{"id":6934,"date":"2014-02-19T23:58:35","date_gmt":"2014-02-19T23:58:35","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/02\/19\/a-ditadura-recontada\/"},"modified":"2014-02-19T23:58:35","modified_gmt":"2014-02-19T23:58:35","slug":"a-ditadura-recontada","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/02\/19\/a-ditadura-recontada\/","title":{"rendered":"A ditadura recontada"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cVoc\u00ea vai voltar pra mim\u201d \u00e9 uma daquelas falas propensas a enternecer o interlocutor \u2013a n\u00e3o ser, \u00e9 claro, que venha de algu\u00e9m como um agente da repress\u00e3o ap\u00f3s infind\u00e1veis sess\u00f5es de tortura.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>A narrativa em que ela aparece nomeia o novo livro do jornalista e cientista pol\u00edtico Bernardo Kucinski, 76, \u201cVoc\u00ea Vai Voltar pra Mim e Outros Contos\u201d. Foi inspirada em depoimento que o autor ouviu, no fim de 2013, ao assistir a uma sess\u00e3o da Comiss\u00e3o da Verdade paulista.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o 28 hist\u00f3rias que t\u00eam a ditadura como pano de fundo e marcam a chegada do paulistano \u00e0 Cosac Naify, ap\u00f3s elogiada e tardia estreia na fic\u00e7\u00e3o com o romance \u201cK.\u201d, (Express\u00e3o Popular, 2011) \u2013que ganha, simultaneamente, edi\u00e7\u00e3o pela nova casa.<\/p>\n<p>Lan\u00e7ado sem alarde por uma editora independente, \u201cK.\u201d teve duas edi\u00e7\u00f5es esgotadas (somando 5.000 c\u00f3pias), foi traduzido para o alem\u00e3o, o espanhol e o ingl\u00eas (com edi\u00e7\u00f5es previstas em hebraico e italiano) e concorreu a dois dos maiores pr\u00eamios liter\u00e1rios do pa\u00eds, o Portugal Telecom e o SP de Literatura.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um diferencial do romance foi sua tem\u00e1tica: um pai em busca da filha desaparecida nos anos de repress\u00e3o, recria\u00e7\u00e3o de um trauma familiar de Kucinski, cuja \u00faltima not\u00edcia da irm\u00e3 foi sua pris\u00e3o pelos militares, em 22 de abril de 1974, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No ano em que se completa meio s\u00e9culo do golpe de 1964, com as livrarias recebendo diversas obras de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o a respeito da ditadura, \u201cK.\u201d e \u201cVoc\u00ea Vai Voltar pra Mim e Outros Contos\u201d s\u00e3o raros exemplos da produ\u00e7\u00e3o ficcional feita hoje no pa\u00eds sobre traumas daquele per\u00edodo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Apesar de grandes romances sobre o tema, lan\u00e7ados inclusive durante a ditadura \u2013como \u201cQuarup\u201d, de Antonio Callado, e \u201cPessach: A Travessia\u201d, de Carlos Heitor Cony, ambos de 1967\u2013, a literatura brasileira atual \u00e9 bem mais comedida nesse sentido que a feita nos vizinhos Argentina, Uruguai e Chile.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cAcredito que o Brasil tenha uma incapacidade de enfrentar a ditadura num contexto maior, o que tem a ver com uma tradi\u00e7\u00e3o brasileira de elaborar pouco os traumas sociais\u201d, diz o professor da Unicamp Marcio Seligmann, que por quatro anos coordenou um grupo de pesquisa sobre cultura e viol\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O professor de hist\u00f3ria da USP Marcos Napolitano lembra que, ap\u00f3s aquele primeiro olhar dos anos 1960, a fic\u00e7\u00e3o nacional passou por uma fase de \u201cbalan\u00e7o da derrota\u201d, em obras como \u201cZero\u201d (1975), de Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o, e \u201cEm Camera Lenta\u201d (1977), de Renato Tapaj\u00f3s.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cDa\u00ed para a frente floresceram as mem\u00f3rias, mas na fic\u00e7\u00e3o o tema foi sendo deixado de lado, com poucas exce\u00e7\u00f5es. Na Am\u00e9rica Latina veem-se mais exemplos do trauma derivado, de quem viveu a \u00e9poca, mas n\u00e3o passou diretamente pelos fatos\u201d, diz.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Para Kucinski, a abordagem liter\u00e1ria permite mostrar, com mais clareza do que na n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o, o clima da \u00e9poca.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Permite tamb\u00e9m enfrentar tabus, como o do machismo predominante no per\u00edodo \u2013num dos contos, \u201cRecorda\u00e7\u00f5es do Casar\u00e3o\u201d, dois amigos lembram um caso em que uma militante foi obrigada pelo namorado a abortar para n\u00e3o prejudicar a causa.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cO que me comove \u00e9 que, quando voc\u00ea pega hist\u00f3rias individuais, \u00e9 sempre muito chocante\u201d, diz Kucinski.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Por Raquel Cozer &#8211; colunista da Folha de S.Paulo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cVoc\u00ea vai voltar pra mim\u201d \u00e9 uma daquelas falas propensas a enternecer o interlocutor \u2013a n\u00e3o ser, \u00e9 claro, que venha de algu\u00e9m como um agente da repress\u00e3o ap\u00f3s infind\u00e1veis sess\u00f5es de tortura. 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