{"id":7519,"date":"2014-08-20T02:06:11","date_gmt":"2014-08-20T02:06:11","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/08\/20\/miriam-leitao-conta-como-gravida-foi-torturada-com-jiboia-na-ditadura\/"},"modified":"2014-08-20T02:06:11","modified_gmt":"2014-08-20T02:06:11","slug":"miriam-leitao-conta-como-gravida-foi-torturada-com-jiboia-na-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/08\/20\/miriam-leitao-conta-como-gravida-foi-torturada-com-jiboia-na-ditadura\/","title":{"rendered":"M\u00edriam Leit\u00e3o conta como, gr\u00e1vida, foi torturada com jib\u00f3ia na ditadura"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Reprodu\u00e7\u00e3o do site do \u201cObservat\u00f3rio da Imprensa\u201d<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>Por muito tempo, a jornalista M\u00edriam Leit\u00e3o n\u00e3o quis contar como foi sua pris\u00e3o na \u00e9poca da ditadura. \u201cPara n\u00e3o parecer que me vitimizo\u201d, M\u00edriam me disse h\u00e1 pouco.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-7518\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/812CID001_j.jpg\" border=\"0\" width=\"600\" height=\"280\" srcset=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/812CID001_j.jpg 600w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/812CID001_j-300x140.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Com altivez, ela denunciou os torturadores quando foi interrogada na Justi\u00e7a Militar, nos anos 1970. Como tantas militantes que combateram a covardia, M\u00edriam \u00e9 mulher de verdade.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Uma das virtudes dos grandes rep\u00f3rteres \u00e9 a persist\u00eancia. E Luiz Cl\u00e1udio Cunha \u00e9 um grande rep\u00f3rter. O ga\u00facho persistiu e convenceu a mineira a falar sobre a quadra sombria em que penou nas m\u00e3os da barb\u00e1rie.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Gr\u00e1vida, M\u00edriam foi torturada nua. Trancaram-na com uma cobra.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 muito prov\u00e1vel que um dos seus algozes tenha sido Paulo Malh\u00e3es, o coronel do Ex\u00e9rcito morto meses atr\u00e1s, depois de revelar atrocidades perpetradas contra seres humanos indefesos que ele e seus comparsas torturaram e mataram.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O depoimento hist\u00f3rico de M\u00edriam Leit\u00e3o a Luiz Cl\u00e1udio Cunha e a reportagem que acompanha as mem\u00f3rias da ex-presa pol\u00edtica est\u00e3o no site do \u201cObservat\u00f3rio da Imprensa\u201d (<a href=\"http:\/\/www.observatoriodaimprensa.com.br\/news\/view\/_ed812_a_reporter_pergunta_o_ministro_gagueja\">aqui<\/a>).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Abaixo, o blog publica o que M\u00edriam narrou a Luiz Cl\u00e1udio:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">( O blog est\u00e1 no\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/pages\/Blog-do-M%C3%A1rio-Magalh%C3%A3es\/303805763095144?fref=ts\">Facebook<\/a> e no\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/mariomagalhaes_\">Twitter<\/a> )<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">*<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>\u2018Eu sozinha e nua. Eu e a cobra. Eu e o medo\u2019<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Eu morava numa favela de Vit\u00f3ria, o Morro da Fonte Grande. Num domingo, 3 de dezembro de 1972, eu e meu companheiro na \u00e9poca, Marcelo Netto, estudante de Medicina, acordamos cedo para ir \u00e0 praia do Canto, pr\u00f3xima ao centro da capital. Acordei para ir \u00e0 praia e acabei presa na Prainha. \u00c9 o bairro que abriga o Forte de Piratininga, essa constru\u00e7\u00e3o bonita do s\u00e9culo 17. Ali est\u00e1 instalado o quartel do 38\u00ba Batalh\u00e3o de Infantaria do Ex\u00e9rcito, do outro lado da ba\u00eda.