{"id":700,"date":"2012-05-24T16:02:51","date_gmt":"2012-05-24T16:02:51","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/24\/anistiado-critica-auto-anistia-imposta-por-militares\/"},"modified":"2012-05-24T16:02:51","modified_gmt":"2012-05-24T16:02:51","slug":"anistiado-critica-auto-anistia-imposta-por-militares","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/24\/anistiado-critica-auto-anistia-imposta-por-militares\/","title":{"rendered":"Anistiado critica auto-anistia imposta por militares"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>Em um julgamento emocionante, a Comiss\u00e3o de Anistia reconheceu, por unanimidade, a condi\u00e7\u00e3o de anistiado pol\u00edtico do jornalista Anivaldo Pereira Padilha, 71 anos, pai do ministro da Sa\u00fade, Alexandre Padilha. O julgamento ocorreu na ter\u00e7a (22), momento antes foi negou o mesmo status a Jos\u00e9 Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo &#8211;\u00a0agente infiltrado da ditadura militar.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Editor de um jornal da Igreja Metodista de S\u00e3o Paulo, na d\u00e9cada de 1960, ele militava na organiza\u00e7\u00e3o clandestina de esquerda A\u00e7\u00e3o Popular (AP). Em consequ\u00eancia disso, foi preso e barbaramente torturado pelos agentes do regime. E, posteriormente, obrigado a viver no ex\u00edlio, impedido do conv\u00edvio com a fam\u00edlia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Anivaldo ter\u00e1 direito a receber uma pens\u00e3o mensal de R$ 2.484, al\u00e9m do pagamento retroativo de R$ 229,3 mil, referente ao per\u00edodo em que o processo tramitou. Mas o que mais o deixou mais contente foi receber o pedido de perd\u00e3o do estado brasileiro pelos crimes cometidos contra ele. \u201cEu sinto que minha dignidade como cidad\u00e3o e brasileiro, hoje, foi restaurada\u201d, afirmou.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em entrevista \u00e0 imprensa logo ap\u00f3s o julgamento, ele falou sobre a necessidade de se estabelecer a verdade hist\u00f3rica no pa\u00eds. Defendeu o julgamento justo dos seus torturadores. Criticou a forma como a lei estabelece a repara\u00e7\u00e3o financeira aos anistiados. E, tamb\u00e9m, a interpreta\u00e7\u00e3o da Lei da Anistia, de 1979, reafirmada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em 2010.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Carta Maior: O senhor est\u00e1 de alma lavada?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Anivaldo Pereira Padilha: <\/strong>Bastante. Me sinto bastante leve, agora. Hoje realmente se encerra um ciclo importante da minha vida. As decis\u00f5es da Comiss\u00e3o da Anistia, ao estabelecer seu voto, especialmente, pedir perd\u00e3o em nome do estado brasileiro, ao pedir perd\u00e3o pelos crimes que a ditadura cometeu contra n\u00f3s, \u00e9 uma forma de restaurar nossa dignidade. Eu sinto que minha dignidade como cidad\u00e3o e brasileiro, hoje, foi restaurada.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Carta Maior: No seu depoimento, o senhor citou o nome dos seus torturadores e pediu que a den\u00fancia fosse encaminhada \u00e0 Comiss\u00e3o da Verdade e ao Minist\u00e9rio P\u00fablico. O senhor acha que eles devem ser julgados?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Padilha:<\/strong> Eu acho que sim. E n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de vingan\u00e7a, revanche. Vingan\u00e7a seria se eu quisesse pegar esses torturadores e coloc\u00e1-los no \u201cpau-de-arara\u201d, na \u201ccadeira do drag\u00e3o\u201d. Ou que quisesse julg\u00e1-los de forma sum\u00e1ria, como todos n\u00f3s fomos. Eu estou propondo que [ a den\u00fancia] seja encaminhada ao Minist\u00e9rio P\u00fablico para que fa\u00e7a as investiga\u00e7\u00f5es. Se for o caso, que fa\u00e7a as den\u00fancias e que eles sejam julgados com amplo direito \u00e0 defesa. E porque eu e muitos de n\u00f3s prop\u00f5em isso? Porque, no Brasil, vivemos uma tradi\u00e7\u00e3o de impunidade. Talvez o per\u00edodo mais sombrio da hist\u00f3ria do Brasil, al\u00e9m da ditadura, tenha sido a escravid\u00e3o. E Rui Barbosa mandou queimar e destruir os documentos da escravid\u00e3o. N\u00f3s temos uma tradi\u00e7\u00e3o de acordo entre as elites do Brasil para que sempre seja mantida a impunidade. Eu creio que se os crimes cometidos pelo Estado Novo tivessem sido investigados &#8211; e os torturadores, assassinos e mandantes, punidos &#8211; talvez o golpe de 1964 n\u00e3o tivesse ocorrido e, especialmente, o estado de terror estabelecido a partir de 1964, n\u00e3o teria ocorrido. N\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de punir pensando no passado, mas punir pensando no futuro. Os torturadores continuam a\u00ed nas pris\u00f5es e delegacias de todo o pais, porque sabem que podem ficar impunes.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Carta Maior: O senhor pode repetir os nomes dos seus torturadores?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Padilha:<\/strong> S\u00e3o v\u00e1rios. Tem o capit\u00e3o Albernaz, o capit\u00e3o Coutinho, o capit\u00e3o Guimar\u00e3es, o capit\u00e3o Homero, o delegado Ba\u00eata e outros. Alguns j\u00e1 morreram. O Albernaz, por exemplo, eu soube que morreu, mas alguns est\u00e3o na reserva. Alguns civis continuam a\u00ed. H\u00e1 delegados ainda atuando.