{"id":6237,"date":"2013-07-25T16:33:11","date_gmt":"2013-07-25T16:33:11","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/07\/25\/o-movimento-estudantil-no-parana-68-o-ano-que-foi-uma-vida\/"},"modified":"2013-07-25T16:33:11","modified_gmt":"2013-07-25T16:33:11","slug":"o-movimento-estudantil-no-parana-68-o-ano-que-foi-uma-vida","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/07\/25\/o-movimento-estudantil-no-parana-68-o-ano-que-foi-uma-vida\/","title":{"rendered":"O Movimento Estudantil no Paran\u00e1 \u2013 68, o ano que foi uma vida"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Quando se fala em movimento estudantil, logo o tempo recua 40 anos para assistirmos ao filme de 68, como um divisor de \u00e1guas no imagin\u00e1rio das rebeli\u00f5es, dos cercos policiais, barricadas, can\u00e7\u00f5es de protesto e irrever\u00eancias nos costumes. Pode at\u00e9 parecer um exagero \u2013 o tempo n\u00e3o p\u00e1ra e outras gera\u00e7\u00f5es inquietas fizeram sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria enfrentando soldados armados, amados ou n\u00e3o, ressuscitaram a UNE SOMOS N\u00d3S em meio a correrias e gases lacrimog\u00eaneos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-6236\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/zenetti_me.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"270\" style=\"vertical-align: top;\" \/>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Discute-se e at\u00e9 se comparam graus de orfandade pelas utopias perdidas. Este tempo, por pura m\u00e1gica aconteceu naqueles raros momentos de alinhamento dos astros. N\u00e3o se trata de discutir a est\u00e9tica nem o espet\u00e1culo, mas o emblema. Do porque 68 foi t\u00e3o \u00fanico na hist\u00f3ria da democracia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia a guerra do Vietnam, t\u00e3o desigual, t\u00e3o insana. Bambus contra napalm. Em janeiro, os vietcongs surpreendem com a \u201cofensiva do Tet\u201de ocupam no ano novo lunar a embaixada americana em Saigon; em maio, milh\u00f5es de estudantes e trabalhadores franceses tomam Paris, relembram o sonho da Comuna, agora por uma revolu\u00e7\u00e3o cultural \u00e0 busca de um novo destino. Em agosto foi a vez da sustent\u00e1vel leveza dos tchecos que, com flores e mulheres em minissaias, distribu\u00edam panfletos aos sisudos invasores sovi\u00e9ticos. O frescor da revolu\u00e7\u00e3o cubana, a febre do mao\u00edsmo. A terra, em transe. Mar\u00e7o marcava o quarto ano do golpe militar. Havia um clima no ar. Nada a ver com o Brasil. Havia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Curitiba, sem len\u00e7o, sem documento ouvia-se A Banda e o frenesi dos festivais, Jo\u00e3o do Vale pisando na ful\u00f4 num tablado da Casa do Estudante, assistia-se no Teatro Gua\u00edra, Liberdade, Liberdade! e \u2013 na febre do cineclubismo, \u2013 a Um Dia, Um Gato, Deus e o Diabo, Os Companheiros e Vidas Secas. E assim, mais r\u00e1pido, foi fervendo o caldeir\u00e3o arrogante do Reitor Suplicy de Lacerda, antes ministro da Educa\u00e7\u00e3o de Castelo Branco que, de qualquer jeito, queria inaugurar na Escola Pol\u00edt\u00e9cnica o ensino pago no Paran\u00e1. O famigerado acordo MEC-USAID. Antes, como em todo o Brasil, os estudantes foram para a rua protestar contra a sanha da ditadura que havia matado a inoc\u00eancia do secundarista Edson Luis, no Calabou\u00e7o. O ano de 68 come\u00e7ava a 28 de mar\u00e7o. Apesar das diverg\u00eancias, foi um bom ensaio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por obra de um flagrante fotogr\u00e1fico, a luta dos estudantes na Escola Polit\u00e9cnica, ganhou repercuss\u00e3o internacional. Foram algumas centenas contra uma pol\u00edcia armada com ganas de descarregar sua ira diante da ousadia de impedir a inaugura\u00e7\u00e3o de um curso de engenharia pago numa universidade p\u00fablica. A \u00e1rea, afastada do centro da cidade, era um imenso descampado no meio do campus ainda rarefeito, ideal para o exerc\u00edcio da cavalaria. Ainda assim os estudantes ati\u00e7avam os embrutecidos correndo em ziguezague, jogando rolhas de corti\u00e7a para tentar derrubar os cavalos, escapando pelos quintais de moradores assustados. A foto famosa que correu mundo e ganhou Pr\u00eamio Esso, foi Zequinha, estudante de medicina, enfrentando o cavaleiro de espada na m\u00e3o, com um atiradeira (estilingue ou setra, conforme o apelido criado pelo guris). Alguns foram machucados, outros detidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois dias depois, a resposta foi surpreendente, pelo n\u00famero de estudantes \u2013 uns tr\u00eas mil \u2013 e pela surpresa, pode-se dizer, tamb\u00e9m militar, no campo de opera\u00e7\u00e3o. O embate, dessa vez foi dissimulado. Estrategistas, poucas lideran\u00e7as