{"id":5922,"date":"2013-06-10T13:18:43","date_gmt":"2013-06-10T13:18:43","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/06\/10\/como-um-passarinho\/"},"modified":"2013-06-10T13:18:43","modified_gmt":"2013-06-10T13:18:43","slug":"como-um-passarinho","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/06\/10\/como-um-passarinho\/","title":{"rendered":"Como um passarinho"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Joana \u00e9 filha de Gustavo Buarque Schiller, o sobrinho da amante do ex-governador Adhemar de Barros. Gustavo foi quem articulou com a guerrilha o roubo de um cofre, na mans\u00e3o onde morava, com US$ 2,5 milh\u00f5es dentro. Joana tinha apenas um ano e oito meses quando Gustavo morreu. Hoje, aos 29 anos, ela encaixa as pe\u00e7as que encontra com a hist\u00f3ria do pai, para melhor incorpor\u00e1-lo \u00e0 pr\u00f3pria vida<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-5912\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/joana-avbe.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"450\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\" \/>LA\u00c7OS DE FAM\u00cdLIA &#8211; Gustavo com Joana, rec\u00e9m-nascida, em praia da cidade de Imb\u00e9, no Rio Grande do Sul  <!--more-->  <\/address>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Joana estava com quase 4 anos quando explicou para a m\u00e3e de uma amiguinha por que n\u00e3o tinha pai: \u201cEle estava na janela. Passou um passarinho voando. Ele voou atr\u00e1s do passarinho\u201d. Enquanto vasculha o passado em uma caixa de fotografias, Joana Rocha Schiller, 29 anos, escuta entre surpresa e emocionada o relato de sua m\u00e3e, L\u00facia. \u201cEngra\u00e7ado, n\u00e3o me lembro de ter inventado essa hist\u00f3ria\u201d, diz Joana. \u201cMas eu era muito pequena.\u201d Ela era ainda menor quando perdeu o pai, no Rio de Janeiro. Tinha um ano e oito meses. Pouco depois, mudou-se para Porto Alegre, cidade da fam\u00edlia materna, onde mora at\u00e9 hoje. Com a dist\u00e2ncia e o decorrer do tempo, os v\u00ednculos com a fam\u00edlia paterna ficaram cada vez mais t\u00eanues. Joana, no entanto, tem uma imensa curiosidade sobre tudo o que diz respeito ao pai, Gustavo Buarque Schiller, e aos movimentos de resist\u00eancia ao regime militar. De vez em quando, ela encontra uma nova pe\u00e7a para o quebra-cabe\u00e7a que vem montando h\u00e1 tempos com a hist\u00f3ria do pai. Foi o que aconteceu durante entrevista \u00e0 Brasileiros, que entregou a ela a c\u00f3pia de um documento com pistas sobre a personalidade de Gustavo, al\u00e9m da reprodu\u00e7\u00e3o de 38 certificados escolares de Pr\u00eamio de Honra amealhados por ele entre abril de 1958 e junho de 1965. Um deles mostra que, em maio de 1963, Gustavo ganhou o primeiro lugar em Franc\u00eas, Ingl\u00eas, Canto, Matem\u00e1tica, Ci\u00eancias, Hist\u00f3ria do Brasil, Geografia e Religi\u00e3o.\u201cEssa parte de tirar primeiro lugar na escola ficou toda com ele. N\u00e3o herdei nada\u201d, brinca Joana.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os pap\u00e9is fazem parte do processo 38.358, do Superior Tribunal Militar, em Bras\u00edlia. O documento que descreve Gustavo \u00e9 um auto de inquiri\u00e7\u00e3o de testemunha, lavrado em 15 de maio de 1970, na 1<span class=\"s1\">a<\/span> Auditoria da Aeron\u00e1utica, no Rio de Janeiro. Dona de um sorriso aberto e afeita a coment\u00e1rios espirituosos, Joana fica s\u00e9ria quando come\u00e7a a ler em voz alta o depoimento do m\u00e9dico Eleuth\u00e9rio Brum Negreiros, que cuidava de Gustavo desde os 4 anos, por causa de uma asma br\u00f4nquica. \u201cNunca soube que ele teve asma\u201d, comenta L\u00facia, interrompendo por um momento a leitura da filha. Convocado pela defesa de Gustavo, que havia sido preso dois meses antes, o m\u00e9dico atesta a \u201cexcelente moral\u201d do garoto e diz acreditar na \u201cbonita carreira\u201d que ele teria pela frente.