{"id":57,"date":"2012-05-06T03:33:18","date_gmt":"2012-05-06T03:33:18","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/06\/o-regime-militar-brasileiro-apoiou-em-1974-a-revolucao-dos-cravos\/"},"modified":"2012-05-06T03:33:18","modified_gmt":"2012-05-06T03:33:18","slug":"o-regime-militar-brasileiro-apoiou-em-1974-a-revolucao-dos-cravos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/06\/o-regime-militar-brasileiro-apoiou-em-1974-a-revolucao-dos-cravos\/","title":{"rendered":"O regime militar brasileiro apoiou, em 1974, a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos"},"content":{"rendered":"<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\">L\u00e9guas a nos separar<\/p>\n<p class=\"p1\">Em contradi\u00e7\u00e3o com sua pr\u00f3pria linha pol\u00edtica, o regime militar brasileiro apoiou, em 1974, a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, em Portugal, que acabava com um per\u00edodo de ditadura<\/p>\n<p class=\"p2\">Francisco Carlos Palomanes Martinho<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-54\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/cravos.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"220\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No dia 25 abril de 1974, um grupo de jovens militares, capit\u00e3es na maioria, p\u00f4s fim a uma das mais longas ditaduras da Europa, a do Estado Novo portugu\u00eas. Iniciado a partir de um golpe militar em 1926, transformado em ditadura civil e corporativa no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1930, sob a lideran\u00e7a de Ant\u00f3nio Oliveira Salazar, o governo autorit\u00e1rio conviveu com importantes acontecimentos internacionais como, a crise do entre-guerras, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria e o gradual decl\u00ednio dos sistemas coloniais europeus.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O golpe do 25 de Abril rapidamente se transformou na Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, um dos acontecimentos mais dram\u00e1ticos do per\u00edodo da Guerra Fria. Foi inesperado tamb\u00e9m, ocorrendo praticamente da noite para o dia. Pegas de surpresa, na\u00e7\u00f5es poderosas, como os Estados Unidos, acabaram na constrangedora posi\u00e7\u00e3o de meros observadores. Como disse o chefe da delega\u00e7\u00e3o da CIA em Londres, Cord Meyer: \u201cQuando a Revolu\u00e7\u00e3o aconteceu em Portugal, os Estados Unidos tinham \u2018sa\u00eddo para almo\u00e7ar\u2019. Foi uma surpresa total\u201d. O processo revolucion\u00e1rio abriu a possibilidade de que, no chamado \u201cver\u00e3o quente\u201d de 1975, sob a chefia do general Vasco Gon\u00e7alves, Portugal se aproximasse em demasia do bloco sovi\u00e9tico. Para muitos observadores, havia o perigo real de se transformar em um pa\u00eds comunista.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A queda da ditadura portuguesa gerou opini\u00f5es diversas, t\u00e3o comuns naqueles anos de bipolaridade. Por um lado, por exemplo, o senador norte-americano James Buckley afirmou, preocupado: \u201cN\u00e3o h\u00e1 nada a acontecer hoje no mundo \u2013 nem no Sudeste Asi\u00e1tico, nem no Oriente M\u00e9dio \u2013 que tenha metade da import\u00e2ncia e seja mais amea\u00e7ador que o avan\u00e7o comunista para o poder em Portugal\u201d. Por outro lado, o escritor e jornalista Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, em visita a Lisboa para cobrir a revolu\u00e7\u00e3o para o jornal colombiano Alternativa, n\u00e3o s\u00f3 comparou a capital portuguesa \u00e0 Havana de 1959 como tamb\u00e9m afirmou suas esperan\u00e7as em um futuro socialista na pequena rep\u00fablica ib\u00e9rica.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00c0 primeira hora do dia 11, o representante brasileiro se apresentou ao novo governo\u00a0antes mesmo de qualquer pa\u00eds do bloco socialista<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No Brasil, claro, os acontecimentos portugueses logo ganharam a aten\u00e7\u00e3o de governo, intelectuais e opini\u00e3o p\u00fablica. A oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura militar festejou como se a vit\u00f3ria fosse sua. Exilado na Europa, o cineasta Glauber Rocha dirigiu o belo document\u00e1rio \u201cAs armas e o povo\u201d, enfatizando o olhar popular a respeito daqueles acontecimentos. O fot\u00f3grafo Sebasti\u00e3o Salgado fez uma s\u00e9rie de fotografias tanto da Revolu\u00e7\u00e3o quanto da guerra civil na \u00c1frica. Mas foi, talvez, a partir da m\u00fasica de Chico Buarque de Holanda que o Portugal p\u00f3s-25 de Abril ficou mais conhecido.