{"id":747,"date":"2012-05-27T13:38:39","date_gmt":"2012-05-27T13:38:39","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/27\/depoimento-de-manoel-conceicao-santos-2\/"},"modified":"2012-05-27T13:38:39","modified_gmt":"2012-05-27T13:38:39","slug":"depoimento-de-manoel-conceicao-santos-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/27\/depoimento-de-manoel-conceicao-santos-2\/","title":{"rendered":"DEPOIMENTO DE MANOEL CONCEI\u00c7\u00c3O SANTOS"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>DEPOIMENTO DE MANOEL CONCEI\u00c7\u00c3O SANTOS NA COMISS\u00c3O DE DIREITOS HUMANOS DA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA FEDERAL EM 16 DE MAIO DE 2012.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>Senhor Presidente da Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da C\u00e2mara Federal, Dep. Domingos Dutra; Senhora Coordenadora da Comiss\u00e3o Parlamentar Mem\u00f3ria, Verdade e Justi\u00e7a, Deputada Luiza Erondina; Secretaria Nacional dos Direitos Humanos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica; Senhores e Senhoras integrantes da Comiss\u00e3o da Verdade Demais Senhores e Senhoras componentes deste Legislativo Federal; Organiza\u00e7\u00f5es da Sociedade Civil, lideran\u00e7as e militantes da Classe Trabalhadora do Brasil e do Mundo.  <!--more-->  <span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Quero antecipadamente agradecer com muito amor e muito carinho a aten\u00e7\u00e3o de todos e todas Voc\u00eas.<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Eu sou Manoel Concei\u00e7\u00e3o Santos, Negro, Lavrador, n\u00e3o escolarizado, brasileiro e natural do estado do Maranh\u00e3o, nascido no povoado Pedra Grande, munic\u00edpio de Pirapemas, e, agora em 24 de julho de 2012 completarei 78 anos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Naturalmente, cada um de n\u00f3s tem uma hist\u00f3ria; hist\u00f3ria real que prosseguimos escrevendo nas p\u00e1ginas do livro da nossa vida enquanto conseguimos ir sobrevivendo. Mas al\u00e9m desta hist\u00f3ria real, que \u00e9 praticamente imposs\u00edvel de ser descrita em sua totalidade, existem as hist\u00f3rias formalizadas e informais, que s\u00e3o as formas que pessoas e institui\u00e7\u00f5es nos v\u00eaem ou tentam nos qualificar.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Primeiramente, eu gostaria de esclarecer que, em muitos aspectos, minha hist\u00f3ria \u00e9 praticamente imposs\u00edvel de ser compreendida como uma hist\u00f3ria individual, pois a mesma guarda diversos pontos comuns com a hist\u00f3ria de muitos de meus companheiros e de minhas companheiras, que assim como eu, colocaram suas vidas a servi\u00e7o de causas coletivas de uma classe, a classe trabalhadora, da qual somos parte. Assim, minha hist\u00f3ria \u00e9 individual e ao mesmo tempo coletiva. Certamente mais coletiva que individual.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Nesta oportunidade que a C\u00e2mara dos Deputados concede a minha pessoa, atrav\u00e9s da Comiss\u00e3o dos Direitos Humanos e Minorias, quero falar em nome tamb\u00e9m de muitos dos meus companheiros e de minhas companheiras que o Estado Brasileiro sob o Regime da Ditadura Militar e seus agentes decidiram, deliberada e sistematicamente, calar suas vozes e exterminar suas vidas. Dos que foram mortos e desaparecidos por ordem do Estado sob governo militar quero fazer men\u00e7\u00e3o, pelo menos a alguns que tive a felicidade e a honra de ter convivido: Rui Fraz\u00e3o, um grande, decente e solid\u00e1rio companheiro educador da AP (A\u00e7\u00e3o Popular), dado como desaparecido; o companheiro Jair Ferreira de S\u00e1, o Paulo Stwit Wright e Jos\u00e9 da Mata Machado, o Fernando Santa Cruz, que eram os principais dirigentes da A\u00e7\u00e3o Popular-AP. Estes eram considerados os mais perigosos pelo regime