{"id":7465,"date":"2014-08-06T19:29:21","date_gmt":"2014-08-06T19:29:21","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/08\/06\/documentos-sugerem-que-empresas-estrangeiras-auxiliaram-ditadura-no-brasil\/"},"modified":"2014-08-06T19:29:21","modified_gmt":"2014-08-06T19:29:21","slug":"documentos-sugerem-que-empresas-estrangeiras-auxiliaram-ditadura-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/08\/06\/documentos-sugerem-que-empresas-estrangeiras-auxiliaram-ditadura-no-brasil\/","title":{"rendered":"Documentos sugerem que empresas estrangeiras auxiliaram ditadura no Brasil"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quando Jo\u00e3o Paulo de Oliveira foi demitido em 1980 pela Rapistan, um fabricante de esteiras transportadoras com sede em Michigan, nos Estados Unidos, seus problemas estavam apenas come\u00e7ando.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Nos anos seguintes, a ditadura militar no Brasil prendeu ou deteve Oliveira por cerca de 10 vezes. Carros de pol\u00edcia passavam por sua casa nos sub\u00farbios industriais de S\u00e3o Paulo, disse ele, e os oficiais faziam gestos intimidadores ou apontavam armas em sua dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/s4.reutersmedia.net\/resources\/r\/?m=02&#038;d=20140805&#038;t=2&#038;i=957511941&#038;w=450&#038;fh=&#038;fw=&#038;ll=&#038;pl=&#038;r=LYNXMPEA740Q8\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"200\" \/>  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O crime aparente de Oliveira: ser um sindicalista durante uma \u00e9poca em que os militares consideravam greves como subvers\u00e3o comunista.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu costumava brincar que a minha casa era a mais segura no bairro com tanta pol\u00edcia por perto&#8221;, disse Oliveira, hoje com 63 anos. &#8220;Mas era dif\u00edcil, realmente assustador, como uma tortura psicol\u00f3gica.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Pior, disse ele, outras fabricantes locais se recusaram a contrat\u00e1-lo por muitos anos depois, vagamente citando seu passado. Outros colegas tiveram o mesmo destino. &#8220;N\u00f3s sempre suspeitamos que as empresas estavam passando informa\u00e7\u00f5es sobre n\u00f3s para a pol\u00edcia&#8221;, afirmou. &#8220;Mas nunca soubemos com certeza.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Evid\u00eancias recentemente descobertas sugerem que as suspeitas de Oliveira eram bem fundamentadas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Uma comiss\u00e3o apontada pelo governo para investigar abusos durante a ditadura no Brasil de 1964 a 1985 encontrou documentos que diz mostrarem que a Rapistan e outras empresas secretamente ajudaram os militares a identificar suspeitos &#8220;subversivos&#8221; e ativistas sindicais em suas folhas de pagamento.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Empresas estrangeiras e brasileiras s\u00e3o citadas nos documentos, incluindo algumas das maiores montadoras do mundo: Volkswagen, Ford, Toyota e Mercedes-Benz, unidade da Daimler, entre outras.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV) ainda tem que publicar as suas conclus\u00f5es, e as empresas n\u00e3o foram at\u00e9 aqui acusadas de qualquer crime. Est\u00e1 em debate se elas colaboraram com a ditadura e se sim, em que medida. No entanto, defensores dos direitos humanos e alguns dos trabalhadores citados nos documentos dizem que podem mover a\u00e7\u00f5es c\u00edveis ou legais como resultado das conclus\u00f5es da comiss\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Alguns trabalhadores querem que as empresas paguem repara\u00e7\u00f5es por sal\u00e1rios perdidos. Outros, incluindo aqueles que duvidam que o relat\u00f3rio da CNV ser\u00e1 conclusivo o suficiente para um caso nos tribunais, dizem que ficariam satisfeitos com um pedido de desculpas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A CNV foi institu\u00edda em 2012 pela presidente Dilma Rousseff, ela pr\u00f3pria uma ex-militante de esquerda que foi presa e torturada por militares na d\u00e9cada dos anos 1970.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A comiss\u00e3o tem a tarefa de lan\u00e7ar nova luz sobre os abusos cometidos durante essa \u00e9poca, e quem foram os respons\u00e1veis por isso. A ditadura apoiada pelos Estados Unidos matou cerca de 300 pessoas, e torturou ou prendeu milhares mais, como parte do que o regime via como uma luta para parar o esfor\u00e7o de esquerdistas de transformar o Brasil em uma vers\u00e3o muito maior da Cuba de Fidel Castro.