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Eu tinha dado quatro plant\u00f5es seguidos na reda\u00e7\u00e3o da r\u00e1dio Esp\u00edrito Santo e j\u00e1 tinha quase um ano de profiss\u00e3o. Eu vestia uma camisa branca larga, de homem, sobre o biquini vermelho. Caminhando pela Rua Sete em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 praia, algu\u00e9m gritou de repente:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2013 Ei, Marcelo?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Nos viramos e vimos dois homens correndo em nossa dire\u00e7\u00e3o com armas. Eu reconheci um rosto que vira em frente \u00e0 Pol\u00edcia Federal. Meu \u00f4nibus sempre passava em frente \u00e0 sede da PF e eu tentava guardar os rostos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2013 \u00c9 a Pol\u00edcia Federal \u2013 avisei ao Marcelo<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em instantes est\u00e1vamos cercados. Apareceram mais homens, mais um carro. Voltei a perguntar:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2013 O que est\u00e1 acontecendo?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Eles nos algemaram e empurraram o Marcelo para o cambur\u00e3o. Era uma camionete Veraneio, sem identifica\u00e7\u00e3o. Eu tive uma rea\u00e7\u00e3o curiosa: antes que me empurrassem sentei no ch\u00e3o da cal\u00e7ada e comecei a gritar, a berrar como louca, queria chamar a aten\u00e7\u00e3o das pessoas na rua. Mas ainda era cedo, manh\u00e3 de domingo, havia pouca gente circulando. Achava que quanto mais gente visse aquela cena, mais chances eu teria de sair viva. Como eu berrava, me puxaram pelos cabelos, me agarraram para me colocar no carro. Eu, ainda com aquela coisa de Justi\u00e7a na cabe\u00e7a, reclamei:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2013 Mo\u00e7o, cad\u00ea a ordem de pris\u00e3o?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O homem botou a metralhadora no meu peito e respondeu com outra pergunta:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2013 Esta serve?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As algemas eram diferentes, eram de pl\u00e1stico, e estavam muito apertadas, do\u00edam no pulso. Viajamos sem capuz, eu e Marcelo, em dire\u00e7\u00e3o a Vila Velha, onde fica o quartel do Ex\u00e9rcito. Eu ainda achava que n\u00e3o era nada comigo, que o alvo era o Marcelo. Ele estava no quarto ano de Medicina e tinha acabado de liderar a \u00fanica greve de estudantes do pa\u00eds daquele ano, que trancou por dois dias as aulas na universidade de Vit\u00f3ria e paralisou os trabalhos no Hospital de Cl\u00ednicas. Achei que estava presa s\u00f3 porque estava indo \u00e0 praia com o Marcelo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Veraneio entrou no p\u00e1tio do quartel, o batalh\u00e3o de infantaria. Nos levaram por um corredor e nos separaram. Marcelo foi viver seu inferno, que durou 13 meses, e eu o meu. Sobre mim jogaram c\u00e3es pastores babando de raiva. Eles ficavam ainda mais enfurecidos quando os soldados gritavam: \u201cTerrorista, terrorista!\u201d. Pareciam treinados para ficar mais bravos quando eram incitados pela palavra maldita. De repente, os soldados que me cercavam come\u00e7aram a cantar aquela m\u00fasica do Ataulfo Alves: \u201cAm\u00e9lia n\u00e3o tinha a menor vaidade\/ Am\u00e9lia \u00e9 que era mulher de verdade\u201d. S\u00f3 ent\u00e3o percebi que minha pris\u00e3o n\u00e3o era um engano. \u201cAm\u00e9lia\u201d era o codinome que o meu chefe de ala no PCdoB tinha escolhido pra mim: \u201cVoc\u00ea, a partir de agora, vai se chamar Am\u00e9lia\u201d. Quis reagir na hora, afinal n\u00e3o tenho nada de Am\u00e9lia, mas n\u00e3o quis discordar logo na primeira reuni\u00e3o com o dirigente.