militar. Das lideran\u00e7as do campo, quero destacar Joaquim Matias Neto (Joaquim Lavanca), agricultor, \u00a0lideran\u00e7a camponesa que foi preso e brutalmente torturado, morrendo prematuramente em consequ\u00eancia das torturas sofrida; tamb\u00e9m o companheiro Jos\u00e9 Lavanca, do mesmo modo preso e torturado, vindo a \u00f3bito em consequ\u00eancia das torturas. Esse companheiro era o esposo da companheira Lurdes que ainda est\u00e1 viva, morando no munic\u00edpio de Barra do Corda no Maranh\u00e3o. Al\u00e9m desses mortos e\/ou desaparecidos, quero destacar alguns companheiros e companheiras que foram honrados, firmes, leais e muito importantes para organiza\u00e7\u00e3o das lutas camponesas no Maranh\u00e3o. Destaco o nome do companheiro Antonio Lisboa Brito agricultor e ferreiro que foi meu companheiro de diretoria do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Pindar\u00e9 Mirim. Foi muito perseguido pela ditadura, tendo que abandonar a fam\u00edlia com esposa e filhos pequenos (crian\u00e7as), vivendo o tempo todo escondido at\u00e9 o final do governo militar. Teve portanto, sua vida totalmente destro\u00e7ada pelo ditadura \u00a0militar. Tamb\u00e9m o companheiro Jodinha da nossa diretoria sindical, que da mesma forma que o Antonio Lisboa foi perseguido e teve que sobreviver na clandestinidade. Estes dois companheiros ainda est\u00e3o vivos. Jodinha mora atualmente no estado do Par\u00e1 e o Antonio Lisboa mora em Teresina no Piau\u00ed.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quero primeiramente deixar claro, que em compara\u00e7\u00e3o a muitos companheiros e muitas companheiras, dentre os quais, os que citei, me considero muito sortudo, pois apesar das muitas persegui\u00e7\u00f5es, priva\u00e7\u00f5es, difama\u00e7\u00f5es, torturas e mutila\u00e7\u00f5es a mim impostas pelo Estado Brasileiro sob regime militar e seus agentes e aliados, escapei com vida e tenho podido at\u00e9 o momento continuar fazendo o que meus companheiros e minhas companheiras foram impedidos e impedidas de fazer, pois foram mortos e desaparecidos por ordem e a\u00e7\u00e3o do governo militar. E o que tenho feito e que queriam fazer meus companheiros e minhas companheiras que foram eliminados e eliminadas pelo Estado Brasileiro sob o regime militar? Lut\u00e1vamos, e eu continuo lutando, por justi\u00e7a social, por um efetivo direito \u00e0 uma vida digna para quem trabalha e\/ou quer trabalhar, por direito de se expressar, se organizar em sindicato, associa\u00e7\u00e3o, cooperativa, partido pol\u00edtico e outras formas de \u00a0organiza\u00e7\u00f5es sociais. Enfim, lutamos por efetiva democracia na pol\u00edtica, no conhecimento, na sa\u00fade de boa qualidade, na ci\u00eancia, na tecnologia, na terra, na cultura, na economia, na comunica\u00e7\u00e3o. Infelizmente em nosso pa\u00eds de economia capitalista ainda em est\u00e1gio selvagem, onde em muitos estados federados ainda impera o poder de oligarquias e a lei da pistolagem, como \u00e9 o caso do Maranh\u00e3o, lutar por justi\u00e7a e direitos sociais, mesmos os direitos mais elementares e essenciais, \u00e9 miss\u00e3o extremamente perigosa e custosa, o custo quase sempre \u00e9 cobrado em sangue e em vidas dos que ousam desafiar a domina\u00e7\u00e3o do capital e seus asseclas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Eu tenho ousado desafiar esse poder, mas tenho sido severamente punido com persegui\u00e7\u00f5es, amea\u00e7as, pris\u00f5es, difama\u00e7\u00f5es, torturas f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas, e por fim, fui expulso do meu pa\u00eds e obrigado a viver exilado como estrangeiro em outro pa\u00eds. Dessa forma, o relato que trago hoje aqui nesta casa legislativa n\u00e3o \u00e9 novo, j\u00e1 o fiz com a mesma responsabilidade em diversos outros momentos em que tive