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A terra lusitana repleta de conservadorismo, tradi\u00e7\u00e3o e f\u00e9 cat\u00f3lica se transformou em lugar da esperan\u00e7a e em exemplo a ser seguido. Pelo menos tr\u00eas can\u00e7\u00f5es de Chico se remetem, direta ou indiretamente, ao tema. A primeira delas, \u201cFado Tropical\u201d, composta em parceria com Ruy Guerra para a pe\u00e7a \u201cCalabar: o elogio da trai\u00e7\u00e3o\u201d, foi escrita antes da queda do salazarismo. Por ocasi\u00e3o do processo revolucion\u00e1rio, na medida em que Portugal ou se redemocratizava ou se aproximava do socialismo, dizer que \u201cesta terra ainda vai cumprir seu ideal\/ ainda vai tornar-se um imenso Portugal\u201d soava provocativo para a ditadura. A can\u00e7\u00e3o, assim como a pe\u00e7a, foi proibida. No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980, Chico comp\u00f4s e gravou \u201cMorena de Angola\u201d, \u201cminha camarada do MPLA\u201d, em refer\u00eancia ao Movimento Popular de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola, o partido marxista que havia tomado o poder ap\u00f3s a descoloniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-55\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/cravos3.jpg\" border=\"0\" width=\"400\" height=\"289\" srcset=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/cravos3.jpg 400w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/cravos3-300x217.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Foi com \u201cTanto Mar\u201d, composta intencionalmente em homenagem \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, que o entusiasmo e a ades\u00e3o aos acontecimentos portugueses p\u00f3s-1974 ficaram mais evidentes. A vers\u00e3o mais conhecida por n\u00f3s, brasileiros, n\u00e3o \u00e9 a mais conhecida entre os portugueses (ver box). Composta em plena ditadura militar, sua letra foi logo censurada. No LP gravado ao vivo com Maria Beth\u00e2nia em 1975, foi tocada apenas sua vers\u00e3o instrumental. A primeira vers\u00e3o falava de um pa\u00eds em festa em contraste com nossa tristeza. \u201cL\u00e1 faz primavera, p\u00e1\/ C\u00e1 estou doente\u201d. Mas a vers\u00e3o que veio a p\u00fablico no Brasil era outra, datada de 1978, e que consta do disco \u201cChico\u201d, do mesmo ano. A Revolu\u00e7\u00e3o havia terminado: \u201cFoi bonita a festa, p\u00e1\u201d. Mas algo dela havia permanecido: \u201cEsqueceram uma semente\/ Nalgum canto de jardim\u201d. Quando Chico p\u00f4de finalmente gravar a m\u00fasica, a vertigem revolucion\u00e1ria j\u00e1 tinha se esva\u00eddo, frustrando aqueles que sonhavam com uma radicaliza\u00e7\u00e3o maior. Para a intelectualidade brasileira de esquerda, o fim do \u00edmpeto revolucion\u00e1rio teve mais peso do que a conquista da democracia pelos portugueses. Por isso o evidente sentimento de frustra\u00e7\u00e3o na segunda vers\u00e3o da letra: \u201cJ\u00e1 murcharam tua festa, p\u00e1\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O Brasil vivia sob uma forte ditadura e, para a intelectualidade de esquerda, qualquer derrota de regimes arbitr\u00e1rios \u00e0 direita significava um alento. Se a oposi\u00e7\u00e3o brasileira se regozijava com a queda do Estado Novo portugu\u00eas, era de se esperar que a postura do governo dos militares fosse oposta. Se n\u00e3o resultasse em um rompimento definitivo, pelo menos que fossem adotadas medidas de cautela. N\u00e3o s\u00f3 em rela\u00e7\u00e3o a Portugal, mas, sobretudo, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s antigas col\u00f4nias que gradualmente foram aderindo ao bloco socialista. Apesar do anticomunismo, apesar das rela\u00e7\u00f5es amistosas com governos ditatoriais e de direita, como os de Pinochet no Chile e de Stroessner no Paraguai, para nos restringirmos \u00e0 Am\u00e9rica Latina, o posicionamento brasileiro foi contr\u00e1rio a tudo o que dele se esperava. J\u00e1 no dia 27 de abril, o Brasil reconhecia formalmente o novo regime portugu\u00eas, tendo sido o primeiro pa\u00eds a faz\u00ea-lo. E ofereceu imediatamente asilo pol\u00edtico ao presidente da Rep\u00fablica deposto, Am\u00e9rico Tom\u00e1s, e ao presidente do Conselho de Ministros, sucessor de Salazar, Marcello Caetano, que veio a falecer no Brasil seis anos depois.