{"id":608,"date":"2012-05-22T13:53:09","date_gmt":"2012-05-22T13:53:09","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/22\/cabo-anselmo-o-lado-infame-da-esquerda\/"},"modified":"2012-05-22T13:53:09","modified_gmt":"2012-05-22T13:53:09","slug":"cabo-anselmo-o-lado-infame-da-esquerda","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/22\/cabo-anselmo-o-lado-infame-da-esquerda\/","title":{"rendered":"CABO ANSELMO &#8211; O LADO INFAME DA ESQUERDA"},"content":{"rendered":"<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 30 de agosto de 2009 voltava \u00e0 cena nacional uma das personagens mais controversas oriundas da esquerda brasileira, Jos\u00e9 Anselmo dos Santos, ou simplesmente Cabo Anselmo, como passou para a hist\u00f3ria, n\u00e3o por seus atos de hero\u00edsmo, mas por uma vilania de car\u00e1ter psicol\u00f3gico e ideol\u00f3gico que poucas vezes foi registrado nas lutas dentro de regimes ditatoriais. Vivendo na clandestinidade por quase quatro d\u00e9cadas, mesmo depois do fim do regime militar, em 1985, ele mostrava pela primeira, abertamente, o rosto ao Brasil, numa entrevista concedida em cadeia nacional, ao programa \u201cCanal Livre\u201d, na TV Bandeirantes. O rosto que, apesar de vincado pelos anos, dera-lhe a ditadura militar.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-582\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Cabo%20Anselmo%205.jpg\" border=\"0\" width=\"306\" height=\"400\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Cabo Anselmo, militar agitador na \u00e9poca do governo de Jo\u00e3o Goulart, alentado mais pela ambi\u00e7\u00e3o e vaidade pessoais do que por convic\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, cujos discursos inflamados suscitaram o princ\u00edpio da honra hier\u00e1rquica militar abalada pela insurrei\u00e7\u00e3o das baixas patentes, e, conseq\u00fcentemente, a desculpa para a interven\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas no governo, a deposi\u00e7\u00e3o do presidente e a consolida\u00e7\u00e3o do golpe de estado que implantou a ditadura da caserna no Brasil. Este Anselmo que se apresentou, \u00e9 aquele que foi aclamado publicamente como inimigo do regime instalado em 1964, logo a seguir ao golpe. O que foi afastado da Marinha, preso e, inexplicavelmente, fugitivo de uma cela que tinha a chave. O mesmo que, numa vis\u00e3o m\u00edope da esquerda, foi mandado para Cuba, treinado em campos de guerrilha e enviado de volta ao Brasil para fazer parte da resist\u00eancia engajada \u00e0 ditadura militar. O mesmo que transitava como her\u00f3i pelos aparelhos das organiza\u00e7\u00f5es clandestinas e, como um espectro sombrio, deixava um rastro de pris\u00f5es, torturas e mortes aos companheiros com os quais convivia. O mesmo que, sem mais poder esconder a sua condi\u00e7\u00e3o de traidor, assumiu sem quaisquer problemas de conflito moral ou consci\u00eancia pejorativa, a fun\u00e7\u00e3o de n\u00e3o s\u00f3 delatar, como a de atrair e conduzir para ciladas os companheiros de outrora, resultando na morte por tortura e execu\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios deles, inclusive da mulher com quem mantinha um relacionamento rom\u00e2ntico e esperava um filho seu.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Este Anselmo que se apresentava \u00e0s c\u00e2meras com frieza e com a mesma eloq\u00fc\u00eancia histri\u00f4nica e narcisista dos tempos dos discursos na Marinha, mostrava o rosto que foi um dia mudado por cirurgias pl\u00e1sticas, para que pudesse continuar a ser um \u201ccachorro\u201d, nome dado aos delatores da esquerda pelos agentes da repress\u00e3o. Sob os holofotes televisivos, apresentava-se como her\u00f3i nacional, como algu\u00e9m que ajudara a livrar o Brasil do perigo vermelho. Discurso que virou palavra de ordem e justificativa dos que um dia torturaram e mataram nos calabou\u00e7os da ditadura. Cabo Anselmo mostrava, finalmente, envelhecido e austero, o rosto da inf\u00e2mia da esquerda brasileira.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>A Import\u00e2ncia Hist\u00f3rica dos Movimentos dos Oficiais de Baixa Patente<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-585\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Tenentismo.jpg\" border=\"0\" width=\"400\" height=\"309\" style=\"vertical-align: middle;\" srcset=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Tenentismo.jpg 400w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Tenentismo-300x232.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria republicana e o poder das For\u00e7as Armadas est\u00e3o interligados desde a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, em 1889, tendo como primeiro presidente um militar, o marechal Deodoro da Fonseca. Do in\u00edcio ao fim da Rep\u00fablica Velha (1889-1930), as elites civis e militares foram respons\u00e1veis pelas maiores decis\u00f5es pol\u00edticas no Brasil, mantendo o pa\u00eds sob uma subdesenvolvida economia que beneficiava as oligarquias rurais.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A ind\u00fastria incipiente brasileira da primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XX atraiu a popula\u00e7\u00e3o agr\u00edcola para as cidades, modificando socialmente um pa\u00eds economicamente rural. Esta mudan\u00e7a gerou uma nova classe social, que passou a perseguir seus direitos. Inspirados em ideologias europ\u00e9ias, os trabalhadores come\u00e7aram a reivindicar um lugar na sociedade, associando-se a parcos movimentos sindicalistas, facilmente controlados pelas oligarquias da Rep\u00fablica Velha.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em contraste com a classe trabalhadora, com pouca representatividade no cen\u00e1rio nacional, nascia, na d\u00e9cada de 1920, uma elite de jovens oficiais dentro das casernas que se sentia exclu\u00edda, passando a contestar veementemente o sistema. Surgida dentro da Marinha e do Ex\u00e9rcito, esta elite contestadora deu origem ao movimento conhecido por Tenentismo, devido \u00e0 baixa patente dos seus l\u00edderes. O Tenentismo a princ\u00edpio, tinha como objetivo p\u00f4r fim ao poderio das lideran\u00e7as rurais, estendendo-o \u00e0 classe m\u00e9dia urbana emergente. O movimento gerou revoltas significativas, enfraquecendo o poder das oligarquias rurais, levando a Rep\u00fablica Velha ao colapso. Entre os movimentos tenentistas est\u00e3o a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, em 1922; a Revolta Paulista, ou Revolu\u00e7\u00e3o de 1924; a Comuna de Manaus, em 1924; e, a m\u00edtica Coluna Miguel Costa \u2013Prestes, ou Coluna Prestes, que se estendeu de 1925 a 1927.