{"id":7650,"date":"2014-09-26T14:01:54","date_gmt":"2014-09-26T14:01:54","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/09\/26\/o-governo-me-monitorou-ate-1989-depois-do-fim-da-ditadura\/"},"modified":"2014-09-26T14:01:54","modified_gmt":"2014-09-26T14:01:54","slug":"o-governo-me-monitorou-ate-1989-depois-do-fim-da-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/09\/26\/o-governo-me-monitorou-ate-1989-depois-do-fim-da-ditadura\/","title":{"rendered":"\u201cO Governo me monitorou at\u00e9 1989, depois do fim da ditadura\u201d"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 2005, Elias Stein, hoje com 75 anos, pediu todos os documentos onde constasse seu nome ao Arquivo P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo. Sindicalista durante boa parte de sua vida, foi preso e torturado pela ditadura militar em 1974 e, por isso, queria saber o que a pol\u00edcia sabia sobre ele. Ficou surpreso com o resultado da pesquisa.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-7649\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/1411070620_353157_1411580735_noticia_normal.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"200\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<address \/>Elias Stein, ex-sindicalista. \/ <span class=\"s1\" \/>BOSCO MART\u00cdN  <!--more-->  <\/span><\/address>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Veio um calhama\u00e7o assim&#8221;, indica, distanciando o polegar do dedo indicador. Entre os pap\u00e9is, que comprovavam que havia sido monitorado at\u00e9 1989, depois do final da ditadura, havia uma lista que chamou sua aten\u00e7\u00e3o. Nela constava seu nome, endere\u00e7o e o nome da empresa Toshiba, f\u00e1brica de aparelhos eletr\u00f4nicos onde trabalhou entre setembro de 1979 e maio de 1980. Se tratava da lista negra do ABC, em refer\u00eancia \u00e0s cidades da regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo, Santo Andr\u00e9, S\u00e3o Bernardo e S\u00e3o Caetano. Nela havia cerca de 450 nomes de trabalhadores de empresas destes munic\u00edpios. Todos os nomes tinham algo em comum: haviam participado da greve dos metal\u00fargicos do ABC, que durou 41 dias, em 1980. E, uma segunda coincid\u00eancia: nunca mais voltaram a encontrar trabalho na \u00e1rea depois de terem sido demitidos ao voltar da cessa\u00e7\u00e3o coletiva, que terminou no dia 12 de maio. \u201cQuem tinha o 12 de maio na carteira como data de demiss\u00e3o estava condenado a n\u00e3o trabalhar mais\u201d, explica Stein. E o desemprego, para o trabalhador qualificado, segundo ele, \u201c\u00e9 uma tortura\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Durante esta greve, Stein foi um dos 16 escolhidos pelo ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, anteriormente l\u00edder sindical, para acompanhar a paralisa\u00e7\u00e3o enquanto ele estivesse preso. Tanto ele como Lula foram parar na tal lista negra. Mas os nomes que estavam nela n\u00e3o sofreram torturas f\u00edsicas, pois a situa\u00e7\u00e3o na d\u00e9cada de 1980 j\u00e1 era diferente da dosanos de chumbo da ditadura, o per\u00edodo mais repressivo (de 1968 a 1974). O castigo, por\u00e9m, era psicol\u00f3gico. \u201cTodos tiveram que mudar de profiss\u00e3o ou at\u00e9 de cidade. Eu mesmo deixei de ser metal\u00fargico para trabalhar na prefeitura de Santo Andr\u00e9 entregando IPTU (imposto)\u201d, conta, com pesar. Stein explica que muitos s\u00f3 souberam do boicote h\u00e1 pouco tempo, quando a lista negra foi divulgada pela Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, que est\u00e1 investigando as empresas que colaboraram com o regime. Ele, no entanto, descobriu sobre a repres\u00e1lia enquanto procurava trabalho. \u201cFui at\u00e9 uma ag\u00eancia de emprego e, enquanto o respons\u00e1vel pelo departamento pessoal foi atender o telefone, peguei a ficha para ver o sal\u00e1rio. E l\u00e1 estava o aviso: \u2018N\u00e3o mandar nenhum candidato cuja data de demiss\u00e3o seja 12 de maio\u2019. A\u00ed eu falei: t\u00e1 explicado&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os pap\u00e9is do Arquivo P\u00fablico tamb\u00e9m registraram o monitoramento que o Governo fez sobre seus passos, mesmo ap\u00f3s o final do regime militar, que acabou em 1985. &#8220;Na ficha da Abin [Ag\u00eancia Brasileira