{"id":6051,"date":"2013-06-17T19:49:01","date_gmt":"2013-06-17T19:49:01","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/06\/17\/minha-historia-meu-marido-nao-foi-um-torturador\/"},"modified":"2013-06-17T19:49:01","modified_gmt":"2013-06-17T19:49:01","slug":"minha-historia-meu-marido-nao-foi-um-torturador","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/06\/17\/minha-historia-meu-marido-nao-foi-um-torturador\/","title":{"rendered":"Minha hist\u00f3ria: Meu marido n\u00e3o foi um torturador"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A casa modesta, com paredes descascadas que h\u00e1 muito n\u00e3o veem uma m\u00e3o de tinta, fica em uma rua \u00e0s margens da linha do trem, em Madureira, zona norte. \u00c9 guardada por Baudelaire, um c\u00e3o mesti\u00e7o de grande porte, conhecido pelos vizinhos como Bandol\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-6046\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/13166382.jpeg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"200\" style=\"vertical-align: middle;\" srcset=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/13166382.jpeg 635w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/13166382-300x200.jpeg 300w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/13166382-272x182.jpeg 272w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\" \/>Maria Helena Gomes de Souza, vi\u00fava do m\u00e9dico Am\u00edlcar Lobo em sua casa em Madureira, zona norte do Rio  <!--more-->  <\/address>\n<address style=\"text-align: justify;\"><\/address>\n<p style=\"text-align: justify;\">De l\u00e1 Maria Helena Gomes de Souza defende a mem\u00f3ria do marido, o m\u00e9dico psiquiatra Am\u00edlcar Lobo, morto em 1997 aos 58 anos, personagem pol\u00eamico da hist\u00f3ria recente do Brasil. Rec\u00e9m formado em Medicina, Lobo trabalhou no Batalh\u00e3o da Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito na rua Bar\u00e3o de Mesquita, na Tijuca, Rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">Entre 1970 e 1974, dizem seus acusadores, examinou presos pol\u00edticos e atestou se tinham ou n\u00e3o condi\u00e7\u00f5es de continuarem sendo submetidos \u00e0s sess\u00f5es de tortura.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maria Helena diz que ele &#8220;n\u00e3o era o respons\u00e1vel pela tortura&#8221; e que o crime do marido foi a omiss\u00e3o. &#8220;Ao ser chamado na frente de todos aqueles oficiais, ou Am\u00edlcar fazia ou ia ser torturado. Pe\u00e7o perd\u00e3o por meu marido n\u00e3o ter tido coragem&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a filha, estudante de jornalismo de 21 anos, disse que n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de defender o pai, Maria Helena resolveu colocar um ponto final. &#8220;Temos nossa responsabilidade, mas n\u00e3o posso passar o resto da minha vida sendo apontada como a vi\u00fava do torturador&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo de tr\u00eas horas e em meio a crises de choro, Maria Helena contou \u00e0 Folha sua hist\u00f3ria:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando a Comiss\u00e3o da Verdade foi criada, pedi \u00e0 minha filha que se preparasse porque surgiriam hist\u00f3rias negativas sobre o pai dela. Quando ele morreu [em 1997, aos 58 anos] Alessandra tinha 5 anos. O primeiro impacto veio em uma aula na faculdade. A professora levou um artigo para discuss\u00e3o no qual se chamava Am\u00edlcar de torturador. Ela saiu da sala chorando, queria abandonar a mat\u00e9ria. Disse a ela que n\u00e3o adiantava fugir. &#8220;Voc\u00ea vai ter que enfrentar e dizer que \u00e9 filha de Am\u00edlcar Lobo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algum tempo depois houve uma audi\u00eancia p\u00fablica da Comiss\u00e3o da Verdade na faculdade e ela me pediu que fosse porque n\u00e3o se sentia em condi\u00e7\u00f5es de defender o pai. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 defender, \u00e9 se posicionar diante dos fatos. N\u00e3o sei se a Comiss\u00e3o da Verdade vai concluir alguma coisa, mas \u00e9 o momento de assumirmos nossas responsabilidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando Am\u00edlcar escreveu o livro [&#8220;A Hora do Lobo, a Hora do Carneiro&#8217;, editora Vozes, 1989], queria expiar sua culpa. Antes de morrer ele me disse: &#8220;a \u00fanica coisa que voc\u00ea tem de heran\u00e7a \u00e9 continuar minha luta para expiar minha culpa. N\u00e3o posso carregar toda a responsabilidade, mas n\u00e3o deixe de assumir a minha culpa&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2002 entrei com um pedido de indeniza\u00e7\u00e3o na Comiss\u00e3o de Anistia. Foi uma aud\u00e1cia. A esquerda ficou uma fera comigo, mas eu sou uma perseguida pol\u00edtica at\u00e9 hoje. J\u00e1 perdi v\u00e1rios empregos por ser a mulher e depois a vi\u00fava de Am\u00edlcar Lobo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O processo est\u00e1 parado. Ningu\u00e9m diz n\u00e3o, mas tamb\u00e9m n\u00e3o dizem sim. Ningu\u00e9m \u00e9 hostil, mas o sil\u00eancio d\u00f3i mais do que a hostilidade. Se eu n\u00e3o tenho direito, que me digam isso. O processo ficou parado de junho de 2008 at\u00e9 agosto de 2012. Escrevi para a presidente Dilma: &#8220;a senhora que diz que precisou se calar para sobreviver, meu marido tamb\u00e9m, e sou punida por isso at\u00e9 hoje&#8221;. A\u00ed o processo andou um pouquinho, mas voltou a parar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conheci Am\u00edlcar quando fui trabalhar como sua secret\u00e1ria no consult\u00f3rio em Copacabana [em 1974]. Tinha 14 anos, vinte a menos do que ele, que estava saindo da Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito. Come\u00e7amos a namorar quando eu j\u00e1 tinha 21 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro de um dia em que fiquei deslumbrada quando o general Sylvio Frota 1 [ent\u00e3o ministro do Ex\u00e9rcito] apareceu no consult\u00f3rio. A avenida Nossa Senhora de Copacabana foi fechada pelos batedores. Achei fant\u00e1stico o Am\u00edlcar ser visitado por algu\u00e9m t\u00e3o importante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi a primeira vez que tive contato com essa hist\u00f3ria toda. Ele foi l\u00e1 porque Am\u00edlcar queria dar baixa do Ex\u00e9rcito. Para ficar na ativa, precisava fazer uma prova. Faltou porque queria sair. Mas ele tinha visto demais, ouvido demais para o Ex\u00e9rcito deix\u00e1-lo ir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Am\u00edlcar atendia um paciente quando Frota entrou mandando que eu interrompesse a sess\u00e3o. Eu expliquei que n\u00e3o podia, que era um consult\u00f3rio de psican\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Voc\u00ea sabe com quem est\u00e1 falando?&#8221;. Eu sabia e respondi: general Sylvio Frota. Quando o paciente saiu, Frota entrou gritando: &#8220;Voc\u00ea faltou \u00e0 prova, eu disse que n\u00e3o faltasse, que voc\u00ea tinha que se manter no Ex\u00e9rcito, voc\u00ea vai se arrepender amargamente&#8221;. Am\u00edlcar foi inflex\u00edvel. Ouvia a voz baixa dele dizendo &#8220;eu n\u00e3o vou, general&#8221;. &#8220;Ent\u00e3o arque com as consequ\u00eancias dos seus atos&#8221;, respondeu Frota aos berros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Editoria de Arte\/Folhapress<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-6047\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/13166383.png\" border=\"0\" width=\"220\" height=\"1831\" style=\"vertical-align: middle;\" srcset=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/13166383.png 220w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/13166383-36x300.png 36w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/13166383-123x1024.png 