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>A quest\u00e3o de Angola<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As raz\u00f5es que levaram os militares a adotar uma pol\u00edtica inesperada t\u00eam a ver, sobretudo, com a chamada quest\u00e3o colonial e com as guerras de independ\u00eancia de Angola, Mo\u00e7ambique e Guin\u00e9, travadas desde o in\u00edcio dos anos 1960. Essas batalhas contribu\u00edram para a derrocada do regime autorit\u00e1rio em Portugal. \u00c1lvaro Lins, embaixador brasileiro em Lisboa no final da d\u00e9cada de 1950, vislumbrava a possibilidade de o Brasil vir a se tornar o herdeiro natural da influ\u00eancia portuguesa nos territ\u00f3rios africanos. Segundo suas palavras: \u201cO fato evidente e incontest\u00e1vel de que seremos, em tais col\u00f4nias, os herdeiros leg\u00edtimos e substitutos naturais de Portugal, em mat\u00e9ria de influ\u00eancia cultural e interc\u00e2mbio comercial, quando se tornarem pa\u00edses independentes\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O otimismo do embaixador, entretanto, contrastava com a insist\u00eancia de Portugal em manter as col\u00f4nias do ultramar. No in\u00edcio da guerra anticolonial, o Brasil, junto com o Vaticano e a Espanha, tentou convencer o governo portugu\u00eas a optar por uma sa\u00edda negociada para a crise. Portugal recusou. Data desta \u00e9poca uma das mais conhecidas frases de Salazar: \u201cEstamos cada vez mais orgulhosamente s\u00f3s\u201d. Mas os olhos do Brasil e dos brasileiros se mantiveram abertos para a evolu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica portuguesa.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A esperan\u00e7a de acompanhar de perto a evolu\u00e7\u00e3o da redemocratiza\u00e7\u00e3o portuguesa veio ao lado do desejo de ser parte integrante do processo de transi\u00e7\u00e3o das antigas col\u00f4nias para a independ\u00eancia. O ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do Brasil, Ant\u00f4nio Francisco Azeredo da Silveira, esfor\u00e7ou-se ao m\u00e1ximo para que o governo brasileiro tivesse um papel de destaque nas negocia\u00e7\u00f5es com as col\u00f4nias. Portugal, entretanto, apesar da gratid\u00e3o pelo comportamento brasileiro no imediato p\u00f3s-25 de Abril, mostrava resist\u00eancia quanto a um papel de destaque do Brasil nas negocia\u00e7\u00f5es pela independ\u00eancia das na\u00e7\u00f5es africanas. Para o ministro dos Neg\u00f3cios Estrangeiros de Portugal, M\u00e1rio Soares, as negocia\u00e7\u00f5es deveriam ocorrer sem a media\u00e7\u00e3o de outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-56\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/coliseu1a%5B1%5D.jpg\" border=\"0\" width=\"600\" height=\"300\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na\u00a0 madrugada do dia 25 de abril, a m\u00fasica censurada Gr\u00e2ndola Vila Morena soou em algumas r\u00e1dios portuguesas &#8211; era o sinal codificado para as tropas do MFA tomarem o poder. Hoje a m\u00fasica tornou-se hino da Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Brasil desagradando o governo de Lisboa<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Insatisfeito, o Brasil n\u00e3o hesitou em tomar atitudes que desagradaram ao governo de Lisboa. Duas delas merecem destaque: em 16 de julho de 1974, sem consulta pr\u00e9via aos portugueses, o Brasil reconhecia a independ\u00eancia da Guin\u00e9-Bissau. Esta atitude, que passava por cima do Tratado de Amizade e Consulta, causou mal-estar em Lisboa. Para Portugal, tratava-se de uma incurs\u00e3o indevida visando \u00e0 supera\u00e7\u00e3o da hegemonia portuguesa na \u00c1frica. O ministro M\u00e1rio Soares exigiu desculpas, mas o Itamaraty considerou injustificada tal medida. Este foi, provavelmente, o momento de maior