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Reprodu\u00e7\u00e3o\/Arquivo pessoal<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-5914\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/joana-3.jpg\" border=\"0\" width=\"600\" height=\"225\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\">AFETO &#8211; Em Porto Alegre, Joana rev\u00ea fotografias e documentos do pai, entre eles a carteira de identidade argentina falsa<\/address>\n<address style=\"text-align: justify;\"><\/address>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No depoimento, o m\u00e9dico tamb\u00e9m conta que Gustavo tinha, desde muito cedo, grande preocupa\u00e7\u00e3o com o mundo em que vivia. \u00c0 medida que crescia, eles passaram a conversar sobre pol\u00edtica. Em uma das \u00faltimas consultas, o m\u00e9dico achou as ideias do paciente \u201cum pouco avan\u00e7adas para um jovem, na \u00e9poca com 16 anos\u201d, por se preocupar \u201csobretudo com a justi\u00e7a social e o drama do Nordeste\u201d. Gustavo n\u00e3o aceitou os argumentos de que os mais velhos tinham feito o que podiam para deixar aos jovens um mundo melhor. Garantiu que se o m\u00e9dico tivesse acompanhado o drama dos retirantes no livro Seara Vermelha, de Jorge Amado, e \u201cvisse matar o gatinho da crian\u00e7a para comer\u201d, ele e a sua gera\u00e7\u00e3o teriam feito \u201calguma coisa de mais positiva\u201d. Na verdade, Gustavo se referia \u00e0 gata Marisca, que, no romance de Jorge Amado, foi sacrificada para aplacar a fome da fam\u00edlia da menina Noca, que tamb\u00e9m morreu durante a fuga da seca.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Cofre camuflado<\/strong><\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-5915\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/joana-4.jpg\" border=\"0\" width=\"280\" height=\"336\" style=\"vertical-align: middle;\" srcset=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/joana-4.jpg 280w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/joana-4-250x300.jpg 250w\" sizes=\"(max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<address>Reprodu\u00e7\u00e3o\/Arquivo pessoal.\u00a0<span style=\"line-height: 1.3em;\">Passaporte tirado por Gustavo depois da Lei de Anistia<\/span><\/address>\n<address><span style=\"line-height: 1.3em;\"><br \/><\/span><\/address>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Joana, ainda muito compenetrada, termina de ler o testemunho do m\u00e9dico. \u201c\u00c9 meu pai, mas parece t\u00e3o distante\u201d, diz. \u201cPelo que me contam, ele tinha mesmo essa profunda inquieta\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de muita garra para atingir seus objetivos.\u201d O fato \u00e9 que Gustavo fez o que considerava correto, um ano e poucos meses depois da conversa relatada pelo m\u00e9dico. Aluno do ensino m\u00e9dio no Col\u00e9gio Andrews, no bairro Humait\u00e1, no Rio de Janeiro, Gustavo acionou seus contatos no movimento estudantil e chegou at\u00e9 o soci\u00f3logo mineiro Juares Guimar\u00e3es de Brito, da organiza\u00e7\u00e3o clandestina VAR-Palmares, a mesma \u00e0 qual pertencia a presidenta Dilma Rousseff. Revelou que na mans\u00e3o em que vivia com a fam\u00edlia, no bairro de Santa Teresa, tinha um cofre abarrotado de d\u00f3lares. A fortuna, disse Gustavo a Juares, era fruto de corrup\u00e7\u00e3o. Estava guardada em sua casa a pedido de Anna Benchimol Capriglione, amante do ex-governador de S\u00e3o Paulo Adhemar de Barros. Um dos irm\u00e3os de Anna, o cardiologista Aar\u00e3o Bulamarqui Benchimol, era casado com Yole, tia materna de Gustavo, e tamb\u00e9m vivia na mans\u00e3o. Gustavo revelou a exist\u00eancia de outros cofres, um deles guardado em Copacabana, no apartamento do irm\u00e3o mais velho de Anna, o capit\u00e3o de mar e guerra Jos\u00e9 Burlamarqui Benchimol.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Pelas dificuldades log\u00edsticas em promover a\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas, a guerrilha decidiu \u201cexpropriar\u201d apenas o cofre da mans\u00e3o de Santa Teresa. O minucioso planejamento da a\u00e7\u00e3o foi feito pelo soci\u00f3logo Juares e incluiu conferir o croqui da propriedade, desenhado por Gustavo. Para l\u00e1 foi despachado o secundarista Carlos Minc, atual secret\u00e1rio do Ambiente do Rio de Janeiro, como se estivesse fazendo uma pesquisa de opini\u00e3o p\u00fablica. Ele deveria observar cada detalhe do im\u00f3vel, enquanto simulava perguntas sobre a telenovela Beto Rockfeller, o grande sucesso da \u00e9poca. Na propriedade rodeada por \u00e1rvores, constru\u00edda no alto de uma colina, trabalhavam 11 empregados e viviam 12 integrantes da fam\u00edlia. Por casualidade, Minc foi atendido justamente por Gustavo. Como n\u00e3o sabia que a guerrilha tinha um informante dentro da casa, o falso pesquisador n\u00e3o entendeu nada quando aquele que considerava representante da mais alta burguesia desancou as novelas em geral, classificando-as como \u201calienantes do povo\u201d. Apesar da surpresa, Minc saiu de l\u00e1 com os detalhes b\u00e1sicos do croqui conferidos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00c0s 15h30 da sexta-feira 18 de julho de 1969, um comando com 13 guerrilheiros da VAR-Palmares come\u00e7ou a a\u00e7\u00e3o que entraria para a hist\u00f3ria como o mais espetacular roubo promovido pela luta armada no Brasil. Uma hora antes, Gustavo tinha mergulhado na clandestinidade. Seus pais acreditavam que ele sa\u00edra para passar o final de semana com amigos em Teres\u00f3polis, mas o secundarista se preparara para uma viagem muito mais demorada. Sabendo que em algum momento a pol\u00edcia iria em seu encal\u00e7o, tratou de dificultar-lhe o trabalho. \u201cGustavo teve a preocupa\u00e7\u00e3o de levar consigo todas as suas fotografias, inclusive as que estavam com sua m\u00e3e. Mais ou menos 15 dias antes do roubo, j\u00e1 distribu\u00eda suas roupas entre os empregados\u201d, escreveu tr\u00eas meses depois o coronel Agricio de Faria Pimentel, no Inqu\u00e9rito Policial Militar que investigou o roubo.<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Reprodu\u00e7\u00e3o\/Arquivo pessoal<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-5916\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/joana-5.jpg\" border=\"0\" width=\"600\" height=\"446\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\">EX\u00cdLIO &#8211; O pai de Joana em Paris, onde estudou Sociologia e Economia, e come\u00e7ou a escrever uma tese de doutorado<\/address>\n<address style=\"text-align: justify;\"><\/address>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Treze guerrilheiros participaram diretamente da a\u00e7\u00e3o, mas apenas o soci\u00f3logo Juares sabia do papel e da identidade de Gustavo. \u201cJuares s\u00f3 nos avisou que na mans\u00e3o tinha uma \u2018\u00e1rea pr\u00f3xima\u2019. Era como nos refer\u00edamos naquela \u00e9poca \u00e0s pessoas que ajudavam a organiza\u00e7\u00e3o\u201d, lembra a soci\u00f3loga Sonia Lafoz, que agora mora em Curitiba. Atiradora experiente, ela integrou o grupo respons\u00e1vel pela seguran\u00e7a externa do roubo. Durante os 30 minutos que durou a a\u00e7\u00e3o, Sonia permaneceu em frente \u00e0 propriedade, dentro de um Aero Willys Itamaraty branco com teto de vinil preto. Al\u00e9m de um fuzil FAL 765, ela tinha algumas granadas ao alcance da m\u00e3o. Depois, enquanto parte do comando guerrilheiro se dispersava, Sonia, a bordo do Aero Willys, integrou a escolta da Veraneio Chevrolet C-14 cinza que levou o cofre de Santa Teresa para um esconderijo no Largo do Tanque, em Jacarepagu\u00e1.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ningu\u00e9m precisou dar nenhum tiro nem saiu machucado da a\u00e7\u00e3o. O \u00fanico incidente ocorreu na descida do cofre de 350 kg pela escadaria externa de granito que liga o primeiro andar \u00e0 parte t\u00e9rrea da propriedade. Sabendo que o cofre estava camuflado em um arm\u00e1rio do andar superior, os guerrilheiros prepararam pranchas de madeira com conex\u00f5es de a\u00e7o pelas quais o cofre deveria ser baixado. A velocidade da descida seria controlada por meio de cordas, em um sistema de roldanas. Na hora, o cofre despencou escada abaixo, estragando parte dos 20 degraus da escadaria.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Tr\u00eas d\u00e9cadas depois, Joana conferiu de perto o cen\u00e1rio do roubo, batizado pelos guerrilheiros como A\u00e7\u00e3o Grande. Ela tinha 15 anos e viajou sozinha de Porto Alegre para o Rio de Janeiro. \u201cFoi uma viagem de 28 horas, de \u00f4nibus. Eu n\u00e3o sabia o que esperar, mas sabia que seria importante, pois l\u00e1 se encontrava um peda\u00e7o da minha vida\u201d, diz. \u201cVi as marcas do cofre na escadaria e me lembro bem que pensei: \u2018Que coragem teve o meu pai!