123w\" sizes=\"(max-width: 220px) 100vw, 220px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Am\u00edlcar mandou dispensar os dois pacientes da tarde e ficou trancado no consult\u00f3rio. N\u00e3o deu uma palavra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se meu marido tivesse sido conivente e obedecido a ordem do Frota, hoje eu seria vi\u00fava de general. Estou desempregada e vivo com pens\u00e3o de R$ 829. Foi o que Am\u00edlcar me deixou. Minha filha recebe R$ 900 em um est\u00e1gio. \u00c9 assim que vivemos. E ainda tenho que ouvir que sou a vi\u00fava do torturador?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma vez estava em uma festinha infantil com Alessandra e ouvi uma m\u00e3e dizer para o filho: &#8220;sai de perto que ela \u00e9 filha do lobo mau&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando minha filha disse que n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de defender o pai, eu resolvi que isso ia ter um fim. A Comiss\u00e3o da Verdade vai ter que me ouvir. Chega de contar hist\u00f3rias erradas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Am\u00edlcar foi conivente com a tortura? Foi. Est\u00e1 na hora de assumirmos nossos pap\u00e9is.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro dia conversei com Cid Benjamin 2 [jornalista, participou do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick em 1969]. Tinha uma imagem horr\u00edvel dele, gritando no dia do julgamento do Am\u00edlcar [em 1987 pelo Conselho Regional de Medicina, quando perdeu seu registro de m\u00e9dico] que tinha levado 17 pontos na cabe\u00e7a sem anestesia. Pedi desculpas a ele, eu lhe devia isso, mas queria que ele entendesse que, naquele contexto, quando o Am\u00edlcar foi chamado na frente de todos aqueles oficiais, ou fazia ou ia ser torturado como ele. Eu pedi perd\u00e3o por meu marido n\u00e3o ter tido coragem, porque ele conhecia de perto o que era a tortura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando eu sa\u00ed do julgamento nesse dia, encontro um amigo do Am\u00edlcar, do Ex\u00e9rcito, que sorriu para mim como se dissesse &#8220;bem feito, ele n\u00e3o quis ser aliado dos militares e foi escorra\u00e7ado e maltratado pela esquerda&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Am\u00edlcar tinha momentos de grande depress\u00e3o. Tinha problemas com os outros psicanalistas, mas nunca enfrentou o problema. Se voc\u00ea fosse o chefe de um grupo de psicanalistas e soubesse que um deles participou de torturas, o que faria? Tem que tratar esse cara. Mas todo mundo preferiu ignorar o assunto. Quem ia mexer com o Ex\u00e9rcito naquela \u00e9poca? Quem ia dizer algo contra o que estava acontecendo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o, n\u00e3o aceito a responsabilidade ser colocada somente nele. Quando se fala em tortura, em m\u00e9dicos, se fala em Am\u00edlcar Lobo. Por que s\u00f3 ele? Por isso eu quero tanto ir \u00e0 Comiss\u00e3o da Verdade. Est\u00e1 na hora de chegar l\u00e1 e dizer Am\u00edlcar atendeu fulano, viu sicrano ser morto. Enquanto ficarmos nessa conversa de que o Ex\u00e9rcito n\u00e3o torturou, que o Herzog se enforcou, n\u00e3o vamos sair do lugar. Eu continuo sendo apontada como a vi\u00fava do torturador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tive no\u00e7\u00e3o exata de toda a hist\u00f3ria dele quando o consult\u00f3rio foi invadido por In\u00eas Etienne Romeu 3 [torturada em 1971, ficou presa at\u00e9 1979] e outros ex-presos pol\u00edticos [identificado, Am\u00edlcar Lobo foi surpreendido com a ida de 15 deles a seu consult\u00f3rio, em 1981]. Ele era uma pessoa boa de se lidar, foi aluno do S\u00e3o Bento [tradicional escola cat\u00f3lica do Rio], era muito culto, o que me fazia ter dificuldade de associ\u00e1-lo \u00e0 figura de um