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Dentro das For\u00e7as Armadas, por\u00e9m, a situa\u00e7\u00e3o dos oficiais de baixa patentes jamais foi alterada. Movida por princ\u00edpios hier\u00e1rquicos que se mostravam inalter\u00e1veis, a alta c\u00fapula militar tratava seus oficiais como cidad\u00e3os menores, privando-os dos direitos de cidad\u00e3o, tais como votar ou ser eletivos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Foi de um movimento de baixa patente militar que surgiu Luiz Carlos Prestes, transformado na d\u00e9cada de 1930 no maior l\u00edder comunista do Brasil. Prestes acreditava que a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria viria das bases militares, tanto que investiu nos quart\u00e9is a malograda Intentona Comunista de 1935. Na \u00e9poca, a maioria dos militares que aderiu \u00e0 Intentona n\u00e3o era comunista, sendo movidos pela m\u00e1 qualidade da vida que tinham nos quart\u00e9is. Esta insatisfa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica das baixas patentes das For\u00e7as Armadas criou uma atmosfera sujeita a subleva\u00e7\u00f5es, fazendo dos quart\u00e9is lugares f\u00e9rteis para que se recrutasse militantes de esquerda. Ciente do fato, o Partido Comunista Brasileiro (PCB), sempre deu grande import\u00e2ncia aos movimentos oriundos dos oficiais de baixa patente, fazendo-os imprescind\u00edveis numa poss\u00edvel situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p class=\"p2\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>O Cabo Anselmo Surge nos Movimentos de Marinheiros<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-586\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Cabo%20Anselmo%20-%20Manifesta%C3%A7%C3%A3o%20Marinheiros%201964.jpg\" border=\"0\" width=\"400\" height=\"266\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os princ\u00edpios hier\u00e1rquicos das institui\u00e7\u00f5es militares s\u00e3o fundamentais para que se mantenha uma rigorosa disciplina, fluindo os objetivos b\u00e9licos de defesa e ataque para os quais foram destinadas. O grande problema na hist\u00f3ria militar brasileira foi quando a hierarquia militar foi transformada em social, gerando uma quebra de direitos comuns aos cidad\u00e3os de um pa\u00eds. A hist\u00f3ria registra muitas rebeli\u00f5es de baixas patentes militares devido aos maus tratos, \u00e0 submiss\u00e3o escrava a que eram submetidos dentro das casernas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No inicio dos anos 1960, movimentos de militares de baixa patente dentro das For\u00e7as Armadas passaram a exigir maiores direitos, como sal\u00e1rios mais dignos, servi\u00e7os m\u00e9dicos e assist\u00eancia a familiares, concedidos generosamente \u00e0s altas patentes. Marinheiros e soldados eram geralmente oriundos das classes mais pobres do pa\u00eds, com pouca forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e sem a consci\u00eancia dos direitos m\u00ednimos \u00e0 cidadania. Esses soldados e marinheiros eram despertados por lideran\u00e7as de esquerda, sendo por elas recrutados para a milit\u00e2ncia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A quest\u00e3o pol\u00edtica a que os militares rasos eram submetidos veio \u00e0 tona de forma veemente no governo Jo\u00e3o Goulart. Na \u00e9poca, as baixas patentes n\u00e3o tinham direito ao voto nas elei\u00e7\u00f5es, nem a ser eleg\u00edveis para qualquer cargo pol\u00edtico, contrastando com as altas patentes, que poderiam ser presidentes da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Foi neste contexto hist\u00f3rico que iria emergir Jos\u00e9 Anselmo dos Santos, aclamado l\u00edder dos marinheiros no in\u00edcio da d\u00e9cada de sessenta. Em mar\u00e7o de 1962, foi fundada a Associa\u00e7\u00e3o dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil (AMFNB), tendo como finalidade a luta por maiores direitos dos marinheiros. A dire\u00e7\u00e3o era geralmente entregue a militantes de esquerda, mais politizados e preparados dentro dos quadros das corpora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em abril de 1963, Anselmo foi eleito o segundo presidente da AMFNB. Era marinheiro de primeira classe, tendo a patente confundida como cabo pela imprensa, passando a ser denominado Cabo Anselmo. Sem possuir milit\u00e2ncia nas organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, considerado pouco politizado, Anselmo foi escolhido para presidente da AMFNB por ter uma capacidade intelectual acima da m\u00e9dia dos outros marinheiros, em sua maioria muito pobres e sem cultura; cursar o terceiro ano de Direito; al\u00e9m de um carisma nato e eloq\u00fc\u00eancia quase que teatral para falar em p\u00fablico. Pouco se tinha a dizer do seu passado, al\u00e9m de que fora seminarista. Anselmo teria sido recrutado para a Associa\u00e7\u00e3o pelo suboficial da Marinha Antonio Duarte, militante da esquerda. Em entrevista ao\u201cJornal Op\u00e7\u00e3o\u201d, em 2005, Antonio Duarte declararia que Anselmo preferia falar de poesia que de pol\u00edtica.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-588\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Cabo%20Anselmo%20-%20Manifesta%C3%A7%C3%A3o%20Marinheiros.jpg\" border=\"0\" width=\"400\" height=\"304\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Com a sua eloq\u00fc\u00eancia discursiva, o Cabo Anselmo passou a ter grande visibilidade como presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Marinheiros, sendo constantemente assediado pela imprensa, tornando-se um sucesso da m\u00eddia de ent\u00e3o. Esta ascens\u00e3o despertou o interesse dos membros do PCB, que avaliavam o cabo como uma nova lideran\u00e7a. Avalia\u00e7\u00e3o que seria fatal para centenas de militantes da esquerda. Mesmo diante da relut\u00e2ncia de Anselmo em defender qualquer causa ideol\u00f3gica que n\u00e3o fosse de interesse dele pr\u00f3prio, o PCB insistia em apostar na sua lideran\u00e7a amb\u00edgua e sem quaisquer propostas. O ass\u00e9dio da imprensa fez do Cabo Anselmo um potente agitador, que nos bastidores dos altos poderes civil e militar, foi tomado como subversor s\u00edmbolo dos movimentos militares que afrontavam \u00e0 hierarquia da caserna. As interven\u00e7\u00f5es do Cabo Anselmo passaram a ser exploradas pelos opositores do governo Jo\u00e3o Goulart, tomadas como expoentes provocadores e desestabilizadores da ordem.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>A Hierarquia Militar Amea\u00e7ada, Aciona o Golpe de Estado<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-590\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Cabo%20Anselmo%203.jpg\" border=\"0\" width=\"306\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m das manifesta\u00e7\u00f5es dos marinheiros, soldados do Ex\u00e9rcito tamb\u00e9m incomodavam a hierarquia militar. Em 3 de setembro de 1963, seiscentas pra\u00e7as da guarni\u00e7\u00e3o militar do Distrito Federal insurgiram contra a cassa\u00e7\u00e3o dos mandatos eletivos dos sargentos Garcia Filho e Aimor\u00e9 Zoch Cavaleiro, pelo Supremo Tribunal Federal. A legisla\u00e7\u00e3o eleitoral permitindo o alistamento como eleitores dos sargentos, n\u00e3o reconhecia a sua elegibilidade. Contrariando o estabelecido, Garcia Filho e Aimor\u00e9 Zoch Cavaleiro tinham sido eleitos deputados e, posteriormente cassados. Os sublevados foram presos e enviados para o Rio de Janeiro, confinados nos por\u00f5es do navio \u201cRaul Soares\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por sua vez, a Associa\u00e7\u00e3o de Marinheiros e Fuzileiros Navais, tinha a sua legalidade questionada pelos regulamentos militares. A sua proximidade com a Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE) e outras entidades consideradas subversivas, incomodava \u00e0s altas patentes. Em mar\u00e7o de 1964, contrariando os seus superiores, que proibiram o evento, os marinheiros promoveram uma solenidade para comemorar o segundo anivers\u00e1rio da AMFNB, no Sindicato dos Metal\u00fargicos, no Rio de Janeiro. Em repres\u00e1lia, o ent\u00e3o ministro da Marinha, almirante Silvio Mota, decretou a ordem de pris\u00e3o de quarenta marinheiros e cabos que tinham organizado a solenidade. Ao saber da ordem do ministro, o Cabo Anselmo liderou uma rebeli\u00e3o dos marinheiros.