privatiza\u00e7\u00e3o do ensino, que culmina agora no ensino superior, come\u00e7ou no ensino fundamental e m\u00e9dio. As verbas n\u00e3o vinham mais para a escola p\u00fablica, ela foi definhando e no seu lugar surgiram ou se desenvolveram as escolas privadas. Eu perten\u00e7o a uma gera\u00e7\u00e3o que olhava com superioridade e desprezo para a escola particular, porque ela era para quem ia pagar e n\u00e3o aguentava o tranco da verdadeira escola. Durante a ditadura, houve um processo de privatiza\u00e7\u00e3o, que inverte isso e faz com que se considere que a escola particular \u00e9 que tem um ensino melhor. A escola p\u00fablica foi devastada, f\u00edsica e pedagogicamente, desconsiderada e desvalorizada.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Rede Brasil Atual: E o terceiro aspecto?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Marilena Chau\u00ed: <\/strong>A reforma universit\u00e1ria. A ditadura introduziu um programa conhecido como MEC-Usaid, pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, para a Am\u00e9rica Latina toda. Ele foi bloqueado durante o in\u00edcio dos anos 1960 por todos os movimentos de esquerda no continente, e depois a ditadura o implantou. Essa implanta\u00e7\u00e3o consistiu em destruir a figura do curso com multiplicidade de disciplinas, que o estudante decidia fazer no ritmo dele, do modo que ele pudesse, segundo o crit\u00e9rio estabelecido pela sua faculdade. Os cursos se tornaram sequenciais. Foi estabelecido o prazo m\u00ednimo para completar o curso. Houve a departamentaliza\u00e7\u00e3o, mas com a cria\u00e7\u00e3o da figura do conselho de departamento, o que significava que um pequeno grupo de professores tinha o controle sobre a totalidade do departamento e sobre as decis\u00f5es. Ent\u00e3o voc\u00ea tem centraliza\u00e7\u00e3o. Foi dado ao curso superior uma caracter\u00edstica de curso secund\u00e1rio, que hoje chamamos de ensino m\u00e9dio, que \u00e9 a sequ\u00eancia das disciplinas e essa ideia violenta dos cr\u00e9ditos. Al\u00e9m disso, eles inventaram a divis\u00e3o entre mat\u00e9rias obrigat\u00f3rias e mat\u00e9rias optativas. E, como n\u00e3o havia verba para contrata\u00e7\u00e3o de novos professores, os professores tiveram de se multiplicar e dar v\u00e1rios cursos.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Rede Brasil Atual: Houve um comprometimento da intelig\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Marilena Chau\u00ed:<\/strong> Exatamente. E os professores, como eram for\u00e7ados a dar essas disciplinas, e os alunos, a curs\u00e1-las, para terem o n\u00famero de cr\u00e9ditos, elas eram chamadas de \u201coptat\u00f3rias e obrigativas\u201d, porque n\u00e3o havia diferen\u00e7a entre elas. Depois houve a falta de verbas para laborat\u00f3rios e bibliotecas, a devasta\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio p\u00fablico, por uma pol\u00edtica que visava exclusivamente a forma\u00e7\u00e3o r\u00e1pida de m\u00e3o de obra d\u00f3cil para o mercado. A\u00ed, criaram a chamada licenciatura curta, ou seja, voc\u00ea fazia um curso de gradua\u00e7\u00e3o de dois anos e meio e tinha uma licenciatura para lecionar. Al\u00e9m disso, criaram a disciplina de educa\u00e7\u00e3o moral e c\u00edvica, para todos os graus do ensino. Na universidade, havia professores que eram escalados para dar essa mat\u00e9ria, em todos os cursos, nas ci\u00eancias duras, biol\u00f3gicas e humanas. A universidade que n\u00f3s conhecemos hoje ainda \u00e9 a universidade que a ditadura produziu.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Rede Brasil\u00a0Atual:\u00a0Essa transforma\u00e7\u00e3o conceitual e curricular das universidade acabou sendo, nos anos 1960, em v\u00e1rios pa\u00edses, um dos combust\u00edveis dos acontecimentos de 1968 em todo mundo.