{"id":5674,"date":"2013-05-28T20:06:56","date_gmt":"2013-05-28T20:06:56","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/05\/28\/comissao-da-verdade-do-rio-ouve-historiadora-que-teve-corpo-usado-em-aula-de-tortura\/"},"modified":"2013-05-28T20:06:56","modified_gmt":"2013-05-28T20:06:56","slug":"comissao-da-verdade-do-rio-ouve-historiadora-que-teve-corpo-usado-em-aula-de-tortura","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/05\/28\/comissao-da-verdade-do-rio-ouve-historiadora-que-teve-corpo-usado-em-aula-de-tortura\/","title":{"rendered":"Comiss\u00e3o da Verdade do Rio ouve historiadora que teve corpo usado em \u201caula de tortura\u201d"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A historiadora Dulce Pandolfi e a cineasta L\u00facia Murat emocionaram os integrantes da Comiss\u00e3o Estadual da Verdade e as pessoas que acompanharam seus depoimentos hoje (28) na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Durante cerca de uma hora, elas relataram as agress\u00f5es sofridas em quart\u00e9is e pris\u00f5es no per\u00edodo da ditadura militar (1964-1985) e foram aplaudidas de p\u00e9 pelos ouvintes. Dulce contou, inclusive, que seu corpo foi usado em uma aula de interrogat\u00f3rio que teve demonstra\u00e7\u00e3o de choques el\u00e9tricos e simula\u00e7\u00e3o de fuzilamento.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-5673\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/d.jpg\" border=\"0\" alt=\"Dulce Pandolfi\" width=\"219\" height=\"219\" style=\"vertical-align: baseline;\" \/>  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Primeira a falar, Dulce Pandolfi emocionou-se em diversos momentos e precisou fazer pausas. Atualmente pesquisadora da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas, Dulce tinha 21 anos e era membro da Alian\u00e7a Nacional Libertadora (ANL) quando foi presa em 20 de agosto de 1970. Ela passou um ano e quatro meses em poder dos militares e disse que foi torturada psicol\u00f3gica e fisicament durante tr\u00eas meses no quartel da Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito, onde funcionava o Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es de Informa\u00e7\u00f5es \u2013 Centro de Opera\u00e7\u00f5es de Defesa Interna (DOI-Codi). \u201cQuando entrei, ouvi uma frase que at\u00e9 hoje ecoa nos meus ouvidos: \u2018Aqui n\u00e3o existe Deus, nem p\u00e1tria, nem fam\u00edlia\u2019\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No quarto m\u00eas de pris\u00e3o, Dulce ficou no Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops), no centro do Rio, e, nos seis meses seguintes, foi mantida no pres\u00eddio Talavera Bruce, em Bangu, at\u00e9 ser transferida para o pres\u00eddio Bom Pastor, em Recife, sua terra natal.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A historiadora lembrou que o per\u00edodo mais severo foi o in\u00edcio, na primeira sess\u00e3o de tortura, quando os militares tentaram obter o maior n\u00famero poss\u00edvel de informa\u00e7\u00f5es antes que seu desaparecimento fosse constatado pela ANL e por familiares. O m\u00e9todo mais usado foi o choque el\u00e9trico, com o corpo molhado e preso ao pau-de-arara, contou Dulce, que foi tamb\u00e9m espancada e teve um jacar\u00e9 colocado sobre seu corpo nu. A \u201caula de tortura\u201d, para demonstrar a efic\u00e1cia dos choques el\u00e9tricos em cada parte do corpo, foi quando ela completou dois meses de pris\u00e3o. Ela n\u00e3o resistiu, precisou ser socorrida, mas a \u201caula\u201d continuou momentos depois, com respaldo m\u00e9dico, no p\u00e1tio do quartel. Foi a\u00ed que houve a simula\u00e7\u00e3o de fuzilamento, com militares apontando para ela um rev\u00f3lver com apenas uma bala.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cEssas coisas n\u00e3o podem ser naturalizadas. \u00c9 como a mis\u00e9ria, \u00e9 como ver uma pessoa ca\u00edda no ch\u00e3o e achar normal. Esse \u00e9 o grande ponto\u201d, disse Dulce Pandolfi ap\u00f3s o depoimento.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A cineasta L\u00facia Murat tamb\u00e9m foi espancada e sofreu choques el\u00e9tricos e at\u00e9 abuso sexual por parte dos militares. Ela foi presa pela primeira vez em outubro de 1968, em um congresso estudantil, mas ficou apenas uma semana detida. Com a publica\u00e7\u00e3o do Ato Institucional 5 (AI-5), em dezembro daquele ano, com medo da pris\u00e3o, L\u00facia passou a viver na clandestinidade, mas foi encontrada e levada em 1971 para o mesmo quartel em que Dulce foi presa, e ficou detida tr\u00eas anos e meio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">L\u00facia contou que as primeiras horas de tortura foram as mais intensas e que chegou a perder os movimentos das pernas por algum tempo. Na tentativa de se suicidar, ela chegou a enganar os militares para ser levada a uma varanda, fazendo-os acreditar que daria sinal para militantes, mas uma substituta encenou no lugar dela: \u201cFoi a pior sensa\u00e7\u00e3o da minha vida. A de n\u00e3o poder morrer\u201d. L\u00facia chegou a ser levada para Salvador, onde foi apenas interrogada, e trazida de volta ao Rio de Janeiro. Em outra ocasi\u00e3o, ao participar de uma auditoria na Marinha, denunciou a tortura perante ju\u00edzes militares, que a mandaram de volta para o DOI-Codi, onde sofreu deboche e mais sess\u00f5es de tortura.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Tanto Dulce Pandolfi quanto L\u00facia Murat destacaram o sadismo dos militares durante as sess\u00f5es de tortura, embora lembrassem que foram tratadas de forma \u201cmais humana\u201d por outros. As duas contaram que um soldado se ofereceu para levar bilhetes para seus parentes e que as mensagens chegaram aos destinat\u00e1rios.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O coordenador da comiss\u00e3o e presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no Rio de Janeiro, Wadih Damous, disse que o objetivo das sess\u00f5es \u00e9 sensibilizar a popula\u00e7\u00e3o: \u201c\u00c9 preciso mostrar, sobretudo aos mais jovens, que a tortura foi uma pol\u00edtica de Estado e que pessoas corriam risco de vida por pensar [de maneira] diferente\u201d. Ele informou que est\u00e3o previstos outros depoimentos, inclusive de agentes civis e militares da \u00e9poca.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Diretor executivo da Anistia Internacional no Brasil, Atila Roque considerou fortes os depoimentos e disse que eles s\u00e3o uma forma de olhar para problemas atuais: \u201cFoi o relato de um momento hist\u00f3rico em que o governo foi carrasco, foi algoz. Esses trabalhos s\u00e3o tamb\u00e9m para convidar a sociedade e os jovens a refletir sobre essa hist\u00f3ria e a enfrentar os problemas que ainda persistem hoje. No momento em que estamos ouvindo esses relatos, h\u00e1 pessoas sendo torturadas nas pris\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A historiadora Dulce Pandolfi e a cineasta L\u00facia Murat emocionaram os integrantes da Comiss\u00e3o Estadual da Verdade e as pessoas que acompanharam seus depoimentos hoje (28) na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. 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