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Carta Maior: E seria capaz de reconhec\u00ea-los?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Padilha:<\/strong> Sim sem d\u00favidas, mesmo passados 40 anos, eu tenho certeza que os reconheceria.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Carta Maior: O senhor ficou satisfeito com os valores da indeniza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Padilha:<\/strong> Eu n\u00e3o me preocupei muito com os valores. \u00c9 claro que eu necessito. \u00c9 importante, porque vai possibilitar que eu me aposente. Mas eu tenho uma vida simples e nunca fui atr\u00e1s de riqueza e nem de dinheiro. A Lei que regula o trabalho da Comiss\u00e3o da Anistia estabelece uma repara\u00e7\u00e3o baseada em termos trabalhistas. E a\u00ed voc\u00ea perpetua a injusti\u00e7a que h\u00e1 na sociedade. Porque que um profissional liberal ou intelectual tem que receber mais que um campon\u00eas ou um oper\u00e1rio?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Carta Maior: O senhor achou ruim testemunhar e reviver esta hist\u00f3ria densa e pesada?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Padilha:<\/strong> N\u00e3o achei ruim, n\u00e3o. Na verdade, sempre pensei que, no momento em que houvesse o julgamento, eu gostaria de estar presente. Por dois motivos. Primeiro, porque eu nunca me neguei a falar sobre aquele per[iodo. O que \u00e9 tamb\u00e9m um processo terap\u00eautico. Quanto mais colocamos para fora aquilo que passamos, mas f\u00e1cil \u00e9 superar. Segundo, \u00e9 importante contar esta historia, porque muitas pessoas da nova gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem conhecimento, em geral. E pessoas que viveram na \u00e9poca, sob terror, evitavam obter informa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 penoso. \u00c9 emocionante. Eu me emociono toda vez que falo sobre o per\u00edodo, porque eu me lembro dos companheiros que morreram, me lembro do sofrimento da minha fam\u00edlia, da impossibilidade de conviver com meus filhos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Carta Maior: Como o senhor encara o fato do Cabo Anselmo pedir anistia tal como o senhor, que sofreu a persegui\u00e7\u00e3o da ditadura para a qual ele trabalhou?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Padilha: <\/strong>Ao fazer o requerimento de anistia e pedir repara\u00e7\u00e3o, o Cabo Anselmo est\u00e1 cumprindo o papel que ele sempre cumpriu, que \u00e9 o de agitador externo, um agitador infiltrado. Um sujeito que foi agente infiltrado, que teve um papel fundamental na prepara\u00e7\u00e3o do golpe, com a Revolta dos Marinheiros, que foi o principal pretexto usado pelos militares para dar o golpe de estado. A viola\u00e7\u00e3o da hierarquia militar foi liderada pelo Cabo Anselmo quando ele j\u00e1 era um agente golpista. Depois continuou como agente infiltrado. Ele mesmo confessou que foi respons\u00e1vel pela morte demais ou menos 200 companheiros. Ou seja, ele continuou como agente da ditadura. Se, por acaso, ele foi demitido ou sofreu qualquer coisa, foi para manter a fachada de apar\u00eancia de algu\u00e9m que n\u00e3o era infiltrado. O que ele quer \u00e9 simplesmente turvar as \u00e1guas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Carta Maior: O senhor acha que a Lei da Anistia precisa sofrer uma revis\u00e3o para que torturadores sejam punidos?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Padilha: <\/strong>Eu n\u00e3o diria uma revis\u00e3o, mas uma reinterpreta\u00e7\u00e3o correta. Essa Lei da Anistia foi imposta pelos militares. \u00c9 uma auto-anistia. Claro que nos serve tamb\u00e9m, mas \u00e9 uma auto-anistia. E \u00e9 uma reinterpreta\u00e7\u00e3o o que precisa, porque quando eles dizem que a Lei perdoa crimes conexos, isso n\u00e3o se aplica aos torturadores. Por exemplo, eu cometi um crime conexo, de acordo com a Lei de Seguran\u00e7a Nacional. Eu era militante de uma organiza\u00e7\u00e3o clandestina de esquerda que lutou contra a ditadura. Para me proteger, principalmente na clandestinidade, eu tinha um documento falso. Isso \u00e9 um crime conexo. Um crime que cometi paralelamente. Os militares, n\u00e3o. A anistia n\u00e3o se aplica a eles porque se tratam de crimes cometidos por agentes do estado. Quer dizer, pessoas que estavam presas sob custodia do estado brasileiro. E foram torturadas, mortas, assassinadas. E ainda desapareceram com seus corpos. A Lei da Anistia n\u00e3o se aplica. O que h\u00e1 \u00e9 o resultado de mais um acordo entre a elite para manter a impunidade.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por Najla Passos, na Carta Maior<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um julgamento emocionante, a Comiss\u00e3o de Anistia reconheceu, por unanimidade, a condi\u00e7\u00e3o de anistiado pol\u00edtico do jornalista Anivaldo Pereira Padilha, 71 anos, pai do ministro da Sa\u00fade, Alexandre Padilha. 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