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Dilma, que est\u00e1 concorrendo \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o em outubro, expressou a esperan\u00e7a de que um registro hist\u00f3rico mais completo ajudar\u00e1 a garantir que o Brasil, agora uma democracia pr\u00f3spera e um crescente poder econ\u00f4mico, nunca repita erros daquela \u00e9poca.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As empresas, em geral, se beneficiaram das pol\u00edticas conservadoras da ditadura. Acad\u00eamicos h\u00e1 muito acreditam que as empresas locais e multinacionais ajudaram o regime a identificar os funcion\u00e1rios que estavam fomentando conflitos trabalhistas ou representavam uma suposta amea\u00e7a \u00e0 estabilidade.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Agora, os investigadores da comiss\u00e3o descobriram evid\u00eancias que acreditam comprovar tal rela\u00e7\u00e3o. A CNV planeja incluir as alega\u00e7\u00f5es no seu relat\u00f3rio oficial, previsto para sair em dezembro. Seus membros permitiram que \u00e0 Reuters tivesse acesso a documentos com evid\u00eancias sobre as empresas \u00e0 medida que a investiga\u00e7\u00e3o se aproxima do fim.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;LISTA NEGRA&#8221;<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os documentos n\u00e3o fornecem um registro completo da repress\u00e3o do Estado durante a ditadura. Alguns jornais da \u00e9poca foram queimados pelos militares ou desapareceram; alguns foram encontrados no ano passado nas casas de ex-oficiais depois que eles morreram; outros est\u00e3o espalhados em arquivos do Estado.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A descoberta mais valorizada da Comiss\u00e3o at\u00e9 aqui \u00e9 um documento encontrado nos arquivos do governo do Estado de S\u00e3o Paulo que investigadores chamam informalmente de &#8220;lista negra&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A lista datilografada cont\u00e9m os nomes e endere\u00e7os residenciais de cerca de 460 trabalhadores de 63 empresas do ABC paulista, que \u00e0s vezes \u00e9 chamado de &#8220;Detroit do Brasil&#8221; por ter muitas montadoras estrangeiras baseadas na regi\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A lista, que data de in\u00edcio de 1980, foi elaborada pelo Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops), uma ag\u00eancia de intelig\u00eancia da pol\u00edcia que existia principalmente para monitorar e reprimir os esquerdistas. Historiadores dizem que o Dops deteve um n\u00famero indeterminado de pessoas, incluindo a presidente Dilma, e torturou muitas delas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Volkswagen \u00e9 a empresa que tem mais funcion\u00e1rios na lista do Dops, com 73. A Mercedes-Benz aparece em seguida, com 52.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O documento n\u00e3o diz para qual finalidade o Dops usou a lista, ou quais crit\u00e9rios foram usados para selecionar os nomes. O documento tamb\u00e9m n\u00e3o indica como o Dops obteve as informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A advogada Rosa Cardoso, que lidera a subcomiss\u00e3o da CNV que investiga supostos abusos contra trabalhadores, disse que a lista parece ter sido usada para monitorar ativistas sindicais num momento em que os sindicatos da Grande S\u00e3o Paulo foram se tornando mais assertivos em suas demandas por melhores sal\u00e1rios e condi\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A lista, ou alguma vers\u00e3o dela, tamb\u00e9m pode ter sido distribu\u00edda a empresas para impedir os trabalhadores de conseguir emprego em outro lugar ap\u00f3s serem demitidos, disse ela, com base em entrevistas que a comiss\u00e3o realizou.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O documento inclui informa\u00e7\u00f5es que, segundo Rosa, s\u00f3 podem ter sido fornecidas pelas empresas. Mais da metade dos nomes na lista t\u00eam o setor da f\u00e1brica onde os funcion\u00e1rios trabalhavam. Esse dado, escrito \u00e0 m\u00e3o ao lado dos nomes dos empregados, \u00e9 altamente espec\u00edfico, denotando a fun\u00e7\u00e3o do departamento (&#8220;Manuten\u00e7\u00e3o&#8221;) ou sua nomenclatura interna (&#8220;Setor 4530&#8221;).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 uma prova de que essas empresas conspiraram para reprimir os seus trabalhadores&#8221;, disse Rosa.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Alguns estudiosos alertam que \u00e9 poss\u00edvel que as informa\u00e7\u00f5es sobre os trabalhadores tenham sido obtidas por outros meios &#8211;por exemplo, atrav\u00e9s de informantes dentro dos sindicatos ou pelo pr\u00f3prio Dops. Questionado sobre as explica\u00e7\u00f5es alternativas, Rosa disse: &#8220;N\u00e3o com esse detalhe&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Alguns documentos descobertos pela comiss\u00e3o indicam mais claramente que as empresas passaram informa\u00e7\u00f5es para os militares.