{"id":783,"date":"2012-05-29T02:56:18","date_gmt":"2012-05-29T02:56:18","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/29\/o-cabo-anselmo-e-soledad-barrett-2\/"},"modified":"2012-05-29T02:56:18","modified_gmt":"2012-05-29T02:56:18","slug":"o-cabo-anselmo-e-soledad-barrett-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/29\/o-cabo-anselmo-e-soledad-barrett-2\/","title":{"rendered":"O cabo Anselmo e Soledad Barrett"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>A Comiss\u00e3o de Anistia teve esta semana uma sess\u00e3o hist\u00f3rica, daquelas que fazem a gente dizer \u201cum an\u00fancio distante de justi\u00e7a se faz na terra\u201d. Na ter\u00e7a-feira, quando se negou qualquer repara\u00e7\u00e3o para o cabo Anselmo, os crimes do agente infiltrado voltaram \u00e0 tona e, com eles tamb\u00e9m voltou o nosso livro \u201cSoledad no Recife\u201d, publicado pela Boitempo.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Divulgo aqui uma p\u00e1gina do livro, escrito sob uma pesquisa hist\u00f3rica, documental, de tal modo que dif\u00edcil nele \u00e9 separar o factual da imagina\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. A p\u00e1gina a seguir fala do horror e da surpresa de Soledad, ao descobrir entre os policiais a cara do marido, o agente duplo a quem amava:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A cara de Anselmo, no conjunto dos sinais, Soledad n\u00e3o via. N\u00e3o tanto porque a desconfian\u00e7a nunca lhe houvesse batido \u00e0 percep\u00e7\u00e3o. Mas porque isso era t\u00e3o horr\u00edvel, que o seu senso est\u00e9tico repugnava. Uma coisa que o seu peito de justi\u00e7a n\u00e3o queria nem podia aceitar. E recuava, no mesmo passo em que os ind\u00edcios cresciam. Mas o Cart\u00f3rio de Registro dos Sonhos existe, ainda que fora do dom\u00ednio civil de uma cidade. Ele existe ao lado dos lugares onde se bebe, come-se e se morre. Os seus documentos, se n\u00e3o t\u00eam efeitos legais, recuperam no real os direitos. Os sonhos, quando muito fortes, os pesadelos, quando inescap\u00e1veis, tornam-se tang\u00edveis. Houve ent\u00e3o um momento em Soledad, houve um espa\u00e7o e lugar nas suas antevis\u00f5es, em que se passou do antes para o agora, sem media\u00e7\u00e3o para o horror que jamais havia se apresentado com a sua cara. Nas\u00a0 representa\u00e7\u00f5es anteriores, nos ind\u00edcios, n\u00e3o se mostrava assim t\u00e3o claro.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8211; Por qu\u00ea? Por qu\u00ea?!<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A pergunta que Soledad n\u00e3o se fizera diante das imagens que a perseguiam nos \u00faltimos meses, por qu\u00ea?, qual a raz\u00e3o delas, agora \u00e0 luz do dia em Boa Viagem, em uma butique da ensolarada praia de Boa Viagem, aonde ela foi para vender roupas, onde ela est\u00e1 com\u00a0 Pauline, ali, sob a prazenteira luz f\u00edsica do Brasil, a pergunta pelas raz\u00f5es dos sonhos e pesadelos que ela n\u00e3o se fizera, agora v\u00eam com um susto, um terror, diante do real bruto. Jos\u00e9 Anselmo dos Santos se encontra entre os homens que lhe batem na cabe\u00e7a com armas e punhos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8211; Por qu\u00ea? Por qu\u00ea?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Pauline est\u00e1 muda e petrificada, incapaz de correr e falar. Soledad olha para os olhos do homem que pensara ser o seu companheiro, e isso, essa realidade, o pesadelo por guardar uma altura \u00e9tica jamais mostrou. O pesadelo fora incapaz de exibir toda a crueza. Anselmo n\u00e3o sorri agora, sorrir\u00e1 depois, quando lhe perguntarem<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8211; Voc\u00ea dorme bem?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8211; Putz, tranquilamente.