{"id":7768,"date":"2014-12-08T10:51:57","date_gmt":"2014-12-08T10:51:57","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/12\/08\/as-confissoes-do-doi-codi-no-livro-a-casa-da-vovo\/"},"modified":"2014-12-08T10:51:57","modified_gmt":"2014-12-08T10:51:57","slug":"as-confissoes-do-doi-codi-no-livro-a-casa-da-vovo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/12\/08\/as-confissoes-do-doi-codi-no-livro-a-casa-da-vovo\/","title":{"rendered":"As confiss\u00f5es do DOI-CODI &#8211; no livro A Casa da Vov\u00f3"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.3em;\">&#8220;O cotidiano de viol\u00eancia e morte foi disciplinado. Produziram-se regras sobre quem devia apanhar, quem devia bater, quem devia viver, quem devia morrer&#8221;<\/span><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/img.s-msn.com\/tenant\/amp\/entityid\/BBgsk3L.img?h=152&#038;w=270&#038;m=6&#038;q=60&#038;o=f&#038;l=f\" border=\"0\" width=\"270\" height=\"152\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\" \/><span style=\"line-height: 15.8079996109009px;\" \/>\u00a9 Foto: Arquivo\/Estad\u00e3o &#8211; Agentes do \u00f3rg\u00e3o criado pelos militares em 1969 para combater a esquerda contam como eles agiram at\u00e9 1991  <!--more-->  <\/span><\/address>\n<address style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 15.8079996109009px;\"><br \/><\/span><\/address>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Houve um momento em 1971, durante o regime militar, em que a repress\u00e3o do Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es de Informa\u00e7\u00f5es (DOI) de S\u00e3o Paulo aos militantes de grupos de esquerda no Pa\u00eds mudou de qualidade. O cotidiano de viol\u00eancia e morte foi disciplinado. Produziram-se regras sobre quem devia apanhar, quem devia bater, quem devia viver, quem devia morrer. Tudo com o conhecimento do comando. Essa hist\u00f3ria agora \u00e9 contada pelos pr\u00f3prios agentes que trabalharam no DOI &#8211; e est\u00e1 no livro A Casa da Vov\u00f3.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Tinha um crit\u00e9rio: foi preso, fez curso (de guerrilha) em Cuba ou na China ou na Arg\u00e9lia&#8230; Era na rua mesmo&#8221;, revelou o tenente Chico, que trabalhou 20 anos no DOI. A ordem de matar os presos que tivessem treinamento de guerrilha no exterior se estendia \u00e0s pessoas que, banidas do territ\u00f3rio nacional, voltassem clandestinas ao Brasil. &#8220;O banido era para morrer r\u00e1pido. J\u00e1 n\u00e3o existia. Tinha de morrer mesmo&#8221;, contou a tenente Neuza, que esteve no destacamento de 1970 a 1975.<span style=\"line-height: 1.3em;\"> <\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Inaugurado em 1969, o \u00f3rg\u00e3o recebeu primeiro o nome de Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante (Oban) &#8211; tornou-se DOI em 1970. Era uma associa\u00e7\u00e3o entre militares e policiais sob mando do Ex\u00e9rcito que permitiu ao governo esmagar os grupos que pegaram em armas contra o regime. Sua estrat\u00e9gia se baseava na Doutrina da Guerra Revolucion\u00e1ria, formulada por militares franceses nos anos 1950 para combater a insurg\u00eancia que buscava a independ\u00eancia da Arg\u00e9lia, ent\u00e3o parte da Fran\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Durante dez anos, agentes do DOI paulista, que serviu de modelo para outros no Pa\u00eds, contaram o que sabiam. Homens e mulheres que trabalharam na chamada Casa da Vov\u00f3, como eles se referiam ao destacamento, revelaram que a senten\u00e7a de morte que atingiu guerrilheiros no Araguaia e na Casa da Morte em Petr\u00f3polis, no Rio, tamb\u00e9m existiu em S\u00e3o Paulo. Ela atingiu organiza\u00e7\u00f5es armadas, como o Movimento de Liberta\u00e7\u00e3o Popular (Molipo) e a A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional (ALN) e grupos que defendiam a luta democr\u00e1tica, como o Partido Comunista Brasileiro (PCB).