{"id":667,"date":"2012-05-24T13:26:17","date_gmt":"2012-05-24T13:26:17","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/24\/1964-golpe-militar-a-servico-do-golpe-de-classe\/"},"modified":"2012-05-24T13:26:17","modified_gmt":"2012-05-24T13:26:17","slug":"1964-golpe-militar-a-servico-do-golpe-de-classe","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/24\/1964-golpe-militar-a-servico-do-golpe-de-classe\/","title":{"rendered":"1964: Golpe Militar a servi\u00e7o do Golpe de Classe"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>O objeto da Comiss\u00e3o da Verdade deve sim, tratar dos crimes e dos desaparecimentos perpetrados pelos agentes do Estado ditatorial. \u00c9 sua tarefa prec\u00edpua e estatut\u00e1ria. Mas n\u00e3o pode se reduzir a estes fatos. H\u00e1 o risco de os ju\u00edzos serem pontuais. Precisa-se analisar o contexto maior que permite entender a l\u00f3gica da viol\u00eancia estatal e que explica a sistem\u00e1tica produ\u00e7\u00e3o de v\u00edtimas. Mais ainda, deixa claro o trauma nacional que significou viver sob suspeitas, den\u00fancias, espionagem e medo paralisador.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Neste sentido, v\u00edtimas n\u00e3o foram apenas os que sentiram em seus corpos e nas suas mentes a trucul\u00eancia dos agentes do Estado. V\u00edtimas foram todos os cidad\u00e3os. Foi toda a na\u00e7\u00e3o brasileira. Para que a miss\u00e3o da Comiss\u00e3o da Verdade seja completa e satisfat\u00f3ria, caberia a ela fazer um ju\u00edzo \u00e9tico-pol\u00edtico sobre todo o per\u00edodo do regime militar.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Importa assinalar claramente que o assalto ao poder foi um crime contra a constitui\u00e7\u00e3o. Configurou uma ocupa\u00e7\u00e3o violenta de todos os aparelhos de Estado para, a partir deles, montar uma ordem regida por atos institucionais, pela repress\u00e3o e pelo estado de terror.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Bastava a suspeita de algu\u00e9m ser subversivo para ser tratado como tal. Mesmo detidos e sequestrados por engano como inocentes camponeses, para logo serem seviciados e torturados. Muitos n\u00e3o resistiram e sua morte equivale a um assassinato. N\u00e3o devemos deixar passar ao largo, os esquecidos dos esquecidos que foram os 246 camponeses mortos ou desaparecidos entre 1964-1979.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O que os militares cometeram foi um crime lesa-p\u00e1tria. Alegam que se tratava de uma guerra civil, um lado querendo impor o comunismo e o outro defendendo a ordem democr\u00e1tica. Esta alega\u00e7\u00e3o n\u00e3o se sustenta. O comunismo nunca representou entre n\u00f3s uma amea\u00e7a real. Na histeria do tempo da guerra-fria, todos os que queriam reformas na perspectiva dos historicamente condenados e ofendidos \u2013as grandes maiorias oper\u00e1rias e camponesas\u2013 eram logo acusados de comunistas e de marxistas, mesmo que fossem bispos como o insuspeito Dom Helder C\u00e2mara. Contra eles n\u00e3o cabia apenas a vigil\u00e2ncia, mas para muitos a persegui\u00e7\u00e3o, a pris\u00e3o, o interrogat\u00f3rio aviltante, o pau-de-arara feroz, os afogamentos desesperadores. Os alegados &#8220;suic\u00eddios\u201d camuflavam apenas o puro e simples assassinato. Em nome do combate ao perigo comunista, se assumiu a pr\u00e1tica comunista-estalinista da brutaliza\u00e7\u00e3o dos detidos. Em alguns casos se incorporou o m\u00e9todo nazista de incinerar cad\u00e1veres como admitiu o ex-agente do Dops de S\u00e3o Paulo, Cl\u00e1udio Guerra.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O grande perigo para o Brasil sempre foi o capitalismo selvagem. Usando palavras de Capistrano de Abreu, nosso historiador mulato, &#8220;capou e recapou, sangrou e ressangrou\u201d as grandes maiorias de nosso povo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O Estado ditatorial militar, por mais obras que tenha realizado, fez regredir pol\u00edtica e culturalmente o Brasil. Expulsou ou obrigou ao ex\u00edlio nossas intelig\u00eancias e nossos artistas mais brilhantes. Afogou lideran\u00e7as pol\u00edticas e ensejou o surgimento de s\u00facubos que, oportunistas e destitu\u00eddos de \u00e9tica e de brasilidade, se venderam ao poder ditatorial em troca benesses que v\u00e3o de esta\u00e7\u00f5es de r\u00e1dio a canais de televis\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os que deram o golpe de Estado devem ser responsabilizados moralmente por esse crime coletivo contra o povo brasileiro.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os militares j\u00e1 fora do poder garantiram sua impunidade e intangibilidade gra\u00e7as \u00e0 forjada anistia geral e irrestrita para ambos os lados. Em nome deste status, resistem e fazem amea\u00e7as, como se tivessem algum poder de interven\u00e7\u00e3o que, na verdade \u00e9 inexistente e vazio. A melhor resposta \u00e9 o sil\u00eancio e o desd\u00e9m nacional para a vergonha internacional deles.