e grupos de apoio se revezaram pela madrugada tratando dos detalhes. Pelas escolas, salas, cantinas e diret\u00f3rios circulou o convite para a concentra\u00e7\u00e3o, bem cedo, na Pra\u00e7a Santos Andrade, de onde sa\u00edam os \u00f4nibus para a Polit\u00e9cnica. Certamente a pol\u00edcia estava l\u00e1 acantonada. Mas tomou-se outra dire\u00e7\u00e3o, a apenas dois quarteir\u00f5es, onde fica a Reitoria da Universidade Federal do Paran\u00e1 &#8211; s\u00edmbolo pol\u00edtico do arb\u00edtrio do ensino superior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ocupa\u00e7\u00e3o foi cinematogr\u00e1fica e impressionante pela velocidade e entrosamento das iniciativas. Como formigueiro politizado, os estudantes tomaram de empr\u00e9stimo dos trabalhadores de um pr\u00e9dio em constru\u00e7\u00e3o, p\u00e9s de cabra e outras ferramentas para retirar os paralelep\u00edpedos e rapidamente ergueram-se barricadas. Carros oficiais que por ali passavam eram imobilizados e um outdoor veio abaixo, com a mesma finalidade \u2013 barreiras de prote\u00e7\u00e3o. Os comandos eram feitos atrav\u00e9s de r\u00e1dios, \u00e0s 8 horas da manh\u00e3 a Reitoria estava tomada e protegida. Enquanto a pol\u00edcia chegava com infantaria e cavalaria, mais estudantes se aglomeravam num c\u00edrculo externo. O momento mais dram\u00e1tico foi a derrubada do busto do reitor, narciso arrastado por jovens imberbes. Tiveram in\u00edcio as negocia\u00e7\u00f5es, com mensageiros at\u00e9 a casa do Governador. Diante da iminente selvageria, prevaleceu o bom senso. E a gratuidade do ensino p\u00fablico. Os conflitos n\u00e3o pararam por a\u00ed. Este foi um feito que merece estar ao lado dos grandes acontecimentos que marcaram o ano de 1968 no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O movimento estudantil do Paran\u00e1 renasceu em 65 e tem caracter\u00edsticas bem curiosas. \u00c0 \u00e9poca do golpe a entidade mais importante, a UPE (Uni\u00e3o Paranaense de Estudantes), estava na m\u00e3o da direita, diferentemente de outros lugares. Aos poucos, ano a ano, sua composi\u00e7\u00e3o foi avan\u00e7ando. Em 66, uma chapa de transi\u00e7\u00e3o e a de 67, uma composi\u00e7\u00e3o com independentes e partidos de esquerda. O DCE, bem como os diret\u00f3rios mais influentes como os de Medicina, Engenharia, Direito e Filosofia, e importantes unidades da Universidade Cat\u00f3lica, neste per\u00edodo j\u00e1 estavam distribu\u00eddos entre as for\u00e7as pol\u00edticas mais reconhecidas, como o PCBR, AP, Dissid\u00eancia Leninista e Polop, ou em m\u00e3os de lideran\u00e7as pr\u00f3ximas a estas correntes. A igreja progressista estava em ebuli\u00e7\u00e3o. Certamente o PCB tinha alguma presen\u00e7a, mas pouco percept\u00edvel, ent\u00e3o. O mesmo aconteceu com in\u00fameras faculdades isoladas em cidades como Ponta Grossa, Londrina e Maring\u00e1 que aos poucos foram se alinhando com os grandes temas e lutas do movimento estudantil brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Umas das disputas mais acirradas que animavam a luta estudantil no Paran\u00e1 era a polariza\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a propostas diferenciadas para o futuro da universidade, retomando o esp\u00edrito das reformas de base preconizadas at\u00e9 antes do golpe. Um acalorado embate te\u00f3rico acontecia em torno da \u201cUniversidade Cr\u00edtica\u201d, proposta pela Polop e grupos mais pr\u00f3ximos \u00e0s teses trotskistas e a \u201cUniversidade Popular\u201d, puxada pela A\u00e7\u00e3o Popular e que tinha certa proximidade com o PCBR.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos militantes do movimento estudantil participavam de panfletagens nos bairros oper\u00e1rios buscando a alian\u00e7a com a \u201cfor\u00e7a dirigente da revolu\u00e7\u00e3o\u201d e deram refor\u00e7os ocasionais ao incipiente movimento banc\u00e1rio. A elei\u00e7\u00e3o da UPE, num confronto acirrado entre dois subgrupos de esquerda, foi vencida pela Dissid\u00eancia Leninista e aliados, mas pouco p\u00f4de exercitar: com a queda do 30\u00ba Congresso da UNE e imposi\u00e7\u00e3o do AI-5, logo em seguida, colocou as entidades mais combativas na ilegalidade e muitas lideran\u00e7as na clandestinidade. Restou a dif\u00edcil op\u00e7\u00e3o entre reconstruir um movimento de massas e a resist\u00eancia armada. De fato, o ano acabou a 13 de Dezembro. Nunca nevou tanto como naquele Natal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando se fala em movimento estudantil, logo o tempo recua 40 anos para assistirmos ao filme de 68, como um divisor de \u00e1guas no imagin\u00e1rio das rebeli\u00f5es, dos cercos policiais, barricadas, can\u00e7\u00f5es de protesto e irrever\u00eancias nos costumes. 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