{"id":7189,"date":"2014-04-15T22:38:30","date_gmt":"2014-04-15T22:38:30","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/04\/15\/lembrancas-da-midia-esquecida-pela-ditadura\/"},"modified":"2014-04-15T22:38:30","modified_gmt":"2014-04-15T22:38:30","slug":"lembrancas-da-midia-esquecida-pela-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/04\/15\/lembrancas-da-midia-esquecida-pela-ditadura\/","title":{"rendered":"Lembran\u00e7as da m\u00eddia \u2018esquecida\u2019 pela ditadura"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cDia 1\u00ba de abril de 1964. Cinel\u00e2ndia, Rio de Janeiro. Em frente ao Clube Militar, um garoto de 12 anos come\u00e7a a gritar \u2018Jangooo\u2019, \u2018Jangooo\u2019. Um homem alto e magro, cabelo cortado recente, bigodes finos, aponta a sua autom\u00e1tica e explode a cabe\u00e7a do menino. Nesse dia eu era diretor de jornalismo da Rede Excelsior de Televis\u00e3o, na \u00e9poca l\u00edder absoluta de audi\u00eancia. Nessa mesma noite de 1\u00ba de abril, no Jornal de Vanguarda, a cena foi ao ar\u201d, lembra Fernando Barbosa Lima no livro\u00a0Gloria in Excelsior\u00a0escrito por \u00c1lvaro de Moya.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.colegiointegracaoonline.com.br\/ci\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/razao-10.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"300\" \/>  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Era o in\u00edcio de uma longa ditadura e o come\u00e7o do fim da \u00fanica rede de televis\u00e3o brasileira que, um dia, alinhou-se a um projeto nacional de desenvolvimento aut\u00f4nomo liderado pelo presidente Jo\u00e3o Goulart.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O Jornal de Vanguarda, havia sido premiado pela Eurovis\u00e3o, a rede europeia de televis\u00f5es p\u00fablicas, como melhor do mundo no seu g\u00eanero, superando os programas de not\u00edcias da BBC de Londres. Com recursos e independ\u00eancia, a Excelsior criava um novo padr\u00e3o de qualidade para a TV brasileira, copiado depois pela Globo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ao tiro na Cinel\u00e2ndia seguiu-se a invas\u00e3o da emissora por policiais armados e a derrocada de um imp\u00e9rio comandado pelo empres\u00e1rio M\u00e1rio Wallace Simonsen. Figura esquecida intencionalmente pela m\u00eddia de hoje j\u00e1 que sua lembran\u00e7a destr\u00f3i a lenda golpista de que o Brasil de Jango caminhava para o comunismo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O dono da Excelsior, e tamb\u00e9m da Panair do Brasil e da maior empresa exportadora de caf\u00e9 do pa\u00eds, a Comal, de comunista n\u00e3o tinha nada. Tinha, isso sim, convic\u00e7\u00e3o que seus neg\u00f3cios s\u00f3 prosperariam se o pa\u00eds crescesse de forma independente, livre do jugo imposto pelos Estados Unidos. Disputava o mercado internacional do caf\u00e9 com o grupo Rockfeller.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Esteve ao lado da ordem democr\u00e1tica durante os governos Juscelino, J\u00e2nio e Jango. Mandou um avi\u00e3o da Panair buscar o vice-presidente Goulart em Pequim, durante a crise da ren\u00fancia de J\u00e2nio em 1961 e hospedou-o em seu apartamento de Paris, durante uma das escalas da longa viagem. Os golpistas nunca o perdoaram.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Envenenamento simb\u00f3lico<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os projetos de reformas de base enviadas por Jango ao Congresso, em mar\u00e7o de 1964, se efetivados, encaminhariam o Brasil para o patamar de \u201cpot\u00eancia independente, com ascend\u00eancia sobre a Am\u00e9rica Latina e a \u00c1frica\u201d, no dizer do soci\u00f3logo Octavio Ianni no livro\u00a0O colapso do populismo no Brasil.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A essa pol\u00edtica se contrap\u00f4s, com o golpe, um modelo de capitalismo associado e dependente mantendo o Brasil na condi\u00e7\u00e3o de sat\u00e9lite da \u00f3rbita centralizada pelos Estados Unidos. Coube \u00e0 m\u00eddia dar respaldo \u00e0 subservi\u00eancia, sem o qual a a\u00e7\u00e3o dos golpistas e depois a da ditadura, teria sido mais \u00e1rdua.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No centro desse processo, como coordenador do trabalho de conquista dos cora\u00e7\u00f5es e mentes da sociedade, estavam o Instituto de Pesquisas Sociais, o IPES e o Instituto de A\u00e7\u00e3o Social, o IBAD. Um complexo de produ\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que \u201cpublicava diretamente ou atrav\u00e9s de acordo com v\u00e1rias editoras, uma s\u00e9rie extensa de trabalhos, incluindo livros, panfletos peri\u00f3dicos, jornais, revistas e folhetos. Saturava o r\u00e1dio e a televis\u00e3o com suas mensagens pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas\u201d, como mostra a pesquisa de Rene Armand Dreifuss, publicada no livro 1964: a conquista do Estado.