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Investigadores encontraram uma carta de duas p\u00e1ginas da pol\u00edcia civil de S\u00e3o Paulo para o Dops, datada de 9 de mar\u00e7o de 1981, sobre David Rumel, ent\u00e3o um m\u00e9dico para o sindicato dos metal\u00fargicos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A carta inclui data de nascimento e endere\u00e7o residencial do Rumel, mas \u00e9 mais concentrada em seu passado esquerdista. A carta observa que ele ingressou no Partido Comunista Brasileiro, como estudante, em 1971, e foi preso por cinco meses entre 1975 e 1976.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na carta, a pol\u00edcia diz que a informa\u00e7\u00e3o foi &#8220;recolhida pelo servi\u00e7o de seguran\u00e7a Volkswagen do Brasil&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O nome de Rumel n\u00e3o aparece na &#8220;lista negra&#8221;. Os esfor\u00e7os para encontr\u00e1-lo foram infrut\u00edferos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em resposta a perguntas detalhadas da Reuters sobre se forneceu tais informa\u00e7\u00f5es aos militares, a Volkswagen do Brasil disse que ainda n\u00e3o foi contactada pela CNV. No entanto, em um desenvolvimento que pode ser o primeiro do tipo no Brasil, a Volkswagen informou que vai iniciar a sua pr\u00f3pria investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Sem o conhecimento dos documentos concretos, n\u00e3o somos capazes de dar respostas a todas as suas perguntas&#8221;, disse o porta-voz da Volkswagen Renato Acciarto via e-mail. &#8220;Mas a Volkswagen vai investigar todas as indica\u00e7\u00f5es para obter mais informa\u00e7\u00f5es sobre a empresa e as institui\u00e7\u00f5es do Estado durante o per\u00edodo (do regime) militar.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;A Volkswagen lan\u00e7ar\u00e1 luz sobre esse assunto para obter pleno conhecimento (do que aconteceu)&#8221;, escreveu ele.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A porta-voz do Dematic Group, com sede em Luxemburgo e que agora controla a Rapistan, Cheryl Falk, disse que a empresa &#8220;n\u00e3o tem documenta\u00e7\u00e3o ou registros&#8221; em rela\u00e7\u00e3o aos empregados em sua unidade brasileira em 1980.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Valorizamos nossos funcion\u00e1rios e respeitamos sua privacidade, e n\u00e3o ir\u00edamos tolerar a conduta alegada (pela comiss\u00e3o da verdade)&#8221;, acrescentou ela.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A assessoria de imprensa da Mercedes-Benz no Brasil disse que a empresa &#8220;n\u00e3o confirma&#8221; que deu informa\u00e7\u00f5es aos militares, e disse que &#8220;tem entre seus valores ser apartid\u00e1ria e zelar pela confidencialidade dos dados cadastrais de seus empregados&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Ford se recusou a comentar. A Toyota e a Fiat, que agora \u00e9 dona da Chrysler, disseram n\u00e3o ter registros de poss\u00edveis abusos durante aquela \u00e9poca. &#8220;Gostar\u00edamos de lembrar que estamos nos referindo a um per\u00edodo passado h\u00e1 mais de 30 anos&#8221;, disse o Departamento de Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas da Toyota do Brasil.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>TORNEIRO MEC\u00c2NICO NA LISTA<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Reuters entrevistou 10 pessoas cujos nomes apareceram na &#8220;lista negra&#8221;. A maioria relatou ter sido despedida pelas empresas no in\u00edcio dos anos 1980, na \u00e9poca que o documento apareceu. Alguns disseram que foram presos pelo menos uma vez, \u00e0s vezes em piquetes. A maioria relatou problemas para encontrar trabalho mais tarde.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Nenhum dos trabalhadores disse ter enfrentado tortura ou pris\u00e3o prolongada nos anos ap\u00f3s o surgimento da lista. Isso condiz com relatos de historiadores de que as t\u00e1ticas mais duras dos militares cessaram em grande parte em meados da d\u00e9cada dos anos 1970, com grupos guerrilheiros armados diminuindo em n\u00famero e generais mais moderados ganhando influ\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Manoel Boni, de 59 anos, disse que foi demitido pela Mercedes-Benz depois de participar de uma greve em 1980. Nos anos que se seguiram, ele aplicou repetidamente para cargos como torneiro mec\u00e2nico em outras montadoras fora de S\u00e3o