{"id":766,"date":"2012-05-29T01:58:31","date_gmt":"2012-05-29T01:58:31","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/29\/horizonte-sombrio-2\/"},"modified":"2012-05-29T01:58:31","modified_gmt":"2012-05-29T01:58:31","slug":"horizonte-sombrio-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/29\/horizonte-sombrio-2\/","title":{"rendered":"Horizonte sombrio"},"content":{"rendered":"<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 pouco tempo, escrevi um artigo (<a href=\"http:\/\/www.correiocidadania.com.br\/index.php?option=com_content&#038;view=article&#038;id=7047:manchete210412&#038;catid=58:paulo-passarinho&#038;Itemid=124\">No reino do curto-prazo<\/a>) destacando a depend\u00eancia do governo, em seu processo de tomada de decis\u00f5es, de situa\u00e7\u00f5es conjunturais de curto-prazo. <\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>Esse \u00e9 um dos elementos que evidenciam a total subordina\u00e7\u00e3o do pa\u00eds a diferentes circunst\u00e2ncias econ\u00f4micas, sem que tenhamos um norte estrat\u00e9gico definido. Vivemos, assim, a aus\u00eancia de um projeto de na\u00e7\u00e3o que estabele\u00e7a metas e objetivos nacionais a serem atingidos no curto, m\u00e9dio e longo prazos, atrav\u00e9s de meios e instrumentos fact\u00edveis e racionais. Algo que no passado era denominado de planejamento.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Vivemos, na verdade, a realidade de um pa\u00eds que navega nas ondas circunstanciais das press\u00f5es de um mercado globalizado e cada vez mais concentrado e altamente competitivo. O Brasil atual (com as suas estruturas de poder) passa a ser, desse modo, um administrador de press\u00f5es e interesses que surgem dos p\u00f3los mais din\u00e2micos do atual jogo global, notadamente corpora\u00e7\u00f5es transnacionais e financeiras.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Frente, por exemplo, \u00e0 fase da crise do capital que se abre a partir de 2007\/2008, e que no momento aponta para o agravamento da situa\u00e7\u00e3o de crise na Europa, com a possibilidade de a Gr\u00e9cia deixar a \u00e1rea do euro, o governo procura se agarrar a qualquer expediente que lhe garanta que a economia brasileira possa ter, agora em 2012, uma taxa de crescimento um pouco maior que a obtida em 2011.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Para tanto, Guido Mantega, o ministro da Fazenda, apresentou nesta semana um novo pacote de incentivo ao consumo, especialmente voltado para a ind\u00fastria automotiva. Redu\u00e7\u00f5es na cobran\u00e7a do IPI, diminui\u00e7\u00e3o do IOF em opera\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito \u00e0s pessoas f\u00edsicas, libera\u00e7\u00e3o de recursos de R$ 18 bilh\u00f5es dos dep\u00f3sitos compuls\u00f3rios do Banco Central para \u201cirrigar\u201d o cr\u00e9dito e taxas de juros mais reduzidas no BNDES foram as principais medidas anunciadas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um dia ap\u00f3s esse an\u00fancio, o pr\u00f3prio ministro, em depoimento no Senado, admitiu que houve press\u00f5es das montadoras na elabora\u00e7\u00e3o do pacote. Com os seus p\u00e1tios cheios de autom\u00f3veis, as f\u00e1bricas amea\u00e7avam com demiss\u00f5es ou f\u00e9rias coletivas os seus empregados.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O governo tenta um pouco mais do mesmo. No in\u00edcio da crise, em 2008, o governo apostou na demanda interna, no consumo das fam\u00edlias, para garantir taxas positivas de crescimento. Perdeu em 2009, com o resultado negativo do PIB, mas ganhou folgadamente em 2010, um ano eleitoral e que garantiu a elei\u00e7\u00e3o de Dilma \u00e0 presid\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Contudo, o quadro atual \u00e9 diferenciado. Com a expans\u00e3o das vendas a cr\u00e9dito no pa\u00eds, com um custo financeiro muito elevado, por conta das altas taxas de juros, h\u00e1 um endividamento acumulado bastante elevado e o n\u00edvel de inadimpl\u00eancia das fam\u00edlias come\u00e7a a preocupar. A renda real dos trabalhadores somente se eleva nos estratos mais pobres da popula\u00e7\u00e3o, assim como o pr\u00f3prio emprego. Mesmo em um contexto de redu\u00e7\u00e3o das taxas de juros, nota-se que os p\u00e1tios das montadoras revelam que existe uma satura\u00e7\u00e3o da demanda por autom\u00f3veis \u2013 assim como de outros bens de consumo dur\u00e1veis \u2013 que dificilmente ser\u00e1 de fato revertida com as medidas anunciadas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A alternativa de se buscar atrav\u00e9s do incremento dos investimentos uma sa\u00edda para a revers\u00e3o do baixo crescimento econ\u00f4mico tamb\u00e9m parece problem\u00e1tica. No plano privado, as incertezas provocadas pela pr\u00f3pria crise n\u00e3o nos possibilitam imaginar uma mudan\u00e7a no patamar de investimentos que nos \u00faltimos anos temos observado, mesmo com o endividamento contra\u00eddo pelo Tesouro para incrementar a atua\u00e7\u00e3o do BNDES junto aos seus clientes privados. Pelo lado da iniciativa direta do Estado, a ditadura fiscal do super\u00e1vit prim\u00e1rio nos impede de qualquer esperan\u00e7a de uma mudan\u00e7a na atual taxa de investimento do setor p\u00fablico.