{"id":6595,"date":"2013-10-09T21:55:04","date_gmt":"2013-10-09T21:55:04","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/10\/09\/50-anos-depois-vitimas-exibem-no-corpo-e-na-alma-marcas-do-massacre-de-ipatinga\/"},"modified":"2013-10-09T21:55:04","modified_gmt":"2013-10-09T21:55:04","slug":"50-anos-depois-vitimas-exibem-no-corpo-e-na-alma-marcas-do-massacre-de-ipatinga","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/10\/09\/50-anos-depois-vitimas-exibem-no-corpo-e-na-alma-marcas-do-massacre-de-ipatinga\/","title":{"rendered":"50 anos depois, v\u00edtimas exibem no corpo e na alma marcas do Massacre de Ipatinga"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">H\u00e9lio tem at\u00e9 hoje, alojada no corpo, a bala que quase tirou sua vida. Eva lutou muito para deixar de ser &#8220;a filha do homem que morreu na greve&#8221; e se tornar professora e psic\u00f3loga p\u00f3s-graduada. Aloisio busca saber sobre o massacre para descobrir quem era o pai que ele n\u00e3o conheceu. Maria volta no tempo todo dia 7 de outubro.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-6594\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/PUBLICO.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"200\" \/>  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Cada uma das 18 v\u00edtimas e testemunhas que prestaram depoimento hoje \u00e0 Comiss\u00e3o Nacional da Verdade na audi\u00eancia p\u00fablica sobre os 50 anos do Massacre de Ipatinga sentiu de maneira diferente os efeitos das rajadas de metralhadora desferidas por policiais militares, na porta da Usiminas, numa manh\u00e3 fria e chuvosa de 7 de outubro de 1963, contra milhares de trabalhadores que protestavam contra a viol\u00eancia empregada pela pol\u00edcia e seguran\u00e7as da estatal contra os funcion\u00e1rios da companhia nos alojamentos da empresa.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Assim como em 1963 hoje choveu no Vale do A\u00e7o, a regi\u00e3o de Minas Gerais em que fica Ipatinga. Apesar disso, a \u00e1gua n\u00e3o intimidou que idosos entre 60 a 90 anos dessem seus testemunhos. Cada um deles trouxe para a audi\u00eancia as marcas do massacre que ficaram em seus corpos e mentes.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O caso \u00e9 investigado pela Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, pois a CNV apura as graves viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988. O evento foi co-organizado pelo F\u00f3rum Mem\u00f3ria e Verdade do Vale do A\u00e7o e teve a participa\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o da Verdade do Estado de Minas Gerais que cooperar\u00e1 com a CNV no restante das apura\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/fbcdn-sphotos-b-a.akamaihd.net\/hphotos-ak-prn2\/1376335_519949008098926_8076727_n.png\" border=\"0\" width=\"700\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;O Massacre de Ipatinga foi legitimado pelos governos militares, pois foi na ditadura que o que foi apurado no inqu\u00e9rito policial militar foi julgado e os policiais indiciados, absolvidos&#8221;, afirmou Rosa Cardoso, coordenadora do grupo de trabalho Ditadura e Repress\u00e3o aos Trabalhadores e ao Movimento Sindical, respons\u00e1vel pela investiga\u00e7\u00e3o sobre o massacre.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Segundo Rosa, o caso &#8220;\u00e9 exemplar para a hist\u00f3ria do movimento oper\u00e1rio e da classe trabalhadora brasileira, pois aprofunda o car\u00e1ter de classe da ditadura e o quadro de injusti\u00e7a social do golpe que ocorreu meses depois. Os trabalhadores eram tratados como animais naquela \u00e9poca, mas hoje continuam sendo tratados como cidad\u00e3os de terceira classe. Se o massacre tivesse ocorrido contra a classe m\u00e9dia, o tratamento que ele teria recebido seria completamente diferente&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Membro da Comiss\u00e3o da Verdade de Minas Gerais, o ex-metal\u00fargico e jornalista Jurandir Persichini Cunha sentiu tr\u00eas vezes a viol\u00eancia: primeiro como testemunha da viol\u00eancia nos alojamentos, depois ao escapar dos tiros na porta da sider\u00fargica e, pela \u00faltima vez, como jornalista sindical. &#8220;Em 1967, trouxe de Belo Horizonte para Ipatinga exemplares do jornal A Verdade, com mat\u00e9ria sobre os 4 anos do massacre. Por isso, fui