{"id":7826,"date":"2014-12-15T00:02:15","date_gmt":"2014-12-15T00:02:15","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/12\/15\/volks-vai-investigar-apoio-a-ditadura\/"},"modified":"2014-12-15T00:02:15","modified_gmt":"2014-12-15T00:02:15","slug":"volks-vai-investigar-apoio-a-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/12\/15\/volks-vai-investigar-apoio-a-ditadura\/","title":{"rendered":"Volks vai investigar apoio \u00e0 ditadura"},"content":{"rendered":"<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cEstava trabalhando e chegaram dois indiv\u00edduos com metralhadora, encostaram nas minhas costas, j\u00e1 me algemaram. Na hora em que cheguei \u00e0 sala de seguran\u00e7a da Volkswagen j\u00e1 come\u00e7ou a tortura, comecei a apanhar ali, comecei a levar tapa, soco\u201d, contou L\u00facio Bellentani, funcion\u00e1rio da Volkswagen de S\u00e3o Bernardo do Campo, \u00e0 Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV). O caso que ocorreu em 1972 foi descrito no relat\u00f3rio final da CNV, a qual investigou viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos cometidas durante o regime militar no Brasil. No documento de mais de 3 mil p\u00e1ginas, um cap\u00edtulo \u00e9 dedicado \u00e0s viola\u00e7\u00f5es contra trabalhadores, e outro mostra a coopera\u00e7\u00e3o de empresas com o regime.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-7825\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/155187.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"200\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\" \/>Nina acompanhou trabalho da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, cujo relat\u00f3rio foi entregue \u00e0 presidente Dilma na semana passada  <!--more-->  <\/address>\n<address style=\"text-align: justify;\"><\/address>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O relat\u00f3rio revela a exist\u00eancia de um aparato repressivo militar-empresarial, na qual as firmas monitoravam funcion\u00e1rios, repassando informa\u00e7\u00f5es e fazendo den\u00fancias ao Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops). Al\u00e9m disso, indica empresas que contribu\u00edram moralmente e financeiramente com o golpe de 1964 e com a Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante (Oban), um aparelho de repress\u00e3o montado pelo Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201c\u00c9 importante ter em vista que as pr\u00e1ticas colaborativas mencionadas constitu\u00edram caminhos cotidianos para as graves viola\u00e7\u00f5es. Foi a partir do controle, vigil\u00e2ncia, monitoramento, das listas sujas e das dela\u00e7\u00f5es, que trabalhadores foram presos, torturados, assassinados e v\u00edtimas de desaparecimentos for\u00e7ados\u201d, afirma o documento.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">V\u00e1rias empresas nacionais e multinacionais s\u00e3o citadas no relat\u00f3rio. Entre as alem\u00e3s est\u00e3o a Volkswagen, Mercedes-Benz e Siemens. As tr\u00eas s\u00e3o apontadas por contribuir com recursos \u00e0 Oban. O documento, no entanto, apresenta com mais detalhes a participa\u00e7\u00e3o da Volkswagen e sua contribui\u00e7\u00e3o com o regime militar: \u201cSobre a Volkswagen do Brasil, existe ainda uma profus\u00e3o de documentos que comprovam a coopera\u00e7\u00e3o da empresa com \u00f3rg\u00e3os policiais de seguran\u00e7a do Dops.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, o relat\u00f3rio traz a revela\u00e7\u00e3o do caso de tortura praticado dentro da f\u00e1brica em S\u00e3o Bernardo do Campo e da pris\u00e3o do criminoso de guerra Franz Paul Stangl em 1967, enquanto ele trabalhava na mesma unidade da Volkswagen.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Durante a Segunda Guerra Mundial, Stangl foi o comandante dos campos de exterm\u00ednio Sobibor e Treblinka, na Pol\u00f4nia. O nazista chegou ao Brasil em 1951 e depois de alguns anos foi contratado pela Volkswagen, onde era o respons\u00e1vel pela montagem do setor de vigil\u00e2ncia e monitoramento da f\u00e1brica em S\u00e3o Bernardo do Campo, segundo o documento da CNV.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Para a historiadora alem\u00e3 Nina Schneider da Universidade de Constan\u00e7a, ainda n\u00e3o est\u00e1 esclarecido at\u00e9 que ponto a sede da Volkswagen na Alemanha sabia do envolvimento da filial no Brasil com o regime militar. \u201cIsso ainda tem que ser apurado. As pessoas pedem a responsabiliza\u00e7\u00e3o das empresas.\u201d<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Bate-papo &#8211; Nina Schneider<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Historiadora e professora da Universidade de Constan\u00e7a<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201c\u00c9 importante denunciar o que houve no Brasil\u201d<\/strong><\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>A ditadura no Brasil acabou h\u00e1 quase 30 anos. Por que s\u00f3 agora foi poss\u00edvel criar uma comiss\u00e3o para investigar casos de viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos cometidos por esse regime?