oportunidade. Entretanto, devo ressaltar que a grande novidade \u00e9 o lugar em que este relato est\u00e1 agora sendo feito. Creio est\u00e1 falando diretamente em um dos ouvidos desse ente gigante que chamamos de Estado. Espero que deste modo possa finalmente ser escutado e levado a s\u00e9rio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Bem, ainda em 1957 eu tive o contato direto com a f\u00faria dos latifundi\u00e1rios\/grileiros contra camponeses pobres do estado do Maranh\u00e3o. Ap\u00f3s ter sido expulso com minha fam\u00edlia, das terras herdadas de meus av\u00f3s, do povoado Pirapemas, munic\u00edpio de Coroat\u00e1, fomos tentar morar em outra localidade chamada Santa Luzia, que pertencia ao munic\u00edpio de Bacabal. L\u00e1 as terras eram consideradas devolutas e j\u00e1 havia outras fam\u00edlias agricultoras ali residindo h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas. Na verdade l\u00e1 tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1vamos livres da persegui\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia dos latifundi\u00e1rios\/grileiros. As amea\u00e7as e ordens para desocuparmos a terra eram cada vez maiores. Certo dia est\u00e1vamos reunidos no povoado Copa\u00edba dos Mesquitas para discutir as amea\u00e7as sofridas pela comunidade, quando fomos surpreendidos por um grupo de jagun\u00e7os sob comando do latifundi\u00e1rio\/grileiro de nome Manac\u00e9 Alves de Castro, que era filho de Raimundo Alves de Castro o delegado de pol\u00edcia \u00a0do munic\u00edpio. Naquele dia vivi uma das experi\u00eancias mais marcantes e traum\u00e1ticas de minha vida. Vi ali o qu\u00e3o cruel era o poder dos latifundi\u00e1rios, presenciei a morte a sangue frio de cinco camponeses, dentre os quais uma velhinha e uma crian\u00e7a de no m\u00e1ximo tr\u00eas anos de idade. Eu escapei por pouco ferido na perna esquerda. Foi exatamente nesse dia que fiz um juramento pr\u00e1 Deus, sob testemunho daquela comunidade, que enquanto vida tivesse me dedicaria \u00e0 luta em prol do direito \u00e0 terra para n\u00f3s camponeses. \u00a0J\u00e1 relatei com mais detalhes este epis\u00f3dio em outros documentos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s sofrer esta viol\u00eancia voltei para Pirapemas disposto a lutar por nossa terra que havia sido tomada pela latifundi\u00e1ria de nome Margarida Soares, que era mais conhecida na localidade como Dona Guida. L\u00e1, juntamente com umas 180 fam\u00edlias, fundamos uma associa\u00e7\u00e3o para lutar pela terra e organizar a produ\u00e7\u00e3o. Fomos denunciados como saqueadores e subversivos pela dita latifundi\u00e1ria. Intimado a depor, nosso presidente da associa\u00e7\u00e3o, o companheiro Antonio Vicente foi a S\u00e3o Luis. Prestou depoimento na Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica do Estado do Maranh\u00e3o e voltou com a incumb\u00eancia de reunir todos os associados para receberem em assembl\u00e9ia a visita do Secret\u00e1rio Estadual de Seguran\u00e7a. No dia marcado as comunidades se reuniram na sede da associa\u00e7\u00e3o para esperar o Secret\u00e1rio de Estado. Alguns dos dirigentes foram at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o do trem para aguard\u00e1-lo. Ao constatar que o mesmo n\u00e3o havia vindo no trem, retornaram para a sede da \u00a0associa\u00e7\u00e3o para informar aos demais que ali se encontravam. Est\u00e1vamos ainda discutindo o n\u00e3o comparecimento do secret\u00e1rio de seguran\u00e7a quando avistamos na estrada um batalh\u00e3o da pol\u00edcia militar, 28 soldados, um cabo e um tenente. Chegaram \u00e0 porta da sede da associa\u00e7\u00e3o e perguntaram: \u201cquem \u00e9 o presidente desta merda? Respondemos, n\u00e3o temos presidente! Todo mundo muito assustado. A\u00ed eles disseram: h\u00e1, n\u00e3o tem presidente, ent\u00e3o todo mundo \u00e9 