\u2019.\u201d Joana tamb\u00e9m ficou impressionada com o im\u00f3vel: \u201c\u00c9 uma constru\u00e7\u00e3o de deixar queixos ca\u00eddos\u201d. Durante cerca de dez dias, ela ficou hospedada em Santa Teresa com os tios e a prima Sylvia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Sylvia agora tamb\u00e9m assina o sobrenome de casada, Cooper, e vive em Auckland, na Nova Zel\u00e2ndia. Ela conta que a mans\u00e3o de 1,8 mil m<span class=\"s1\">2<\/span> de \u00e1rea constru\u00edda, rodeada por 7 mil m<span class=\"s1\">2<\/span> de jardins, foi erguida em 1914 por seu tatarav\u00f4. Trata-se do portugu\u00eas Antonio Ribeiro Seabra , que imigrou muito jovem para o Brasil pr\u00e9-industrial e fez fortuna na fabrica\u00e7\u00e3o t\u00eaxtil. \u201cEle n\u00e3o era sofisticado. Vinha de uma fam\u00edlia muito simples, mas apadrinhou o Belmiro, que o ajudou a adquirir a mob\u00edlia, esculturas e quadros\u201d, diz Sylvia, referindo-se ao pintor, escultor e caricaturista brasileiro Belmiro de Almeida (1858-1935).<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-5918\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/joana-2.jpg\" border=\"0\" width=\"600\" height=\"403\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Su\u00ed\u00e7as posti\u00e7as<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em julho de 1969, quando trocou a vida na mans\u00e3o pela luta armada, Gustavo, pai de Joana e tio de Sylvia, foi direto para Porto Alegre. Pouco tempo antes, a guerrilha havia deslocado para a capital ga\u00facha o jornalista mineiro Cl\u00e1udio Galeno Linhares, o Galeno, \u00e0 \u00e9poca casado com Dilma Rousseff. De Man\u00e1gua, na Nicar\u00e1gua, onde vive atualmente, Galeno conta que, na fase preparat\u00f3ria da a\u00e7\u00e3o, o soci\u00f3logo Juares o avisou que teria de \u201cguardar\u201d uma pessoa: \u201cA situa\u00e7\u00e3o do Gustavo era grave. Al\u00e9m da repress\u00e3o pol\u00edtica, havia uma m\u00e1fia em torno do dinheiro de Adhemar de Barros. Assumi, assim, uma esp\u00e9cie de papel de irm\u00e3o mais velho. Gustavo era um menino muito inteligente, brilhante mesmo, cheio de sonhos. Foi morar na mesma pens\u00e3o que eu e o Pimentel (o ministro do Desenvolvimento Fernando Pimentel), na rua Alberto Bins. Era uma pens\u00e3o de uma senhora italiana, um apartamento grande, com seis quartos. Moramos l\u00e1 at\u00e9 outubro, novembro de 1969\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No dia 1<span class=\"s1\">o<\/span> de janeiro de 1970, Galeno integrou o comando guerrilheiro que sequestrou no ar um avi\u00e3o de passageiros, o Caravelle, da Cruzeiro do Sul, e o desviou para Cuba. Na \u00e9poca em que Galeno deixou o Pa\u00eds, Gustavo vivia em uma casa clandestina da VAR-Palmares, em Porto Alegre. Nesse per\u00edodo, come\u00e7ou a namorar a bela Ignes Maria Serpa, uma estudante de Veterin\u00e1ria que pertencia \u00e0 mesma organiza\u00e7\u00e3o e tinha sido namorada de Galeno. \u201cEu n\u00e3o sabia que o Galeno era casado\u201d, trata de esclarecer Ignes, logo no come\u00e7o de sua entrevista \u00e0 Brasileiros. Nos tempos em que a vida corria por um fio devido \u00e0 repress\u00e3o pol\u00edtica, as rela\u00e7\u00f5es eram mesmo intensas e nem sempre sobreviviam \u00e0s duras condi\u00e7\u00f5es da clandestinidade. \u00c0quela altura, Galeno j\u00e1 estava na pr\u00e1tica separado de Dilma, com quem se casara no civil em Belo Horizonte, em setembro de 1967. Dilma, por sua vez, j\u00e1 havia conhecido no Rio de Janeiro seu futuro segundo marido, com quem ficou casada quase tr\u00eas d\u00e9cadas, o advogado Carlos Franklin da Paix\u00e3o Ara\u00fajo, pai de sua filha, Paula.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Junto com Ignes, Gustavo participou de v\u00e1rios treinamentos de guerrilha nas imedia\u00e7\u00f5es da Lagoa dos Patos, a 20 km de Porto Alegre. Com as organiza\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia ao regime esfaceladas pela repress\u00e3o, o pai de Joana havia assumido aos 18 anos o comando de opera\u00e7\u00f5es da VAR-Palmares no Rio Grande do Sul. Conhecido entre os companheiros de organiza\u00e7\u00e3o como disciplinado e respons\u00e1vel, tinha o apelido de Bicho. \u201cEle era magro e alto, com visual hiponga. Andava de sand\u00e1lias franciscanas, jeans meio frouxos e usava os cabelos compridos. Lia muito e, nas reuni\u00f5es, se destacava pelas an\u00e1lises de conjuntura.