{"id":680,"date":"2012-05-24T13:45:03","date_gmt":"2012-05-24T13:45:03","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/24\/autor-conta-bastidores-da-guerra-suja\/"},"modified":"2012-05-24T13:45:03","modified_gmt":"2012-05-24T13:45:03","slug":"autor-conta-bastidores-da-guerra-suja","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/24\/autor-conta-bastidores-da-guerra-suja\/","title":{"rendered":"Autor conta bastidores da \u201cGuerra Suja\u201d"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O Conversa Afiada reproduz post da <a href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=20188\">Carta Maior:<span class=\"s1\"><br \/> <\/span><\/a><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Autor revela os bastidores do livro \u201cMem\u00f3rias de uma Guerra Suja\u201d<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\" \/>\u00c0 Carta Maior, Rog\u00e9rio Medeiros relembra o primeiro contato com o ex-delegado do Dops do Esp\u00edrito Santo, que culminou na publica\u00e7\u00e3o de \u201cMem\u00f3rias de uma Guerra Suja\u201d, em parceria com Marcelo Netto. O livro \u00e9 composto por uma s\u00e9rie de depoimentos em primeira pessoa, nos quais Cl\u00e1udio Ant\u00f4nio Guerra, hoje com 71 anos, admite participa\u00e7\u00e3o em crimes na ditadura, al\u00e9m de revelar nomes que compunham os \u00f3rg\u00e3os respons\u00e1veis pela repress\u00e3o.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.conversaafiada.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/claudio-guerra_guerra-suja1.jpg\" border=\"0\" width=\"600\" height=\"200\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u201cEle estava muito magro, esquel\u00e9tico. Na maca do hospital, vestindo o uniforme presidi\u00e1rio me disse que queria falar tudo. Contou que era outro homem, um novo Cl\u00e1udio Guerra, e queria entregar sua vida pra eu escrever. Tomei um susto\u201d. O jornalista Rog\u00e9rio Medeiros relembra o primeiro contato com o ex-delegado do Departamento de Ordem Pol\u00edtica Social (DOPS) do Esp\u00edrito Santo, que culminou na publica\u00e7\u00e3o do livro \u201cMem\u00f3rias de uma Guerra Suja\u201d (Editora Topbooks, R$ 44), em parceria com Marcelo Netto.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O livro \u00e9 composto por uma s\u00e9rie de depoimentos em primeira pessoa nos quais Cl\u00e1udio Ant\u00f4nio Guerra, hoje com 71 anos, admite participa\u00e7\u00e3o em crimes cometidos nas d\u00e9cadas de 70 e 80, al\u00e9m de revelar nomes que compunham os \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o no per\u00edodo militar. O ex-delegado confessa, por exemplo, que incinerou 11 corpos de militantes pol\u00edticos em uma usina de cana-de-a\u00e7\u00facar no norte do Rio de Janeiro em 1973, entre eles o de Ana Rosa Kucinski e David Capistrano. Admite que esteve na reuni\u00e3o em que foi determinada a morte do delegado do Dops de S\u00e3o Paulo, S\u00e9rgio Fleury em 1979, e sua participa\u00e7\u00e3o no atentado contra o show de 1\u00ba de maio no Pavilh\u00e3o do Riocentro, dois anos depois. Tamb\u00e9m revela sua participa\u00e7\u00e3o no assassinato do jornalista Alexandre Von Boungarten e denuncia outros projetos que visavam a implanta\u00e7\u00e3o definitiva da ditadura militar no Brasil.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Ainda na d\u00e9cada de 70, Rog\u00e9rio Medeiros fez uma vasta investiga\u00e7\u00e3o sobre Cl\u00e1udio Guerra: desde sua trajet\u00f3ria como oficial de justi\u00e7a no interior do Esp\u00edrito Santo at\u00e9 a entrada na pol\u00edcia e sua consolida\u00e7\u00e3o com um dos mais importantes homens do Dops. Foram publicadas uma s\u00e9rie de reportagens no Jornal do Brasil que desmistificaram a imagem de Guerra, que at\u00e9 ent\u00e3o era visto como \u201cdefensor da ordem e dos bons costumes\u201d. Foi revelada sua liga\u00e7\u00e3o com o crime organizado, a participa\u00e7\u00e3o em uma a\u00e7\u00e3o que culminou na morte de 43 pessoas, entre trabalhadores e lideran\u00e7as rurais, e acusa\u00e7\u00f5es de queima de arquivos p\u00fablicos. \u201cA mat\u00e9ria que escrevi para o JB colocava em jogo essa imagem de justiceiro, combatente do crime. E a\u00ed ele cai na esparrela. O governador Max Mauro fez o inqu\u00e9rito e entregou \u00e0 pol\u00edcia federal. Ele [Guerra] surge como chefe do crime organizado e em seguida vai preso\u201d, conta Medeiros.