Paulo, incluindo algumas f\u00e1bricas que tinham vagas dispon\u00edveis para essa fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As empresas se recusaram a contrat\u00e1-lo. Boni disse que dependeu por longos per\u00edodos de ajuda da igreja ou da assist\u00eancia de amigos. Ele finalmente encontrou trabalho em uma pequena f\u00e1brica perto do centro de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quando viu a lista a qual a Reuters teve acesso pela primeira vez, Boni disse: &#8220;Meu Deus, meu Deus&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Setor 381&#8221;, disse ele, lendo em voz alta a anota\u00e7\u00e3o manuscrita ao lado de seu nome. &#8220;Sim, isso era a inspe\u00e7\u00e3o de qualidade, onde eu trabalhava.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ele ficou em sil\u00eancio por um longo per\u00edodo, lendo outros nomes no documento. &#8220;Muitas coisas fazem sentido agora&#8221;, disse ele, finalmente.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Keiji Kanashiro, 70, foi assessor econ\u00f4mico para a Mercedes-Bens antes de perder o emprego em 1980. Nos anos seguintes, ele disse que muitas vezes enviou 20 curr\u00edculos por semana, sem sucesso.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Uma vez, Kanashiro disse que se reuniu com um representante de recursos humanos de uma outra grande montadora estrangeira na Grande S\u00e3o Paulo. &#8220;Ele me disse: &#8216;Voc\u00ea est\u00e1 em uma lista, e voc\u00ea nunca mais vai trabalhar no setor privado de novo'&#8221;, afirmou Kanashiro.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Nem todos na lista tiveram essas experi\u00eancias ruins. Geovaldo Gomes dos Santos, que trabalhou na preven\u00e7\u00e3o de acidentes para a Volkswagen, disse que sentiu como se seus chefes estivessem tentando empurr\u00e1-lo para fora da empresa no in\u00edcio dos anos 1980. Ele continuou no trabalho mesmo assim e, finalmente, se aposentou em 2003.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">De todo modo, ele tem lembran\u00e7as v\u00edvidas dos anos duros. &#8220;Se voc\u00ea apoiou o sindicato, eles trataram voc\u00ea como um inseto&#8221;, disse. &#8220;Eu gostaria de ver alguma justi\u00e7a pelo que aconteceu com os outros.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>LEI DE ANISTIA COMPLICA AS COISAS<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A grande quest\u00e3o que paira sobre o trabalho da comiss\u00e3o da verdade \u00e9 qual tipo de justi\u00e7a \u00e9 poss\u00edvel de ser feita.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Diferentemente de alguns outros pa\u00edses na Am\u00e9rica do Sul que passaram por ditaduras durante a Guerra Fria, o Brasil nunca tinha visto um esfor\u00e7o assim para investigar abusos graves.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Isso \u00e9 em parte porque o regime militar do Brasil matou muito menos pessoas do que seus pares regionais. A ditadura na Argentina entre 1976 e 1983 matou at\u00e9 30 mil pessoas&#8211; cerca de 100 vezes o n\u00famero de mortes no Brasil, em um pa\u00eds com cerca de um quinto da popula\u00e7\u00e3o brasileira. O regime militar do Brasil tamb\u00e9m foi capaz de negociar uma anistia abrangente para proteger os seus l\u00edderes da acusa\u00e7\u00e3o antes de entregar o poder de volta aos civis em 1985.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Como resultado, alguns juristas s\u00e3o cautelosos sobre as chances de processos judiciais bem-sucedidos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Em tese, se uma empresa contribuiu ou se beneficiou da viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos, ela pode ser responsabilizada&#8221;, disse o procurador regional da Rep\u00fablica e especialista em direito internacional de direitos humanos, Marlon Weichert. O Minist\u00e9rio P\u00fablico \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o que poderia iniciar a\u00e7\u00f5es judiciais com base em conclus\u00f5es da CNV.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ciente do trabalho da comiss\u00e3o da verdade at\u00e9 o momento, Weichert disse por e-mail que os resultados s\u00e3o importantes, mas ressaltou que ele precisa ver a prova completa antes de dizer se e como um processo contra as empresas poderia ser fundamentado.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No ano passado, o Minist\u00e9rio P\u00fablico da Argentina apresentou acusa\u00e7\u00f5es criminais contra tr\u00eas ex-executivos da Ford, que supostamente deram nomes, endere\u00e7os e imagens de trabalhadores para as for\u00e7as de seguran\u00e7a do pa\u00eds durante a ditadura. Alguns desses trabalhadores foram presos e torturados. Os tr\u00eas homens negam as acusa\u00e7\u00f5es e se declararam inocentes. O caso ainda est\u00e1 fazendo seu caminho nas inst\u00e2ncias da Justi\u00e7a argentina.