{"id":7351,"date":"2014-06-09T12:44:44","date_gmt":"2014-06-09T12:44:44","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/06\/09\/o-som-da-tortura\/"},"modified":"2014-06-09T12:44:44","modified_gmt":"2014-06-09T12:44:44","slug":"o-som-da-tortura","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/06\/09\/o-som-da-tortura\/","title":{"rendered":"O som da tortura"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>Em mais de uma oportunidade j\u00e1 escrevi que pod\u00edamos escrever a hist\u00f3ria pol\u00edtica do Brasil a partir do som da sua m\u00fasica popular. Assim foi, por exemplo, em p\u00e1ginas de Soledad no Recife, quando a ressurrei\u00e7\u00e3o dos malditos anos da ditadura se fez sob a can\u00e7\u00e3o dos tropicalistas. Assim foi quando escrevi sobre Geraldo Vandr\u00e9, sobre Chico Buarque, sobre Roberto Carlos.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mas jamais poderia imaginar, e aqui mais uma vez a realidade supera o imaginado, que a m\u00fasica popular fosse usada do modo mais vil, como o noticiado na imprensa dos \u00faltimos dias:\u00a0 \u201cDeputado Rubens Paiva foi torturado ao som de \u2018Apesar de Voc\u00ea\u2019, diz testemunha<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A informa\u00e7\u00e3o consta de um depoimento escrito pela professora Cec\u00edlia Viveiros de Castro, que esteve presa nas mesmas instala\u00e7\u00f5es que Rubens Paiva. Cec\u00edlia, ent\u00e3o com 48 anos, foi detida ao voltar de uma visita ao filho, Luiz Rodolfo, exilado no Chile.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Com ela estava Marilene Corona Franco, cunhada de seu filho. As duas traziam cartas de outros exilados para suas fam\u00edlias.\u00a0 No pr\u00e9dio da Aeron\u00e1utica, elas ouviram gritos de um preso que estava sendo interrogado. \u2018Era a primeira vez que constatava a exist\u00eancia dos horrores da tortura, t\u00e3o negados pelo governo\u2019, diz.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em depoimento anexado pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico \u00e0 den\u00fancia, Marilene Franco disse ter ouvido os gritos de Rubens Paiva, que era torturado em um sal\u00e3o ao lado de onde ela estava. Para abafar os gritos, um r\u00e1dio foi ligado em alto volume. Tocava \u2018Jesus Cristo\u2019, de Roberto Carlos, e \u2018Apesar de Voc\u00ea\u2019, de Chico Buarque.\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A not\u00edcia n\u00e3o informa, talvez em nome objetividade, que o deputado Rubens Paiva foi morto ao som de Roberto Carlos e Chico Buarque por diferentes raz\u00f5es, na escolha das m\u00fasicas. Tentemos um esbo\u00e7o aqui. Chico Buarque, a partir da gradual sa\u00edda de cena de Geraldo Vandr\u00e9, veio a ser o valor maior de inconformismo e revolta musical contra a ditadura. Roberto Carlos, o Rei, veio na contram\u00e3o, contr\u00e1rio \u00e0 rebeldia pol\u00edtica, em real estado de conformismo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A milit\u00e2ncia contra a ditadura acompanhava a voz de Chico Buarque, cantava \u201cApesar de Voc\u00ea\u201d nos bares, na rua, nos pontos de encontro, nas serestas, em documentos rodados\u00a0em mime\u00f3grafos:<br \/> \u201cHoje voc\u00ea \u00e9 quem manda \/ Falou, t\u00e1 falado \/ N\u00e3o tem discuss\u00e3o. \/ A minha gente hoje anda \/ Falando de lado \/ E olhando pro ch\u00e3o, viu? \/ Voc\u00ea que inventou esse estado \/ E inventou de inventar \/ Toda a escurid\u00e3o \/ Voc\u00ea que inventou o pecado \/ Esqueceu de inventar \/ O perd\u00e3o. \/ Apesar de voc\u00ea \/ Amanh\u00e3 h\u00e1 de ser \/ Outro dia\u2026\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Enquanto a \u201cmaioria silenciosa\u201d, nela inclu\u00eddos os jovens mais alienados do mundo, os pequeno-burgueses que apenas queriam uma raz\u00e3o de se dar bem na vida, em lugar de uma raz\u00e3o de viver, acompanhavam Roberto Carlos na can\u00e7\u00e3o \u201cJesus Cristo! Jesus Cristo! \/ Jesus Cristo, eu estou aqui \/ Jesus Cristo! Jesus Cristo! \/ Jesus Cristo, eu estou aqui \u2026 \/ Quem poder\u00e1 dizer o caminho certo \/ \u00c9 voc\u00ea, meu Pai \/ Jesus Cristo! Jesus Cristo!