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O comandante do batalh\u00e3o era o coronel Sequeira [tenente-coronel Geraldo C\u00e2ndido Sequeira, que exerceu o comando do 38\u00ba BI entre 10 de mar\u00e7o de 1971 a 13 de mar\u00e7o de 1973], que fingia que mandava, mas n\u00e3o via nada do que acontecia por l\u00e1. O homem que de fato mandava naquele lugar, naquele tempo, era o capit\u00e3o Guilherme, o \u00fanico nome que se conhecia dele. Ele era o chefe do S-2, o setor de intelig\u00eancia do batalh\u00e3o. Todos os interrogat\u00f3rios e torturas estavam sob a coordena\u00e7\u00e3o dele. Ele pessoalmente nada fazia, mas a ele tudo era comunicado. Nesse primeiro dia me deu um bofet\u00e3o s\u00f3 porque eu o encarei.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2013 Nunca mais me olhe assim! \u2013 avisou.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fui levada para uma grande sala vazia, sem m\u00f3veis, com as janelas cobertas por um pl\u00e1stico preto. Com a luz acesa na sala, vi um pequeno palco elevado, onde me colocaram de p\u00e9 e me mandaram n\u00e3o recostar na parede. Chegaram tr\u00eas homens \u00e0 paisana, um com muito cabelo, preto e liso, um outro ruivo e um descendente de japon\u00eas. Mandaram eu tirar a roupa. Uma pe\u00e7a a cada cinco minutos. Tirei o chinelo. O de cabelo preto me bateu:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2013 A roupa! Tire toda a roupa.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fui tirando, constrangida, cada pe\u00e7a. Quando estava nua, eles mandaram entrar uns 10 soldados na sala. Eu tentava esconder minha nudez com as m\u00e3os. O homem de cabelo preto falou:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2013 Posso dizer a todos eles para irem pra cima de voc\u00ea, menina. E aqui n\u00e3o tem volta. Quando come\u00e7amos, vamos at\u00e9 o fim.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os soldados ficaram me olhando e os tr\u00eas homens \u00e0 paisana gritavam, amea\u00e7ando me atacar, um clima de estupro iminente. O tempo nessas horas \u00e9 relativo, n\u00e3o sei quanto tempo durou essa primeira amea\u00e7a. Viriam outras.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Eles sa\u00edram e o homem de cabelo preto, que algu\u00e9m chamou de Dr. Pablo, voltou trazendo uma cobra grande, assustadora, que ele botou no ch\u00e3o da sala, e antes que eu a visse direito apagaram a luz, sa\u00edram e me deixaram ali, sozinha com a cobra. Eu n\u00e3o conseguia ver nada, estava tudo escuro, mas sabia que a cobra estava l\u00e1. A \u00fanica coisa que lembrei naquele momento de pavor \u00e9 que cobra \u00e9 atra\u00edda pelo movimento. Ent\u00e3o, fiquei est\u00e1tica, silenciosa, mal respirando, tremendo. Era dezembro, um ver\u00e3o quente em Vit\u00f3ria, mas eu tremia toda. N\u00e3o era de frio. Era um tremor que vem de dentro. Ainda agora, quando falo nisso, o tremor volta. Tinha medo da cobra que n\u00e3o via, mas que era minha \u00fanica companhia naquela sala sinistra. A escurid\u00e3o, o longo tempo de espera, ficar de p\u00e9 sem recostar em nada, tudo aumentava o sofrimento. Meu corpo do\u00eda.