presidente! Come\u00e7aram a atirar da parte de cima da parede e foram baixando, quando as balas atingiram o piso da casa j\u00e1 haviam matado sete pessoas da comunidade, todas pessoas jovens. Mais uma vez escapei e testemunhei a nova chacina contra camponeses que lutavam pelo direito de ter um peda\u00e7o de terra para morar, trabalhar e viver comunitariamente. Minha revolta s\u00f3 aumentava frente a tamanha brutalidade contra n\u00f3s camponeses, agora praticada pelo pr\u00f3prio estado. Al\u00e9m dos mortos outros ficaram \u00a0gravemente feridos, a exemplo do companheiro Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio que teve um bra\u00e7o decepado por um bala\u00e7o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Depois de presenciar esses dois horrendos epis\u00f3dios de viol\u00eancia extrema contra n\u00f3s camponeses do Maranh\u00e3o eu estava acometido de uma tremenda revolta. Foi quando fui convidado pelo pessoal do MEB (Movimento de Educa\u00e7\u00e3o de Base) para participar de um curso sobre sindicalismo rural. Foi neste curso que comecei a entender o significado da viol\u00eancia praticada contra n\u00f3s camponeses como o produto de uma sociedade cindida entre duas classes antag\u00f4nicas: a classe que trabalha (trabalhadora) e a classe que explora o trabalho (capitalista patronal). Descobri que n\u00e3o se tratava de luta apenas dos trabalhadores camponeses, mais dos trabalhadores em geral, do campo e da cidade. Foi a\u00ed que passei a compreender a exist\u00eancia de uma luta sistem\u00e1tica de classes, independentemente se temos ou n\u00e3o consci\u00eancia da sua exist\u00eancia. Fui adquirindo e assumindo minha identidade de trabalhador campon\u00eas e minha revolta foi se transformando em consci\u00eancia de \u00a0classe. Da\u00ed passei a ter uma atua\u00e7\u00e3o mais direcionada e comecei a me dedicar na constru\u00e7\u00e3o de instrumentos de organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, na perspectiva de nos empoderarmos contra as v\u00e1rias formas de repress\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o impostas a n\u00f3s pela classe capitalista.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Foi a partir dessa nova vis\u00e3o que progressivamente fui adquirindo, que passei a ter uma atua\u00e7\u00e3o mais qualificada do ponto de vista da consci\u00eancia de classe, e me integrando em v\u00e1rias frentes de trabalho e a\u00e7\u00e3o social. \u00a0Fomos organizando associa\u00e7\u00f5es nas comunidades e tamb\u00e9m desenvolvendo um trabalho de combate ao analfabetismo que era extremo no meio rural. Como resultado desse processo de anima\u00e7\u00e3o, forma\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria fundamos, em agosto de 1963, o primeiro Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais do Maranh\u00e3o, no munic\u00edpio de Pindar\u00e9 Mirim. A partir de ent\u00e3o passamos a fazer uma luta mais unificada pelo direito \u00e0 terra e em defesa das ro\u00e7as e produ\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas dos camponeses, as quais eram constantemente invadidas e destru\u00edda pelo gado dos fazendeiros. Come\u00e7amos a cobrar indeniza\u00e7\u00e3o pelos preju\u00edzos e que o gado fosse criado preso nas propriedades dos fazendeiros. Estas lutas foram consideradas uma \u00a0afronta aos latifundi\u00e1rios, que passaram a amea\u00e7ar o sindicato e seus dirigentes. O clima social e pol\u00edtico no campo maranhense permaneceu muito pesado nos anos que se seguiram \u00e0 funda\u00e7\u00e3o do sindicato. Em \u00e2mbito nacional ocorreu logo no in\u00edcio de 1964 o Golpe Militar. Nesse per\u00edodo os movimentos e organiza\u00e7\u00f5es sociais da classe trabalhadora estavam com bom n\u00edvel de organiza\u00e7\u00e3o, boa capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o