{"id":5744,"date":"2013-05-29T22:17:59","date_gmt":"2013-05-29T22:17:59","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/05\/29\/relatos-levam-comissao-da-verdade-do-rio-as-lagrimas\/"},"modified":"2013-05-29T22:17:59","modified_gmt":"2013-05-29T22:17:59","slug":"relatos-levam-comissao-da-verdade-do-rio-as-lagrimas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/05\/29\/relatos-levam-comissao-da-verdade-do-rio-as-lagrimas\/","title":{"rendered":"Relatos levam Comiss\u00e3o da Verdade do Rio \u00e0s l\u00e1grimas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\" \/>A historiadora Dulce Pandolfi e a cineasta L\u00facia Murat prestaram depoimentos emocionados nesta ter\u00e7a-feira, 28, quando relataram \u00e0 Comiss\u00e3o Estadual da Verdade do Rio de Janeiro as torturas a que foram submetidas durante a ditadura militar. Os relatos de agress\u00f5es, afogamento, choques el\u00e9tricos e abusos sexuais levaram as duas &#8211; e parte dos que lotaram o plen\u00e1rio da Assembleia Legislativa do Rio &#8211; por diversas vezes \u00e0s l\u00e1grimas.  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dulce era estudante de Ci\u00eancias Sociais e secret\u00e1ria geral do Diret\u00f3rio Central dos Estudantes (DCE) na Universidade Federal de Pernambuco quando foi decretado o Ato Institucional n\u00ba 5. Naquele mesmo ano de 1968, ingressou na A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional (ALN), organiza\u00e7\u00e3o de esquerda armada. &#8220;A radicaliza\u00e7\u00e3o do regime justificava a continuidade da nossa luta&#8221;. Dois anos depois, perseguida pelos \u00f3rg\u00e3o de repress\u00e3o, fugiu de Recife para o Rio, onde foi presa no dia 20 de agosto de 1970. Ela se recorda da frase dita por um militar no momento em que entrou no quartel da Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito: &#8220;aqui n\u00e3o existe Deus, nem P\u00e1tria, nem Fam\u00edlia. S\u00f3 n\u00f3s e voc\u00ea&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Aula de tortura<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante os cerca de tr\u00eas meses em que ficou no DOI-CODI, ela foi agredida com socos e pontap\u00e9s, sofreu afogamentos, recebeu choques el\u00e9tricos enquanto ficava pendurada num pau de arara, e ainda teve um jacar\u00e9 andando sobre o seu corpo nu. Ela tamb\u00e9m relatou ter sido pisoteada nas costas pelo major Riscala Corbaje, conhecido como doutor Nagib, depois que ele percebeu que o &#8220;soro da verdade&#8221; injetado na veia de Dulce n\u00e3o surtira o efeito desejado. Al\u00e9m dos hematomas, Dulce tamb\u00e9m ficou por um per\u00edodo com o corpo parcialmente paralisado. &#8220;N\u00e3o sei quanto tempo durou a minha primeira sess\u00e3o. S\u00f3 sei que ela acabou quando eu cheguei no meu limite&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dulce chegou a servir de cobaia para uma aula de tortura. &#8220;O professor, diante de seus alunos, fazia demonstra\u00e7\u00f5es com o meu corpo. Era uma aula pr\u00e1tica, com algumas dicas te\u00f3ricas. Enquanto eu levava choques el\u00e9tricos, pendurada no pau de arara, ouvi ele dizer: `essa \u00e9 a t\u00e9cnica mais eficaz&#8217;.