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Gustavo cortou os cabelos no estilo militar e usou su\u00ed\u00e7as posti\u00e7as para colocar em pr\u00e1tica os treinamentos feitos \u00e0 beira da Lagoa dos Patos. Vestido como um sargento da Brigada Militar, ele participou de um assalto \u00e0 ag\u00eancia do Banco do Brasil em Viam\u00e3o, na Grande Porto Alegre, no dia 18 de mar\u00e7o de 1970. \u201cEle levava um rev\u00f3lver 38 dentro do jornal que carregava dobrado. Eu tinha uma Beretta calibre 22 na bolsa. Como combinado, eu o abordei bem em frente \u00e0 entrada do banco, pedindo uma informa\u00e7\u00e3o. Quando nos viramos para o seguran\u00e7a da ag\u00eancia, o soldado bateu contin\u00eancia para o Gustavo. Mas logo viu as duas armas e se rendeu\u201d, relata Ignes. Se a rendi\u00e7\u00e3o deu certo, o mesmo n\u00e3o se pode dizer sobre o produto do assalto. Eram 12h30, o gerente tinha ido almo\u00e7ar em casa e levado a chave do cofre. Os guerrilheiros sa\u00edram da ag\u00eancia apenas com o dinheiro que estava nos caixas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Doze dias depois, Gustavo foi preso. Preocupado com a fam\u00edlia do caseiro de um s\u00edtio na regi\u00e3o rural de Porto Alegre, ele foi \u00e0 propriedade para levar mantimentos e dinheiro. Afinal, o caseiro tinha sido preso pelo simples fato de trabalhar no s\u00edtio onde se escondia um integrante da VAR-Palmares. \u201c\u00c9 \u00f3bvio que, t\u00e3o logo o Gustavo saiu do s\u00edtio, a mulher do caseiro avisou a pol\u00edcia\u201d, afirma Ignes. Ela foi presa na sequ\u00eancia: \u201cAntes de come\u00e7arem a me torturar, eles trouxeram o Gustavo. Ele estava todo arrebentado, desfigurado mesmo, cheio de hematomas. Mas olhou firme para mim e n\u00e3o moveu nenhum m\u00fasculo, como se n\u00e3o me conhecesse.\u201d Como de praxe na clandestinidade, Gustavo n\u00e3o tinha revelado sua verdadeira identidade para Ignes, nem falado sobre o roubo do cofre. No primeiro momento, o bra\u00e7o ga\u00facho da repress\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o conhecia a origem do guerrilheiro com sotaque carioca. Poucos dias depois, uma tentativa desastrada de sequestrar o c\u00f4nsul americano em Porto Alegre culminou em uma sucess\u00e3o de pris\u00f5es. Todo mundo acabou identificado. Ignes conta que o sequestro do c\u00f4nsul ainda estava em fase de planejamento ao ser desencadeado: \u201cA a\u00e7\u00e3o foi antecipada justamente para resgatar o Gustavo\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Reprodu\u00e7\u00e3o\/Arquivo pessoal<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-5919\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/joana-6.jpg\" border=\"0\" width=\"600\" height=\"405\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\">OS DONOS DO COFRE &#8211; Adhemar de Barros e a amante, Anna Capriglione, irm\u00e3 do marido de um tia de Gustavo<\/address>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Crime imposs\u00edvel<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Com a identifica\u00e7\u00e3o, Gustavo foi transferido para o Rio de Janeiro, onde chegou com dificuldades para respirar, devido ao nariz quebrado na tortura. S\u00f3 mais tarde, no ex\u00edlio, ele se submeteria a uma cirurgia pl\u00e1stica para corrigir o problema. A mudan\u00e7a de c\u00e1rcere n\u00e3o aliviou a tortura, mas reaproximou Gustavo da fam\u00edlia. Seus pais, Yedda e Sylvio, jamais criticaram o fato de ele ter ajudado a promover um assalto \u00e0 pr\u00f3pria casa. \u201cMeu pai repetia sempre que o Gustavo tinha um ideal\u201d, lembra o advogado Bernardo Buarque Schiller, um dos irm\u00e3os de Gustavo. Na \u00e9poca, Bernardo achou a atitude do irm\u00e3o \u201cinconceb\u00edvel\u201d, pois havia colocado em risco a fam\u00edlia. Algu\u00e9m poderia ter se ferido ou at\u00e9 mesmo morrido, se tivesse ocorrido um imprevisto. \u201cGuerra \u00e9 guerra\u201d, argumentava o seu pai, que junto com a mulher Yedda, convocou o jurista Antonio Evaristo de Moraes Filho para defender o filho guerrilheiro. Foi esse conceituado jurista quem anexou aos autos do processo as c\u00f3pias de pr\u00eamios escolares de Gustavo que a Brasileiros entregou \u00e0 Joana. Ele tamb\u00e9m indicou como testemunha o m\u00e9dico que relatou a preocupa\u00e7\u00e3o de seu paciente com a injusti\u00e7a social.