articulada. As lutas camponesas que acontecia no Estado do Maranh\u00e3o, principalmente em prol da reforma agr\u00e1ria, j\u00e1 se integravam \u00e0s demais lutas que vinham se fortalecendo em todo o Brasil. Mesmo j\u00e1 sob o governo da ditadura militar, continuamos nossas lutas no Maranh\u00e3o. Em 1965 um Jovem aguerrido de nome Jos\u00e9 Sarney, se lan\u00e7a candidato ao governo do Estado do Maranh\u00e3o, tendo como principal bandeira de sua campanha a realiza\u00e7\u00e3o da reforma agr\u00e1ria, caso fosse eleito. E mais, prometia que sob seu governo os \u00a0fazendeiros teriam que criar o gado preso em cercado e ainda seriam obrigados a indenizar os preju\u00edzos causados aos camponeses que tiveram suas ro\u00e7as invadidas. N\u00f3s camponeses ficamos maravilhados com a coragem e determina\u00e7\u00e3o apresentado pelo entusiasta candidato. Cairmos com tudo em sua campanha. Resultado, o homem foi eleito com uma vota\u00e7\u00e3o estrondosa.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Pr\u00e1 encurtar este breve relato, em 13 de julho de 1968, n\u00f3s est\u00e1vamos reunidos no nosso sindicato com uma multid\u00e3o de homens e mulheres que vieram receber atendimento \u00e0 sa\u00fade por meio de um m\u00e9dico (Dr. Jo\u00e3o Bosco) que o sindicato havia contratado. Nesse dia fomos atacados por um grupo de policiais que chegaram atirando e aterrorizando as pessoas que ali se encontravam. Eu recebi um bala\u00e7o em minha perna direita e fui aprisionado pela pol\u00edcia. Fiquei jogado durante 6 dias na cadeia do munic\u00edpio, sem qualquer tratamento no ferimento sofrido. Quando finalmente recebi um tratamento, ap\u00f3s ser encaminhado para a Capital S\u00e3o Luis, minha perna j\u00e1 estava gangrenada e teve que ser amputada. Foi assim que fui mutilado por uma a\u00e7\u00e3o direta das for\u00e7as repressiva do estado do Maranh\u00e3o, que era governado por Jos\u00e9 Sarney, que j\u00e1 havia aderido ao regime militar.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mas continuamos fazendo a luta por liberdade de express\u00e3o e por reforma agr\u00e1ria e vida digna para n\u00f3s camponeses, agora j\u00e1 integrando um movimento maior em \u00e2mbito de Brasil, de resist\u00eancia \u00e0 ditadura militar. A persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s nossas organiza\u00e7\u00f5es e lideran\u00e7as era cada vez maior. Em 2 de janeiro de 1972 eu fui preso pela terceira vez pelo regime militar. Eu me encontrava em um povoado chamado S\u00e3o Jos\u00e9 do Tuf\u00ed, regi\u00e3o do Pindar\u00e9, hoje \u00e9 o munic\u00edpio de Tufil\u00e2ndia. Fui levado para o DEOPS de S\u00e3o Luis. L\u00e1 fiquei preso por volta de um m\u00eas at\u00e9 que fui seq\u00fcestrado, com os olhos vendados, por agentes do DOI-CODI, \u00e0s 4 horas da madrugada e colocado em avi\u00e3o. S\u00f3 vim ter no\u00e7\u00e3o do meu paradeiro quando fui entregue ao Comando do I Ex\u00e9rcito no Estado do Rio de Janeiro e levado para o quartel no bairro da Tijuca. Nessa pris\u00e3o fui barbaramente torturado. Logo que cheguei, arrancaram minha perna mec\u00e2nica e minhas roupas e fui colocado nu\u00a0em uma cela chamada geladeira. Ali permaneci durante 8 meses, s\u00f3 recebia p\u00e3o e \u00e1gua como alimento. Defecava e urinava no mesmo local em que ficava, pois n\u00e3o havia privada e o local era muito apertado.