tens\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas luso-brasileiras durante o processo revolucion\u00e1rio portugu\u00eas. Mesmo ap\u00f3s a op\u00e7\u00e3o das novas na\u00e7\u00f5es africanas de aderirem ao bloco socialista, o governo brasileiro continuou decidido a influenciar os destinos daqueles pa\u00edses. No in\u00edcio de 1975, antes de encerradas as negocia\u00e7\u00f5es para a independ\u00eancia de Angola, o Brasil instalou uma representa\u00e7\u00e3o oficial em Luanda. Proclamada a independ\u00eancia, em 11 de novembro daquele ano, o governo brasileiro logo reconheceu o feito de Angola, sendo o primeiro pa\u00eds a fazer isso. A representa\u00e7\u00e3o logo se transformou em embaixada. A atitude brasileira de reconhecer um regime com valores marxistas, como era de se esperar, causou estranheza no corpo diplom\u00e1tico norte-americano.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Indicado pelo ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Ant\u00f4nio Francisco Azeredo da Silveira, o diplomata \u00cdtalo Zappa chefiava o Departamento de \u00c1frica, \u00c1sia e Oceania do Itamaraty. De cunho esquerdista, as opini\u00f5es de Zappa iam ao encontro da op\u00e7\u00e3o do general Geisel de se afastar do colonialismo portugu\u00eas. Esta postura estava vinculada \u00e0 possibilidade de o Brasil exercer influ\u00eancia sobre as jovens na\u00e7\u00f5es que se formariam com o fim do sistema colonial.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O Departamento chefiado por Zappa encontrou situa\u00e7\u00f5es diferentes nos territ\u00f3rios africanos de l\u00edngua portuguesa. A Guin\u00e9 j\u00e1 tinha seu territ\u00f3rio reconhecido por um conjunto expressivo de na\u00e7\u00f5es desde setembro de 1973. Mo\u00e7ambique foi reconhecida imediatamente, em fun\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de apenas um partido pol\u00edtico, a Frelimo (Frente de Liberta\u00e7\u00e3o de Mo\u00e7ambique), sob a dire\u00e7\u00e3o de Samora Machel. Sem maiores traumas, Mo\u00e7ambique teve sua independ\u00eancia reconhecida em 1975, a partir dos processos de negocia\u00e7\u00e3o com o governo revolucion\u00e1rio portugu\u00eas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O problema maior se encontrava em Angola. Na mais rica das col\u00f4nias portuguesas, tr\u00eas for\u00e7as pol\u00edticas se digladiavam pelo controle do territ\u00f3rio. A FNLA (Frente Nacional de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola) tinha seu quartel-general no Zaire, ocupava o nordeste do territ\u00f3rio e, militarmente, era apoiada pelos Estados Unidos e pela China. A Unita (Uni\u00e3o Nacional pela Independ\u00eancia Total de Angola) tinha sua base militar em Z\u00e2mbia e ocupava o planalto central da col\u00f4nia. At\u00e9 maio de 1975, esta organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o dispunha de grandes patroc\u00ednios externos, sendo apoiada secretamente apenas pelo governo portugu\u00eas. As maiores bases do MPLA (Movimento Popular de Liberta\u00e7\u00e3o de Angola) situavam-se em Luanda, tanto na periferia quanto entre suas elites intelectuais. Dirigida pelo m\u00e9dico e poeta Agostinho Neto, contava com a simpatia dos segmentos radicalizados das For\u00e7as Armadas portuguesas. Sua crescente for\u00e7a militar decorreu dos apoios sovi\u00e9tico e cubano, evidenciando assim a tend\u00eancia que seguiria caso viesse a obter a vit\u00f3ria nas armas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Indicado por \u00cdtalo Zappa, o diplomata Ov\u00eddio de Melo foi nomeado chefe da representa\u00e7\u00e3o brasileira em Luanda. Sua tarefa consistia em negociar com as for\u00e7as em conflito, procurando manter neutralidade. Embora formalmente o fizesse, Ov\u00eddio de Melo pendia para o MPLA. Percebia que a FNLA nada mais era que uma inven\u00e7\u00e3o americana, enquanto que a Unita come\u00e7ava a representar um conluio de interesses portugueses e sul-africanos. Ao mesmo tempo, afirmava para o corpo diplom\u00e1tico brasileiro o predom\u00ednio do MPLA. Seu comportamento gerou estranheza na diplomacia americana, que n\u00e3o tardou a pressionar por sua sa\u00edda.