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No processo, Evaristo de Moraes adotou como linha de defesa a tese de \u201ccrime imposs\u00edvel\u201d. Usou como base o fato de a antiga amante de Adhemar de Barros garantir em depoimento que o cofre estava vazio. Gustavo tamb\u00e9m jamais vira o dinheiro, s\u00f3 sabia dele por coment\u00e1rios da pr\u00f3pria fam\u00edlia. Um dos sargentos que desertou do Ex\u00e9rcito para aderir \u00e0 guerrilha e atuou no roubo, desmente a vers\u00e3o de Anna. Ele ainda se lembra da alegria que sentiram ao abrir o cofre. \u201cEram ma\u00e7os e mais ma\u00e7os de d\u00f3lares. Tinha at\u00e9 quatro c\u00e9dulas raras, de US$ 1 mil, que eu nunca tinha visto antes, nem nunca mais voltei a ver\u201d, afirma Jos\u00e9 de Ara\u00fajo N\u00f3brega.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Condenado a dois anos de pris\u00e3o, Gustavo acabou libertado e banido do Brasil antes de cumprir toda a pena. Em 13 de janeiro de 1971, ele decolou do Aeroporto do Gale\u00e3o no Boeing 707 da Varig que levou para o Chile 70 presos pol\u00edticos trocados pelo embaixador su\u00ed\u00e7o no Brasil, Giovanni Bucher, que havia sido sequestrado pela guerrilha. \u201cUma vez eu fui apresentado ao Gustavo em Santiago do Chile, mas foi um encontro r\u00e1pido\u201d, conta N\u00f3brega. No per\u00edodo em que viveu em Santiago, Gustavo n\u00e3o se conformava com a ideia de que a guerrilha estava quase aniquilada e a ditadura, cada vez mais forte no Brasil. Nos anos seguintes, insistiu em voltar a atuar contra o regime militar.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A tentativa de resist\u00eancia de Gustavo chegou \u00e0 Joana por meio de uma figura singular. Em meados de agosto de 2011, ela foi convidada, junto com a m\u00e3e, para almo\u00e7ar na casa de um antigo companheiro do pai, Jo\u00e3o Carlos Bona Garcia, o \u00fanico ex-preso pol\u00edtico brasileiro mais tarde nomeado juiz de um Tribunal de Justi\u00e7a Militar. Bona Garcia organizara o almo\u00e7o em sua ampla resid\u00eancia no bairro Bom Fim, em Porto Alegre, para que Joana conhecesse o homem que foi um segundo pai para Gustavo no ex\u00edlio. \u201cEra o Gringo. Ele soube que eu existia e veio da Argentina me conhecer. Um senhor de idade, um campon\u00eas forte, com m\u00e3os calejadas. Um senhor que me abra\u00e7ava como um av\u00f4 abra\u00e7a uma neta e n\u00e3o parava de chorar\u201d, recorda Joana, emocionada. \u201cSempre que descubro ou me contam um peda\u00e7o da vida de meu pai \u00e9 como se uma pe\u00e7a de um quebra-cabe\u00e7a infinito se encaixasse. Nesse processo, o momento mais lindo foi quando conheci o Gringo e soube da rela\u00e7\u00e3o dele com o meu pai.\u201d<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Reprodu\u00e7\u00e3o\/Arquivo pessoal<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-5920\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/joana-7.jpg\" border=\"0\" width=\"600\" height=\"405\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<address>VOLTA AO BRASIL &#8211; A casa que Gustavo construiu na ilha do Maraj\u00f3, no Par\u00e1, e o barco Utopia<\/address>\n<address><\/address>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O Gringo \u00e9 o italiano Roberto De Fortini, que chegou ao Brasil aos 13 anos, em 1948. Come\u00e7ou a milit\u00e2ncia pol\u00edtica quando trabalhava como oper\u00e1rio. No final dos anos 1960, foi encarregado pela Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria (VPR) de cuidar da log\u00edstica da organiza\u00e7\u00e3o na fronteira do Brasil com a Argentina e o Uruguai. Como fachada, Gringo montou uma empresa de pesca \u00e0 beira do rio Uruguai, em um lugar chamado Barra do Turvo, a 15 km da cidade de Esperan\u00e7a do Sul (RS). Ao mesmo tempo que a empresa e seus caminh\u00f5es frigor\u00edficos operavam normalmente, o