preso e torturado&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Rossi do Nascimento afirma sentir-se incomodado por trafegar h\u00e1 35 anos pela avenida Magalh\u00e3es Pinto (governador de Minas Gerais e, portanto, comandante da PM na \u00e9poca do massacre) toda vez que vai ao cemit\u00e9rio lembrar do pai, Jos\u00e9 Isabel do Nascimento. Funcion\u00e1rio de uma empresa terceirizada da Usiminas, o pai de Rossi \u00e9 o autor de uma das imagens ic\u00f4nicas daquela manh\u00e3: a de um PM em cima da carroceria de um caminh\u00e3o, empunhando uma metralhadora. Ele morreu dez dias depois, em consequ\u00eancia dos ferimentos sofridos. &#8220;A Usiminas, aqui na nossa regi\u00e3o, mandava prender e mandava soltar, s\u00f3 que nesse dia mandou matar&#8221;, disse.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">TRAUMAS \u2013 Lutar todos dias com a lembran\u00e7a e sobreviver foi o resumo da vida da professora Eva Reis. &#8220;Eu era a filha do homem que morreu na greve. Foi assim que eu fui conhecida durante muitos anos&#8221;, contou. Ela \u00e9 filha de Ant\u00f4nio Jos\u00e9 dos Reis, morto com um tiro na nuca quando fugia do local em que tombaram a maior parte dos mortos oficiais, no antigo port\u00e3o dois da Usiminas. &#8220;N\u00e3o \u00e9 uma alegria estar aqui. \u00c9 um sofrimento, mas \u00e9 um compromisso. E eu acredito que quando a gente faz uma reflex\u00e3o sobre a hist\u00f3ria, a gente n\u00e3o pode modifica-la, mas pode mudar o presente&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">De forma parecida reagiu Maria Concei\u00e7\u00e3o Felipe Ferreira, que perdeu o pai, Alvino Ferreira Felipe, aos 15 anos e teve que tornar-se a respons\u00e1vel pelo sustento da fam\u00edlia. Segundo ela, a Usiminas ajudou com uma cesta b\u00e1sica at\u00e9 que seu irm\u00e3o mais novo completasse 18 anos, quando a ajuda teria sido &#8220;convertida&#8221; em um emprego para este irm\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Alo\u00edsio Souza de Jesus e Cruz s\u00f3 descobriu o massacre em 2005, quando saiu \u00e0 procura da fam\u00edlia de seu pai, em busca de suas ra\u00edzes. Pela m\u00e3e soube apenas que o pai, que havia deixado a fam\u00edlia em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida teria morrido nas m\u00e3os de um sargento. Ap\u00f3s muita pesquisa encontrou na Bahia duas testemunhas da morte do pai dele, Jesulino Fran\u00e7a de Souza. Eles contaram que Souza foi executado por um PM durante a fuga dos trabalhadores da usina ap\u00f3s os disparos. O corpo da v\u00edtima, entretanto, nunca foi encontrado e n\u00e3o faz parte da lista oficial de mortos no massacre. Na sua busca, Alo\u00edsio descobriu que in\u00fameros nordestinos deixaram Ipatinga ap\u00f3s a chacina com medo da viol\u00eancia da empresa e da pol\u00edcia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Concei\u00e7\u00e3o Maia Ribeiro Fl\u00e1via tamb\u00e9m reclama um desaparecido, seu irm\u00e3o Jo\u00e3o Fl\u00e1vio Neto. &#8220;Ele saiu de casa para trabalhar no in\u00edcio de outubro de 1963 e nunca mais voltou&#8221;. Neto tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 na lista de mortos oficiais.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Apesar de tantos relatos de morte e dor, alguns tiveram sorte e bom humor. Foi o caso de H\u00e9lio Mateus Ferreira, cuja carteira de couro, no bolso de tr\u00e1s da cal\u00e7a, impediu que ele se ferisse com gravidade. At\u00e9 hoje Ferreira convive com um bala alojada no corpo e com as lembran\u00e7as da velha carteira de couro marrom e forro vermelho de cetim, guardada com carinho. &#8220;Guardei parte do dinheiro que havia na carteira tamb\u00e9m, as notas mi\u00fadas, pois as grandes eu gastei&#8221;, disse.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">RESPOSTAS E D\u00daVIDAS \u2013 A Usiminas e a Pol\u00edcia Militar de Minas Gerais foram chamadas pela CNV para prestar esclarecimentos na audi\u00eancia. O representante da companhia sider\u00fargica, privatizada em 1991, Afonso Celso Flecha de Lima \u00c1lvares n\u00e3o respondeu as quest\u00f5es da Comiss\u00e3o e da Comiss\u00e3o da Verdade de MG, mas disse que a empresa est\u00e1 comprometida em ajudar. &#8220;A Usiminas n\u00e3o se furtar\u00e1 a prestar informa\u00e7\u00f5es e j\u00e1 pedimos que o RH e os arquivos fa\u00e7am uma busca em torno de documentos que possam esclarecer os fatos&#8221;, disse \u00c1lvares.