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Para conter a rebeli\u00e3o, Silvio Mota deu ordem de invas\u00e3o ao Sindicato dos Metal\u00fargicos e, que se retirasse de l\u00e1 os amotinados vivos ou mortos. J\u00e1 no local, o almirante Arag\u00e3o, designado para cumprir a ordem de invas\u00e3o, n\u00e3o conseguiu cumprir o que lhe ordenara o ministro. O contingente de fuzileiros destacado para a invas\u00e3o, ao chegar ao sindicato aderiu \u00e0 rebeli\u00e3o, agravando a situa\u00e7\u00e3o. O motim provocou a vinda de Jo\u00e3o Goulart, que estava em S\u00e3o Borja, ao Rio de Janeiro. Quando aterrisou no aeroporto, Jango recebeu o pedido de demiss\u00e3o de Silvio Mota. Para acalmar a situa\u00e7\u00e3o, emiss\u00e1rios do presidente conseguiram convencer os marinheiros a cessarem a rebeli\u00e3o, acordando que os pra\u00e7as seriam removidos para uma unidade do Ex\u00e9rcito, presos. Ap\u00f3s v\u00e1rias horas detidos no Batalh\u00e3o de Guardas, em S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, os marinheiros foram libertados, saindo em passeata em dire\u00e7\u00e3o ao Minist\u00e9rio da Guerra. Jango enviou o general Assis Brasil para impedir a manifesta\u00e7\u00e3o, mas foi em v\u00e3o. Os marinheiros, liderados pelo Cabo Anselmo, afrontavam a hierarquia militar, pondo em causa a estabilidade do governo e instigando a concretiza\u00e7\u00e3o de um golpe de estado h\u00e1 muito programado pelos militares e opositores ao presidente.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-591\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Cabo%20Anselmo%20-%20Marinheiros.jpg\" border=\"0\" width=\"400\" height=\"344\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No dia 30 de mar\u00e7o de 1964, uma festa do Clube dos Sargentos, considerada outra afronta \u00e0 altahierarquia, tinha como convidado de honra o presidente.\u00a0Os ministros militares de Jango eram contra a sua ida ao evento. Mas o presidente j\u00e1 se tinha comprometido com os sargentos. Sua preocupa\u00e7\u00e3o era a presen\u00e7a do Cabo Anselmo, que diante das manifesta\u00e7\u00f5es dos marinheiros, tornara-se vitrine para a oposi\u00e7\u00e3o, o s\u00edmbolo da subvers\u00e3o conclamada pela imprensa. Sua presen\u00e7a seria constrangedora para o presidente. O general Assis Brasil, chefe da Casa Militar, garantiu ao presidente que seriam tomadas provid\u00eancias para que a manifesta\u00e7\u00e3o n\u00e3o sofresse deturpa\u00e7\u00f5es por parte do Cabo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A festa do Clube dos Sargentos, realizada no Autom\u00f3vel Clube, contou com a presen\u00e7a do Cabo Anselmo, apesar de ter sido convencionado que n\u00e3o compareceria. Moniz Bandeira relata em seu livro &#8220;O Governo Jo\u00e3o Goulart e as Lutas Sociais no Brasil&#8221;, que o comandante Ivo Acioly Corseuil, subchefe da Casa Militar da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, teria avisado Jo\u00e3o Goulart e ao almirante Silvio Mota que Anselmo, l\u00edder do movimento dos marinheiros, era agente secreto, provocador a serivi\u00e7o da CIA. O relato teria sido feito em uma entrevista de Ivo Acioly Corseuil e do coronel Pinto Guedes dada a Moniz Bandeira.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No evento, Anselmo proferiu um discurso inflamado, escrito por Carlos Marighella, membro do Comit\u00ea Central do PCB. No dia seguinte, os jornais traziam cr\u00edticas hostis ao governo de Jo\u00e3o Goulart, dando destaque \u00e0 presen\u00e7a e ao discurso inflamado do Cabo Anselmo. Era o motivo que a alta c\u00fapula militar precisa para agir. No dia 31 de mar\u00e7o de 1964, tropas sublevadas da 4\u00aa RM e da 4\u00ba DI, comandadas pelo general Olympio Mour\u00e3o Filho, em Juiz de Fora, Minas Gerais, marcharam para depor o governo. No dia 1 de abril, estava instaurada a ditadura militar no Brasil, decretando entre outras medidas repressivas, o fim das associa\u00e7\u00f5es de baixa patentes no pa\u00eds, encerrando para sempre, a tradi\u00e7\u00e3o de luta dos soldados e marinheiros, estabelecida desde a \u00e9poca do Tenentismo.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>A Pris\u00e3o Ap\u00f3s o Golpe<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-592\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Cabo%20Anselmo%201964.jpg\" border=\"0\" width=\"400\" height=\"394\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ao subir ao poder, uma das primeiras atitudes dos militares golpistas foi o expurgo dentro da caserna. Todos os militares envolvidos em movimentos considerados pr\u00f3ximos \u00e0 esquerda ou simp\u00e1ticos ao governo deposto, foram expulsos das corpora\u00e7\u00f5es, sendo presos e condenados. Cerca de mil e duzentos militares foram expurgados das For\u00e7as Armadas em 1964. O Cabo Anselmo, por causa dos seus discursos inflamados, usando o seu poder de orat\u00f3ria para proferir a palavra de ordem de Carlos Marighella e, conseq\u00fcentemente, do PCB; por causa da sua exposi\u00e7\u00e3o na m\u00eddia como lideran\u00e7a principal da Associa\u00e7\u00e3o dos Marinheiros, era o mais visado dos sublevados, portanto um dos primeiros a ter o nome na lista dos cassados.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s o golpe, Anselmo buscou ref\u00fagio na embaixada do M\u00e9xico. Segundo algumas vers\u00f5es, teria sido retirado dali pela A\u00e7\u00e3o Popular (AP), que tentara recrut\u00e1-lo. Outra vertente afirma que embora sendo um dos l\u00edderes marinheiros mais procurados do pa\u00eds, saiu da embaixada, caminhando normalmente, sem ser detido.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Finalmente, quando preso e expurgado da corpora\u00e7\u00e3o, Anselmo foi isolado no Alto da Tijuca, sendo apresentado pelo regime como trof\u00e9u. Contraditoriamente, o ex-eloq\u00fcente militante n\u00e3o pareceu incomodar o regime militar, ao contr\u00e1rio de outros marinheiros como Jos\u00e9 Duarte dos Santos e Antonio Duarte, que mantiveram uma resist\u00eancia clandestina, recrutando marinheiros que possivelmente poderiam vir a insurgir contra a ditadura instalada. A falta de convic\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do Cabo Anselmo gerava uma ambig\u00fcidade, que poderia ter chamado a aten\u00e7\u00e3o dos seus carcereiros, quando preso. Muitos s\u00e3o os que suspeitam que Anselmo teria sido recrutado pelo regime implantado neste per\u00edodo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-593\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Cabo%20Anselmo%20-%20Carregado%20em%201964.jpg\" border=\"0\" width=\"400\" height=\"348\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Enquanto muitos marinheiros rebeldes foram atirados \u00e0s masmorras, sofrendo a retalia\u00e7\u00e3o dos seus algozes, o per\u00edodo de pris\u00e3o do Cabo Anselmo, o l\u00edder maior dos rebelados, pareceu tranq\u00fcilo no Alto da Tijuca. Segundo Elio Gaspari, em &#8220;A Ditadura Escancarada&#8221;, durante o c\u00e1rcere, Anselmo prestava trabalhos administrativos, sendo assistente do \u00fanico detetive que ali se encontrava. O jornalista afirma ainda, que lhe era permitido sair pela cidade, tendo, numa das sa\u00eddas, recorrido \u00e0 embaixada do Chile, a pedir asilo. Quando indagado pelo diplomata chileno de como estava em liberdade, respondera que tinha licen\u00e7a dos carcereiros. Ao fazer tal afirma\u00e7\u00e3o, Anselmo teria o pedido de asilo negado.