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei quanto tempo durou esta agonia. Foram horas. Eu n\u00e3o tinha no\u00e7\u00e3o de dia ou noite na sala escurecida pelo pl\u00e1stico preto. E eu ali, sozinha, nua. S\u00f3 eu e a cobra. Eu e o medo. O medo era ainda maior porque n\u00e3o via nada, mas sabia que a cobra estava ali, por perto. N\u00e3o sabia se estava se movendo, se estava parada. Eu n\u00e3o ouvia nada, n\u00e3o via nada. N\u00e3o era poss\u00edvel nem chorar, poderia atrair a cobra. Passei o resto da vida lembrando dessa sala de um quartel do Ex\u00e9rcito brasileiro. Lembro que quando aqueles tr\u00eas homens voltaram, davam gargalhadas, riam da situa\u00e7\u00e3o. Eu pensava que era s\u00f3 sadismo. N\u00e3o sabia que na tortura brasileira havia uma cobra, uma jiboia usada para aterrorizar e que al\u00e9m de tudo tinha o apelido de\u00a0M\u00edriam. Nem sei se era a mesma. Se era, talvez fosse esse o motivo de tanto riso.\u00a0M\u00edriam\u00a0e M\u00edriam, juntas na mesma sala. Essa era a gra\u00e7a, imagino.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Dr. Pablo voltou, depois, com os outros dois, e me encheu de perguntas. As de sempre: o que eu fazia, quem conhecia. Me davam tapas, chutes, puxavam pelo cabelo, bateram com minha cabe\u00e7a na parede. Eu sangrava na nuca, o sangue molhou meu cabelo. Ningu\u00e9m tratou de minha ferida , n\u00e3o me deram nenhum alimento naquele dia, exceto um copo de suco de laranja que, com a forte bofetada do capit\u00e3o Guilherme, eu deixei cair no ch\u00e3o. N\u00e3o recebi um \u00fanico telefonema, n\u00e3o vi nenhum advogado, ningu\u00e9m sabia o que tinha acontecido comigo, eu n\u00e3o sabia se as pessoas tinham ideia do meu desaparecimento. S\u00f3 tr\u00eas dias ap\u00f3s minha pris\u00e3o \u00e9 que meu pai recebeu, em Caratinga, um telefonema an\u00f4nimo de uma mulher dizendo que eu tinha sido presa. Ele procurou muito e s\u00f3 conseguiu me localizar no fim daquele dezembro. Havia outros presos no quartel, mas s\u00f3 ao final de tr\u00eas semanas fui colocada na cela com a outras presas: Angela, Badora, Beth, Magdalena, estudantes, como eu.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fiquei 48 horas sem comer. Eu entrei no quartel com 50 kg de peso, sa\u00ed tr\u00eas meses depois pesando 39 kg. Eu cheguei l\u00e1 com um m\u00eas de gravidez, e tinha enormes chances de perder meu beb\u00ea. Foi o que m\u00e9dico me disse, quando sa\u00ed de l\u00e1, com quatro meses de gesta\u00e7\u00e3o. Eu estava deprimida, mal alimentada, tensa, assustada, an\u00eamica, com car\u00eancia aguda de vitamina D por falta de sol. Nada que uma mulher deve ser para proteger seu beb\u00ea na barriga. Se meu filho sobrevivesse, teria sequelas, me disse o m\u00e9dico.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2013 A m\u00e1 not\u00edcia eu j\u00e1 sei, doutor, vou procurar logo um m\u00e9dico que me diga o que fazer para aumentar as chances do meu filho.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mas isso foi ao sair. L\u00e1 dentro achei que n\u00e3o havia chance alguma para n\u00f3s. Eu era levada de uma sala para outra, numa \u00e1rea administrativa do quartel, onde passava por outras sess\u00f5es de perguntas, sempre as mesmas, tudo aos gritos, para manter o clima de terror, de intimida\u00e7\u00e3o. Na noite seguinte, atravessei a madrugada com uma sess\u00e3o de interrogat\u00f3rio pesado, o Dr. Pablo e os outros dois berrando, me amea\u00e7ando de estupro, dizendo que iam me matar. Um dia achei que iria morrer. Entraram no meio da noite na cela do forte para onde eu fui levada ap\u00f3s esses dois dias. Falaram que seria o \u00faltimo passeio e me levaram para um lugar escuro, no p\u00e1tio do quartel, para simular um fuzilamento. Vi minha sombra refletida na parede branca do forte, a sombra de um corpo mirrado, uma menina de apenas 19 anos. Vi minha sombra projetada cercada de c\u00e3es e fuzis, e pensei: \u201cEu sou muito nova para morrer. Quero viver\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um dia, um outro militar, que n\u00e3o era nenhum daqueles tr\u00eas, botou um rev\u00f3lver na minha