{"id":751,"date":"2012-05-28T03:10:16","date_gmt":"2012-05-28T03:10:16","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/28\/escracho-um-instrumento-de-luta-2\/"},"modified":"2012-05-28T03:10:16","modified_gmt":"2012-05-28T03:10:16","slug":"escracho-um-instrumento-de-luta-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/28\/escracho-um-instrumento-de-luta-2\/","title":{"rendered":"Escracho, um instrumento de luta"},"content":{"rendered":"<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify; \">Nascidos na Argentina na d\u00e9cada de 1990 para denunciar os agentes da ditadura civil-militar respons\u00e1vel por um saldo de 30 mil mortos e desaparecidos no per\u00edodo, os escrachos criaram condena\u00e7\u00e3o social e abriram caminho para a abertura dos processos judiciais contra militares e civis envolvidos na repress\u00e3o.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify; \">Na manh\u00e3 de 25 de mar\u00e7o de 2006, quem passava pela Avenida Cabildo, n\u00famero 639, no bairro portenho de Belgrano, via a parte externa de um pr\u00e9dio residencial, precisamente na altura do sexto andar, manchado de tinta vermelha, al\u00e9m de placas e picha\u00e7\u00f5es na rua. \u201cAqui vive um genocida\u201d, diziam algumas das mensagens. Nesse endere\u00e7o vivia Jorge Rafael Videla, um dos l\u00edderes da Junta Militar que tomou o poder por meio de um golpe de Estado em 24 de mar\u00e7o de 1976.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify; \">Quem tivesse passado no dia anterior teria visto 15 mil pessoas em uma manifesta\u00e7\u00e3o diante da casa do repressor, na ocasi\u00e3o em pris\u00e3o domiciliar (hoje cumpre a pena em um pres\u00eddio). Tratava-se de um escracho, como ficou conhecido na Argentina e no Uruguai um determinado tipo de mobiliza\u00e7\u00e3o em que se evidencia publicamente um fato conden\u00e1vel em rela\u00e7\u00e3o a uma pessoa ou lugar.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify; \">As semelhan\u00e7as com os atos realizados por jovens brasileiros nos meses de mar\u00e7o e abril n\u00e3o s\u00e3o meras coincid\u00eancias. No comunicado da organiza\u00e7\u00e3o Levante Popular da Juventude, que organizou seis escrachos a repressores brasileiros em seis cidades simultaneamente, no dia 26 de mar\u00e7o, \u00e9 feita refer\u00eancia \u00e0 experi\u00eancia do pa\u00eds vizinho e \u00e0 chilena, onde esse tipo de mobiliza\u00e7\u00e3o recebe o nome de \u201cfuna\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify; \">H\u00e1 consenso, por\u00e9m, que o escracho nasceu na Argentina. \u201c\u00c9 uma ferramenta de luta que criamos em determinado per\u00edodo de nossa hist\u00f3ria\u201d, conta Julio Avicento, da Hijos (sigla em espanhol para Filhos e Filhas pela Identidade, Justi\u00e7a e contra o Esquecimento e o Sil\u00eancio, que forma a palavra \u201cfilhos\u201d), da cidade de La Plata, organiza\u00e7\u00e3o \u00e0 qual se atribui a cria\u00e7\u00e3o do escracho.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify; \">O per\u00edodo a que se refere Avicento \u00e9 a d\u00e9cada de 1990, quando vigoravam as chamadas \u201cleis de impunidade\u201d. Ap\u00f3s o fim da ditadura civil-militar, em um contexto de den\u00fancias feitas pelas organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos, crise econ\u00f4mica e desmoraliza\u00e7\u00e3o em raz\u00e3o da derrota na Guerra das Malvinas, os integrantes das juntas militares que chefiaram o pa\u00eds entre 1976 e 1983 foram julgados, em 1985. O resultado foi a condena\u00e7\u00e3o de Videla e Emilio Eduardo Massera \u00e0 pris\u00e3o perp\u00e9tua, e de outros tr\u00eas chefes da Junta a penas menores. Outros quatro foram absolvidos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify; \"><strong>Nova gera\u00e7\u00e3o e impunidade<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify; \">A Argentina era ent\u00e3o governada por Ra\u00fal Alfons\u00edn, que depois do Julgamento \u00e0s Juntas sancionou duas leis: Ponto Final e Obedi\u00eancia Devida. Juntas, concediam anistia a todos os outros militares e policiais com a justificativa de que haviam cumprido ordens de seus superiores. Portanto, estes j\u00e1 haviam sido julgados e o assunto estava encerrado. Para completar, em 1990 o ent\u00e3o presidente Carlos Menem concedeu um indulto aos condenados, colocando em liberdade os chefes militares.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify; \">Para Julio Avicento, nesse momento houve um ponto de inflex\u00e3o em que essas leis passaram a ser questionadas pelas quatro gera\u00e7\u00f5es de lutadores: as m\u00e3es, pioneiras na luta contra a impunidade; as av\u00f3s, que questionavam o paradeiro de seus netos (a ditadura civil-militar argentina roubou cerca de 500 filhos de desaparecidos); a pr\u00f3pria gera\u00e7\u00e3o dos desaparecidos, representada pelos sobreviventes; e os filhos, que nessa \u00e9poca estavam entre a adolesc\u00eancia e a vida adulta.