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O Cabo Anselmo fugiria da pris\u00e3o em abril de 1966. A fuga aconteceu de forma obscura, com uma facilidade jamais esclarecida, tendo-se afirmado mais tarde, segundo algumas vers\u00f5es, de que ele tinha a chave da pr\u00f3pria cela. A ambig\u00fcidade e falta de transpar\u00eancia durante o per\u00edodo em que o cabo esteve preso, suscita a desconfian\u00e7a de que teria mudado de lado naquela \u00e9poca.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Outra tese sustentada \u00e9 a de que Anselmo sempre foi agente infiltrado, sendo orientado a radicalizar as insurrei\u00e7\u00f5es dos marinheiros, fator que contribuiu para v\u00e1rios setores das For\u00e7as Armadas, contr\u00e1rios ao golpe, aderissem a ele, na tentativa de evitar a quebra da hierarquia militar.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Treinamento de Guerrilha em Cuba<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-594\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Cabo%20Anselmo%201.jpg\" border=\"0\" width=\"282\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s a fuga da pris\u00e3o, Cabo Anselmo seria acolhido pela esquerda resistente ao regime. A fidelidade do cabo n\u00e3o sofria quaisquer suspeitas. Dentro da esquerda ele era visto como s\u00edmbolo de uma resist\u00eancia. A milit\u00e2ncia iria dar experi\u00eancia e consist\u00eancia \u00e0 falta de ideologia latente do carism\u00e1tico ex-marinheiro, visto como l\u00edder que teria papel fundamental na luta contra a ditadura instalada. Mais uma vez a esquerda errara na avalia\u00e7\u00e3o do perfil de lideran\u00e7a ideol\u00f3gica de Cabo Anselmo, apostando em um militante que j\u00e1 tinha sido, era ou seria um agente infiltrado.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O ex-sargento Onofre Pinto, comandava um grupo de ex-sargentos resistentes em S\u00e3o Paulo. Ap\u00f3s a fuga da pris\u00e3o do Cabo Anselmo, o grupo de Onofre Pinto sem ter como escond\u00ea-lo, retirou-o do Brasil, levando-o \u00e0 presen\u00e7a de Leonel Brizola.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Exilado no Uruguai, o ex-governador ga\u00facho Brizola liderava o Movimento Nacional Revolucion\u00e1rio (MNR), fundado por ele e por um grupo de sargentos que resistiam ao golpe militar. O MNR agregava militares expurgados, nacionalistas e militantes de esquerda, tendo como objetivo derrubar o regime implantado em 1964. Leonel Brizola acreditou que Cabo Anselmo fosse um valente contestador, fiando-se no seu aparente passado de grande l\u00edder dos marinheiros. Ap\u00f3s passar uns tempos no Uruguai, o cabo foi enviado por Brizola, atrav\u00e9s do MNR, para Cuba, onde deveria fazer o curso de guerrilha.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em Cuba, Anselmo n\u00e3o demonstrou grande entusiasmo durante os treinamentos de guerrilha. Mais tarde, declararia que foi durante o aprendizado da guerrilha na ilha de Fidel Castro, que se decepcionaria com a ideologia da esquerda, passando a repudi\u00e1-la intimamente. A verdade \u00e9 que muitos militantes de esquerda desistiram da guerrilha ap\u00f3s passar pelo treinamento de suas t\u00e1ticas em Cuba. A vis\u00e3o rom\u00e2ntica que tinham da guerrilha diante da crueza da sua realidade fazia com que a abandonassem. Muitos desistiram, mas nenhum dos desistentes usou desta decep\u00e7\u00e3o como justificativa para mudar de ideologia e entregar companheiros \u00e0 tortura e \u00e0 morte, com exce\u00e7\u00e3o do Cabo Anselmo. Os que mais se adaptaram aos treinamentos foram os militares, e Anselmo era supostamente um deles. Por mais que o caminho parecesse sem volta, havia sempre uma op\u00e7\u00e3o que n\u00e3o fosse a dela\u00e7\u00e3o de companheiros, que por mais que pudessem vir a ser desprezados depois de uma reflex\u00e3o e reavalia\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gicas, n\u00e3o mereciam ser entregues \u00e0queles que diante dos seus crimes, n\u00e3o estavam dispostos a julg\u00e1-los como cidad\u00e3os, mas a tortur\u00e1-los e a mat\u00e1-los.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ao voltar de Cuba, com a miss\u00e3o de continuar a luta contra a ditadura militar, Anselmo optara, segundo ele pr\u00f3prio, por repudiar a ideologia que nunca tivera. E a delatar, a levar velhos companheiros a armadilhas mortais.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Neste per\u00edodo, Leonel Brizola, no ex\u00edlio, desistiu da luta armada como solu\u00e7\u00e3o para derrubar o regime militar, o MNR acabou. Anselmo teve que se ligar \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o Latino-Americana de Solidariedade (OLAS), e \u00e0 Vanguarda Popular Revolucion\u00e1ria (VPR).<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>A Mudan\u00e7a Oficial de Lado<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-595\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Cabo%20Anselmo%20-%20Manifesta%C3%A7%C3%B5es%201964.jpg\" border=\"0\" width=\"400\" height=\"270\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ao voltar para ao Brasil, em 1970, Anselmo foi apresentado como quadro de maior confian\u00e7a dentro da esquerda. Ao ser enviado de volta, tinha como miss\u00e3o estabelecer contato entre as organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, na \u00e9poca divididas em v\u00e1rias, cada vez mais acossadas pelo regime, tendo a maioria dos seus militantes presos, ou mesmo isolados, sem que se mantivessem em contactos mais permanentes devido \u00e0 fren\u00e9tica vigil\u00e2ncia dos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Anselmo liga-se \u00e0 VPR, chegando a ter um encontro com o seu l\u00edder, o capit\u00e3o Carlos Lamarca, sendo portador de uma mensagem vinda de Cuba. Anselmo sente-se isolado. J\u00e1 n\u00e3o tinha os holofotes da m\u00eddia como em 1964, deixara de ser o l\u00edder dos marinheiros que tanto suscitou plat\u00e9ias de admiradores ou de desafetos. Era apenas um militante clandestino, sem posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as. Segundo depoimentos de ex-companheiros, a vaidade pessoal de Anselmo era maior do que qualquer resqu\u00edcio ideol\u00f3gico que pudesse ter, e ser apenas mais um militante, longe dos holofotes aos quais estava acostumado, foi um fator decisivo para que se desmotivasse a continuar a vida de revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em S\u00e3o Paulo, tinha tarefas pontuais, como esconder muni\u00e7\u00e3o e cuidar da obra do aparelho que a VPR constru\u00eda em Osasco. Para os companheiros era um militante simp\u00e1tico e bem falante.