{"id":7549,"date":"2014-08-31T15:56:29","date_gmt":"2014-08-31T15:56:29","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/08\/31\/preso-no-rio-apos-golpe-jornalista-chines-espera-desculpas-do-brasil\/"},"modified":"2014-08-31T15:56:29","modified_gmt":"2014-08-31T15:56:29","slug":"preso-no-rio-apos-golpe-jornalista-chines-espera-desculpas-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/08\/31\/preso-no-rio-apos-golpe-jornalista-chines-espera-desculpas-do-brasil\/","title":{"rendered":"Preso no Rio ap\u00f3s golpe, jornalista chin\u00eas espera desculpas do Brasil"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/><span style=\"line-height: 1.3em;\" \/>Na madrugada de 3 de abril de 1964, tr\u00eas dias ap\u00f3s o golpe militar, nove chineses foram presos no Rio, suspeitos de tramar uma revolu\u00e7\u00e3o comunista no pa\u00eds. Sofreram torturas e foram condenados a dez anos de pris\u00e3o, da qual cumpriram um, antes de serem expulsos do Brasil. O jornalista Ju Qingdong, 84, \u00e9 uma das cinco v\u00edtimas ainda vivas. Ele continua \u00e0 espera de um pedido de desculpas do governo brasileiro. O epis\u00f3dio \u00e9 tema do livro rec\u00e9m-lan\u00e7ado &#8220;O Caso dos Nove Chineses&#8221;, de Ci\u00e7a Guedes e Murilo Fiuza de Melo.  <!--more-->  <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Policiais com sapatos de couro pisaram na minha barriga, causando uma evacua\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria. Me queimaram com cigarros. Come\u00e7amos a fazer greve de fome. &#8220;A hist\u00f3ria e os fatos n\u00e3o mudam. Dever\u00edamos resolver esse assunto corretamente. Do contr\u00e1rio, no fundo do cora\u00e7\u00e3o, restar\u00e1 sempre um inc\u00f4modo, um n\u00f3<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Chegamos ao Rio de Janeiro em 29 de dezembro de 1961. Era v\u00e9spera de R\u00e9veillon e, em seguida, veio o Carnaval. Nesse clima de festa, nossa adapta\u00e7\u00e3o foi muito f\u00e1cil. Na \u00e9poca, os chineses n\u00e3o sabiam quase nada sobre o Brasil.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-7548\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/142411150.jpeg\" border=\"0\" width=\"600\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O pa\u00eds vivia um momento de debates e movimentos populares. Mas, para n\u00f3s, o principal era reportar sobre assuntos econ\u00f4micos, culturais e sociais. Sendo estrangeiros e jornalistas, n\u00e3o nos metemos [em pol\u00edtica].<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00c0s vezes sent\u00edamos que est\u00e1vamos sendo vigiados, mas nunca foi evidente.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Tudo o que faz\u00edamos era conforme a lei. Por isso, n\u00e3o sa\u00edmos do Brasil quando ocorreu o golpe. Tom\u00e1vamos muito cuidado, nunca tivemos contatos com qualquer partido. Tudo mudou no dia 3 de abril [de 1964].<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 bem tarde da noite do dia 2, eu ainda estava enviando not\u00edcias. \u00c0s 22h, a pol\u00edcia bateu na porta. Como era noite, n\u00e3o quisemos abrir. Se nos levassem presos de madrugada, sem ningu\u00e9m saber, como ir\u00edamos nos defender?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por isso, dissemos a eles que voltassem de manh\u00e3. Mas os policiais n\u00e3o quiseram esperar muito. Mal o dia clareou e eles voltaram e arrombaram a porta. Eram umas 4 ou 5 da manh\u00e3. O pr\u00e9dio inteiro assistiu, mas nenhum vizinho intercedeu.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os policiais come\u00e7aram a nos bater assim que entraram. Eu fui amarrado com os bra\u00e7os para tr\u00e1s e for\u00e7ado a ir com eles em todos os c\u00f4modos para revistar o apartamento. N\u00e3o havia di\u00e1logo, apenas amea\u00e7as. Diziam que ir\u00edamos ser fuzilados.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Nos revistaram e tiraram at\u00e9 o dinheiro que t\u00ednhamos no bolso. Na pris\u00e3o, tiraram nossas roupas e todos n\u00f3s fomos torturados. Policiais com sapatos de couro pisaram na minha barriga, causando uma evacua\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria. Me queimaram com cigarros. J\u00e1 na segunda noite, come\u00e7amos a fazer greve de fome.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o conseguiram encontrar nada que pudesse nos incriminar, ent\u00e3o disseram que os rem\u00e9dios chineses para gripe e as agulhas de acupuntura que encontraram no apartamento seriam usados para assassinatos por envenenamento. Confiscaram o nosso dinheiro como prova de acusa\u00e7\u00e3o. Este dinheiro [R$ 865 mil em valores atuais] est\u00e1 at\u00e9 hoje retido no Brasil.