cabe\u00e7a e falou: \u201cEu posso te matar\u201d. E for\u00e7ou aquele cano frio na minha testa. Me deu um sentimento enorme de solid\u00e3o, de abandono. Eu me senti absolutamente s\u00f3 no mundo. Pela falta de not\u00edcias, imaginava que o Marcelo estava morto. Entendi que iria morrer tamb\u00e9m e que ningu\u00e9m saberia da minha morte, pensei. Mas n\u00e3o quis demonstrar medo. Lembro que o homem do rev\u00f3lver tinha olhos azuis. Olhei nos seus olhos e respondi: \u201cSim, voc\u00ea pode pode me matar\u201d. E repeti, falando ainda mais alto, com ar de desafio: \u201cSim, voc\u00ea pode!\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um dos interrogat\u00f3rios foi feito na sala do capit\u00e3o Guilherme, o S-2 que mandava em todos ali. Era noite, ele n\u00e3o estava, e me interrogaram na sala dele. Lembro dela porque havia na parede um quadro com aimagem do Duque de Caxias. Estava ainda com o biqu\u00edni e a camisa, era a \u00fanica roupa que eu tinha, que me protegia. Nessa noite, na sala, de novo fui desnudada e os homens passaram o tempo todo me alisando, me apalpando, me bolinando, brincando comigo. Um deles me obrigou a deitar com ele no sof\u00e1. N\u00e3o chegaram a consumar nada, mas estavam no limite do estupro, divertindo-se com tudo aquilo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Eu estava com um m\u00eas de gravidez, e disse isso a eles. N\u00e3o adiantou. Ignoraram a revela\u00e7\u00e3o e minha condi\u00e7\u00e3o de gr\u00e1vida n\u00e3o aliviou minha condi\u00e7\u00e3o l\u00e1 dentro. Minha cabe\u00e7a do\u00eda, com a pancada na parede, e o sangue coagulado na nuca incomodava. Eu n\u00e3o podia me lavar, n\u00e3o tinha nem roupa para trocar. Quando pensava em descansar e dormir um pouco, \u00e0 noite, o lugar onde estava de repente era invadido, aos gritos, com um bando de pastores alem\u00e3es latindo na minha cara. N\u00e3o mordiam, mas pareciam que iam me estra\u00e7alhar, se escapassem da coleira. E, para enfurecer ainda mais os c\u00e3es, os soldados gritavam a palavra que enlouquecia a cachorrada: \u201cTerrorista, terrorista!\u2026\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As primeiras tr\u00eas semanas que passei l\u00e1 foram terr\u00edveis. S\u00f3 melhorou quando o Dr. Pablo e seus dois companheiros foram embora. Entendi ent\u00e3o que eles n\u00e3o pertenciam ao quartel de Vila Velha. Tinham vindo do Rio, \u00e9 o que chegaram a conversar entre eles, em papos casuais: \u201cE a\u00ed, quando voltarmos ao Rio, o que a gente vai fazer l\u00e1\u2026\u201d Isso fazia sentido, porque o quartel de Vila Velha integra o Comando do I Ex\u00e9rcito, hoje Comando do Leste, que tem o QG no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quando o trio voltou para o Rio, a situa\u00e7\u00e3o ficou menos ruim. Eles j\u00e1 n\u00e3o tinham mais nada para perguntar. Me tiraram da cela da fortaleza e me levaram para a cela coletiva. Foi melhor. Na cela do forte n\u00e3o havia janelas, a porta era inteiri\u00e7a e minhas companhias eram apenas as baratas. Fiz uma foto minha, agora em 2011, ao lado da porta.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 que chegou o dia de assinar a confiss\u00e3o, para dar in\u00edcio ao IPM, o inqu\u00e9rito policial-militar que acontecia l\u00e1 mesmo, dentro do quartel. Me levaram para a sala do capit\u00e3o Guilherme, o S-2, e levei um susto. L\u00e1 estava o Marcelo, que eu pensava estar morto. Os militares sa\u00edram da sala e nos deixaram sozinhos. Quando eu fui falar alguma coisa, o Marcelo me fez um sinal para ficar calada. Ele levantou, foi at\u00e9 a parede e levantou o quadro do Duque de Caxias. Estava cheio de fios e microfones l\u00e1 atr\u00e1s. Era tudo