torturador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele entrou para o Ex\u00e9rcito em 1970, quando terminou a faculdade de medicina, para cumprir o servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio. Contava que tinha ficado feliz porque ia servir no quartel da Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito na Bar\u00e3o de Mesquita [na Tijuca, zona norte do Rio]. Era t\u00e3o alienado que ficou feliz porque era perto da casa dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando In\u00eas o descobriu, Am\u00edlcar foi chamado pelo Ex\u00e9rcito. Em um encontro com o general Walter Pires 4 [ministro do Ex\u00e9rcito de 1979 a 1985] ouviu que se falasse sobre o que tinha visto, ia comprometer todo o processo de abertura pol\u00edtica. Am\u00edlcar se sentiu sozinho, com muito medo e come\u00e7ou a achar que seria morto pelo Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algum tempo depois, ele voltava do Rio para Vassouras de moto quando, na serra, achou que um Opala o seguia. Parou na porta de uma delegacia esperou o carro passar. Mais adiante, o Opala saiu do acostamento e freiou na frente dele. Amilcar caiu da moto e s\u00f3 n\u00e3o morreu porque o caminhoneiro que vinha atr\u00e1s conseguiu parar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando soube, achei que a esquerda tinha tentado mat\u00e1-lo. Liguei para um n\u00famero que o Ex\u00e9rcito tinha deixado com ele para casos de emerg\u00eancia. No hospital apareceu um homem que se identificou como dr. Roberto e olhava muito tudo. Am\u00edlcar o reconheceu como algu\u00e9m do Ex\u00e9rcito e teve a certeza de que tentaram mat\u00e1-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois desse atentado, ele ainda tentou voltar a clinicar no Rio. Tinha alguns pacientes, mas seu estado emocional era inst\u00e1vel. E veio o segundo atentado. Ele chegava para trabalhar quando homens anunciaram um assalto e entraram com ele no consult\u00f3rio. Cortaram o fio do telefone, o amarraram e deram uma inje\u00e7\u00e3o. Am\u00edlcar foi encontrado desacordado por um paciente. Fizeram com ele o mesmo que tinham feito com o Baumgarten 5 [o jornalista Alexandre Baumgarten, morto em 1982]. O Baumgartem morreu. O Am\u00edlcar ficou com uma sequela card\u00edaca que o levou \u00e0 morte anos depois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Am\u00edlcar tentou de v\u00e1rias formas fazer terapia, mas ningu\u00e9m o aceitava. Nenhum dos amigos tinha hora para atender Am\u00edlcar Lobo. Ficou sozinho. Uma vez ele foi na casa de um amigo psicanalista porque precisava conversar. Ele estava com um grupo em casa e mandou dizer que n\u00e3o podia receb\u00ea-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira den\u00fancia dele foi feita contra a minha vontade. Est\u00e1vamos no s\u00edtio vendo o &#8220;Fant\u00e1stico&#8221; e ouvimos a not\u00edcia da reabertura do caso Rubens Paiva 6 [em 1986]. Ele me disse: &#8220;Eu atendi Rubens Paiva&#8221;. Sabia que ele tinha atendido um deputado que estava muito roxo, mas n\u00e3o tinha ideia de quem era. Sabia que ele tinha atendido [Vitor Luiz] Papandreu, que morreu com um tiro na testa, cena com a qual ele sonhava muito. Imagina: voc\u00ea est\u00e1 sentada em um sof\u00e1 conversando com uma pessoa que n\u00e3o fala mais coisa com coisa, e algu\u00e9m diz: &#8216;n\u00e3o tem jeito n\u00e3o, n\u00e9, Lobo?