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A condena\u00e7\u00e3o de Guerra tamb\u00e9m adv\u00e9m de sua rela\u00e7\u00e3o estreita com o assassinato do bicheiro Jonathas Borlamarques de Souza em 1982, al\u00e9m de sua liga\u00e7\u00e3o com a pr\u00e1tica do jogo ilegal. O ex-delegado do Dops \u00e9 acusado, ainda, de matar sua primeira esposa e ex-cunhada em 1980, crime pelo qual ele alega inoc\u00eancia at\u00e9 hoje e cuja condena\u00e7\u00e3o continua em aberto.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s sete anos na pris\u00e3o, Guerra \u00e9 transferido para uma casa de repouso, onde cumpre liberdade condicional. \u201cNa cadeia eu passei a conhecer Jesus. Ao me aprofundar no conhecimento da palavra do Senhor, vi a necessidade de caminhar para al\u00e9m do perd\u00e3o. E assim resolvi vir a p\u00fablico revelar todos os meus atos quando trabalhei em favor do regime militar. Aquilo que para mim era matar um inimigo ficou claro, com Jesus, n\u00e3o passar de crime hediondo, que a partir de agora todos v\u00e3o conhecer. (\u2026) Passei a acreditar que poderia ter uma vida nova, na companhia de deus. Agora minha luta \u00e9 esta: ter uma vida normal. Estou em paz\u201d. Hoje Guerra \u00e9 pastor da igreja Assembl\u00e9ia de Deus em Vit\u00f3ria (ES).<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A confec\u00e7\u00e3o do livro levou cerca de tr\u00eas anos. Embates e atritos ocorreram antre os jornalistas e o relator, consequ\u00eancia da dificuldade de apura\u00e7\u00e3o dos fatos, da relut\u00e2ncia em resgatar uma mem\u00f3ria t\u00e3o antiga e o receio de denunciar nomes ainda em voga no cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro. \u201cOu diz tudo ou n\u00e3o diz nada\u201d, essa foi a frase proferida por Medeiros diante dos temores de Guerra. O jornalista tamb\u00e9m comenta o fato de o livro ser narrado em primeira pessoa, foco de discuss\u00e3o entre os profissionais no processo de composi\u00e7\u00e3o das mem\u00f3rias: \u201cEle tinha que falar em primeira pessoa, ele tinha que dizer que matou. N\u00e3o adianta nada n\u00f3s escrevermos que ele fez isso, fez aquilo\u2026 Isso para poder ser coerente at\u00e9 com seu discurso de que est\u00e1 deixando tudo isso pra tr\u00e1s e entrando em outra vida \u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A liga\u00e7\u00e3o entre Guerra e Medeiros embasa-se em crit\u00e9rios estritamente profissionais, diz o jornalista. Ele conta que em todos os encontros manteve uma dist\u00e2ncia de seu entrevistado, tratando-o como um \u201ccriminoso\u201d, fato que tamb\u00e9m foi motivo de impasses durante a organiza\u00e7\u00e3o do livro. \u201cEu n\u00e3o estou aqui para defender o Cl\u00e1udio. Eu fiz o meu papel de pegar os fatos e averiguar para ver se eles tinham mesmo acontecido. Eu n\u00e3o tenho uma rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima com ele. Eu trabalhei com ele. Depois da publica\u00e7\u00e3o do livro n\u00f3s n\u00e3o mantemos contato\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Marcelo Netto, que segundo a editora do livro, a Topbooks, recusa-se a dar entrevistas, construiu outro tipo de rela\u00e7\u00e3o com seu entrevistado. Na apresenta\u00e7\u00e3o do livro escreve: \u201cEm nossas longas conversas pessoais e pelo Skype tentei entender o que ia dentro da sua cabe\u00e7a. Fustigava sua mem\u00f3ria, mas procurava compreender a sua f\u00e9 e o que o motivava a falar depois de tanto tempo. (\u2026) Prometi que, na medida do poss\u00edvel, vou estar ao seu lado na caminhada que come\u00e7a com a publica\u00e7\u00e3o do seu depoimento\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Na mesma apresenta\u00e7\u00e3o, Netto faz men\u00e7\u00e3o ao jornal Folha de S. Paulo e \u00e0s Organiza\u00e7\u00f5es Globo, bem como a seus respectivos dirigentes, Paulo Frias e Roberto Marinho, agradecendo-os pela import\u00e2ncia que tiveram na sua forma\u00e7\u00e3o profissional e revelando sua rela\u00e7\u00e3o \u00edntima com ambos. As duas p\u00e1ginas nas quais o jornalista escreve seu agradecimento tamb\u00e9m cont\u00e9m trechos em que o autor pede, de certa forma, desculpas pelo conte\u00fado do livro.