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os militares que deram o golpe se imaginam que foram eles os principais protagonistas desta fa\u00e7anha nada gloriosa. Na sua indig\u00eancia anal\u00edtica, mal suspeitam que foram, de fato, usados por for\u00e7as muito maiores que as deles.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ren\u00e9 Armand Dreifuss escreveu em 1980 sua tese de doutorado na Universidade de Glasgow com o t\u00edtulo: 1964: A conquista do Estado, a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, poder e golpe de classe (Vozes 1981). Trata-se de um livro com 814 p\u00e1ginas das quais 326 de documentos originais. Por estes documentos fica demonstrado: o que houve no Brasil n\u00e3o foi um golpe militar, mas um golpe de classe com uso da for\u00e7a militar.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A partir dos anos 60 do s\u00e9culo passado, se formou o complexo IPES\/IBAD\/GLC. Explico: o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), o Instituto Brasileiro de A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica (IBAD) e o Grupo de Levantamento de Conjuntura (GLC). Compunham uma rede nacional que disseminava ideias golpistas, composta por grandes empres\u00e1rios multinacionais, nacionais, alguns generais, banqueiros, \u00f3rg\u00e3os de imprensa, jornalistas, intelectuais, a maioria listados no livro de Dreifuss. O que os unificava, diz o autor &#8220;eram suas rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas multinacionais e associadas, o seu posicionamento anticomunista e a sua ambi\u00e7\u00e3o de readequar e reformular o Estado\u201d(p.163) para que fosse funcional a seus interesses corporativos. O inspirador deste grupo era o General Golbery de Couto e Silva que j\u00e1 em &#8220;em 1962 preparava um trabalho estrat\u00e9gico sobre o assalto ao poder\u201d (p.186).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A conspira\u00e7\u00e3o, pois estava em marcha, h\u00e1 bastante tempo. Aproveitando-se da confus\u00e3o pol\u00edtica criada ao redor do Presidente Jo\u00e3o Goulart, tido como o portador do projeto comunista, este grupo viu a ocasi\u00e3o apropriada para realizar seu projeto. Chamou os militares para darem o golpe e tomarem de assalto o Estado. Foi, portanto, um golpe da classe dominante, nacional e multinacional, usando o poder militar.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Conclui Dreifuss: &#8220;O ocorrido em 31 de mar\u00e7o de 1964 n\u00e3o foi um mero golpe militar; foi um movimento civil-militar; o complexo IPES\/IBAD e oficiais da ESG (Escola Superior de Guerra) organizaram a tomada do poder do aparelho de Estado\u201d (p. 397). Especificamente afirma: &#8220;A hist\u00f3ria do bloco de poder multinacional e associados come\u00e7ou a 1\u00ba de abril de 1964, quando os novos interesses realmente tornaram-se Estado, readequando o regime e o sistema pol\u00edtico e reformulando a economia a servi\u00e7o de seus objetivos\u201d (p.489). Todo o aparato de controle e repress\u00e3o era acionado em nome da Seguran\u00e7a Nacional que, na verdade, significava a Seguran\u00e7a do Capital.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os militares inteligentes e nacionalistas de hoje deveriam dar-se conta de como foram usados por aquelas elites olig\u00e1rquicas que n\u00e3o buscavam realizar os interesses gerais do Brasil; mas, sim, alimentar sua voracidade particular de acumula\u00e7\u00e3o, sob a prote\u00e7\u00e3o do regime autorit\u00e1rio dos militares.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Comiss\u00e3o da Verdade prestaria esclarecedor servi\u00e7o ao pa\u00eds se trouxesse \u00e0 luz esta trama. Ela simplesmente cumpriria sua miss\u00e3o de ser Comiss\u00e3o da Verdade. N\u00e3o apenas da verdade de fatos individualizados; mas, da verdade do fato maior da domina\u00e7\u00e3o de uma classe poderosa, nacional, associada \u00e0 multinacional, para, sob a \u00e9gide do poder discricion\u00e1rio dos militares, tranquilamente, realizar seus prop\u00f3sitos corporativos de acumula\u00e7\u00e3o. Isso nos custou 21 anos de priva\u00e7\u00e3o da liberdade, muitos mortos e desaparecidos e de muito padecimento coletivo.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Carta O Berro<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O objeto da Comiss\u00e3o da Verdade deve sim, tratar dos crimes e dos desaparecimentos perpetrados pelos agentes do Estado ditatorial. \u00c9 sua tarefa prec\u00edpua e estatut\u00e1ria. Mas n\u00e3o pode se reduzir a estes fatos. H\u00e1 o risco de os ju\u00edzos serem pontuais. 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