{"id":6894,"date":"2014-02-07T01:13:21","date_gmt":"2014-02-07T01:13:21","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/02\/07\/os-setenta-anos-do-cartunista-henfil\/"},"modified":"2014-02-07T01:13:21","modified_gmt":"2014-02-07T01:13:21","slug":"os-setenta-anos-do-cartunista-henfil","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/02\/07\/os-setenta-anos-do-cartunista-henfil\/","title":{"rendered":"Os setenta anos do cartunista Henfil"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Tra\u00e7o r\u00e1pido do mineiro fustigava medo generalizado buscando brechas na censura<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-6892\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/henfil1.jpg\" border=\"0\" width=\"292\" height=\"280\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<address \/>O cartunista Henrique de Souza Filho, o Henfil  <!--more-->  <\/address>\n<address><\/address>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Se estivesse vivo, Henrique de Souza Filho faria 70 anos hoje. Quem? Henfil, ora! Quem n\u00e3o o conheceu em sua \u00e9poca? Afinal, seu tra\u00e7o r\u00e1pido e cheio de movimento deu origem a personagens que entraram para o imagin\u00e1rio brasileiro nos anos 70 em especial: a Gra\u00fana, o bode Francisco Orellana, o cangaceiro Zeferino, os Fradinhos. Henfil foi superconhecido de uma gera\u00e7\u00e3o que ficava esperando, com \u00e1gua na boca, seus novos cartuns.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Com seus personagens, Henfil brincava com os estere\u00f3tipos. Gra\u00fana, o Cangaceiro e o bode, por exemplo, apareciam sempre em trio. O cangaceiro Zeferino era um clich\u00ea do nordestino machista e violento. Gra\u00fana era analfabeta, mas de intelig\u00eancia viva. Ela poderia encarnar aquilo que Ariano Suassuna definiu em seu Auto da Compadecida: \u201ca esperteza \u00e9 a coragem do pobre\u201d. O bode Orellana ironizava o intelectual livresco (a comida preferida do bode eram os livros), com muita cultura, por\u00e9m com profunda ignor\u00e2ncia das condi\u00e7\u00f5es reais em que vivia o povo e como ele pensava.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Com essa trinca, Henfil comentava a situa\u00e7\u00e3o do Pa\u00eds, que vivia sob uma f\u00e9rrea ditadura. No caso, captava a situa\u00e7\u00e3o do interior nordestino, a caatinga, a ind\u00fastria da seca, o coronelismo e o mandonismo da regi\u00e3o, com seus pr\u00f3ceres sempre alinhados com o governo. Afinal, lucravam muito \u00e0 custa da mis\u00e9ria alheia. Continuam lucrando, ali\u00e1s.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O tra\u00e7o r\u00e1pido e irreverente de Henfil era sua forma de pensar um Brasil cuja luz no fim do t\u00fanel podia ser a de um trem vindo em dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, como dizia outro mestre do humor, Mill\u00f4r. Corajoso e \u00e1cido, fustigava a ditadura atrav\u00e9s das brechas deixadas pela censura, mas n\u00e3o poupava quem a combatia de forma rom\u00e2ntica e idealizada. Da\u00ed a implic\u00e2ncia com a oposi\u00e7\u00e3o livresca, que caracterizou no bode Orellana, com seu apetite por celulose e o chapeuzinho coco na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O medo generalizado de viver sob um regime autorit\u00e1rio era expresso atrav\u00e9s de outro dos seus personagens, Ubaldo, o Paranoico, que, como o nome diz, tinha medo de tudo, at\u00e9 do que n\u00e3o precisava ter. Mas, como lembrava seu autor, mesmo os paranoicos \u00e0s vezes t\u00eam seus perseguidores reais. O medo existia e, embora paralisante, tinha ra\u00edzes no mundo real, na sociedade que n\u00e3o oferecia garantias individuais contra a prepot\u00eancia, em especial depois da decreta\u00e7\u00e3o do Ato Institucional n.\u00ba 5 em dezembro de 1968.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Essas frestas da ditadura, Henfil ocupava alegremente, por assim dizer. S\u00e3o antol\u00f3gicos alguns dos seus desenhos no Pasquim, o famoso \u201chebd\u00f4\u201d, que marcou a renova\u00e7\u00e3o da linguagem jornal\u00edstica do Pa\u00eds. O Pasca tirou a gravata do texto e do desenho com um time brilhante e afiado: Mill\u00f4r, Ziraldo, Jaguar, Paulo Francis, Ivan Lessa, S\u00e9rgio Augusto e, claro, Henfil. O esp\u00edrito da coisa era oralidade nos textos, desenvoltura nos desenhos e senso cr\u00edtico sem complac\u00eancia. Era o lugar ideal para cada um, e, em especial, para o mineirinho Henfil, que chegou ao Rio para bagun\u00e7ar o coreto.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Alguns dos seus desenhos no Pasquim s\u00e3o antol\u00f3gicos. Criou uma s\u00e9rie que era dinamite pura, intitulada O Sobrevivente. Tinha desenhos como um assaltante esfaqueando uma velhinha para roubar-lhe a bolsa, um empres\u00e1rio da constru\u00e7\u00e3o civil dirigindo-se a um oper\u00e1rio ca\u00eddo do andaime, um urubu comendo o f\u00edgado de um condenado, um avi\u00e3o americano lan\u00e7ando bombas sobre vietnamitas. A fala dos protagonistas de cada cartum era sempre a mesma: \u201cTenho de sobreviver, entende?\u201d. No caos gerado pela ditadura, sobreviv\u00eancia era a palavra de ordem. E os patifes a invocavam para justificar seus atos.