&#8221; Quando Dulce come\u00e7ou a passar mal, o m\u00e9dico Amilcar Lobo foi chamado. Ele a examinou e disse: &#8220;ela ainda aguenta&#8221;. A sess\u00e3o continuou. No final da &#8220;aula&#8221;, disseram que ela era irrecuper\u00e1vel e iriam mat\u00e1-la. Simularam o seu fuzilamento: &#8220;levantaram rapidamente o capuz, me mostraram um rev\u00f3lver, apenas com uma bala, e ficaram brincando de roleta russa&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de passar tr\u00eas meses no DOI-CODI e um m\u00eas no DOPS, Dulce foi transferida para um pres\u00eddio em Bangu e depois para outro em Recife. No total, ficou presa por um ano e quatro meses. &#8220;\u00c9 muito duro lembrar toda essa situa\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 fundamental para que possamos construir um pa\u00eds mais justo e humano.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cineasta Lucia Murat, que permaneceu tr\u00eas anos e meio na pris\u00e3o, tamb\u00e9m relatou momentos de horror no DOI-CODI. Ela tamb\u00e9m teve parte do corpo temporariamente paralisado. L\u00facia tentou o suic\u00eddio duas vezes enquanto esteve presa. &#8220;Sofri a pior sensa\u00e7\u00e3o da minha vida. A sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o poder morrer.&#8221; Al\u00e9m das agress\u00f5es e dos choques el\u00e9tricos no pau de arara, Lucia tamb\u00e9m teve baratas espalhadas sobre seu corpo nu. Os torturadores chegaram a colocar uma delas em sua vagina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pol\u00edtica de Estado<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00facia disse que eles se comportavam como se estivessem disputando um campeonato. &#8220;Eu chorava e pedia pra eles me matarem. Eles riam. Eram donos das nossas vidas e das nossas mortes&#8221;. Ela relatou que sofreu abusos sexuais de Nagib, algo que ele pr\u00f3prio chamava de tortura sexual cient\u00edfica. &#8220;Eu ficava nua, com um capuz na cabe\u00e7a, uma corda enrolada no pesco\u00e7o passando pelas costas at\u00e9 as m\u00e3os, que estavam amarradas atr\u00e1s da cintura&#8221;. Enquanto o torturador abusava de L\u00facia, ela n\u00e3o conseguia se defender. &#8220;Se eu movimentasse meus bra\u00e7os para me proteger, eu me enforcava, e instintivamente voltava para tr\u00e1s&#8221;. As duas relataram tamb\u00e9m abusos cometidos com suas companheiras de cela. &#8220;N\u00e3o aceitei dar esse depoimento nem por vingan\u00e7a nem por masoquismo, mas porque acho fundamental contar essa hist\u00f3ria e revelar que foram, sim, praticados crimes de lesa humanidade&#8221;, disse L\u00facia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O presidente da Comiss\u00e3o Estadual da Verdade do Rio de Janeiro, o advogado Wadih Damous, disse que a import\u00e2ncia da comiss\u00e3o \u00e9 lembrar \u00e0s gera\u00e7\u00f5es, especialmente aos mais jovens, que a tortura j\u00e1 foi considerada uma pol\u00edtica de Estado. Para o diretor-executivo da Anistia Internacional no Brasil, \u00c1tila Roque, as comiss\u00f5es da verdade que est\u00e3o sendo instauradas t\u00eam o importante papel de chamar a aten\u00e7\u00e3o para os crimes de lesa humanidade cometidos durante a ditadura. &#8220;Tudo isso \u00e9 parte desse exerc\u00edcio de olhar pro passado sem medo, e de saber qual foi o papel do Estado brasileiro como instaurador do terror. Os trabalhos da comiss\u00e3o e os desdobramentos que ela provoca v\u00e3o colocar a sociedade brasileira, o Estado e as institui\u00e7\u00f5es diante do imperativo da justi\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Ag\u00eancia Estado<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A historiadora Dulce Pandolfi e a cineasta L\u00facia Murat prestaram depoimentos emocionados nesta ter\u00e7a-feira, 28, quando relataram \u00e0 Comiss\u00e3o Estadual da Verdade do Rio de Janeiro as torturas a que foram submetidas durante a ditadura militar. 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