grampo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Depois disso, o Marcelo foi levado para o Regimento Sampaio, na Vila Militar, no Rio de Janeiro, e l\u00e1 ficou nove meses numa solit\u00e1ria. Sem banho de sol, sem nada para ler, sem ningu\u00e9m para conversar. Foi colocado l\u00e1 para enlouquecer. Nove longos e solit\u00e1rios meses\u2026 N\u00f3s, todos os presos, e os que j\u00e1 estavam soltos nos encontramos mais ou menos em junho na 2\u00aa Auditoria da Aeron\u00e1utica, para o que eles chamam de sum\u00e1rio de culpa, o \u00fanico momento em que o r\u00e9u fala. Eu com uma barriga de sete meses de gravidez. O processo, que envolvia 28 pessoas, a maioria garotos da nossa idade, nos acusava de tentativa de organizar o PCdoB no estado, de aliciamento de estudantes, de panfletagem e picha\u00e7\u00f5es. Ao fim, eu e a maioria fomos absolvidos. O Marcelo foi condenado a um ano de cadeia. Nunca pedi indeniza\u00e7\u00e3o, nem Marcelo. Gostaria de ouvir um pedido de desculpas, porque isso me daria confian\u00e7a de que meus netos n\u00e3o viver\u00e3o o que eu vivi. \u00c9 preciso reconhecer o erro para n\u00e3o repeti-lo. As For\u00e7as Armadas nunca reconheceram o que fizeram.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Nunca mais vi o capit\u00e3o Guilherme, o S-2 que comandou tudo aquilo. Uma vez ele apareceu no Superior Tribunal Militar como assessor de um ministro. Marcelo foi expulso do curso de Medicina, ap\u00f3s a pris\u00e3o, e virou jornalista. Fomos para Bras\u00edlia em 1977. Por ironia do destino, Marcelo s\u00f3 conseguiu vaga de rep\u00f3rter para cobrir os tribunais. E l\u00e1 no STM, um dia, ele reviu o capit\u00e3o Guilherme. Depois disso, n\u00e3o soubemos mais dele. Nem sei se o S-2 ainda est\u00e1 vivo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O que eu sei \u00e9 que mantive a promessa que me fiz, naquela noite em que vi minha sombra projetada na parede, antes do fuzilamento simulado. Eu sabia que era muito nova para morrer. Sei que outros presos viveram coisas piores e nem acho minha hist\u00f3ria importante. Mas foi o meu inferno. Tive sorte comparado a tantos outros.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Sobrevivi e meu filho Vladimir nasceu em agosto forte e saud\u00e1vel, sem qualquer sequela. Ele me deu duas netas, Manuela (3 anos) e Isabel (1). Do meu filho ca\u00e7ula, Matheus, ganhei outros dois netos, Mariana (8) e Daniel (4). Eles s\u00e3o o meu maior patrim\u00f4nio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Minha vingan\u00e7a foi sobreviver e vencer. Por meus filhos e netos, ainda aguardo um pedido de desculpas das For\u00e7as Armadas. N\u00e3o cultivo nenhum \u00f3dio. N\u00e3o sinto nada disso. Mas, esse gesto me daria seguran\u00e7a no futuro democr\u00e1tico do pa\u00eds. [Depoimento a Luiz Cl\u00e1udio Cunha]<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; UOL<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reprodu\u00e7\u00e3o do site do \u201cObservat\u00f3rio da Imprensa\u201d Por muito tempo, a jornalista M\u00edriam Leit\u00e3o n\u00e3o quis contar como foi sua pris\u00e3o na \u00e9poca da ditadura. \u201cPara n\u00e3o parecer que me vitimizo\u201d, M\u00edriam me disse h\u00e1 pouco.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":7518,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7519"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7519"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7519\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7518"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7519"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7519"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7519"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}