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify; \">Em um contexto de impunidade total, no qual era imposs\u00edvel avan\u00e7ar judicialmente, a organiza\u00e7\u00e3o Hijos passou a sugerir a possibilidade de um avan\u00e7o em outro tipo de condena\u00e7\u00e3o. \u201cO caminho era a condena\u00e7\u00e3o social, j\u00e1 que n\u00e3o se podia contar com a Justi\u00e7a, c\u00famplice do genoc\u00eddio. Quanto mais a sociedade condena, mais f\u00e1cil \u00e9 romper a impunidade, inclusive judicialmente\u201d, resume Agust\u00edn Cetrangolo, tamb\u00e9m militante da Hijos, na capital Buenos Aires. De fato, foi o que ocorreu no pa\u00eds. Em 2003, N\u00e9stor Kirchner derrubou as leis, o que permitiu o in\u00edcio do julgamento judicial de v\u00e1rios repressores. \u201cQuase todos os processados ou julgados foram escrachados antes\u201d, conta Cetrangolo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify; \">Julio Avicento revela que diversas organiza\u00e7\u00f5es participavam do escracho, n\u00e3o apenas a Hijos. \u201cUs\u00e1vamos as chamadas \u2018mesas de escrachos\u2019, nas quais participavam distintas organiza\u00e7\u00f5es; havia muitas tarefas para dividir e muito a aprender durante o caminho\u201d, lembra. O militante explica que um trabalho pr\u00e9vio ao escracho era feito, n\u00e3o s\u00f3 de investiga\u00e7\u00e3o para comprovar a participa\u00e7\u00e3o do repressor, mas tamb\u00e9m com os vizinhos. \u201cPass\u00e1vamos casa por casa conversando, explic\u00e1vamos que \u00edamos fazer uma atividade, entreg\u00e1vamos um texto explicando o porqu\u00ea\u201d, explica. A chamada \u201cmesa de escracho\u201d era geralmente feita em um centro cultural ou na sede de alguma organiza\u00e7\u00e3o, que cedia o espa\u00e7o. Os militantes faziam ent\u00e3o um di\u00e1logo com o bairro e com as organiza\u00e7\u00f5es a partir do eixo da den\u00fancia aos repressores.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify; \">A l\u00f3gica n\u00e3o era necessariamente gerar a surpresa e um inc\u00f4modo no repressor no momento do escracho, mas instalar um desconforto permanente por meio do trabalho com os vizinhos. \u201cQuer\u00edamos que as pessoas se recusassem a entrar no elevador com eles, que o padeiro do bairro se recusasse a vender p\u00e3o. Diz\u00edamos: se n\u00e3o vai para a cadeia, que sua casa seja uma cadeia. Que na rua sejam repudiados pela sociedade.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify; \"><strong>Filhos da luta<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify; \">As organiza\u00e7\u00f5es que aderiam ao escracho a um genocida (na Argentina, alguns ju\u00edzes afirmam que os crimes de lesa-humanidade cometidos na ditadura se deram dentro de um plano sistem\u00e1tico de exterm\u00ednio, que pode ser classificado como genoc\u00eddio) n\u00e3o eram apenas formadas por familiares. A Hijos, por exemplo, \u00e9 aberta \u00e0 participa\u00e7\u00e3o de toda a sociedade. Explica Avicento: \u201cN\u00e3o sou filho de desaparecido, mas h\u00e1 quatorze anos milito no \u00e2mbito dos direitos humanos, conheci muitos companheiros [filhos e parentes] e me envolvi. O rico dessa luta \u00e9 que toda a sociedade pode se envolver\u201d. N\u00e3o somente pode, como deve. \u201cToda a sociedade foi v\u00edtima do terrorismo de Estado, todos sofreram com o terror e o medo\u201d, completa.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify; \">Agust\u00edn Cetrangolo \u00e9 filho de Sergio Cetrangolo, desaparecido em 1978. A m\u00e3e, tamb\u00e9m presa e torturada, \u00e9 da gera\u00e7\u00e3o de sobreviventes. \u201cN\u00e3o entendemos que a repara\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas com os familiares, mas deve-se reparar toda uma sociedade\u201d, defende. \u201cNa Hijos dizemos que todos somos filhos da mesma hist\u00f3ria. Seria um erro dizer que o genoc\u00eddio pretendeu apenas exterminar as organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e seus militantes. A viol\u00eancia do genoc\u00eddio extrapola isso. Se entendemos que toda a sociedade foi v\u00edtima desse terrorismo de Estado, por que n\u00e3o podemos organizar qualquer setor para lutar contra isso?\u201d, completa.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify; \">Para Julio Avicento, quem usa o argumento de que os jovens de hoje n\u00e3o \u201ct\u00eam nada a ver\u201d com a repress\u00e3o \u201cesconde na verdade uma posi\u00e7\u00e3o que procura manter a impunidade em rela\u00e7\u00e3o aos repressores\u201d. Os militantes tamb\u00e9m lembram que o aparato repressivo da ditadura persiste at\u00e9 hoje, com os casos de assassinatos de jovens pela pol\u00edcia ou a persegui\u00e7\u00e3o e espionagem dos movimentos sociais. Tamb\u00e9m por isso os escrachos continuam sendo usados. \u201cO escracho transcendeu a Hijos, para al\u00e9m do que entend\u00edamos como escracho. Em 2001, por exemplo, escrachou-se tudo, bancos, McDonald\u2019s\u201d, recorda Cetrangolo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify; \"><span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Fonte &#8211; Le Monde Diplomatique Brasil<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Nascidos na Argentina na d\u00e9cada de 1990 para denunciar os agentes da ditadura civil-militar respons\u00e1vel por um saldo de 30 mil mortos e desaparecidos no per\u00edodo, os escrachos criaram condena\u00e7\u00e3o social e abriram caminho para a abertura dos processos judiciais contra militares e civis envolvidos na repress\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/751"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=751"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/751\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=751"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=751"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=751"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}