{"id":5841,"date":"2013-06-03T21:02:48","date_gmt":"2013-06-03T21:02:48","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/06\/03\/o-passado-do-pastor-brandao-ex-agente-da-ditadura\/"},"modified":"2013-06-03T21:02:48","modified_gmt":"2013-06-03T21:02:48","slug":"o-passado-do-pastor-brandao-ex-agente-da-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/06\/03\/o-passado-do-pastor-brandao-ex-agente-da-ditadura\/","title":{"rendered":"O passado do pastor Brand\u00e3o, ex-agente da Ditadura"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O torturador ofendido<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" \/>O pastor \u00c1tila Brand\u00e3o, destacado agente da repress\u00e3o na ditadura, tenta calar um jornalista que lembra seu passado  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">Nas manh\u00e3s de s\u00e1bado, o pastor \u00c1tila Brand\u00e3o, l\u00edder m\u00e1ximo da Igreja Batista Caminho das \u00c1rvores, faz uma exaltada prega\u00e7\u00e3o na TV Aratu, retransmissora do SBT na Bahia. \u00c9 uma mistura de ignor\u00e2ncia, oportunismo e preconceito. Exemplo: o ser humano \u00e9 inteligente por falar e n\u00e3o por pensar. Outro: o anticristo ser\u00e1 um homossexual nascido de uma prostituta. N\u00e3o se assuste, o pastor tem a solu\u00e7\u00e3o contra o mal. Al\u00e9m do apego ao Evangelho e \u00e0 B\u00edblia, Brand\u00e3o acredita-se destinado a presidir o Brasil.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Infelizmente, a estrat\u00e9gia para derrotar o coisa-ruim via Pal\u00e1cio do Planalto corre s\u00e9rios riscos. Atualmente, torturador de palavras e consci\u00eancias, Brand\u00e3o destacou-se nos anos 70 por outro tipo de barb\u00e1rie, bem mais grave. Teve passagem marcante pelo aparato de repress\u00e3o da ditadura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Denunciado pelo ex-deputado e jornalista Emiliano Jos\u00e9, o pastor perdeu a fleuma religiosa e ressuscitou seu velho estilo, consagrado nos anos de chumbo. Ent\u00e3o oficial da Pol\u00edcia Militar da Bahia, Brand\u00e3o comandou espancamentos contra estudantes em Salvador entre 1968 e 1973. Em um prazo de tr\u00eas meses, o evang\u00e9lico fez um boletim de ocorr\u00eancia, registrou uma queixa-crime e abriu duas a\u00e7\u00f5es judiciais contra Jos\u00e9. Seu objetivo principal \u00e9 censurar o jornalista por causa do artigo intitulado \u201cA premoni\u00e7\u00e3o de Yai\u00e1\u201d. Publicado em fevereiro passado no jornal A Tarde e dispon\u00edvel na internet, o texto trata de uma hist\u00f3ria assustadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com base em um depoimento gravado, o ex-deputado relata um momento na vida de Maria Helena Rocha Afonso, conhecida como Dona Yai\u00e1, m\u00e3e do preso pol\u00edtico Renato Afonso de Carvalho, ex-militante do Partido Comunista Brasileiro Revolucion\u00e1rio. Segundo Dona Yai\u00e1, em 1971, ap\u00f3s sentir terr\u00edvel ang\u00fastia no peito, decidiu por conta pr\u00f3pria pegar um t\u00e1xi e visitar o filho, ent\u00e3o com 23 anos, preso no quartel da PM dos Dendezeiros, na chamada cidade baixa. Carvalho havia sido preso no Rio de Janeiro em fevereiro daquele mesmo ano por agentes da repress\u00e3o e levado ao quartel da Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito da Rua Bar\u00e3o de Mesquita, um dos mais cru\u00e9is centros de torturas do regime. Por dois dias, ficou pendurado em um pau de arara. Foi espancado e submetido a choques el\u00e9tricos e afogamentos. Depois, enfrentou um fuzilamento simulado. Como, ainda assim, n\u00e3o entregou ningu\u00e9m, seu assassinato parecia iminente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gra\u00e7as a um pedido do pai, Orlando de Carvalho, e da interfer\u00eancia de Dom Eug\u00eanio Salles, \u00e0 \u00e9poca arcebispo do Rio de Janeiro, o militante foi salvo e transferido a Salvador. Sob cust\u00f3dia da PM baiana, achou que a fase das torturas havia passado. Engano absoluto. O militante do PCBR, hoje um respeitado professor de Hist\u00f3ria na capital da Bahia, reencontrou no quartel dos Dendezeiros um velho desafeto, o capit\u00e3o \u00c1tila Brand\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tr\u00eas anos antes, em 1968, Carvalho havia integrado um movimento para expulsar Brand\u00e3o da Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia onde ambos estudavam. Em companhia de outros militantes do movimento estudantil baiano, acusava o policial militar de ser um dos muitos agentes infiltrados pela ditadura no campus, estrat\u00e9gia comum naqueles tempos. Diversos estudantes identificaram o ent\u00e3o tenente Brand\u00e3o como comandante de tropas da PM que durante manifesta\u00e7\u00f5es de rua contra o regime liderava com brutalidade desmedida a repress\u00e3o aos manifestantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 frente de uma equipe de torturadores, Brand\u00e3o encontrou Carvalho em um dos por\u00f5es do quartel, mas n\u00e3o quis conversa sobre o passado. Assim que o viu, disparou socos, chutes e xingamentos, t\u00e1tica normalmente usada antes das sess\u00f5es de choques el\u00e9tricos e afogamentos. O PM queria saber se o estudante conhecia um grupo de militantes do PCBR preso no Paran\u00e1 pelo Ex\u00e9rcito. Quando estava prestes a montar o pau de arara e ligar a m\u00e1quina de eletrochoques, o oficial foi interrompido por um