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No Brasil, a op\u00e7\u00e3o de Ov\u00eddio de Melo e de nossa diplomacia como um todo tamb\u00e9m foi motivo de estranhamento. O jornal O Estado de S. Paulo, por exemplo, ao mesmo tempo em que se opunha \u00e0 pol\u00edtica externa em rela\u00e7\u00e3o a Angola, n\u00e3o deixava de alertar para a possibilidade de constitui\u00e7\u00e3o de mais um sat\u00e9lite do Kremlin em territ\u00f3rio africano. Tamb\u00e9m dentro das For\u00e7as Armadas, o descontentamento se manifestava na voz do general S\u00edlvio Frota, ministro do Ex\u00e9rcito e futuro opositor de Geisel.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A despeito de importantes press\u00f5es externas e internas, o Brasil se manteve irredut\u00edvel no apoio ao MPLA. \u00c9 bom lembrar que, al\u00e9m das press\u00f5es citadas, a ditadura militar brasileira era alvo da desconfian\u00e7a das antigas col\u00f4nias, que n\u00e3o se esqueciam do recente apoio do Brasil ao colonialismo portugu\u00eas. \u00c0 medida que a guerra pelo controle do territ\u00f3rio se radicalizava, que os Estados Unidos patrocinavam a unidade da FNLA com a Unita e os embaixadores de diversos pa\u00edses se retiravam de Angola, o Brasil, com Ov\u00eddio de Melo, permanecia em Luanda. As negocia\u00e7\u00f5es para a independ\u00eancia angolana se encerraram, conforme previamente acordado, no dia 10 de novembro de 1975. \u00c0 primeira hora do dia 11, o representante brasileiro se apresentou ao novo governo, antes mesmo de qualquer pa\u00eds do bloco socialista.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A op\u00e7\u00e3o do Brasil de permanecer em territ\u00f3rio angolano evidenciou uma conduta de autonomia e independ\u00eancia, principalmente em rela\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos. Naquela dif\u00edcil conjuntura, ela decorreu do posicionamento pol\u00edtico \u00e0 esquerda dos embaixadores Ov\u00eddio de Melo e \u00cdtalo Zappa, e tamb\u00e9m do conhecido antiamericanismo do presidente Geisel. Vale notar, entretanto, que se foi \u201co maior feito da diplomacia brasileira nos \u00faltimos trinta anos\u201d, ela n\u00e3o garantiu premia\u00e7\u00e3o ou reconhecimento para seus personagens mais importantes: os embaixadores \u00cdtalo Zappa e Ov\u00eddio de Melo. Zappa foi o \u00fanico de sua categoria que n\u00e3o recebeu a Ordem do M\u00e9rito Militar, al\u00e9m de ter deixado o Itamaraty sem jamais servir em um pa\u00eds de primeira linha. Ov\u00eddio de Melo foi depois encaminhado para a Tail\u00e2ndia por seis anos, e a seguir para a Jamaica. Foi promovido a ministro de primeira classe somente em 1985, depois do restabelecimento da democracia no Brasil.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Esperan\u00e7a de transi\u00e7\u00e3o para a esquerda, pragmatismo para os militares, maldi\u00e7\u00e3o para os diplomatas. A Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos e a luta pela independ\u00eancia das col\u00f4nias foram, embora por motivos diversos, apoiadas por for\u00e7as contradit\u00f3rias no Brasil. Vale perceber, neste breve exemplo hist\u00f3rico, datado de abril de 1974 a novembro de 1975, que a pol\u00edtica \u00e9 rica em surpresas. Quando se esperava uma radicaliza\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, murchou a festa. Quando se imaginava um alinhamento brasileiro com os Estados Unidos, a alian\u00e7a se deu \u00e0 esquerda. E quando se podia imaginar o reconhecimento dos art\u00edfices da op\u00e7\u00e3o brasileira, veio seu inc\u00f4modo confinamento em terras distantes. Passados muitos anos desde o fim da ditadura e do imp\u00e9rio portugu\u00eas, pode-se perceber hoje a import\u00e2ncia das escolhas do governo e da diplomacia do Brasil. Ainda que com a devida \u201cdist\u00e2ncia entre inten\u00e7\u00e3o e gesto\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Revista de Hist\u00f3ria<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 L\u00e9guas a nos separar Em contradi\u00e7\u00e3o com sua pr\u00f3pria linha pol\u00edtica, o regime militar brasileiro apoiou, em 1974, a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, em Portugal, que acabava com um per\u00edodo de ditadura Francisco Carlos Palomanes Martinho<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}