<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Foi essa senten\u00e7a, dizem, que se abateu sobre o guerrilheiro Ayrton Adalberto Mortati, o Tenente, do Molipo. Em outubro de 1971, os agentes da equipe C\u00faria, da Se\u00e7\u00e3o de Investiga\u00e7\u00f5es do DOI, come\u00e7aram uma vigil\u00e2ncia di\u00e1ria em uma casa na zona leste de S\u00e3o Paulo. &#8220;Era um aparelho na Vila Prudente. A gente sabia que tinham uns &#8216;cubanos&#8217; (guerrilheiros formados em Cuba) l\u00e1 dentro&#8221;, contou o agente Alem\u00e3o, no DOI de 1970 a 1975.<span style=\"line-height: 1.3em;\"> <\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Mortati foi vigiado at\u00e9 4 de novembro. Naquele dia, Alem\u00e3o notou o desaparecimento do Fusca dos ocupantes da casa &#8211; eram dois homens e uma mulher. O ve\u00edculo costumava ficar na rua. Os agentes informaram aos chefes e receberam a ordem: pegar todo mundo.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Alem\u00e3o e seu companheiro, o delegado Cyrino Francisco de Paula Filho, viram Mortati deixar a casa e o seguiram. Acompanharam o guerrilheiro at\u00e9 a Avenida Paes de Barros, onde viram o Fusca dos guerrilheiros. Quando ele se preparava para entrar no ve\u00edculo, Alem\u00e3o e Cyrino o detiveram. Mortati foi entregue ao capit\u00e3o \u00canio Pimentel da Silveira, o Doutor Ney, chefe da Investiga\u00e7\u00e3o, e se tornou um dos desaparecidos do regime.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Viajou<span style=\"line-height: 1.3em;\"> <\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O Ex\u00e9rcito nunca admitiu sua pris\u00e3o. &#8220;Ele viajou&#8221;, contou Alem\u00e3o. &#8220;Viajar&#8221; \u00e9 como os agentes se referem \u00e0 execu\u00e7\u00e3o. &#8220;O Mortati morreu. Lembro que a gente tinha uma pasta no Interrogat\u00f3rio onde constava o nome dele como morto&#8221;, contou Chico. Na casa da Rua Cervantes, outro &#8220;cubano&#8221; &#8211; Jos\u00e9 Roberto Arantes &#8211; foi cercado e morto pelos militares. Maria Augusta Thomaz, a guerrilheira que morava no im\u00f3vel, estava fora quando tudo ocorreu.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de Mortati, dois guerrilheiros do Molipo foram capturados e mortos nos dias subsequentes: Fl\u00e1vio de Carvalho Molina e Francisco Jos\u00e9 de Oliveira. Depois de balear Oliveira, os agentes contam que o deixaram sangrar at\u00e9 a morte. Frederico Mayr e Antonio Benetazzo tamb\u00e9m foram executados depois de presos em 1972.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">No relato dos agentes, Lauriberto Jos\u00e9 Reyes, Alexander Jos\u00e9 Ibsen Voer\u00f5es e Jo\u00e3o Carlos Cavalcanti Reis morreram em emboscadas. Reyes e Voer\u00f5es iam se encontrar com uma guerrilheira que havia sido detida e torturada pelo DOI. Reis foi v\u00edtima da a\u00e7\u00e3o do mesmo informante que entregou Benetazzo. O traidor &#8211; segundo os agentes &#8211; era um dos guerrilheiros formados em Cuba. O homem era controlado pelo capit\u00e3o Freddie Perdig\u00e3o Pereira, o Doutor Fl\u00e1vio, subchefe da Se\u00e7\u00e3o de Investiga\u00e7\u00e3o. Era conhecido como Camilo.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Todos os mortos haviam feito curso em Cuba e pertenciam ao Molipo. O grupo nascera de uma cis\u00e3o da ALN. Seu comando foi esfacelado entre 1971 e 1973 em opera\u00e7\u00f5es do DOI paulista. A \u00faltima ocorreu em 17 de maio de 1973, em Rio Verde, Goias. &#8220;N\u00f3s est\u00e1vamos com o CIE (Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito)&#8221;, contou o agente Jonas, um cabo do Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Ali morreram e desapareceram M\u00e1rcio Beck Machado e Maria Augusta, a mo\u00e7a que escapara ao cerco na Rua Cervantes. A estrat\u00e9gia de morte e desaparecimento se manteria no DOI at\u00e9 o general Ednardo D&#8217;\u00c1vila Melo ser removido do comando do 2.\u00ba Ex\u00e9rcito (S\u00e3o Paulo), em 1976.<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Estad\u00e3o por\u00a0<span style=\"line-height: 15.8079996109009px;\">MARCELO GODOY<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O cotidiano de viol\u00eancia e morte foi disciplinado. 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