soldado. Dona Yai\u00e1 havia passado pelas sentinelas e, resoluta, estava no corredor em frente ao por\u00e3o onde o filho era torturado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segue o relato de Dona Yai\u00e1, reportado por Jos\u00e9, sobre a premoni\u00e7\u00e3o naquele fevereiro de 1971: \u201cSoube que o soldado entrou, cochichou no ouvido de \u00c1tila, e ele, irritado, mandou parar tudo, juntar o pau de arara e o resto, e se retirou. Cessou a tortura. Quando Renato saiu da sala, eu o abracei, perguntei-lhe se estava tudo bem, ele disse sim, mas pediu para que avisasse o advogado Jaime Guimar\u00e3es. Queriam voltar a tortur\u00e1-lo. Fiz o que Renato pediu. N\u00e3o voltou a ser torturado\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Brand\u00e3o nega tudo, apesar das evid\u00eancias. Entre elas, o documento n\u00famero 45\/69 da ag\u00eancia baiana do antigo Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es datado de 13 de outubro de 1969, em que ele \u00e9 citado reiteradas vezes como agente da repress\u00e3o. O nome do ex-PM est\u00e1 na ficha montada pelo SNI sobre Rosalindo Souza, militante do PCdoB, morto e desaparecido na Guerrilha do Araguaia, em 1973. Assim como Carvalho, o guerrilheiro estava entre os estudantes que pediram a expuls\u00e3o do policial militar da Faculdade de Direito em 1968.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pastor reagiu \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o do artigo, \u00e0 repercuss\u00e3o na Bahia e, claro, \u00e0s amea\u00e7as a suas antigas pretens\u00f5es eleitorais. Em 2006, foi candidato ao governo pelo PSC, partido do deputado Marco Feliciano, de S\u00e3o Paulo, com quem divide as mesmas opini\u00f5es homof\u00f3bicas. Em 2012, apoiou ACM Neto \u00e0 prefeitura de Salvador e ganhou, como pr\u00eamio, a nomea\u00e7\u00e3o de um filho, \u00c1tila Brand\u00e3o de Oliveira J\u00fanior, para o cargo de assessor especial da subchefia de gabinete do prefeito do DEM. J\u00fanior era diretor da Faculdade Batista Brasileira, um dos neg\u00f3cios do pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas a\u00e7\u00f5es judiciais, Brand\u00e3o acusa o jornalista de \u201cpau mandado\u201d e \u201cpapagaio de pirata\u201d. Para cal\u00e1-lo, pediu uma indeniza\u00e7\u00e3o de 2 milh\u00f5es de reais e a retirada do artigo \u201cA premoni\u00e7\u00e3o de Yai\u00e1\u201d do site do ex-deputado, com multa di\u00e1ria de 10 mil reais, no caso de desobedi\u00eancia. Em 13 de maio, a ju\u00edza Marielza Brand\u00e3o Franco, em decis\u00e3o liminar, mandou retirar o texto, a esta altura reproduzido em centenas de sites pela internet, da p\u00e1gina de Jos\u00e9 e reduziu a multa di\u00e1ria a 200 reais. \u201cEsta \u00e9 a primeira tentativa clara de cercear minha liberdade em 35 anos de carreira jornal\u00edstica\u201d, lamenta o ex-deputado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto aguarda a decis\u00e3o final do Tribunal de Justi\u00e7a sobre as a\u00e7\u00f5es, o jornalista coleciona apoios de entidades de defesa de direitos humanos e re\u00fane novos documentos sobre a participa\u00e7\u00e3o do ex-capit\u00e3o da PM na repress\u00e3o durante a ditadura. Brand\u00e3o dever\u00e1 ser um dos primeiros convocados pela Comiss\u00e3o Estadual da Verdade, a ser instalada nos pr\u00f3ximos dias, em Salvador, pelo governador petista Jaques Wagner. Tamb\u00e9m dever\u00e1 ser convidado a falar na Comiss\u00e3o da Verdade da Assembleia Legislativa, tamb\u00e9m instalada recentemente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 25 de abril, em depoimento ao Grupo Tortura Nunca Mais da Bahia, Carvalho havia confirmado a exatid\u00e3o do conte\u00fado tanto do relato da m\u00e3e, Dona Yai\u00e1, quanto do artigo do ex-deputado. Na ter\u00e7a-feira 21, a CartaCapital o professor afirmou ter reconhecido o capit\u00e3o Brand\u00e3o no instante em que ele entrou na sala onde o haviam colocado para ser torturado, no quartel dos Dendezeiros. \u201cEle tamb\u00e9m me reconheceu, da Faculdade de Direito, tanto que me chamou de Renato, e n\u00e3o de \u2018Joel\u2019, meu nome de guerra no PCBR.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fim do ano passado, em um evento para empres\u00e1rios evang\u00e9licos, Brand\u00e3o confessou a uma plateia na qual estava o deputado federal Anthony Garotinho que antes de ser crist\u00e3o era um advogado corrupto e corruptor, al\u00e9m de cidad\u00e3o \u201cpronto para matar algu\u00e9m\u201d. Portava sempre uma pistola calibre 45 com dois carregadores cheios de balas. O pastor n\u00e3o respondeu aos pedidos de entrevista da revista. Segundo uma secret\u00e1ria da Igreja do Caminho das \u00c1rvores, ele estava em viagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Carta Capital<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O torturador ofendido O pastor \u00c1tila Brand\u00e3o, destacado agente da repress\u00e3o na ditadura, tenta calar um jornalista que lembra seu passado<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5841"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5841"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5841\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5841"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5841"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5841"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}