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ou mais textualmente:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8211; Voc\u00ea dorme tranquilo? Nunca sentiu pesadelo durante a noite? N\u00e3o tem remorso pelo que fez?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8211; Absolutamente (risos)&#8230;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por enquanto, n\u00e3o, agora na butique em Boa Viagem ele n\u00e3o ri, embora a cena lhe pare\u00e7a um tanto c\u00f4mica.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8211; Por qu\u00ea? Por qu\u00ea?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ele apenas assiste ao espancamento e supl\u00edcio. Como uma prova de que \u00e9 contra esses terroristas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cEu tomei conhecimento de que seis corpos se encontravam no necrot\u00e9rio&#8230;. em um barril estava Soledad Barret Viedma. Ela estava despida, tinha muito sangue nas coxas, nas pernas. No fundo do barril se encontrava tamb\u00e9m um feto\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quando M\u00e9rcia Albuquerque declarou essas palavras, n\u00e3o era mais advogada de presos e perseguidos pol\u00edticos. Estava em 1996, 23 anos depois do inferno. M\u00e9rcia estava acostumada ao feio e ao terror, ela conhecia h\u00e1 muito a crueldade, porque havia sido defensora de torturados no Recife. Ainda assim, ela, que tanto vira e testemunhara, durante o depoimento na Secretaria de Justi\u00e7a de Pernambuco falou entre l\u00e1grimas, com a press\u00e3o sangu\u00ednea alterada\u00a0em suas art\u00e9rias. Dura\u00a0e endurecida pela vis\u00e3o de pessoas e corpos desfigurados, o pesadelo de 1973 ainda a perseguia: \u201cSoledad estava com os olhos muito abertos, com uma express\u00e3o muito grande de terror\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No depoimento da advogada n\u00e3o h\u00e1 uma descri\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica dos corpos destru\u00eddos, derramados no necrot\u00e9rio. M\u00e9rcia Albuquerque \u00e9 uma pessoa se fraterniza e confraterniza com pessoas. \u201cEu fiquei horrorizada. Como Soledad estava em p\u00e9, com os bra\u00e7os ao lado do corpo, eu tirei a minha an\u00e1gua e coloquei no pesco\u00e7o dela\u201d. Distante dos manuais exatos da Medicina Legal, a advogada M\u00e9rcia n\u00e3o se refere a cad\u00e1veres, mas a gente. Chama-a pelos nomes, Pauline, Jarbas, Eudaldo, Evaldo, Manuel, Soledad. Recorda a situa\u00e7\u00e3o vexat\u00f3ria em que estavam \u2013 porque eram homens e mulheres \u2013 despidos. O seu relato \u00e9 como um flagrante desmont\u00e1vel, da morte para a vida. \u00c9 como o instante de um filme, a que pud\u00e9ssemos retroceder imagem por imagem, e com o retorno de cad\u00e1veres a pessoas, retorn\u00e1ssemos \u00e0 c\u00e2mara de sofrimento. \u201cA boca de Soledad estava entreaberta\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Urariano Motta*\u00a0\u00e9 natural de \u00c1gua Fria, sub\u00farbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contosem Movimento, Opini\u00e3o, Escrita, Fic\u00e7\u00e3o e outros peri\u00f3dicos de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura. Atualmente, \u00e9 colunista do Direto da Reda\u00e7\u00e3o e colaborador do Observat\u00f3rio da Imprensa. As revistas Carta Capital, F\u00f3rum e Continente tamb\u00e9m j\u00e1 veicularam seus textos. Autor de\u00a0Soledad no Recife\u00a0(Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e\u00a0Os cora\u00e7\u00f5es futuristas(Recife, Baga\u00e7o, 1997).<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Comiss\u00e3o de Anistia teve esta semana uma sess\u00e3o hist\u00f3rica, daquelas que fazem a gente dizer \u201cum an\u00fancio distante de justi\u00e7a se faz na terra\u201d. 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