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Se as d\u00favidas que pairam sobre Anselmo ser um agente infiltrado j\u00e1 em 1964, ou a partir do per\u00edodo em que esteve preso, de 1964 a 1966, o momento em que se tem a certeza da virada de lado, confirmada mais tarde pelo pr\u00f3prio cabo, aponta para 30 de maio de 1971. Na \u00e9poca Anselmo vivia em um apartamento na Rua Martins Fontes, no centro velho de S\u00e3o Paulo. Morava com o militante Edgard Aquino Duarte, funcion\u00e1rio da Bolsa de Valores. Naquele dia de maio os dois foram presos. Duas vers\u00f5es s\u00e3o contadas sobre o que desencadeou a pris\u00e3o, uma delas afirma que um cheque de Edgard Aquino Duarte foi rastreado pela pol\u00edcia, levando-a ao endere\u00e7o na Martins Fontes, chegando tamb\u00e9m ao clandestino Cabo Anselmo. A vers\u00e3o mais aceita aponta para uma coincid\u00eancia hist\u00f3rica, perto do apartamento onde foram efetuadas as pris\u00f5es, no Hotel San Raphael, estava hospedada a sele\u00e7\u00e3o feminina cubana de basquetebol, devidamente monitorada por agentes da repress\u00e3o, posto que Cuba era considerado um pa\u00eds com regime inimigo ao brasileiro. Anselmo teria visitado o local, dando a Margarita, capit\u00e3 do time, um embrulho contendo um chaveiro para ser entregue a Fidel Castro. O gesto chamou a aten\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia, que seguiu o visitante, descobrindo-lhe o endere\u00e7o e concretizando as pris\u00f5es dos dois moradores.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 4 de junho de 1971, Anselmo prestou depoimento ao temido delegado S\u00e9rgio Fernando Paranhos Fleury, delatando todos os seus contatos, iniciando uma parceria infame, que levaria \u00e0 morte de v\u00e1rios militantes de esquerda. Em 1984, Anselmo revelou ao rep\u00f3rter Oct\u00e1vio Ribeiro que ao ser preso, foi tomado por um sentimento de consci\u00eancia e pelo medo de morrer, da\u00ed decidiu mudar de lado. Em 1999, em nova entrevista a Percival de Souza, contou outra vers\u00e3o, que foi torturado e, diante do dilema entre morrer e delatar, optou pela segunda hip\u00f3tese.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>O Cachorro Anselmo<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-597\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Cabo%20Anselmo%204.jpg\" border=\"0\" width=\"400\" height=\"345\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Anselmo, j\u00e1 colaborador dos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o, passou a usufruir cela e tratamento especiais no Departamento de Ordem Pol\u00edtica e S\u00f3cias (DOPS) de S\u00e3o Paulo, tendo acesso livre \u00e0 sala da dire\u00e7\u00e3o e at\u00e9 direito a um tear para tape\u00e7aria, podendo exercer um dos seus passatempos preferido. O ex-marinheiro revolucion\u00e1rio tornara-se o mais ilustre \u201ccachorro\u201d, termo usado pelos pr\u00f3prios agentes da repress\u00e3o aos delatores, de Fleury .<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Enquanto aguardava na cela do Dops, os agentes do delegado Fleury montavam um apartamento nas Perdizes, em S\u00e3o Paulo, equipado de microfones e c\u00e2meras de seguran\u00e7a, que serviriam para monitorar os convidados revolucion\u00e1rios do ex-marinheiro. Fleury garantiu-lhe ainda, um sal\u00e1rio de trezentos d\u00f3lares, al\u00e9m de prote\u00e7\u00e3o total \u00e0 sua vida, contra quaisquer poss\u00edveis retalia\u00e7\u00f5es dos companheiros tra\u00eddos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 no apartamento de Perdizes, Anselmo passou a receber os militantes revolucion\u00e1rios mais procurados pelo regime. Coincidentemente, todos os companheiros do Cabo Anselmo come\u00e7aram a cair nas m\u00e3os da pol\u00edcia repressiva. Entre eles, Jos\u00e9 Raimundo da Costa, amigo de longa data. Ap\u00f3s uma visita a Anselmo, Jos\u00e9 Raimundo foi apanhando em uma barreira policial. Foi supliciado e morto por seus algozes, sendo enterrado com um nome falso. Ao ser indagado em 1984, por Oct\u00e1vio Ribeiro, de quantos companheiros teriam morrido ap\u00f3s suas dela\u00e7\u00f5es, Anselmo respondeu prontamente: \u201cUmas cem, duzentas\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>O Massacre da Ch\u00e1cara S\u00e3o Bento<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-598\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Cabo%20Anselmo%20-%20Soledad%20Barret-horz.jpg\" border=\"0\" width=\"400\" height=\"259\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A queda de v\u00e1rios militantes ap\u00f3s contacto com Anselmo suscita a suspeita da esquerda, que passa a agir com desconfian\u00e7a. Mas Anselmo mant\u00e9m a frieza de um grande agente infiltrado, sabendo ser convincente e carism\u00e1tico diante da face daqueles que entregou, entregava ou entregaria.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No meio do furac\u00e3o das suspeitas, ofereceu-se para ir ao Chile, encontrar-se com o velho companheiro e amigo, o ex-sargento Onofre Pinto, dirigente da VPR. O objetivo da viagem era acertar com o dirigente exilado a instala\u00e7\u00e3o de uma base guerrilheira no nordeste brasileiro, especificamente em Pernambuco.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No Chile foi confrontado pelos que tinham a certeza da sua atua\u00e7\u00e3o como delator. Di\u00f3genes Arruda e In\u00eas Etienne Romeu, que chegou a ser chamada de louca, acusaram-no de trai\u00e7\u00e3o. Diante de Onofre Pinto e de outras testemunhas, Anselmo faz um grande jogo de cena, depondo a arma sobre a mesa, desafiando o l\u00edder da VPR a mat\u00e1-lo, casa duvide da sua lealdade. Inexplicavelmente Onofre Pinto acredita em Anselmo, quando todos j\u00e1 duvidavam da sua lealdade. A avalia\u00e7\u00e3o fatal do ex-sargento passou para a hist\u00f3ria da esquerda como uma inc\u00f3gnita, levantando v\u00e1rias hip\u00f3teses. O fato \u00e9 que Onofre Pinto e Anselmo eram grandes amigos, sendo que um deles seria friamente tra\u00eddo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-599\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Cabo%20Anselmo%20-%20Soledad%20Barret.jpg\" border=\"0\" width=\"326\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Anselmo voltou ao Brasil com dinheiro dos exilados do Chile para montar um aparelho em Recife. Seguiu para a capital pernambucana ao lado da namorada e companheira Soledad Barret Viedma, a Sol, paraguaia filha de um dirigente comunista do seu pa\u00eds. Os dois passam a viver juntos em uma pequena casa pr\u00f3xima a Olinda, usada como aparelho e, para disfar\u00e7ar, como loja, onde vendem roupas bordadas por ela e tapetes tecidos por ele. Mas a loja \u00e9 um fracasso, sendo fechada.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Depois de fechar a loja, Anselmo e Soledad mudaram-se para um apartamento, alugado pelo militante C\u00e9sar, que cuidou dos documentos, fiadores e dinheiro para pagar o aluguel, deixando o local pronto para funcionar como c\u00e9lula da organiza\u00e7\u00e3o. O que Soledad n\u00e3o sabia sobre o eficiente C\u00e9sar \u00e9 que era o agente infiltrado do Dops, Carlos Alberto Augusto, que se tornaria um fiel amigo de Anselmo por toda a vida.