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o poupava ningu\u00e9m. Criou, tamb\u00e9m no Pasquim, um \u201ccemit\u00e9rio dos mortos-vivos\u201d, aCasa do Caboco Mamad\u00f4, no qual enterrava os dedos-duros. Gente do meio art\u00edstico que supostamente teria se passado para o lado da ditadura e denunciado colegas. Na \u00e9poca, havia uma defini\u00e7\u00e3o muito clara entre o \u201clado bom\u201d e o outro, que ficava a favor de um governo ileg\u00edtimo, que perseguia, prendia, torturava e matava. Esse, digamos assim, manique\u00edsmo, tinha sua justificativa hist\u00f3rica numa \u00e9poca em que a maior parte da sociedade civil vivia farta da ditadura e ansiava pela volta da democracia.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Se os militares eram os vil\u00f5es no campo interno, os Estados Unidos eram o alvo, no externo. Henfil, como toda a esquerda, via com p\u00e9ssimos olhos o intervencionismo americano em v\u00e1rios pa\u00edses do mundo, e exultou quando o Vietn\u00e3 venceu a guerra. A mais improv\u00e1vel das vit\u00f3rias, um povo corajoso de um pa\u00eds min\u00fasculo botando para fora do seu territ\u00f3rio a maior pot\u00eancia do mundo. Henfil sa\u00fada o fato com um desenho em que Henry Kissinger conversa com um vietcongue e lhe diz: \u201cVamos sair, mas \u00e9 uma retirada honrosa, viu? N\u00e3o precisa empurrar!\u201d. Enquanto fala, o ex\u00e9rcito americano bate em retirada, com o rabo entre as pernas.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Esse era o esp\u00edrito da \u00e9poca. Mas Henfil tamb\u00e9m gozava a pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o religiosa, travada e autorit\u00e1ria, que trazia como heran\u00e7a de Minas Gerais. Da\u00ed a dupla de frades, um o oposto do outro. Um baixinho, outro comprido. Um s\u00e1dico e safado, o outro querendo dar uma de santarr\u00e3o. Por isso, o frade Cumprido era sempre v\u00edtima do Baixim. O Cumprido diz que devemos amar a todos como irm\u00e3os. O baixinho reaparece com um mendigo sujo e malcheiroso e d\u00e1 a ordem: \u201cAbra\u00e7a o irm\u00e3o!\u201d. Os Fradinhos tinham de ser dois. O alto representava as boas maneiras e os bons princ\u00edpios, um verniz de civilidade que n\u00e3o aguentava grandes contrariedades da vida real. J\u00e1 o baixinho era o instinto puro. S\u00e1dico, sensual e debochado. A tal ponto que, ao v\u00ea-lo feliz, o Cumprido j\u00e1 imagina com medo o que ele teria aprontado: \u201cInternei a minha m\u00e3e no pronto-socorro p\u00fablico\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Enfim, a cr\u00edtica, sempre ligada nos problemas do Pa\u00eds. Fossem os problemas macro, como a ditadura e a economia voltada para as classes ricas, ou suas consequ\u00eancias, como o mau atendimento nos hospitais, a carestia ou o desemprego, Henfil estava sempre de olho. Foi desses artistas ligados em seu tempo e com aguda consci\u00eancia pol\u00edtica do seu trabalho. \u00c9 dele o slogan Diretas-J\u00e1 para a campanha para as elei\u00e7\u00f5es presidenciais pelo voto popular em 1984. Como se sabe, a emenda das diretas n\u00e3o passou e o primeiro presidente civil ap\u00f3s o golpe, Tancredo Neves, foi eleito pelo Col\u00e9gio Eleitoral. Henfil morreria de aids em 1988, aos 43 anos, contaminado por uma das in\u00fameras transfus\u00f5es de sangue tomadas para combater a hemofilia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">De que lado estaria hoje? Dif\u00edcil dizer e nunca \u00e9 prudente falar em nome dos mortos. Mas por certo estaria espica\u00e7ando algum poderoso.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-6893\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/henfilcartoon2.jpg\" border=\"0\" width=\"487\" height=\"400\" srcset=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/henfilcartoon2.jpg 487w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/henfilcartoon2-300x246.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 487px) 100vw, 487px\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>\u2018Fradim\u2019 de volta \u00e0s prateleiras <\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Uma parceria entre a ONG Henfil e o Instituto Henfil est\u00e1 viabilizando a reedi\u00e7\u00e3o das 31 revistas Fradim, publicadas por Henfil entre os anos de 1971 e 1980. Os primeiros t\u00edtulos ficaram prontos em setembro, e mais de uma dezena deles est\u00e1 \u00e0 venda exclusivamente pela internet (no site <a href=\"http:\/\/www.lojavirtual.cursinhohenfil.org.br\/\">www.lojavirtual.cursinhohenfil.org.br<\/a>). A cole\u00e7\u00e3o deve estar completa at\u00e9 o fim do semestre. Um apanhado geral da material, que resgata os personagens cl\u00e1ssicos de Henfil, pode ser conferido em N\u00famero Zero, uma edi\u00e7\u00e3o especial feita para marcar o projeto de reedi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Estad\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tra\u00e7o r\u00e1pido do mineiro fustigava medo generalizado buscando brechas na censura \u00a0 O cartunista Henrique de Souza Filho, o Henfil<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6892,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6894"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6894"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6894\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6892"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6894"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6894"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6894"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}