propriet\u00e1rio tratava de providenciar documentos e armas para a organiza\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia ao regime militar. O plano da VPR de montar uma \u00e1rea de guerrilha na regi\u00e3o desmoronou com a pris\u00e3o da maioria de seus integrantes, inclusive o Gringo, mas ele n\u00e3o desistiu da ideia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Banido do Brasil no mesmo voo que Gustavo, Gringo entrou com identidade falsa na Argentina j\u00e1 dominada pela linha dura militar e comprou terras em Arist\u00f3bulo del Valle, na prov\u00edncia de Missiones. Seu plano ainda era montar a \u00e1rea de treinamento, experi\u00eancia que Gustavo compartilhou no mais absoluto segredo por um longo per\u00edodo. Com a aniquila\u00e7\u00e3o da guerrilha no Brasil, Gustavo decidiu retomar os estudos, em Paris. Gringo continua a viver em Arist\u00f3bulo del Valle, ainda com identidade falsa. \u201cO encontro da Joana com o Gringo foi muito tocante, quase como encontrar um av\u00f4 perdido\u201d, diz Bona Garcia. Joana, por sua vez, entendeu por que entre os documentos do pai havia uma carteira de identidade argentina, com sua fotografia, mas o nome Osorio Nu\u00f1es Montero: \u201cPara a Argentina, o meu pai n\u00e3o morreu. O Gringo disse que, em todas as elei\u00e7\u00f5es, verifica e o nome do Osorio continua l\u00e1, na lista eleitoral.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Manifesto Ut\u00f3pico<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na mesma caixa dos documentos falsificados, Joana guarda documenta\u00e7\u00e3o aut\u00eantica de Gustavo como estudante da Universidade de Paris X-Nanterre, na capital francesa. L\u00e1, estudou Sociologia e Economia. No mesmo per\u00edodo, casou-se com uma professora de piano, a francesa Nicolette Van Der Linden. Em 1980, depois da aprova\u00e7\u00e3o da Lei da Anistia, Gustavo fez uma longa viagem com Nicolette pelo Brasil. Ficou encantado com a ilha do Maraj\u00f3, no Par\u00e1. Dois anos depois, a rela\u00e7\u00e3o do casal estava chegando ao fim quando Gustavo conheceu L\u00facia, a m\u00e3e de Joana. Ga\u00facha de Porto Alegre, L\u00facia tinha chegado a Paris havia dez dias, para fazer um curso de franc\u00eas. N\u00e3o tinha nenhum envolvimento com pol\u00edtica, mas logo se enturmou na comunidade brasileira. \u201cFui a uma festa em comemora\u00e7\u00e3o a um casamento gay. Era na casa de um franc\u00eas, que estava se unindo a um brasileiro. Na festa, conheci Gustavo e n\u00e3o nos separamos mais\u201d, conta L\u00facia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Com uma tese de doutorado em Economia para redigir, Gustavo decidiu voltar com L\u00facia para o Brasil, em setembro de 1982. Nessa \u00e9poca, j\u00e1 preocupava os amigos pelo excessivo consumo de \u00e1lcool. Como tinha investido a heran\u00e7a deixada por sua m\u00e3e, falecida em 1978, ele podia se dedicar \u00e0 tese e a seus pr\u00f3prios projetos. N\u00e3o tinha d\u00favida de que o melhor lugar do Pa\u00eds era a ilha do Maraj\u00f3. O jornalista Galeno, que o acolheu em Porto Alegre logo depois do roubo do cofre do Adhemar, conta que Gustavo sonhava em levar o desenvolvimento para a ilha: \u201cEle queria fazer de Maraj\u00f3 uma economia pr\u00f3spera, adequada \u00e0s voca\u00e7\u00f5es locais\u201d. Embora passasse horas a fio lendo e escrevendo a tese, Gustavo ficou muito pr\u00f3ximo dos moradores da ilha. Comprou um barco, que batizou de Utopia, e come\u00e7ou a construir uma casa. \u201cEle fez cinco quartos, pois queria ter quatro filhos\u201d, lembra L\u00facia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quando Joana estava para nascer, o casal foi para Porto Alegre, para L\u00facia dar a luz perto da sua fam\u00edlia. Com o beb\u00ea, de volta \u00e0 ilha do Maraj\u00f3, as condi\u00e7\u00f5es in\u00f3spitas da regi\u00e3o come\u00e7aram a pesar, ao mesmo tempo que acabava o\u00a0 dinheiro da heran\u00e7a. Joana tinha 10 meses, em outubro de 1984, quando Gustavo deu o barco Utopia a um pescador ao qual se afei\u00e7oara, vendeu a casa, e mudou-se com a fam\u00edlia para o Rio de Janeiro. Al\u00e9m de continuar escrevendo a tese, fazia uma pesquisa sobre o Estaleiro Mau\u00e1 para um livro encomendado pela companhia, mas tinha poucas perspectivas pela frente. O h\u00e1bito de beber, cultivado na Fran\u00e7a, havia se agu\u00e7ado na ilha, onde tomava cacha\u00e7a com os pescadores.