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Devidamente monitorado pelos agentes da repress\u00e3o com escutas e outros instrumentos de espionagem, o aparelho inclu\u00eda al\u00e9m de Anselmo, Soledad e C\u00e9sar, os militantes Jarbas Pereira Marques, Evaldo Luiz Ferreira de Souza, Jos\u00e9 Manuel da Silva e o casal de namorados Eudaldo Gomes da Silva e Pauline Reichstul; sendo todos seguidos e vigiados sem tr\u00e9guas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os rumores de Anselmo ser um delator tornaram-se certezas. A verdade espalhou-se entre a esquerda, chegando a Recife. Diante de um iminente acerto de contas do passado como revolucion\u00e1rio com o presente como \u201ccachorro\u201d, Anselmo pressentiu que estava acossado. Era preciso que os companheiros fossem todos eliminados, inclusive Soledad. No dia 8 de janeiro de 1973 foi executada a senten\u00e7a final. A a\u00e7\u00e3o entraria para a hist\u00f3ria com o nome de Massacre da Ch\u00e1cara S\u00e3o Bento, sendo uma das mais violentas e cru\u00e9is da ditadura militar. Jos\u00e9 Manuel, Jarbas, Evaldo, Eudaldo, Pauline e Soledad, gr\u00e1vida de quatro meses de um filho de Anselmo, s\u00e3o brutalmente executados.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Vers\u00f5es Diferentes do Massacre<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-601\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Cabo%20Anselmo%20-%20Mortos.jpg\" border=\"0\" width=\"400\" height=\"314\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mais tarde, ao ser confrontado com a verdade de ter mandado para a morte a companheira e o filho, Anselmo justificou-se mais uma vez de que se n\u00e3o o fizesse, seria morto pelos companheiros que atra\u00edra para a armadilha, a mesma desculpa que dera para justificar o porqu\u00ea de ser um delator. Novamente o medo de morrer, a vontade de sobreviver dos escombros dos seus mortos, da inf\u00e2mia em que se fizera atolar como homem sem \u00e9tica.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na vers\u00e3o de Anselmo, relatada em 1984, o massacre teria sido deflagrado depois que um irm\u00e3o de Soledad trouxe de Cuba uma carta cifrada, confirmando o que j\u00e1 se suspeitava, Anselmo era um delator e trabalhava para os servi\u00e7os de repress\u00e3o do regime militar. Ele deveria ser justi\u00e7ado pelos companheiros, pois do ato dependia a vida de muitos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Anselmo relata que ap\u00f3s receber a carta, Soledad saiu para encontrar com Pauline. T\u00e3o logo sa\u00edra a companheira, ele seria resgatado pelos agentes de Fleury. Anselmo conclui que, s\u00f3 soube do massacre no dia seguinte, pelos jornais. Em 1999 apresentaria uma vers\u00e3o mais detalhada a Percival de Souza. A carta decifrada tinha sido uma senten\u00e7a de morte, e todos os envolvidos, inclusive C\u00e9sar, foram informados da trai\u00e7\u00e3o, decidindo que ele deveria ser executado em um lugar chamado Ch\u00e1cara de S\u00e3o Bento, periferia de Recife. C\u00e9sar ficou respons\u00e1vel por levar o traidor ao destino final. Anselmo acrescenta que quando todos estavam reunidos no local, \u00e0 espera que chegasse com C\u00e9sar para ser justi\u00e7ado, o capit\u00e3o respons\u00e1vel pelo cerco, ao rastejar pr\u00f3ximo da casa, despertou o latido de um c\u00e3o. Para calar o animal, o capit\u00e3o disparou um tiro, iniciando um tiroteio entre os agentes e os militantes. O que n\u00e3o soube explicar \u00e9 como nenhum agente ficou ferido e todos os companheiros foram mortos. Ap\u00f3s o massacre, Anselmo e o agente Carlos Alberto Augusto, o C\u00e9sar, foram levados ao aeroporto, onde um avi\u00e3o da FAB esperava por eles. Em nota oficial, divulgado \u00e0 imprensa, era informado que seis terroristas tinham sido mortos e dois tinham fugido. Era o \u00e1libi plantado para Anselmo e C\u00e9sar.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Comiss\u00e3o Nacional de Familiares de Mortos e Desaparecidos, apresenta outra vers\u00e3o do massacre, desmontando a farsa da ch\u00e1cara, em um relat\u00f3rio de 1.200 p\u00e1ginas feito por Iara Xavier Pereira. Os seis executados teriam sido presos no dia 7 de janeiro, em locais diferentes. Jos\u00e9 Manuel foi autuado em um posto de gasolina; Soledad e Pauline numa butique; Jarbas na livraria em que trabalhava; Evaldo encontrava-se no apartamento de Soledad; a \u00fanica incerteza \u00e9 da pris\u00e3o de Eudaldo, namorado de Pauline, n\u00e3o se sabendo onde foi preso. A advogada M\u00e9rcia de Albuquerque Ferreira, amiga de Jarbas Pereira Marques, teve acesso aos mortos, relatando que no dia seguinte ao massacre, foi ao Instituto M\u00e9dico Legal de Recife, quando soube que ali havia seis corpos a aguardar reconhecimento, sendo a maior testemunha do resultado final do massacre. Em depoimento prestado \u00e0 Secretaria de Justi\u00e7a do Estado de Pernambuco, em 1996, ela declararia que vira, horrorizada, o corpo de Soledad Barret Viedma nu e em p\u00e9, dentro de um barril, trazia as pernas atoladas em sangue coagulado e no fundo um feto. Os seis corpos estavam desfigurados e apresentando tamanho incha\u00e7o, que n\u00e3o cabiam nos caix\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Para alguns, os corpos foram levados depois de mortos para a ch\u00e1cara. Para outros, depois de supliciados, sequer foram levados para o ambiente rural. A ch\u00e1cara teria sido apenas citada como cen\u00e1rio, sem jamais receber os executados, vivos ou mortos.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Rompido Um Longo Sil\u00eancio<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-602\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Cabo%20Anselmo%20-%20Livro%201.jpg\" border=\"0\" width=\"267\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O Massacre da Ch\u00e1cara S\u00e3o Bento foi a \u00faltima miss\u00e3o oficial do Cabo Anselmo. Mesmo com o \u00e1libi de que teria fugido e n\u00e3o sido retirado do lugar da chacina, ficara imposs\u00edvel mant\u00ea-lo como agente infiltrado nas organiza\u00e7\u00f5es de esquerda.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O delegado S\u00e9rgio Fleury soube ser agradecido ao seu cachorro mais ilustre. Submeteu-o a uma cirurgia pl\u00e1stica, em 1973, dando-lhe um novo rosto, para que n\u00e3o pudesse ser identificado pelos ex-companheiros e fosse justi\u00e7ado por eles.