{"id":76,"date":"2012-05-07T18:36:06","date_gmt":"2012-05-07T18:36:06","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/07\/desaparecidos-livro-mostra-guerra-suja-no-pais-alem-da-cpi-do-cachoeira\/"},"modified":"2012-05-07T18:36:06","modified_gmt":"2012-05-07T18:36:06","slug":"desaparecidos-livro-mostra-guerra-suja-no-pais-alem-da-cpi-do-cachoeira","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/07\/desaparecidos-livro-mostra-guerra-suja-no-pais-alem-da-cpi-do-cachoeira\/","title":{"rendered":"Desaparecidos: livro mostra guerra suja no Pa\u00eds al\u00e9m da CPI do Cachoeira"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">O <\/span>livro-bomba lan\u00e7ado esta semana&#8230;e Duda Collier: preso, morto (e incinerado?)<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ou\u00e7a um bom conselho\/ Que eu lhe dou de gra\u00e7a\/ In\u00fatil dormir que a dor n\u00e3o passa&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-75\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/duda.jpeg\" border=\"0\" width=\"194\" height=\"259\" style=\"vertical-align: middle;\" \/>  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os versos da can\u00e7\u00e3o &#8220;Bom Conselho&#8221; bem poderiam ilustrar o momento de ins\u00f4nia, desespero, agressividade e confus\u00e3o a granel, detectados em diferentes \u00e1reas e segmentos do Pa\u00eds \u2013 pol\u00edticos, governantes, jornalistas e empres\u00e1rios, principalmente \u2013 nas preliminares e in\u00edcio dos trabalhos da CPMI do Cachoeira e seus insond\u00e1veis desdobramentos. Pelo visto, tudo pode acontecer, inclusive nada.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Nas linhas seguintes deste artigo, no entanto, os versos de Chico Buarque de Holanda auxiliam a disfar\u00e7ar, com poesia, o assombro e a indigna\u00e7\u00e3o do jornalista diante das confiss\u00f5es do ex-delegado do DOPS (pol\u00edcia pol\u00edtica da ditadura nos anos loucos no Brasil), Cl\u00e1udio Guerra, no livro \u201cMem\u00f3rias de uma Guerra Suja\u201d, de autoria dos jornalistas Marcelo Netto e Rog\u00e9rio Medeiros, lan\u00e7ado esta semana em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No livro (que ainda n\u00e3o li e at\u00e9 onde sei ainda n\u00e3o chegou nas livrarias de Salvador), o ex-delegado capixaba, aos 71 anos, confessa ter participado da morte de, ao menos, 12 guerrilheiros e incinerado os corpos de outros 10 desaparecidos pol\u00edticos na ditadura militar.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Isso li em reportagens publicadas no jornal Folha de S. Paulo, que tem mostrado interesse jornal\u00edstico e aberto ao assunto o espa\u00e7o que ele merece. Os demais ve\u00edculos, incluindo os blogs e portais eletr\u00f4nicos, somente aos poucos e com algum atraso v\u00e3o despertando para a gravidade e o interesse do tema.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No seu relato, o ex-agente, que promete depor, tamb\u00e9m, na Comiss\u00e3o da Verdade, afirma que os 10 corpos foram queimados no forno de uma usina de a\u00e7\u00facar de propriedade de um ex-governador do Rio de Janeiro. \u201cFui respons\u00e1vel por levar dez corpos de presos pol\u00edticos para l\u00e1, todos mortos pela tortura\u201d. Guerra enumera entre essas v\u00edtimas David Capistrano, Jo\u00e3o Batista Rita, Joaquim Pires Cerveira, Jo\u00e3o Massena Mello, Jos\u00e9 Roman e Luiz Ign\u00e1cio Maranh\u00e3o Filho, do PCB (Partido Comunista Brasileiro).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A lista macabra do ex-agente do DOPS, convertido a um culto evang\u00e9lico (este seria o motivo alegado para o arrependimento e a confiss\u00e3o) tem outros nomes: Ana Rosa Kucinski e Wilson Silva, da ALN (A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional); Joaquim Pires Cerveira, da FLN (Frente de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional); Eduardo Collier Filho e Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira, da APML (A\u00e7\u00e3o Popular Marxista-Leninista). O paradeiro desses desaparecidos pol\u00edticos nunca foi informado \u00e0s fam\u00edlias, diz a Folha na primeira reportagem sobre o livro.