<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Reprodu\u00e7\u00e3o\/Arquivo pessoal<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-5921\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/joana-8.jpg\" border=\"0\" width=\"600\" height=\"642\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\">DOIS TEMPOS &#8211; Joana com os pais na ilha do Maraj\u00f3, em 1984, e em Porto Alegre, com a m\u00e3e, L\u00facia, dona dos Lhasa Apso Puppy e Vicky<\/address>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 1885, no s\u00e1bado dia 21 de setembro, Gustavo saiu com L\u00facia e duas amigas. Joana ficou no apartamento dos pais de uma das amigas de Gustavo, Regina Xex\u00e9o, que no passado tamb\u00e9m integrara as fileiras da VAR-Palmares. Regina conta que tinha o costume de deixar a filha com os seus pais para sair \u00e0 noite: \u201cNaquele s\u00e1bado, ficaram a Joana, a minha filha e os filhos do meu irm\u00e3o\u201d. O grupo circulou por bares e casas noturnas nas imedia\u00e7\u00f5es da Lagoa Rodrigo de Freitas. Gustavo bebeu muito, mas Regina s\u00f3 estranhou o comportamento do amigo quando, no come\u00e7o da madrugada, ele perguntou se ela j\u00e1 tinha perdoado os seus torturadores: \u201cRespondi que nunca iria perdoar, que queria saber quem foi e queria puni\u00e7\u00e3o. Achei um mau sinal quando o Gustavo disse que j\u00e1 tinha perdoado os seus torturadores\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No retorno \u00e0 Avenida Nossa Senhora de Copacabana, onde estavam as crian\u00e7as, Gustavo mal esperou a outra amiga, Rosa, estacionar. Desceu rapidamente do carro. Regina conseguiu alcan\u00e7\u00e1-lo no elevador. J\u00e1 no apartamento, ele foi direto para o quarto onde dormiam Joana, ent\u00e3o com um ano e oito meses, e as outras crian\u00e7as. \u201cQuando entrei no quarto, s\u00f3 vi a cortina balan\u00e7ando. Ele j\u00e1 tinha pulado\u201d, recorda Regina. Era madrugada do domingo que Gustavo combinara com Galeno para ambos levarem \u00e0 praia, no Leme. \u201cPassei muito tempo remoendo a culpa de n\u00e3o ter me dedicado mais ao Gustavo naquele per\u00edodo\u201d, confidencia Galeno, \u00e0 \u00e9poca respons\u00e1vel pela comunica\u00e7\u00e3o da Secretaria do Planejamento do Rio de Janeiro, no primeiro governo Leonel Brizola.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quem n\u00e3o conviveu com Gustavo nos seus \u00faltimos anos de vida tem dificuldade em aceitar a forma como ele morreu. Gringo \u00e9 uma dessas pessoas. \u201cEle tinha convic\u00e7\u00e3o de que haviam matado o Gustavo. Por isso, localizei a mulher que viveu com o Bicho at\u00e9 o final\u201d, diz Bona Garcia, o anfitri\u00e3o do almo\u00e7o em que Joana conheceu o Gringo. No quebra-cabe\u00e7a sobre a hist\u00f3ria de seu pai, ela agora quer encontrar o Manifesto Ut\u00f3pico, como ele intitulara a tese de doutorado. \u201cTinha 400 p\u00e1ginas, fomos emprestando para um, para outro, e acabamos perdendo. Ele escrevia \u00e0 m\u00e3o, com uma letra bem mi\u00fada. N\u00e3o consegui passar da p\u00e1gina 60, mas tentei ler aos 16 anos. N\u00e3o tinha nem paci\u00eancia nem maturidade\u201d, conta Joana, que trabalha na ger\u00eancia de uma rede de academias em Porto Alegre. \u201cTenho um orgulho gigante de ser filha de quem sou, mas uma imensa tristeza de saber que fui proibida de conviver com esse cara que todos admiram e sentem falta por causa dos caminhos que a pol\u00edtica seguiu.\u201d Ela conta ainda que tamb\u00e9m se orgulha muito da m\u00e3e, que trabalha como taqu\u00edgrafa, e teve de batalhar para muito cri\u00e1-la, ainda que com o apoio de seus av\u00f3s maternos. N\u00e3o por acaso, misturando os termos pai e m\u00e3e, Joana costuma chamar L\u00facia de \u201cp\u00e3e\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Revista Brasileiros<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Joana \u00e9 filha de Gustavo Buarque Schiller, o sobrinho da amante do ex-governador Adhemar de Barros. 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