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Anselmo ganhou uma nova identidade, passando a dar confer\u00eancias sobre t\u00e1ticas de guerrilha que aprendera em Cuba, e sobre a vulnerabilidade das organiza\u00e7\u00f5es da esquerda. Nas confer\u00eancias, aparecia de capuz para que n\u00e3o se lhe identificasse o novo rosto. Sua colabora\u00e7\u00e3o com agentes ligados \u00e0 tortura e a \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o n\u00e3o se romperia mesmo depois do fim da ditadura. H\u00e1 suspeitas de que trabalhou com esquadr\u00f5es da morte que surgiram de tempos em tempos no cen\u00e1rio da pol\u00edcia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na hist\u00f3ria da esquerda, muitos foram os que mudaram de lado, entregando companheiros, mas nenhum foi como Anselmo, que com disciplina militar e uso de intelig\u00eancia investigativa, atraiu os companheiros para armadilhas. Nenhum dos delatores tinha um passado t\u00e3o digno quanto aquele eloq\u00fcente marinheiro que incitou os colegas \u00e0 insurrei\u00e7\u00e3o, sendo eles, na maioria, pobres e poucos cultos, sem quaisquer liga\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas. Nos bastidores da esquerda resistente \u00e0 ditadura, Anselmo passou a ser visto como exemplo da inf\u00e2mia de um companheiro. Tornou-se o s\u00edmbolo e mito da trai\u00e7\u00e3o. Um personagem que n\u00e3o deveria ser esquecido, para que novos militantes soubessem da vergonha moral que um companheiro podia chegar.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por anos Anselmo manteve-se na clandestinidade. Escondido, como sempre, com medo de morrer por sua covardia perene, de ser justi\u00e7ado pela fam\u00edlia daqueles que mandou \u00e0 tortura e ao supl\u00edcio mortal. Em 1984, onze anos depois da \u00faltima vez que se ouvira falar em Anselmo, ele ressurgiria. Na \u00e9poca, rastreado pela rep\u00f3rter Suzana Ver\u00edssimo, soube-se que o ex-marinheiro freq\u00fcentava o Dops de S\u00e3o Paulo, sendo s\u00f3cio do delegado Josecyr Cuoco, em uma ag\u00eancia particular de informa\u00e7\u00f5es, respons\u00e1vel por relat\u00f3rios sobre o movimento sindical vendidos \u00e0s multinacionais do setor automobil\u00edstico. Cuoco, ao saber das investiga\u00e7\u00f5es da jornalista, que se iria transformar em reportagem, teria negociado uma entrevista do s\u00f3cio com o jornalista Oct\u00e1vio Ribeiro.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A reportagem foi publicada na revista \u201cIsto\u00e9\u201d, em um trabalho primoroso de Oct\u00e1vio Ribeiro, conhecido como Pena Branca, dando origem ao livro \u201cPor Que Eu Tra\u00ed \u2013 Confiss\u00f5es de Cabo Anselmo\u201d. Na \u00e9poca, apesar de ter um novo rosto, Anselmo n\u00e3o se deixou fotografar de frente. Ainda temia ser justi\u00e7ado.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quinze anos depois, em 1999, Anselmo daria outra entrevista, desta vez ao jornalista Percival de Souza, publicada parcialmente na revista \u201c\u00c9poca\u201d e em um livro, \u201cEu, Cabo Anselmo\u201d. Nesta entrevista, o ex-marinheiro deu vers\u00f5es mais elaboradas do massacre em Recife, e novas vers\u00f5es de que come\u00e7ara a delatar porque fora torturado. Nas duas reportagens, n\u00e3o demonstrou arrependimento algum, chegando a afirmar que dormia muito bem.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>O Mais Antigo Clandestino<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-604\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Cabo%20Anselmo%20-%20Pedido%20documentos%20Jul-2009.gif\" border=\"0\" width=\"400\" height=\"320\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 16 de mar\u00e7o de 2004, Anselmo apresentou um pedido de indeniza\u00e7\u00e3o que o governo concede aos perseguidos pela ditadura militar. Anselmo alegava que, at\u00e9 1971, tamb\u00e9m ele fora v\u00edtima da persegui\u00e7\u00e3o do regime militar, sendo afastado da Marinha por causa dos seus ideais, portanto sente-se no direito de ser anistiado, reintegrado \u00e0 Marinha para que tenha o benef\u00edcio \u00e0 aposentadoria e \u00e0 repara\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, como foram v\u00e1rios ex-companheiros de luta.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O pedido emperrou, porque o ex-marinheiro, militante revolucion\u00e1rio e, ao mesmo tempo, colaborador de servi\u00e7os de repress\u00e3o do regime militar, \u00e9 considerado clandestino, vivendo sem documentos oficiais desde que foi preso e expulso da Marinha, em 1964.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No dia 30 de julho de 2009, Anselmo fez na 8\u00aa Vara da Justi\u00e7a Federal de S\u00e3o Paulo, exame para comparar suas impress\u00f5es digitais com as que constam nos documentos da Marinha. N\u00e3o havendo uma c\u00f3pia de certid\u00e3o de nascimento nos arquivos da corpora\u00e7\u00e3o e nos do cart\u00f3rio de Itaporanga d\u2019Ajuda, interior de Sergipe, onde nasceu e foi registrado, Anselmo foi obrigado a passar pela per\u00edcia, atrav\u00e9s de uma ficha individual disponibilizada pela Marinha.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ao tirar as impress\u00f5es digitais, que depois de comparadas e confirmadas, voltaria a existir a pessoa f\u00edsica de Jos\u00e9 Anselmo dos Santos, com direito a ter novamente carteira de identidade, CPF e t\u00edtulo de eleitor. Em posse da documenta\u00e7\u00e3o, Anselmo ansiava pelo julgamento do pedido de repara\u00e7\u00e3o protocolado na Comiss\u00e3o de Anistia do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, em 2004.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O pedido de indeniza\u00e7\u00e3o de Anselmo constrangeu a Comiss\u00e3o de Anistia, gerando grande protesto da esquerda. Conceder benef\u00edcios a um homem que traiu todos os princ\u00edpios que o faz ser candidato \u00e0 indeniza\u00e7\u00e3o pretendida \u00e9 paradoxal. Ind\u00edcios de que Anselmo seria agente infiltrado na \u00e9poca das agita\u00e7\u00f5es que ajudaram a deflagrar o golpe militar, em 1964, s\u00e3o investigados. Se comprovados, Anselmo n\u00e3o tem direito \u00e0 indeniza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o cabendo a aplica\u00e7\u00e3o da Lei da Anistia a pessoas que atuaram como agentes do Estado, como desestabilizadores de um governo legal, como o de Jo\u00e3o Goulart, e depois, em um chamado Estado de exce\u00e7\u00e3o, eufemismo usado pelo regime militar para amenizar a palavra \u201cditadura\u201d, ou seja, atuando em uma pol\u00edtica de repress\u00e3o sem reconhecimento do Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-606\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Cabo%20Anselmo%20Atual.jpg\" border=\"0\" width=\"400\" height=\"329\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ciente do fato, Anselmo e os seus protetores, velhos aliados dos servi\u00e7os de repress\u00e3o, entre eles o eterno amigo e protetor, o delegado do 12\u00ba distrito de S\u00e3o Paulo, Carlos Alberto Augusto, antigo agente que trabalhou sob as ordens diretas do delegado S\u00e9rgio Paranhos Fleury no Dops de S\u00e3o Paulo, de 1970 a 1977, sendo conhecido na \u00e9poca como Carlinhos Metralha, por ter o costume de andar com uma metralhadora no ombro, ou como C\u00e9sar, agente infiltrado no aparelho da VPR em Recife, que terminou com os seus militantes executados em 1973; orquestraram uma volta \u00e0 m\u00eddia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No dia 30 de agosto de 2009, Anselmo, ent\u00e3o com 67 anos, apresentava ao Brasil o rosto que recebera como pr\u00eamio da ditadura, pela primeira vez de frente, sem sombras, sem m\u00e1scaras, que sempre ocultaram a sua face, em uma entrevista dada ao programa \u201cCanal Livre\u201d, na TV Bandeirantes. Com o ato, Anselmo, o \u00faltimo clandestino gerado pelo golpe militar, queria matar de vez o Cabo Anselmo, numa tentativa de mostrar o cidad\u00e3o