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Tem mais em outras reportagens e muito mais ainda no pr\u00f3prio livro, a deduzir pelas pol\u00eamicas que come\u00e7am a pipocar de S\u00e3o Paulo ao Esp\u00edrito Santo, do Rio de Janeiro \u00e0 Bahia, de Pernambuco \u00e0 Minas Gerais, acompanhadas de desmentidos de alguns acusados que andam por a\u00ed.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Agora, um registro de indigna\u00e7\u00e3o e o testemunho pessoal e profissional sobre um dos nomes da lista de \u201cpresos pol\u00edticos incinerados\u201d: Eduardo Collier Filho, o querido colega pernambucano, na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, que ambos freq\u00fcent\u00e1vamos nos resistentes e tumultuados anos 60.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Duda Collier, como era chamado pela maioria dos colegas, \u201co cara\u201d de quase dois metros de altura, pinta perfeita de ator de filme pol\u00edtico europeu. \u201cUm p\u00e3o de Recife que desceu em Salvador\u201d, como sintetizavam, entre olhares e suspiros, muitas estudantes na Faculdade, no Restaurante Universit\u00e1rio da UFBA, no corredor da Vit\u00f3ria, nas assembl\u00e9ias da Reitoria e nas passeatas do centro da capital baiana.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Nas reuni\u00f5es de militantes, Duda era conhecido como \u201cO Crist\u00e3o\u201d, devido a sua filia\u00e7\u00e3o \u00e0 A\u00e7\u00e3o Popular (AP), organiza\u00e7\u00e3o de esquerda de origem cat\u00f3lica. Ficamos amigos logo que ele desembarcou na Bahia. Nascido no seio de uma das mais ricas e tradicionais fam\u00edlias pernambucanas, vestido em folgadas cal\u00e7as e camis\u00f5es de linho puro, Duda (o mo\u00e7o grandalh\u00e3o de fina estampa) era para mim uma simp\u00e1tica contradi\u00e7\u00e3o ambulante.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Buscava uma vaga para morar na RU-2 (Resid\u00eancia Universit\u00e1ria), colada \u00e0 Igreja da Vit\u00f3ria (onde ele podia freq\u00fcentar suas missas dominicais). Considerado \u201cum burgu\u00eas\u201d por alguns universit\u00e1rios, negava-se uma vaga para ele. Foi preciso abrir uma peleja interna para conseguir um lugar no s\u00f3t\u00e3o da RU-2, onde Duda Collier se abrigaria. Gra\u00e7as, principalmente, a entrada na briga do grande amigo comum (depois meu saudoso compadre) Pedro Milton de Brito, um dos alunos mais brilhantes e respeitados da Faculdade de Direito e da UBFA (ex-presidente da OAB-BA, conselheiro federal da Ordem e refer\u00eancia baiana nas lutas de defesa dos direito humanos), que tamb\u00e9m simpatizara, de cara, com aquele inquieto jovem e desengon\u00e7ado pernambucano.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um dia, em 1968, depois do AI-5, Duda Collier sumiu de repente, antes da Pol\u00edcia Federal invadir a Faculdade de Direito, prender e algemar v\u00e1rios estudantes, levados depois para o Quartel do 19\u00ba BC. Entre eles, o autor destas linhas. Ao sair, nunca mais encontrei Duda Collier pessoalmente. Sobre ele (e outros amigos desaparecidos na mesma \u00e9poca) tenho lido e sabido apenas de relatos chocantes e dolorosos, como os do ex-policial do DOPS no livro lan\u00e7ado na capital paulista.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Sigo, como tantos no Pa\u00eds, aguardando a verdade .<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por Vitor Hugo Soares, jornalista<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O livro-bomba lan\u00e7ado esta semana&#8230;e Duda Collier: preso, morto (e incinerado?) &#8220;Ou\u00e7a um bom conselho\/ Que eu lhe dou de gra\u00e7a\/ In\u00fatil dormir que a dor n\u00e3o passa&#8221;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":75,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=76"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/76\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media\/75"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=76"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=76"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=76"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}