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Dal\u00ed s\u00f3 sa\u00eda quando era levado para interrogat\u00f3rio sob tortura, numa sala \u00e0 prova de som. Fui inicialmente torturado numa tal \u201ccadeira de drag\u00e3o\u201d, que \u00e9 uma cadeira de ferro com bra\u00e7os, na qual eu era amarrado e pendurado de cabe\u00e7a para baixo encapuzado, recebendo pancadas de cassetete e choque el\u00e9trico nos \u00f3rg\u00e3os genitais at\u00e9 que perdia os sentidos e desmaiava. \u00c0s vezes as torturas eram \u00e0 base de palmat\u00f3ria, murros, pontap\u00e9s e at\u00e9 golpes de carat\u00ea. Em uma dessas sess\u00f5es, nu e sem a perna mec\u00e2nica ca\u00ed de queixo e fraturei o maxilar. Num tal dia fui levado de carro para um local onde tinha uma esp\u00e9cie de piscina, onde me amarraram com os bra\u00e7os atado \u00e0s pernas, tipo um porco, e jogaram-me na \u00e1gua umas tr\u00eas vezes, s\u00f3\u00a0puxavam na corda quando eu j\u00e1 estava quase desfalecendo. Nesse mesmo local fui colocado amarrado em um poste com os bra\u00e7os algemados, sem a perna mec\u00e2nica. Ali fui novamente brutalmente espancado durante horas. Ao sair dali eu estava um verdadeiro trapo humano, totalmente roxo e desfigurado. Levaram-me para o hospital onde me deram banho de gelo. Logo que apresentei melhora recome\u00e7aram as sess\u00f5es de torturas com os mesmos m\u00e9todos de viol\u00eancia f\u00edsica e psicol\u00f3gica. Tudo isso foi muito cruel e marcante, mas nada se compara com a viol\u00eancia que ainda viria a sofrer. Como os cheques e pancadas n\u00e3o fizeram eu delatar os companheiros e companheiras tamb\u00e9m procurados, os torturadores resolveram aumentar meu sofrimento. Primeiramente pregaram meu p\u00eanis, com prego mesmo, em uma mesa, e depois com uma esp\u00e9cie de agulha grande fincavam meu saco escrotal. Era de fato, uma dor insuport\u00e1vel e imposs\u00edvel de ser imaginada, s\u00f3 mesmo sentida.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m das torturas f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas rotineiras, umas tr\u00eas vezes fui levado de avi\u00e3o para sobrevoar algum lugar que eu n\u00e3o sabia onde, pois estava sempre encapuzado. Primeiramente faziam as torturas psicol\u00f3gicas dizendo que me jogariam no mar para ser devorado por tubar\u00f5es, outras vezes diziam que estavam sobrevoando a floresta amaz\u00f4nica e que iriam me jogar \u00e0s on\u00e7as. Algumas vezes fui jogado do avi\u00e3o pendurado por uma corda em uma \u00e1gua que n\u00e3o sei do que se tratava.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Do ponto de vista dos danos morais muitas foram as difama\u00e7\u00f5es sofridas, muitas est\u00f3rias foram ditas, escritas e difundidas a meu respeito. Vou destacar apenas a que tenho prova material. Trata-se de uma mat\u00e9ria, \u201cO HOMEM DA PERNA DE PEQUIM\u201d, da revista O CRUZEIRO, de 11-10-1972, reportagem de Claudio Rocha. Nessa mat\u00e9ria fui taxado de \u201cPROFISSIONAL DO TERROR\u201d. Em um dos t\u00f3picos, intitulado \u201cSUA VIDA DE CRIMES\u201d, pode l\u00ea-se: \u201cSeu curr\u00edculun vita \u00e9 uma escalada de crimes. Desenvolveu atividades subversivas no vale do Pindar\u00e9, no Maranh\u00e3o, a partir de 1962. Pregava abertamente a solu\u00e7\u00e3o dos problemas sociais por interm\u00e9dio da viol\u00eancia e do crime. Fez-se l\u00edder dos descontentes, mostrando-lhes o caminho errado. Arregimentou bandos armados para pilhagem, sob ideol\u00f3gica do terror. (&#8230;) Fez curso de guerrilha no nordeste. E foi ent\u00e3o que espalhou a morte e o saque no sert\u00e3o maranhense, equipado com as t\u00e9cnicas importadas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Exterminava homens, animais, planta\u00e7\u00f5es. Assassinava a sangue frio.