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Complicando um pouco mais o quadro em que se debate o governo, nas \u00faltimas semanas a sa\u00edda de d\u00f3lares do pa\u00eds se intensificou. A acentuada queda nas cota\u00e7\u00f5es do Ibovespa revela essa press\u00e3o de venda de a\u00e7\u00f5es, especialmente por parte de investidores estrangeiros, mas tamb\u00e9m por parte de especuladores brasileiros.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A curiosidade dessa situa\u00e7\u00e3o \u2013 que fez com que nessa semana o d\u00f3lar chegasse a ser negociado a R$2,10, obrigando o Banco Central a vender parte de suas reservas internacionais para fazer a cota\u00e7\u00e3o da moeda americana recuar \u2013 \u00e9 que h\u00e1 muito pouco tempo a preocupa\u00e7\u00e3o do governo era com a excessiva valoriza\u00e7\u00e3o do Real. Tal qual uma biruta de aeroporto, parece que a sensibilidade das autoridades econ\u00f4micas depende dos ventos de cada momento.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">E essa \u201cfuga do risco\u201d por parte dos especuladores \u00e9 certamente a maior preocupa\u00e7\u00e3o do governo. Nos \u00faltimos anos, nossa vulnerabilidade externa aumentou enormemente. Al\u00e9m de termos deixado para tr\u00e1s os anos em que o saldo comercial do pa\u00eds cobriu as despesas com o pagamento da nossa conta de servi\u00e7os, entre os anos de 2003 e 2007, desde 2008 temos contra\u00eddo crescentes d\u00e9ficits em conta corrente, cobertos pela entrada de capitais para aplica\u00e7\u00f5es financeiras ou para a aquisi\u00e7\u00e3o de ativos reais.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O professor Reinaldo Gon\u00e7alves, da UFRJ, em recente trabalho (Governo Lula e o nacional-desenvolvimentismo \u00e0s avessas, publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Economia Pol\u00edtica, de fevereiro de 2012), aponta que o passivo externo total do Brasil (o conjunto dos compromissos do pa\u00eds com os estrangeiros) evoluiu de US$ 343 bilh\u00f5es, no final de 2002, para US$ 1,294 trilh\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Descontando-se desse passivo total os investimentos diretos dos estrangeiros (investimentos em ativos reais: f\u00e1bricas, terras, supermercados e demais neg\u00f3cios produtivos), temos os dados do chamado passivo externo financeiro (aplica\u00e7\u00f5es em bolsa e t\u00edtulos financeiros, incluindo t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica). Em 2002, o total desse passivo era de US$ 260 bilh\u00f5es e, em 2010, alcan\u00e7ou a cifra de US$ 916 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Esses s\u00e3o passivos que rapidamente, em um momento de crise, podem conformar uma forte press\u00e3o por liquidez, com o objetivo de serem retirados do pa\u00eds, produzindo fortes press\u00f5es sobre o mercado de c\u00e2mbio. Reinaldo Gon\u00e7alves destaca que, mesmo ao se levar em conta as elevadas reservas internacionais do pa\u00eds \u2013 sempre lembradas como um poderoso instrumento \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do governo \u2013, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 confort\u00e1vel: em 2002, esse denominado passivo externo financeiro l\u00edquido era de US$ 222 bilh\u00f5es; em 2010, ao final do governo Lula, j\u00e1 havia atingido US$ 628 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, sob o ponto de vista estrutural, n\u00e3o h\u00e1 nenhum ind\u00edcio de uma leve revers\u00e3o que seja do quadro de desequil\u00edbrio corrente das contas externas. Ao contr\u00e1rio, e os resultados de 2011 e deste 2012 demonstram claramente, h\u00e1 um crescimento cada vez mais robusto do d\u00e9ficit da conta de servi\u00e7os, puxado pelas remessas de lucros, dividendos e juros da d\u00edvida externa, ao mesmo tempo em que a tend\u00eancia \u00e9 de uma redu\u00e7\u00e3o do saldo comercial do pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Correio da Cidadania<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 H\u00e1 pouco tempo, escrevi um artigo (No reino do curto-prazo) destacando a depend\u00eancia do governo, em seu processo de tomada de decis\u00f5es, de situa\u00e7\u00f5es conjunturais de curto-prazo. Esse \u00e9 um dos elementos que evidenciam a total subordina\u00e7\u00e3o do pa\u00eds a diferentes circunst\u00e2ncias econ\u00f4micas, sem que tenhamos um norte estrat\u00e9gico definido. 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