&#8221;, tira uma pistola e d\u00e1 um tiro na testa dessa pessoa? [Papandreu morreu em 1971 na &#8220;Casa de Petr\u00f3polis&#8221;, centro de tortura na cidade serrana]. Ningu\u00e9m pode dormir tranquilo depois de passar por isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pedi para ele, pelo amor de Deus, para n\u00e3o mexer com o caso Rubens Paiva. Est\u00e1vamos esquecidos l\u00e1. Eu fazia o curso normal. Viv\u00edamos com o que produz\u00edamos no s\u00edtio. Ele tentava reconstruir a vida, mas o passado n\u00e3o deixava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dia ele veio ao Rio sozinho e fez a den\u00fancia \u00e0 &#8220;Veja&#8221; [em reportagem publicada em setembro de 1986. Lobo contou ter examinado o deputado, bastante ferido, em uma cela no quartel da Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito da rua Bar\u00e3o de Mesquita, na zona norte do Rio. A vers\u00e3o oficial era de que Paiva tinha sido sequestrado por militantes da esquerda quando era transportado por militares].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-6048\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/287975-970x600-1.jpeg\" border=\"0\" width=\"485\" height=\"300\" style=\"vertical-align: middle;\" srcset=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/287975-970x600-1.jpeg 970w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/287975-970x600-1-300x186.jpeg 300w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/287975-970x600-1-768x475.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 485px) 100vw, 485px\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\">Fotografia de Maria Helena, vi\u00fava do m\u00e9dico Am\u00edlcar Lobo, que acompanhava torturas de presos pol\u00edticos durante a ditadura militar<\/address>\n<address style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-6049\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/287980-970x600-1.jpeg\" border=\"0\" width=\"485\" height=\"300\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/address>\n<address style=\"text-align: justify;\"><\/address>\n<address style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-6050\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/287983-970x600-1.jpeg\" border=\"0\" width=\"485\" height=\"300\" style=\"vertical-align: middle;\" srcset=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/287983-970x600-1.jpeg 970w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/287983-970x600-1-300x186.jpeg 300w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/287983-970x600-1-768x475.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 485px) 100vw, 485px\" \/><br \/><\/address>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Conselho Regional de Medicina abriu um processo contra ele, que acabou perdendo o registro profissional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perdemos o s\u00edtio, perdemos tudo. Alguns anos depois, quando faltou o p\u00e3o na nossa mesa e eu estava gr\u00e1vida, eu disse para ele: &#8216;Voc\u00ea viu a merda que voc\u00ea fez? E agora, vamos viver de qu\u00ea?&#8217; [Maria Helena come\u00e7a a chorar]. Ele me olhava, com um ar de resigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 plantar e colher tomates em uma ro\u00e7a eu fiz, tudo para nos manter. Ele assistia aquilo tudo, me olhava e n\u00e3o dizia nada. Deixava aquela crian\u00e7a com ele e ia para ro\u00e7a. Fui deixando ele de lado porque tinha que trabalhar para sobreviver. Um homem que teve tudo&#8230; Sem o s\u00edtio, tivemos que voltar para o Rio, para essa casa que meu pai me emprestou. Eu trabalhava o dia todo como professora prim\u00e1ria, o \u00fanico diploma que eu tinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Passei muitas situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis. Perdi empregos por ser casada com ele. Uma vez saiu uma mat\u00e9ria no &#8220;Fant\u00e1stico&#8221; dizendo que ele tinha perdido o direito de clinicar. Dias depois estava na igreja e me pediram para levar a b\u00edblia na prociss\u00e3o. No final da missa veio uma mulher, com o dedo na minha cara e come\u00e7a a gritar: &#8220;quem \u00e9 voc\u00ea para carregar a b\u00edblia com essa m\u00e3o suja!