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No Brasil, a comiss\u00e3o da verdade pode convocar ou convidar as empresas que aparecem com mais frequ\u00eancia na &#8220;lista negra&#8221; para dar a sua vers\u00e3o da hist\u00f3ria nas pr\u00f3ximas semanas, disse Sebasti\u00e3o Neto, que est\u00e1 supervisionando a investiga\u00e7\u00e3o sobre as companhias.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;VOC\u00ca TEM QUE PROVAR ISSO&#8221;<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Augusto Portugal, um ex-funcion\u00e1rio da Rolls-Royce que est\u00e1 na lista, est\u00e1 esperando por indeniza\u00e7\u00f5es das empresas. Mas ele teme que se a comiss\u00e3o solicitar seu testemunho com base em provas inconclusivas, isso poderia fazer com que as empresas se escondam atr\u00e1s de uma muralha de advogados.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Portugal j\u00e1 entrevistou cerca de 30 pessoas na lista ao escrever uma tese de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o sobre o tema, e diz que n\u00e3o \u00e9 completamente claro de onde a informa\u00e7\u00e3o veio. &#8220;\u00c9 \u00f3bvio que as empresas colaboraram (com os militares)&#8221;, disse ele. &#8220;Mas voc\u00ea tem que provar isso.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 claro qu\u00e3o ativamente Dilma, apesar de seu passado, apoiaria qualquer esfor\u00e7o de acusa\u00e7\u00e3o. Alguns em seu partido queriam incluir um apoio para uma &#8220;revis\u00e3o&#8221; da lei de anistia de 1979 em seu programa de governo para a reelei\u00e7\u00e3o. Mas a proposta encontrou resist\u00eancia por parte de alguns de seus assessores, que se preocupam com o fato de ela j\u00e1 ter muito trabalho com uma economia estagnada e uma popularidade em queda.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Outros dizem que a aten\u00e7\u00e3o p\u00fablica dada \u00e0 comiss\u00e3o da verdade tem sido a sua pr\u00f3pria recompensa, por despertar um debate mais amplo na sociedade sobre os crimes da \u00e9poca da ditadura.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O jornal O Globo, que defendeu o regime militar, publicou um editorial no ano passado dizendo &#8220;que o apoio foi um erro&#8221; &#8211;o que levou a especula\u00e7\u00f5es de que outras empresas possam seguir o mesmo caminho em breve.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Enquanto isso, alguns na lista se confortam por acreditar que no fim venceram.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A agita\u00e7\u00e3o sindical nas montadoras instaladas na Grande S\u00e3o Paulo acabou se espalhando, enfraquecendo as for\u00e7as armadas e levando a uma transi\u00e7\u00e3o para a democracia em 1985. Do movimento sindical encorajado nasceu um novo partido pol\u00edtico: o Partido dos Trabalhadores (PT).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um de seus fundadores, o ex-l\u00edder sindical Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, tornou-se presidente do Brasil em 2003. Dilma tamb\u00e9m \u00e9 integrante do PT, e o Brasil agora tem algumas das leis trabalhistas mais generosos do mundo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Lula sempre nos disse que, para realmente vencer em nossa batalha, t\u00ednhamos necessidade de fundar um partido e tentar mudar a sociedade&#8221;, disse Kanashiro, o ex-empregado da Mercedes-Benz na lista, que agora \u00e9 do PT em Bras\u00edlia . &#8220;Nunca pensei que isso iria acontecer t\u00e3o r\u00e1pido. Mas isso n\u00e3o muda o fato de que n\u00f3s queremos justi\u00e7a para esses abusos.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Reuters<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando Jo\u00e3o Paulo de Oliveira foi demitido em 1980 pela Rapistan, um fabricante de esteiras transportadoras com sede em Michigan, nos Estados Unidos, seus problemas estavam apenas come\u00e7ando. Nos anos seguintes, a ditadura militar no Brasil prendeu ou deteve Oliveira por cerca de 10 vezes. Carros de pol\u00edcia passavam por sua casa nos sub\u00farbios industriais [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7465"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7465"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7465\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7465"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7465"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7465"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}