\u201d<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Pois bem, nobres senhores e senhoras, esse foi o curr\u00edculun a mim atribu\u00eddo pelos meus perseguidores atrav\u00e9s dos seus ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o. Essa foi a imagem que grande parte da sociedade brasileira recebeu de minha pessoa, meus parentes, filhos e conterr\u00e2neos. \u00c9 evidente que ningu\u00e9m iria querer aproxima\u00e7\u00e3o com uma figura monstruosa e sanguin\u00e1ria como a que me pintavam. Mas a grande verdade \u00e9 que eu tive minha vida totalmente devassada, investigada minuciosamente pelo sistema de intelig\u00eancia do regime militar e nunca apresentaram uma prova sequer das acusa\u00e7\u00f5es e difama\u00e7\u00f5es a mim imputadas pela ditadura militar. Por conta de todas essas torturas, da mutila\u00e7\u00e3o sofrida, das priva\u00e7\u00f5es impostas e do sofrimento e condi\u00e7\u00f5es inumanas a mim impostas pelo Estado sob regime militar, estou processando o Estado brasileiro. O processo j\u00e1 tramita na justi\u00e7a a mais de seis anos e at\u00e9 o momento n\u00e3o tive a aten\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a quanto \u00e0 \u00a0repara\u00e7\u00e3o dos graves danos que o Estado causou a mim e \u00e0 minha fam\u00edlia. N\u00e3o que haja qualquer forma de repara\u00e7\u00e3o \u00e0s v\u00e1rias viol\u00eancias f\u00edsicas, psicol\u00f3gicas e morais sofridas, mas penso que um Estado enquanto ente maior de representa\u00e7\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode isentar-se das suas responsabilidades.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Finalmente, quero aproveitar o ensejo para agradecer de cora\u00e7\u00e3o e alma \u00e0s pessoas e entidades que foram respons\u00e1veis pela salva\u00e7\u00e3o de minha vida dos por\u00f5es da ditadura militar. Presto aqui minha homenagem \u00e0 Anistia Internacional, que fez uma imensa campanha mundial pela minha vida e liberdade; \u00e0s igrejas cat\u00f3licas e evang\u00e9licas que tamb\u00e9m se manifestaram em minha defesa, sobretudo atrav\u00e9s da atua\u00e7\u00e3o do Conselho Mundial das Igrejas, sediado na Genebra-Su\u00ed\u00e7a; \u00e0 Liga Su\u00ed\u00e7a de Defesa dos Direitos Humanos, tamb\u00e9m sediada em Genebra; \u00a0\u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho-OIT; \u00e0 r\u00e1dio BBC de Londres, que difundiu ampla campanha em prol de minha liberta\u00e7\u00e3o; ao Partido do Trabalho da Alb\u00e2nia, que na \u00e9poca denunciou as torturas e cobrou provid\u00eancias do governo brasileiro pela minha vida. Tamb\u00e9m quero agradecer toda a solidariedade que tive da companheirada e das organiza\u00e7\u00f5es progressistas que, apesar das persegui\u00e7\u00f5es, atuavam \u00a0bravamente no territ\u00f3rio brasileiro para salvar as vidas dos perseguidos pelo governo militar.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Agrade\u00e7o com muito amor e carinho \u00e0 honrosa aten\u00e7\u00e3o dos Senhores e das Senhoras. Reafirmo a minha esperan\u00e7a na constru\u00e7\u00e3o de um mundo humanamente solid\u00e1rio, economicamente justo e efetivamente democr\u00e1tico com o progressivo empoderamento da Classe Trabalhadora. Estou disposto a continuar a nossa luta, se necess\u00e1rio, recome\u00e7aremos tudo de novo.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span> Bras\u00edlia-DF, 16 de Maio de 2012.<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DEPOIMENTO DE MANOEL CONCEI\u00c7\u00c3O SANTOS NA COMISS\u00c3O DE DIREITOS HUMANOS DA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA FEDERAL EM 16 DE MAIO DE 2012. Senhor Presidente da Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da C\u00e2mara Federal, Dep. Domingos Dutra; Senhora Coordenadora da Comiss\u00e3o Parlamentar Mem\u00f3ria, Verdade e Justi\u00e7a, Deputada Luiza Erondina; Secretaria Nacional dos Direitos Humanos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica; Senhores [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/747"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=747"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/747\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=747"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=747"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=747"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}