Jos\u00e9 Anselmo dos Santos. O ex-marinheiro apareceu escoltado nos est\u00fadios de televis\u00e3o, tendo ao lado Carlos Alberto Augusto, constrangendo profundamente os jornalistas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Durante a entrevista, percebia-se nitidamente que ela fora concedida mediante restri\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias. Anselmo mostrou-se eloq\u00fcente, com os holofotes sobre o seu rosto, algo que tanto o fascinara naquele distante 1964, quando tinha a m\u00eddia atenta aos seus atos e discursos inflamados. Apresentou-se como um her\u00f3i do Brasil, que em determinado momento, descobrira que os revolucion\u00e1rios de esquerda trariam grande mal ao pa\u00eds, e ele defendeu a sua p\u00e1tria do perigo vermelho. Pouco questionado pelos rep\u00f3rteres, conduziu com maestria a entrevista. Refor\u00e7ou a vers\u00e3o de que mudara de lado ao ser torturado. Ao fazer tal afirma\u00e7\u00e3o, desmontou toda a estrat\u00e9gia, pois n\u00e3o soube sequer descrever um pau de arara, instrumento de tortura do qual se proclamou vitimado. Apontou Fleury como torturador e, p\u00f4s por terra toda vers\u00e3o, quando declarou admira\u00e7\u00e3o por ele. Anselmo al\u00e9m de n\u00e3o demonstrar as cicatrizes psicol\u00f3gicas que trazem todos os ex-torturados, falou dos seus algozes como amigos dignos de homenagens.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quanto aos que traiu, como sempre n\u00e3o demonstrou arrependimento. O que mais vinca a moral el\u00e1stica e o car\u00e1ter duvidoso do ex-marinheiro n\u00e3o \u00e9 a falta de arrependimento, mas o total desprezo e desrespeito com aqueles que ele entregou ao supl\u00edcio e \u00e0 morte, sem direito a julgamento justo. Desrespeito para com companheiros que mesmo estando a errar em nome de uma ideologia, confiaram nele e perderam a vida sem tempo de saber que eram tra\u00eddos por algu\u00e9m que tinham admira\u00e7\u00e3o e confian\u00e7a. Os que sobreviveram a ele puderam desenvolver-lhe \u00f3dio, os que sucumbiram, em sua maioria morreram a acreditar no companheiro, por isto mereciam se n\u00e3o o arrependimento, o respeito, n\u00e3o a difama\u00e7\u00e3o. Anselmo exaltou os que supostamente o torturaram e difamou os companheiros mortos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Anselmo, assim como a maioria da juventude militante da sua gera\u00e7\u00e3o, deixou-se envolver em um turbilh\u00e3o muitas vezes sem volta. Muitos seguiram o romantismo da milit\u00e2ncia revolucion\u00e1ria. Apanhados por uma ditadura instaurada, esta juventude resistiu, alguns pegaram em armas, assaltaram bancos, seq\u00fcestraram embaixadores. Jovens, em sua maioria com menos de trinta anos, assim como Anselmo, conduziram-se por caminhos violentos, sem tempo de respirar o sonho ideol\u00f3gico que acreditavam, sucumbindo asfixiados pela dura realidade da guerrilha, da tortura e dos fuzis. Muitos, assim como Anselmo, desencantaram-se, questionaram a ideologia. N\u00e3o poucos foram os que abandonaram a guerrilha. Muitos guerrilheiros, depois de presos, trocados por embaixadores seq\u00fcestrados e exilados, deixaram as armas, seguindo caminhos diferentes, sem, apesar da discord\u00e2ncia, entregarem \u00e0 morte os velhos companheiros. Tantos foram os destru\u00eddos psicologicamente pela repress\u00e3o, e, submeteram-se humilhantemente a assinar uma auto-retrata\u00e7\u00e3o, sendo vistos como covardes, mas bravamente n\u00e3o entregaram um \u00fanico companheiro.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O caminho foi sem volta para muitos. Anselmo mudou a sua vis\u00e3o, mas n\u00e3o se limitou a abandonar a ideologia, preferiu entregar companheiros. Infiltrou-se, montou ciladas. Visivelmente tornou-se admirado pelos novos companheiros agentes da repress\u00e3o, mostrou efici\u00eancia e compet\u00eancia diante deles.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-607\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Cabo%20Anselmo%20-%202009.jpg\" border=\"0\" width=\"352\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Tornou-se \u00eddolo entre eles, amenizando o anonimato da clandestinidade que consumia a sua vaidade. Se n\u00e3o fosse admirado, por que Fleury teria a preocupa\u00e7\u00e3o de modificar-lhe o rosto, gastando em uma cirurgia pl\u00e1stica, j\u00e1 que identificado pela esquerda como delator, n\u00e3o mais servia aos prop\u00f3sitos da repress\u00e3o? Quantos \u201ccachorros\u201d foram submetidos \u00e0 pl\u00e1stica est\u00e9tica? Como justificar a presen\u00e7a perene desses agentes protegendo e acompanhando Anselmo por toda a vida?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ironicamente, Anselmo teve como castigo viver na clandestinidade a maior parte dos seus anos. Se soubesse que os amigos menosprezados retornariam como her\u00f3is quando a ditadura fosse extinta, teria tra\u00eddo? Acreditou que quanto mais militantes mandasse para a morte, estaria livre para um dia, sob a prote\u00e7\u00e3o dos amigos torturadores, voltar aos holofotes? O fato \u00e9 que o Cabo Anselmo, que nunca foi cabo, que se fez admirado por uma gera\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o se deixasse levar pela inf\u00e2mia, poderia ter voltado como her\u00f3i aos holofotes que tanto o extasiava. Voltou como um ser execr\u00e1vel, que al\u00e9m da admira\u00e7\u00e3o de uma contundente minoria de extrema direita emergente nos tempos atuais, \u00e9 visto como um ser desprez\u00edvel. Um rosto infame que causa mais mal estar na m\u00eddia do que curiosidade. Se por tr\u00e1s desta volta estava uma nuvem para tentar desmoralizar a Comiss\u00e3o de Anistia, com certeza que a falta de verve moral, de veracidade no rosto apresentado, n\u00e3o o permitiu. Anselmo foi o grande erro da esquerda, que investiu em um fantoche, pagando caro pela falta de sensibilidade de an\u00e1lise. \u00c9 uma p\u00e1gina que n\u00e3o se pode virar, \u00e9 o lado infame da hist\u00f3ria da esquerda brasileira.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Virtu\u00e1lia &#8211; O Manifesto Digital<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\"><a href=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Cabo%20Anselmo%20-%20Manifesta%C3%A7%C3%A3o%20Marinheiros.jpg\"><\/a><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Em 30 de agosto de 2009 voltava \u00e0 cena nacional uma das personagens mais controversas oriundas da esquerda brasileira, Jos\u00e9 Anselmo dos Santos, ou simplesmente Cabo Anselmo, como passou para a hist\u00f3ria, n\u00e3o por seus atos de hero\u00edsmo, mas por uma vilania de car\u00e1ter psicol\u00f3gico e ideol\u00f3gico que poucas vezes foi registrado nas lutas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":582,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/608"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=608"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/608\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media\/582"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=608"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=608"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=608"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}