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Marilena Chau\u00ed:<\/strong> Foi, no mundo inteiro. Esse \u00e9 o momento tamb\u00e9m em que h\u00e1 uma amplia\u00e7\u00e3o muito grande da rede privada de universidades, porque o apoio ideol\u00f3gico para a ditadura era dado pela classe m\u00e9dia. Ela, do ponto de vista econ\u00f4mico, n\u00e3o produz capital, e do ponto de vista pol\u00edtica, n\u00e3o tem poder. Seu poder \u00e9 ideol\u00f3gico. Ent\u00e3o, a sustenta\u00e7\u00e3o que ela deu fez com que o governo considerasse que precisava recompens\u00e1-la e mant\u00ea-la como apoiadora, e a recompensa foi garantir o diploma universit\u00e1rio para a classe m\u00e9dia. H\u00e1 esse barateamento do curso superior, para garantir o aumento do n\u00famero de alunos da classe m\u00e9dia para a obten\u00e7\u00e3o do diploma. \u00c9 a hora em que s\u00e3o introduzidas as empresas do vestibular, o vestibular unificado, que \u00e9 um esc\u00e2ndalo, e no qual surge a diferencia\u00e7\u00e3o entre a licenciatura e o bacharelato.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Foi uma coisa dram\u00e1tica, lutamos o que pudemos, fizemos a resist\u00eancia m\u00e1xima que era poss\u00edvel fazer, sob a censura e sob o terror do Estado, com o risco que se corria, porque n\u00f3s \u00e9ramos vigiados o tempo inteiro. Os jovens hoje n\u00e3o t\u00eam ideia do que era o terror que se abatia sobre n\u00f3s. Voc\u00ea sa\u00eda de casa para dar aula e n\u00e3o sabia se ia voltar, n\u00e3o sabia se ia ser preso, se ia ser morto, n\u00e3o sabia o que ia acontecer, nem voc\u00ea, nem os alunos, nem os outros colegas. Havia policiais dentro das salas de aula.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Rede Brasil Atual: Houve uma corrente muito forte na d\u00e9cada de 60, composta por professores como Aziz Ab&#8217;Saber, Florestan Fernandes, Antonio Candido, Maria Vit\u00f3ria Benevides, a senhora, entre outros, que queria uma universidade mais integrada \u00e0s demandas da comunidade. A senhor tem esperan\u00e7a de que isso volte a acontecer um dia?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Marilena Chau\u00ed:<\/strong> Foi simb\u00f3lica a mudan\u00e7a da faculdade para o \u201cpastus\u201d, n\u00e3o \u00e9 campus universit\u00e1rio, porque, naquela \u00e9poca, era longe de tudo: voc\u00ea ficava em um isolamento completo. A ideia era colocar a universidade fora da cidade e sem contato com ela. Fizeram isso em muitos lugares. Mas essa sua pergunta \u00e9 muito complicada, porque tem de levar em considera\u00e7\u00e3o o que o neoliberalismo fez: a ideia de que a escola \u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o r\u00e1pida para a competi\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho. Ent\u00e3o fazer uma universidade comprometida com o que se passa na realidade social e pol\u00edtica se tornou uma tarefa muito \u00e1rdua e dif\u00edcil.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Rede Brasil Atual: N\u00e3o h\u00e1 tempo para um conceito humanista de forma\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Marilena Chau\u00ed:<\/strong> \u00c9 uma luta isolada de alguns, de estudantes e professores, mas n\u00e3o a tend\u00eancia da universidade.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Rede Brasil Atual: Hoje, a esperan\u00e7a da forma\u00e7\u00e3o do cidad\u00e3o cr\u00edtico est\u00e1 mais para as possibilidades de ajustes curriculares no ensino fundamental e m\u00e9dio? Ou at\u00e9 nesses n\u00edveis a educa\u00e7\u00e3o forma estar\u00e1 comprometida com a produ\u00e7\u00e3o de cabe\u00e7as e m\u00e3os para o mercado?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Marilena Chau\u00ed:<\/strong> Na escola, isso, a forma\u00e7\u00e3o do cidad\u00e3o cr\u00edtico, n\u00e3o vai acontecer. Voc\u00ea pode ter essa expectativa em outras formas de agrupamento, nos movimentos sociais, nos movimentos populares, nas ONGs, nos grupos que se formam com a rede de internet e nos partidos pol\u00edticos. Na escola, em cima e em baixo, n\u00e3o. Voc\u00ea tem bols\u00f5es, mas n\u00e3o como uma tend\u00eancia da escola.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Rede Brasil Atual<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Viol\u00eancia repressiva, privatiza\u00e7\u00e3o e a reforma universit\u00e1ria que fez uma educa\u00e7\u00e3o voltada \u00e0 fabrica\u00e7\u00e3o de m\u00e3o-de-obra, s\u00e3o, na opini\u00e3o da fil\u00f3sofa Marilena Chau\u00ed, professora aposentada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas da USP, as cicatrizes da ditadura no ensino universit\u00e1rio do pa\u00eds. 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