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Durante d\u00e9cadas s\u00f3 os familiares pediam que os casos fossem esclarecidos e desejavam repara\u00e7\u00e3o. Eles n\u00e3o tinham muito apoio no aparato estatal. Isso come\u00e7ou a mudar em 2006 quando Paulo Vannuchi assumiu a Secretaria de Diretos Humanos e lan\u00e7ou o projeto Direito \u00e0 Mem\u00f3ria e \u00e0 Verdade. Em 2007, Paula Abr\u00e3o assumiu a presid\u00eancia de Comiss\u00e3o da Anistia, criada em 2002, e inaugurou uma pol\u00edtica de mem\u00f3ria. Os dois deram apoio a esses familiares. E com a vinda da Dilma Rousseff, foi finalmente criada a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade.<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>O trabalho da CNV foi bastante criticado. Muitos afirmavam que a comiss\u00e3o n\u00e3o tinha o poder necess\u00e1rio para investigar as viola\u00e7\u00f5es. Como voc\u00ea avalia essas cr\u00edticas?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Pela lei, a CNV tinha o direito de acessar toda e qualquer informa\u00e7\u00e3o, mesmo material sigiloso ao qual n\u00f3s, historiadores, n\u00e3o temos acesso. Mas a documenta\u00e7\u00e3o mais interessante que \u00e9 justamente a das For\u00e7as Armadas, n\u00e3o apareceu. Ent\u00e3o esse direito n\u00e3o adiantou nada, porque n\u00e3o havia esses documentos e a \u00fanica maneira de eles descobrirem alguma coisa foi pelos testemunhos. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o houve muitos testemunhos de militares: apesar de convocados, eles n\u00e3o foram depor.<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas n\u00e3o seria, ent\u00e3o, o caso de a presidente Dilma pressionar os militares para colaborarem com as investiga\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 cr\u00edticos que dizem que ela n\u00e3o pressionou suficientemente as For\u00e7as Armadas, mas as raz\u00f5es para isso s\u00e3o desconhecidas. No entanto, nenhum dos presidentes da Rep\u00fablica depois de 1985 jamais ousou enfrentar as For\u00e7as Armadas, ent\u00e3o n\u00e3o foi s\u00f3 a Dilma. Mas entre os \u00faltimos presidentes, ela foi a mais corajosa. Talvez daqui a uns 20 anos, n\u00f3s vamos descobrir por que n\u00e3o houve uma press\u00e3o maior.<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que \u00e9 importante n\u00e3o esquecer essa parte da Hist\u00f3ria do Brasil?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 v\u00e1rias raz\u00f5es. Primeiro, \u00e9 importante para os familiares, porque o dano nunca foi reconhecido. E at\u00e9 mais: eles chegaram a ser maltratados, chamados de malucos e subversivos. Tamb\u00e9m n\u00e3o podemos esquecer que foi uma pol\u00edtica de Estado, um Estado que perseguiu os seus pr\u00f3prios cidad\u00e3os, \u00e9 importante denunciar isso. O Estado ainda n\u00e3o assumiu totalmente a sua responsabilidade.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, muitas pesquisas argumentam que as ra\u00edzes das viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos de hoje em dia s\u00e3o da \u00e9poca do regime militar, porque nesse per\u00edodo foram estabelecidos os aparatos e as t\u00e9cnicas, que continuam sendo usados at\u00e9 hoje. A repress\u00e3o sistem\u00e1tica continua, embora o grupo de v\u00edtimas seja outro.<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Empresa quer identificar colaboradores<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O diretor do departamento de Comunica\u00e7\u00e3o Hist\u00f3rica da Volkswagen na Alemanha, Manfred Grieger, disse quinta-feira \u00e0 Deutsche Welle Brasil que a empresa ir\u00e1 investigar \u201ctodos os ind\u00edcios de uma poss\u00edvel participa\u00e7\u00e3o de funcion\u00e1rios da Volkswagen do Brasil em viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos durante a ditadura militar\u201d, assim como identificar os respons\u00e1veis por esses atos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cA Volkswagen lamenta muito que pessoas tenham sofrido ou tenham sido prejudicadas economicamente durante a ditadura militar, eventualmente, por meio da participa\u00e7\u00e3o de funcion\u00e1rios da Volkswagen do Brasil\u201d, afirma Grieger.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Para o jornalista e ativista da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental Centro de Pesquisa e Documenta\u00e7\u00e3o Chile e Am\u00e9rica Latina Christian Russau, ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, a Volkswagen tem a obriga\u00e7\u00e3o de apurar os casos n\u00e3o somente no Brasil, mas tamb\u00e9m na Alemanha. Ele espera que a empresa apresente os resultados da investiga\u00e7\u00e3o a toda sociedade no mais breve tempo poss\u00edvel.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cAs pessoas atingidas naquela \u00e9poca precisam decidir se v\u00e3o entrar na Justi\u00e7a brasileira contra a empresa para pedir uma indeniza\u00e7\u00e3o. E, se o caso n\u00e3o for esse, a Volkswagen na Alemanha precisa decidir se vai assumir a responsabilidade pelo que a filial fez naquela \u00e9poca e, talvez, determinar uma forma de indeniza\u00e7\u00e3o aos atingidos ou construir um memorial \u00e0s v\u00edtimas\u201d, explica Russau.<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Tribuna do Norte<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEstava trabalhando e chegaram dois indiv\u00edduos com metralhadora, encostaram nas minhas costas, j\u00e1 me algemaram. 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