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fabricaram provas falsas. At\u00e9 maio de 1964, n\u00e3o apareceu ningu\u00e9m para ajudar.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um dia est\u00e1vamos no p\u00e1tio, quando chegou Sobral Pinto, o &#8220;velho advogado&#8221; [forma respeitosa usada pelos chineses], junto de um coronel. Vestia terno preto e tinha um guarda-chuva na m\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Veio at\u00e9 n\u00f3s e se apresentou: &#8220;Sobral Pinto, advogado. Sou cat\u00f3lico; voc\u00eas, comunistas. Mesmo que n\u00e3o seja a mesma ideologia, estou aqui para prestar- lhes servi\u00e7o de advogado. Li tudo que foi publicado sobre o caso de voc\u00eas, o que est\u00e1 acontecendo \u00e9 uma palha\u00e7ada. Quero defend\u00ea-los sem cobrar nada&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Depois disso, ele passou a nos visitar duas ou tr\u00eas vezes por semana. Ele j\u00e1 tinha 72 anos. Era excelente pessoa.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Houve sete audi\u00eancias no tribunal. Cada um de n\u00f3s recebeu senten\u00e7a de dez anos de pris\u00e3o. Ficamos muito indignados. Nada foi provado.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Recebemos amplo apoio internacional. J\u00e1 estava bem claro que era persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. A imprensa brasileira tamb\u00e9m nos apoiava. O Brasil ficou numa situa\u00e7\u00e3o desconfort\u00e1vel no cen\u00e1rio internacional.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Com a press\u00e3o internacional, logo que foi dada a senten\u00e7a, o presidente concedeu a expuls\u00e3o. Era mais f\u00e1cil expulsar, em vez de os nove cumprirem a pena no Brasil.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ficamos 380 dias presos no Brasil. Enquanto isso, na China o caso sa\u00eda diariamente nas primeiras p\u00e1ginas dos jornais. Das grandes cidades \u00e0s \u00e1reas rurais, inclusive nas mais montanhosas, todos sabiam. At\u00e9 hoje, quem tem 60 anos ou mais na China lembra desse caso.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fico feliz em ver que, hoje, o relacionamento entre nossos governos \u00e9 muito diferente. Nosso futuro \u00e9 muito bom. Mas a hist\u00f3ria e os fatos n\u00e3o mudam. Dever\u00edamos resolver esse assunto corretamente. Do contr\u00e1rio, no fundo do cora\u00e7\u00e3o, restar\u00e1 sempre um inc\u00f4modo, um n\u00f3.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 1997, quando visitava minha filha no Chile, pedi um visto de turista para o Brasil, mas n\u00e3o fui atendido. N\u00e3o posso confirmar a raz\u00e3o, mas vejo que o Brasil n\u00e3o tem coragem de dar o passo adiante.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Cinco de n\u00f3s est\u00e3o vivos. \u00c9 claro que vivemos bem. Mas olhando para o passado, a ferida ainda existe, e \u00e9 sempre lembrada. Gostaria que isso fosse resolvido, mas n\u00e3o vejo nada acontecer.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 algum tempo, li num jornal chin\u00eas uma pequena not\u00edcia de que o governo brasileiro estabeleceu a comiss\u00e3o da verdade. Eu sei que milhares de brasileiros sofreram com isso. Espero que, no nosso caso, a senten\u00e7a e a expuls\u00e3o sejam anuladas e tamb\u00e9m o dinheiro seja devolvido. Ele \u00e9 a falsa prova do nosso &#8220;crime&#8221;, nem que seja um d\u00f3lar, ele tem valor pol\u00edtico.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 1974, quando foram estabelecidas as rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas entre nossos pa\u00edses, o governo brasileiro disse que [nossa pris\u00e3o] foi um erro pol\u00edtico. Afirmou que iria resolver esse assunto o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, anular a senten\u00e7a, a expuls\u00e3o e devolver o dinheiro. Mas, at\u00e9 agora, nada.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Folha de S\u00e3o Paulo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na madrugada de 3 de abril de 1964, tr\u00eas dias ap\u00f3s o golpe militar, nove chineses foram presos no Rio, suspeitos de tramar uma revolu\u00e7\u00e3o comunista no pa\u00eds. Sofreram torturas e foram condenados a dez anos de pris\u00e3o, da qual cumpriram um, antes de serem expulsos do Brasil. 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