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">De toda forma, Alvares levou para a empresa a lista de pedidos de informa\u00e7\u00f5es da CNV e aa Comiss\u00e3o de MG: lista dos 47 feridos diretamente contratados pela Usiminas, lista dos feridos atendidos no ambulat\u00f3rio da Usiminas, nota fiscal dos caix\u00f5es comprados pela empresa e os pedidos de sangue para as v\u00edtimas nos hospitais, lista de empresas terceirizadas que trabalhavam para a Usiminas na \u00e9poca, arquivos da vigil\u00e2ncia privada da Usiminas, lista de contratos e acordos da empresa na \u00e9poca, c\u00f3pias de escrituras de todas as \u00e1reas relacionadas ao massacre, arquivos produzidos em 63 e posteriores, que continuam na empresa, sobre o massacre.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 o coronel Eduardo C\u00e9sar Reis, representante da Pol\u00edcia Militar, entregou \u00e0 CNV c\u00f3pia do inqu\u00e9rito policial militar que tramitou entre 1963 3 1964. Segundo o coronel, a Pol\u00edcia Militar de Minas Gerais indiciou 20 policiais no IPM e encaminhou os resultados da investiga\u00e7\u00e3o \u00e0 Justi\u00e7a Militar em 1964. Nenhum policial, por\u00e9m, foi condenado pela Justi\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A CNV fez tamb\u00e9m uma s\u00e9rie de requisi\u00e7\u00f5es \u00e0 PM. O objetivo dos pedidos feitos ao comando da PM e \u00e0 companhia \u00e9 tentar obter mais informa\u00e7\u00f5es sobre o massacre. Sabe-se que pelo menos 32 caix\u00f5es foram encomendados pela companhia, pois uma testemunha relatou isso ao jornalista Marcelo Freitas, autor do livro &#8220;N\u00e3o Foi por Acaso&#8221;, sobre o mortic\u00ednio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Entretanto, alguns dos depoimentos prestados \u00e0 CNV indicam que o n\u00famero de v\u00edtimas pode ser muito maior e que a viol\u00eancia na empresa n\u00e3o se restringiu ao seu per\u00edodo de forma\u00e7\u00e3o da Usiminas e que houve muitas pris\u00f5es e monitoramento ap\u00f3s a implanta\u00e7\u00e3o da ditadura.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Jarbas da Silva, que trabalhava no almoxarifado da Usiminas, acredita que mais de 80 pessoas teriam sido assassinadas no massacre. Ele estava dentro da empresa no momento do tiroteio e afirma que pessoas tamb\u00e9m morreram na fuga, afogadas no rio Doce.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;O massacre n\u00e3o foi s\u00f3 no dia 7. Era uma constante no nosso dia-a-dia. V\u00ednhamos trabalhar durante o dia, sonhando \u00e0 noite com nossa fam\u00edlia longe, mas eles montaram um quartel aqui, um laborat\u00f3rio da ditadura&#8221;, afirma Jos\u00e9 Horta de Carvalho, sobrevivente do massacre. Segundo ele, a PM fazia parte do cotidiano da empresa, revistando empregados na sa\u00edda dos turnos e perseguindo-os at\u00e9 o alojamento.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Seu depoimento \u00e9 corroborado por Jurandir Persichini e pelo historiador Edivaldo Fernandes. Ambos relatam que as agress\u00f5es e humilha\u00e7\u00f5es praticadas por policiais e seguran\u00e7as eram comuns e que atingiram seu auge na v\u00e9spera do massacre, quando a cavalaria invadiu o alojamento dos trabalhadores, prendeu mais de 170 deles, os agrediu e os humilhou.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A promiscuidade entre a PM e a empresa era grande e confirmada at\u00e9 por colaboradores de ambas, caso do motorista Clay Villian, apesar de negada pelos representantes da empresa e da PM hoje na audi\u00eancia. Ele admitiu que seu caminh\u00e3o, destru\u00eddo pelos manifestantes ap\u00f3s o massacre, foi contratado pela Usiminas, 40 dias antes, e &#8220;fichado na empresa exclusivamente para atender a cavalaria da PM&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Comiss\u00e3o Nacional da Verdade &#8211;\u00a0Assessoria de Comunica\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e9lio tem at\u00e9 hoje, alojada no corpo, a bala que quase tirou sua vida. Eva lutou muito para deixar de ser &#8220;a filha do homem que morreu na greve&#8221; e se tornar professora e psic\u00f3loga p\u00f3s-graduada. Aloisio busca saber sobre o massacre para descobrir quem era o pai que ele n\u00e3o conheceu. 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