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">H\u00e1, nos relatos de Guerra, partes em que revela a participa\u00e7\u00e3o da Folha em atentados contra militantes pol\u00edticos em S\u00e3o Paulo e a presen\u00e7a constante de Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio de Oliveira Sobrinho, o Boni, chefe de dire\u00e7\u00e3o de programa\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o da TV Globo, na sauna em que os militares e simpatizantes do regime se encontravam para planejar a\u00e7\u00f5es que visavam a implanta\u00e7\u00e3o definitiva da ditadura no Brasil.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A quebra do sil\u00eancio de Guerra, para Netto, representa um importante passo para a consolida\u00e7\u00e3o da democracia no pa\u00eds. \u201cOs militares n\u00e3o devem ter medo de conviver com os erros de um passado que acabou levando, por caminhos tortos, a um Brasil melhor\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Ex-militares e componentes da Comunidade de Informa\u00e7\u00e3o, \u201cconjunto de \u00f3rg\u00e3os estatais respons\u00e1veis pela seguran\u00e7a interna do pa\u00eds e pelo combate \u00e0 subvers\u00e3o\u201d, citados por Guerra, alegam que os relatos do ex-delegado s\u00e3o falaciosos. O coronel Juarez e o coronel Ustra anunciaram publicamente que n\u00e3o o conhecem. Mas Guerra respondeu que est\u00e1 disposto a enfrent\u00e1-los na Comiss\u00e3o da Verdade.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A aus\u00eancia de seu nome em listas de entidades de defesa dos direitos humanos explicaria-se porque ele n\u00e3o era considerado um torturador, e sim um matador. Outro fator que explicaria a inexist\u00eancia do nome de Guerra nesses documentos \u00e9 o uso frequente de codinomes como Dr. Reinaldo e Stanislau Meirelles. Muitos afirmam, por\u00e9m, que o depoimento \u00e9 fruto de um surto de loucura. Medeiros desmente: \u201cEle est\u00e1 completamente consciente do que est\u00e1 fazendo. Nos tr\u00eas anos que convivemos isso ficou claro pra n\u00f3s \u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Segundo Guerra, foi a f\u00e9 reavivada na cadeia o motivo pelo qual revelou seu passado publicamente. \u201cCl\u00e1udio quer deixar o passado pra tr\u00e1s e entrar em uma vida religiosa. Ele quer fazer isso. N\u00e3o estou dizendo que \u00e9 poss\u00edvel\u201d, afirma Medeiros. O jornalista, no entanto, n\u00e3o acredita que o discurso do ex-delegado seja pautado apenas por motivos religiosos: \u201cPor renome. Ele come\u00e7ou a contar tudo porque passou a conviver estritamente com a m\u00eddia. De repente resolveu fazer carreira como personalidade, como pastor. Ele quis sair fora do passado. Ele n\u00e3o quer se situar como se fosse um homem em busca de perd\u00e3o, que tivesse arrependido. \u00c9 assim: a vida para tr\u00e1s \u00e9 essa e daqui pra frente eu vou ter outra vida\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Guerra saiu da casa de idosos em Vit\u00f3ria, onde estava hospedado, e recusa-se a dar entrevistas. Afirmou que s\u00f3 vai aparecer em p\u00fablico depois que for \u00e0 Comiss\u00e3o da Verdade.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Conversa Afiada<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Conversa Afiada reproduz post da Carta Maior: Autor revela os bastidores do livro \u201cMem\u00f3rias de uma Guerra Suja\u201d \u00c0 Carta Maior, Rog\u00e9rio Medeiros relembra o primeiro contato com o ex-delegado do Dops do Esp\u00edrito Santo, que culminou na publica\u00e7\u00e3o de \u201cMem\u00f3rias de uma Guerra Suja\u201d, em parceria com Marcelo Netto. 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