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A m\u00e1quina da desinforma\u00e7\u00e3o, azeitada por recursos captados nas elites empresariais pagava os donos de jornais, r\u00e1dios e TVs ou diretamente os jornalistas, executores das pautas de interesse dos golpistas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 precioso o relato de Rene Dreyfuss ao demonstrar como \u201co IPES organizava equipes de \u2018manipuladores de not\u00edcias\u2019 que preparavam e compilavam material sob a coordena\u00e7\u00e3o geral do general Golbery do Couto e Silva, especialista em guerra psicol\u00f3gica. Esses manipuladores se responsabilizavam pelas \u2018campanhas de p\u00e2nico\u2019. A \u2018campanha da amea\u00e7a vermelha\u2019 empreendida pelo IPES mostrou-se muito \u00fatil na melhoria de sua situa\u00e7\u00e3o financeira, j\u00e1 que atraiu contribui\u00e7\u00f5es de empres\u00e1rios tomados de p\u00e2nico e profissionais que temiam o futuro\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Segundo Dreyfuss, \u201ceram tamb\u00e9m \u2018feitas\u2019 em\u00a0O Globo\u00a0not\u00edcias sem atribui\u00e7\u00e3o de fonte ou indica\u00e7\u00e3o de pagamento e reproduzidas como informa\u00e7\u00e3o factual. Dessas not\u00edcias, uma que provocou um grande impacto na opini\u00e3o p\u00fablica foi a de que a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica imporia a instala\u00e7\u00e3o de um Gabinete Comunista no Brasil, exercendo todas as formas de press\u00f5es internas e externas para aquele fim\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O envenenamento simb\u00f3lico de parte da popula\u00e7\u00e3o era feito com muita compet\u00eancia e a pr\u00f3pria m\u00eddia apresentava poss\u00edveis ant\u00eddotos, al\u00e9m do golpe que estava sempre presente no horizonte.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Vers\u00f5es distorcidas<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Sem registros hist\u00f3ricos, um desses ant\u00eddotos s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 ris\u00edvel porque o momento n\u00e3o estava para brincadeiras. A TV Paulista e a R\u00e1dio Nacional de S\u00e3o Paulo, que depois seriam vendidas para as Organiza\u00e7\u00f5es Globo, numa opera\u00e7\u00e3o at\u00e9 hoje contestada na justi\u00e7a, propiciaram um espet\u00e1culo bizarro na Semana Santa que antecedeu o golpe.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O apresentador do programa de r\u00e1dio di\u00e1rio A hora da Ave Maria, Pedro Geraldo Costa foi a Jerusal\u00e9m \u00e0s expensas das emissoras e de l\u00e1 trouxe uma cruz enorme de madeira que chegou ao Rio de Janeiro de avi\u00e3o e seguiu em peregrina\u00e7\u00e3o para S\u00e3o Paulo trafegando lentamente pela via Dutra, com uma parada simb\u00f3lica em Aparecida. Nas proximidades da capital foi i\u00e7ada por um helic\u00f3ptero e suavemente depositada no Vale do Anhangaba\u00fa em meio a multid\u00e3o convocada pelo r\u00e1dio e pela TV para orar junto \u00e0 cruz pelo pa\u00eds. Epis\u00f3dio esquecido que, no entanto, se articula com as marchas religiosas e golpistas do per\u00edodo, insufladas pela m\u00eddia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Como depois as pesquisas do Ibope mostraram, essas multid\u00f5es arregimentadas pelo conluio igreja-meios de comunica\u00e7\u00e3o representavam parcelas minorit\u00e1rias da popula\u00e7\u00e3o. A maioria apoiava o governo Jango e a sua pol\u00edtica reformista. Mas at\u00e9 hoje, passados 50 anos, o golpe ainda \u00e9 apresentado pela mesma m\u00eddia como tendo sido respaldado pelo povo. Foi apenas por aqueles que se deixaram levar pela insidiosa campanha midi\u00e1tica do in\u00edcio dos anos 1960.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Apesar do desfecho tr\u00e1gico que levou o Brasil a uma ditadura sanguin\u00e1ria, em termos de m\u00eddia est\u00e1vamos melhor naquela \u00e9poca do que hoje. Nas bancas, a \u00daltima Hora era a alternativa aos jornais reacion\u00e1rios, a TV Excelsior abria espa\u00e7o para o contradit\u00f3rio e algumas emissoras de r\u00e1dio mantinham-se alheias as press\u00f5es golpistas, como a 9 de Julho de S\u00e3o Paulo, cassada pela ditadura.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Hoje nem isso temos possibilitando que apenas uma vers\u00e3o, a dos golpistas, continue circulando pela m\u00eddia tradicional. O \u201cesquecimento\u201d de figuras como a de M\u00e1rio Wallace Simonsen e de epis\u00f3dios como a da cruz que veio de Jerusal\u00e9m s\u00e3o propositais. Se lembrados poriam em xeque a amea\u00e7a comunista e o apoio espont\u00e2neo das massas ao golpe.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Vers\u00f5es distorcidas, bem ao gosto do Instituto Millenium que est\u00e1 a\u00ed como um fantasma a lembrar alguns tra\u00e7os assustadores dos antigos IPES e do IBAD.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Laurindo Lalo Leal Filho, soci\u00f3logo e jornalista, \u00e9 professor de Jornalismo da ECA-USP e autor, entre outros, de\u00a0A TV sob controle \u2013 A resposta da sociedade ao poder da televis\u00e3o\u00a0(Summus Editorial). Twitter: @lalolealfilho<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Observat\u00f3rio da Imprensa<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cDia 1\u00ba de abril de 1964. 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