\u2026.\u201d<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-7350\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/paiva.png\" border=\"0\" width=\"225\" height=\"225\" srcset=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/paiva.png 225w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/paiva-150x150.png 150w\" sizes=\"(max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\">Deputado Rubens Paiva era torturado ao som de \u201cJesus Cristo\u201d, de Roberto Carlos<\/address>\n<address style=\"text-align: justify;\"><\/address>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">[As raz\u00f5es dos torturadores que mataram um homem ao som desses dois compositores, com extrema perversidade, n\u00e3o cabem no samba curto de um artigo. As pessoas nascidas nos \u00faltimos anos n\u00e3o sabem que no tempo da ditadura a m\u00fasica era tamb\u00e9m uma realiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, era uma concre\u00e7\u00e3o, o mais pr\u00f3ximo de uma arma poss\u00edvel. O seu lugar na vida e no imagin\u00e1rio da juventude rebelde era um ato inalien\u00e1vel de combate.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A milit\u00e2ncia contra a ditadura buscava a m\u00fasica de Chico Buarque \u00e0 semelhan\u00e7a de um viciado que procura oxig\u00eanio, urgente. Isso, se aliviava, deixava em seu pr\u00f3prio al\u00edvio a ferida mais aberta. At\u00e9 onde a mem\u00f3ria alcan\u00e7a, lembro que nos momentos em que ouv\u00edamos Chico a alegria n\u00e3o tinha morada. E dividam comigo por favor a d\u00favida, n\u00e3o sei se isso vinha da pr\u00f3pria natureza da sua composi\u00e7\u00e3o ou das circunst\u00e2ncias, do tempo miser\u00e1vel da ditadura militar em que viv\u00edamos. Pois a m\u00fasica de Chico era uma express\u00e3o da nossa asfixia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por ironia, a m\u00fasica de Roberto Carlos acabou por ser uma das mais representativas desses anos. O Rei n\u00e3o foi apenas o homem livre que somente fazia o que o regime mandava. N\u00e3o. Roberto Carlos foi capaz de compor p\u00e9rolas que real\u00e7avam o mundo ordenado pelo regime. Entre outras, o Rei comp\u00f4s a can\u00e7\u00e3o que era um hino, um gospel de cora\u00e7\u00f5es vazios, um som sem f\u00faria de negros norte-americanos. O Rei orou \u201cJesus Cristo, eu estou aqui\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 uma perversa vit\u00f3ria do real que esse crime expresse t\u00e3o cruel o valor da m\u00fasica popular no Brasil. Com Roberto Carlos, Rubens Paiva e Chico Buarque numa associa\u00e7\u00e3o que os tr\u00eas n\u00e3o queriam.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Urariano Mota, escritor e jornalista. Autor do romance Soledad no Recife, sobre o assassinato pela ditadura brasileira da militante paraguaia Soledad Barret, gr\u00e1vida, depois de tra\u00edda e denunciada por seu pr\u00f3prio amante o Cabo Anselmo. Escreveu tamb\u00e9m O filho renegado de Deus, seu livro mais recente \u00e9 o Dicion\u00e1rio Amoroso do Recife. Seu primeiro livro foi Os Cora\u00e7\u00f5es Futuristas, um romance na \u00e9poca do ditador Garrastazu M\u00e9dici. Na juventude publicou artigos, contos e cr\u00f4nicas nos jornais Movimento e Opini\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Correio do Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em mais de uma oportunidade j\u00e1 escrevi que pod\u00edamos escrever a hist\u00f3ria pol\u00edtica do Brasil a partir do som da sua m\u00fasica popular. 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