&#8221;. Suja de qu\u00ea? [mais choro]. Eu n\u00e3o posso permitir que minha filha passe por isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Disse para ela n\u00e3o estudar jornalismo. Ela acompanhava meu sofrimento a cada reportagem que saia. Eu disse que ela estava maluca, que os algozes do pai dela foram os jornalistas. &#8220;N\u00e3o, m\u00e3e, os algozes do meu pai est\u00e3o na direita e na esquerda&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando ele lan\u00e7ou o livro, o Tortura Nunca Mais foi para a porta da livraria para impedir as pessoas de comprarem. N\u00e3o souberam acolher o Am\u00edlcar e tudo o que ele tinha para contar. Os militares batiam palmas, porque isso era o que eles queriam que a esquerda fizesse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estou desempregada h\u00e1 um ano. Trabalhava em uma ONG de capacita\u00e7\u00e3o para tratamento de dependentes qu\u00edmicos, mas o programa terminou. De vez em quando trabalho etiquetando roupas em uma fabriqueta no fim da minha rua. Quando tem trabalho, eles me chamam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu j\u00e1 paguei minha conta, mais do que deveria. Eu n\u00e3o tenho identidade, sou s\u00f3 a vi\u00fava e isso me incomoda. Quero colocar um ponto final nessa hist\u00f3ria, quero elucidar os fatos para que minha filha n\u00e3o continue a ler nos jornais que a \u00faltima pessoa que viu o deputado Rubens Paiva foi o torturador Am\u00edlcar Lobo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele n\u00e3o foi um torturador. Nisso eu bato p\u00e9. Vamos ver quais crimes ele cometeu, vamos investigar a s\u00e9rio. N\u00e3o posso carregar uma culpa que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 nossa. Digo &#8220;nossa&#8221; porque quando voc\u00ea realmente casa com algu\u00e9m, adquire o \u00f4nus e o b\u00f4nus. Assumi a uni\u00e3o com Am\u00edlcar Lobo em todos os sentidos. E eu fiquei com essa heran\u00e7a mal resolvida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Am\u00edlcar era o m\u00e9dico que atendia os torturados sim, mas n\u00e3o era o respons\u00e1vel pela tortura. Foi omisso? Foi, porque n\u00e3o tinha para quem pedir ajuda. Queria que algu\u00e9m me dissesse a quem ele poderia recorrer e onde iria pedir asilo pol\u00edtico. O que ele poderia ter feito? A esquerda queria punir algu\u00e9m e eu dou raz\u00e3o a eles, mas puniram a pessoa errada. Puniram o aspirante. E o comandante, estava fazendo o qu\u00ea l\u00e1 dentro? A responsabilidade toda \u00e9 do aspirante?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nunca me arrependi de ter casado com ele, mas, numa briga, eu disse que ele tinha feito muito mal em n\u00e3o ter aceitado o acordo com o Ex\u00e9rcito [volta a chorar]. Ele olhou para mim e disse, com muita resigna\u00e7\u00e3o: &#8220;Se voc\u00ea quiser, eu posso ir embora&#8221;. Eu tenho muito remorso disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alessandra retardou a morte dele. Na rela\u00e7\u00e3o dos dois, tudo era permitido. Pequenininha, ela j\u00e1 falava coisas como o a individualidade do ser, livre arb\u00edtrio. Com ele, tudo era permitido enquanto eu n\u00e3o chegasse. Ele deu \u00e0 filha toda a liberdade, todo o amor que podia dar, todo o conhecimento que ele tinha. Ele vivia daquele passado, achava que ia esclarecer aquilo tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As \u00faltimas palavras deles para mim foram &#8220;continua minha luta, expia a minha culpa, n\u00e3o deixa a minha filha ter essa vis\u00e3o do pai&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Folha de S.Paulo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A casa modesta, com paredes descascadas que h\u00e1 muito n\u00e3o veem uma m\u00e3o de tinta, fica em uma rua \u00e0s margens da linha do trem, em Madureira, zona norte. \u00c9 guardada por Baudelaire, um c\u00e3o mesti\u00e7o de grande porte, conhecido pelos vizinhos como Bandol\u00e9. 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