de Intelig\u00eancia, antigamente Servi\u00e7o Nacional de Intelig\u00eancia (SNI)] constava que eu tinha ido trabalhar noCentro Pastoral Vergueiro[organiza\u00e7\u00e3o que difundia informa\u00e7\u00f5es para os sindicalistas], em 86; que tinha participado de congresso da CUT [Central \u00danica do Trabalhador, sindicato] no mesmo ano em S\u00e3o Bernardo; que em 89 eu tinha sido assessor da administra\u00e7\u00e3o regional do Waldemar Rossi [sindicalista] na Mooca durante o governo da Luiza Erundina [prefeita de S\u00e3o Paulo entre 1989-1993]&#8221;, lista, enquanto se indigna ao n\u00e3o conseguir explicar como eles conseguiam essas informa\u00e7\u00f5es \u2013 todas verdadeiras \u2013 nem qual era o prop\u00f3sito de continuar investigando sua vida.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Ditadura militar<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 1972, durante a ditadura (1964-1985), Stein foi preso. O levaram ao Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social, o DOPS, que tinha S\u00e9rgio Fleury na fun\u00e7\u00e3o de delegado, um representante da dura repress\u00e3o policial da \u00e9poca. &#8220;Cada vez que eu olhava para ele [Fleury], me sentia frio na alma. Ele era um dem\u00f4nio&#8221;. Stein passou por choques, incont\u00e1veis tapas na cara e &#8220;muito telefone&#8221;, um tipo de agress\u00e3o que consistia em bater as duas m\u00e3os em forma de concha nas orelhas do torturado. &#8220;\u00c9 uma luta interna do seu corpo, que n\u00e3o quer sofrer, com sua consci\u00eancia dizendo que voc\u00ea n\u00e3o pode falar nada&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Stein est\u00e1 contente com o resultado das oitivas realizadas pela Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV), que entrevistou torturados e torturadores. No entanto, \u00e9 muito c\u00e9tico quanto aos esclarecimentos que a CNV conseguiu. \u201cV\u00e3o contar a hist\u00f3ria s\u00f3 daqui a 20, 30 anos, quando todos tiverem morrido. Tem gente que na \u00e9poca era sargento, hoje \u00e9 general, coronel, e eles n\u00e3o querem que isso apare\u00e7a\u201d. Critica Lula, dizendo que ele sim tinha for\u00e7a pol\u00edtica para obrigar os militares a abrir essas caixas pretas. \u201cEm 25 de fevereiro deste ano o comandante Enzo Peri [comandante do Ex\u00e9rcito brasileiro] emitiu um comunicado proibindo os quart\u00e9is de repassar informa\u00e7\u00f5es sobre o per\u00edodo. Quer dizer, isso em 2014 e passando por cima da lei de acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o da Dilma\u201d. Esta semana, no entanto, as For\u00e7as Armadas, que aglutinam o Ex\u00e9rcito, a Marinha e a Aeron\u00e1utica, emitiram um comunicado dizendo que n\u00e3o tinham como negar as torturas, um passo em dire\u00e7\u00e3o ao sonho de Stein.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Hoje, se tivesse que voltar no tempo, n\u00e3o tem d\u00favida alguma de que tomaria as mesmas decis\u00f5es. \u201cFaria tudo de novo\u201d, disse. No fundo, acredita que a ditadura segue viva, evidenciada &#8220;pelas a\u00e7\u00f5es violentas da pol\u00edcia&#8221; em manifesta\u00e7\u00f5es e no tratamento \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. &#8220;Eu acho que a direita ganhou essa guerra ideol\u00f3gica faz tempo. Com a Carta aos brasileiros do Lula em 2002 [que o ex-presidente escreveu para acalmar o mercado financeiro, que tinha receio sobre sua candidatura], provamos que abrimos as pernas para a direita, que seguimos a cartilha deles&#8221;. E isso permanece no Governo Dilma, afirma. &#8220;O PT tirou do programa de Governo a revis\u00e3o da lei de Anistia [de 1979, que perdoou os crimes da ditadura]. N\u00e3o se trata de vingan\u00e7a, mas de n\u00e3o repetir os mesmos erros. Quem torturou tem que pagar, n\u00f3s torturados j\u00e1 pagamos por isso&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; El Pa\u00eds<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2005, Elias Stein, hoje com 75 anos, pediu todos os documentos onde constasse seu nome ao Arquivo P\u00fablico do Estado de S\u00e3o Paulo. Sindicalista durante boa parte de sua vida, foi preso e torturado pela ditadura militar em 1974 e, por isso, queria saber o que a pol\u00edcia sabia sobre ele. 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